Kurt Cobain; ou: I Miss the Comfort in Being Sad | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
89721 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Castelo realiza piqueniques com contemplação do pôr do sol ao ar livre
>>> A bailarina Ana Paula Oliveira dança com pássaro em videoinstalação de Eder Santos
>>> Festival junino online celebra 143 da cidade de Joanópolis
>>> Nova Exposição no Sesc Santos tem abertura online nessa quinta, 17/06
>>> Arte dentro de casa: museus e eventos culturais com exposições virtuais
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> Virtual: Conselheiro do Sertão estreia quinta, 24
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O Escafandro e a Borboleta, com Mathieu Amalric
>>> A literatura contra o sistema
>>> Asia de volta ao mapa
>>> Uma vida para James Joyce
>>> As Classes e as Redes Sociais
>>> Crônica de um jantar em São Paulo
>>> Defesa eloqüente do Twitter
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Margarita Paksa: Percepção e Política
>>> A primeira ofensa recebida sobre algo que escrevi
Mais Recentes
>>> Ecce Homo de Friedrich Nietzsche pela L&PM (2003)
>>> No Mundo Maior de Francisco Cândido Xavier - André Luiz pela Feb (2013)
>>> Quase Verdade de Jennifer Kaufman - Karen Mack pela Leya Casa Da Palavra (2011)
>>> A Arte de Cultivar Líderes Como Se Tornar um Mestre de Ram Charan e Bill Conaty pela Campus (2011)
>>> The Secret - o Segredo de Rhonda Byrne pela Ediouro (2007)
>>> Ramses o Filho da Luz de Christian Jacq pela Bertrand Brasill (2000)
>>> Portugal e a Revolução Global de Martin Page pela Nova Fronteira (2011)
>>> O Código da Vinci Roteiro Ilustrado de Akiva Goldsman pela Sextante (2006)
>>> Os Estudantes de Medicina e o Ato Médico de Conselho Federal de Medicina pela Cfm (2004)
>>> Lábios Que Beijei - o Romance da Lapa de Aguinaldo Silva pela Siciliano (1992)
>>> O Novo Mundo Digital Você já Está Nele de Ricardo Neves pela Refume Dumara (2007)
>>> Comunicação Tecnoestética Nas Mídias Audiovisuais de Denise Azevedo Duarte Guimarães pela Sulina (2007)
>>> A Filha mais Velha - Uma Imagem de Família de Selma Carvalho Souza pela Catavento (2005)
>>> Livro da Sorte e do Destino de J. Della Monica pela Madras (2000)
>>> Vencedor de Varios Autores pela New Live
>>> O Livro do Bem de F. Ramon pela Espaço e Tempo (1994)
>>> Pequeno Livro da Sorte de Heloisa Galves pela AlemdaLenda (2016)
>>> Ânimo de Lourival Lopes pela Otimismo (2007)
>>> Minuto Mediúnico de Vitor Ronaldo Costa pela Seda
>>> Memorização - Aumente em até 10 vezes a Capacidade da Memorização de Varios Autores pela Sintec
>>> Sexo e Felicidade de L. Silveira pela Saúde Brasil (1992)
>>> O Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec pela Feesp (1991)
>>> Reiki, Guia de Referência Livro 3 de 3 de Joel Cardoso pela Escala (2000)
>>> Uma Viagem Entre o Céu e o Inferno de Luiz H. Leite Lopes - Maria Ziravello pela Planeta (2007)
>>> O Testamento de São João de J.J. Benítez pela Mercuryo (2006)
COLUNAS

Terça-feira, 8/4/2014
Kurt Cobain; ou: I Miss the Comfort in Being Sad
Duanne Ribeiro

+ de 5100 Acessos

Em uma madrugada dez anos velha em São Vicente, uma amiga me disse que se sentia muito triste quando ouvia Something in the Way, do Nirvana - porque o Kurt estava tão sozinho...

(De fato, ele estava.) O sentimento dela me abriu toda uma amplitude; pois ela se achegava ali à beirada do verso e podia ver, lá embaixo, uma ponte de Seattle e um adolescente à margem. The animals I've trapped have all become my pets. Minha amiga saltava realidades e conseguia sentir compaixão, afeto até, por alguém que nunca conheceu realmente. Um exemplo perfeito do que disse um filósofo francês: a poesia nos invade, nos faz fazê-la nossa, nos cria criadores, e gera essa indiferença súbita entre duas identidades.

Entre as bandas de vida curta da "cena" vicentina à época, havia a Fliver, de quem eu assisti, em uma casa de shows logo falida de Praia Grande, a uma performance repleta de verdade. Se eu me lembro bem, era um pequeno festival em homenagem ao Nirvana. (Cantei com a Fliver "Dive"; não lembro o repertório da minha banda naquele tempo, a Hangover - o nome se refere a "Dumb" - mas fechamos com "Moist Vagina"). No fim do show da Fliver, o vocalista/guitarrista se tomou de violência, o corpo magricela em espasmos atacava a guitarra como se houvesse algo de fato incontrolável nela, por fim a atirou para longe. Eu vi algo genuíno.

O gesto era uma imitação, porém mais que uma imitação: era uma incorporação. Outro amigo repetiu outro gesto: se arremessou contra a bateria em uma apresentação - estava no corpo dele a dor e a autodestruição implícitas em uma estampa de camisa do Nirvana típica. Com um outro, eu cantando, ele tocando, "Lounge Act", repetimos também: o violão destroçado assim que a canção explodia no chão da praça foi uma das coisas mais bonitas. Talvez se soubesse disso, Kurt se sentisse melhor: ele caberia no próprio verso: I'm not the only one.

Na carta, ele conta que quis amar o amor da multidão, mas não conseguiu, "não o suficiente". Havia, é certo, algo de insidioso naquele amor massivo. Um exemplo: em um show da turnê do In Utero, o último álbum, exibido pela MTV, lá pelo fim a banda passa a destruir amplificadores e cenografia, como era esperado - e o toque fatal de falsidade começa neste "como era esperado". Kurt chama o público para subir no palco, ninguém o atende. Batem palmas, eufóricos. O músico então corre de um lado a outro, batendo palmas com uma expressão imbecilizada. Naquele momento também, por motivos distintos e iguais, ele estava sozinho.

Could you forgive the boy who shot you in the head?
Esse adolescente à margem pôs um verso de Neil Young de cano duplo na boca e estourou sua náusea de dentro pra fora em um acorde distorcido final num 5 de abril há vinte anos.

Parece ter havido uma fratura fundamental entre Kurt e o mundo que por um tempo ele teve a habilidade de superar através da fúria e do cinismo e não sem cansaço. Sem conexão com sua família, envergonhado do próprio corpo, dedicado a um sonho artístico, também um sonho de reconhecimento. Quando o conseguiu, descobriu que era "mais pesado que o céu" (para usar o título preciso da biografia); a fama falsificou um concílio com sua família antiga e o manteve sempre distante demais da família nova, mulher e filha. Chegara, depois de tudo, a um reconhecimento mecânico, a uma agressividade instrumentalizada. Teenage angst has paid off well; now I'm bored and old.

As letras testemunham esse deslocamento em relação às pessoas e as coisas. Talvez por isso a maior suavidade, o máximo de felicidade conhecido por Kurt tenha ocorrido quando se sentia indiferenciado, "simplesmente admitido", como diz o poema de Borges. E o máximo de solidão no oposto complementar, quando se sentia individualizado demais, marcado. "All Apologies" é o resumo mais conciso disto; um de seus versos tem duas versões: all in all we are, ou seja, nós nos confundimos no todo, e all alone is all we are, somos sempre separados, inconciliáveis. Ele viveu na tensão entre estes dois pólos, quando foi reduzido a um deles, não pode mais seguir.

Como nós, Kurt também estava cumprindo símbolos. O confronto com o mainstream (a cultura musical hegemônica), a procura de uma apresentação crua, verdadeira, intensa - todos esses elementos eram não só o núcleo do punk, que se desdobrou no grunge, que influenciou a cena noise, como existiam de outra forma no rock desde 1960. O Mogwai (em um álbum chamado, sintomaticamente, Come On Die Young) musicou uma entrevista de Iggy Pop que resume essa ética como nada mais: "E esse estilo de música é tão poderoso que está muito além do meu controle. E quando sou tomado por ele, não sinto prazer e não sinto dor, fisicamente ou emocionalmente. Você sabe do que estou falando? Quando você simplesmente não pode sentir nada e você não quer sentir nada? O senhor entende o que estou falando?".

Em "Pennyroyal Tea", Kurt pediu: gimme a Leonard Cohen afterworld. Eis. Who is it whom I address? Who takes down what I confess? Are you the teachers of my heart?

- We teach old hearts to rest.

A hundred percent of my love up to you, true star
Contra nós depõe o fato de que não morremos jovens, a nosso favor está que essa ideia, esse lema, essa frase de efeito morreu jovem. Não obstante, senti que devia fazer uma homenagem neste aniversário de suicídio. É preciso agradecer às pessoas que nos traduzem a nós mesmos.

Ler a entrevista de Kurt para David Fricke, da Rolling Stone, sempre me desconcerta, porque é a última ou uma das últimas antes da morte, e ele está lúcido, falando abertamente de quando sentiu vontade de se matar por conta das dores de estômago, planejando mudanças criativas. Talvez estivesse vivo hoje se houvesse salvo a si mesmo do Sonho, como John Lennon fez (ou quase. O Sonho o perseguiu e atirou cinco vezes). O ex-Beatle saiu pela porta da frente do colossal JOHN LENNON construído apesar dele. I was the Walrus - but now I'm reborn. I was the Dreamweaver - but now I'm John. Não é bonito e sincero? "God" continua: I don't believe in Beatles, I just believe in me (Yoko and me) - and that's reality.

Quanto à sequência de não acreditos que compõe a música, a intenção de John era deixar um espaço vago no encarte, de modo que o ouvinte o preenchesse com suas próprias palavras: I don't believe in __________. Eu não acredito em mágica. Eu não acredito no I-Ching. Eu não acredito na Bíblia. Eu não acredito em John Lennon. Eu não acredito em Kurt Cobain. Sou só eu mesmo agora.

Nota do Editor:
Leia também "Ainda cheira a espírito adolescente", de Luiz Rebinski Junior.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 8/4/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Contentamento descontente: Niketche e poligamia de Renato Alessandro dos Santos
02. O que vai ser das minhas fotos? de Ana Elisa Ribeiro
03. A escrita boxeur de Marcelo Mirisola de Jardel Dias Cavalcanti
04. Virando as Latas: o atleta brasileiro e o esporte de Heloisa Pait
05. Isto não é um trote de Marta Barcellos


Mais Duanne Ribeiro
Mais Acessadas de Duanne Ribeiro em 2014
01. O Público Contra Yayoi Kusama - 22/7/2014
02. Kurt Cobain; ou: I Miss the Comfort in Being Sad - 8/4/2014
03. Cavaleiros e o Inexplicável - 7/10/2014
04. Margarida e Antônio, Sueli e Israel - 4/2/2014
05. O Hobbit - A Desolação de Smaug - 7/1/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Raizes da Modernidade Em Minas Gerais (colecao Historial)
Joao Antonio de Paula
Autentica
(2000)



Execução no Processo do Trabalho
Manoel Antonio Teixeira Filho
Ltr
(2005)



Antologia do Teatro Anarquista
Maria Thereza Vargas
Martins Fontes
(2009)



Temas de Medicina do Sono
rubens reimão
Lemos
(2000)



Flagrantes: Con Dios Me Acuesto
Leila Rentroia Iannone
Do Brasil
(1985)



Romances e Novelas
Joaquim Norberto de Souza Silva
Landy
(2002)



O Capitalismo
Ari Herculano de Souza
Do Brasil
(1989)



Entidades Sindicais: Legislação Jurisprudência Prática
Adriano Campanhole e Outros (4ª Edição)
Atlas (sp)
(1984)



Paranóia: a Síndrome do Medo
Stella Carr
Ftd
(1992)



Amanhecer
Stephenie Meyer
Intrínseca
(2009)





busca | avançada
89721 visitas/dia
2,7 milhões/mês