O Público Contra Yayoi Kusama | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

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COLUNAS

Terça-feira, 22/7/2014
O Público Contra Yayoi Kusama
Duanne Ribeiro
+ de 8200 Acessos


Sala de Espelhos Infinitos - Preenchida com o Brilho da Vida
[imagem: flickr de DeShaun Craddock]

Há uma contradição ignorada pelo público de Yayoi Kusama: Obsessão Infinita, ironicamente inscrita em como ele entra em contato com a exposição. Frente a uma artista cujo trabalho se concentra na obliteração, no apagamento de si, os visitantes são obsessivamente personalistas. Às enormes filas (antes da mostra, dobrando o quarteirão e antes de cada sala), seguem-se uma infinidade de fotografias; eles registram-se sob o fascínio das instalações, ambientes com grande força plástica; registram-se, sorrindo, tendo como fundo obras coloridas e abstratas. A ironia se mostra nesses dois movimentos opostos: a artista cobrindo o mundo com padrões, anulando-o, e os espectadores colando rostos em tudo, etiquetando as obras e os momentos com sua identidade sorridente única (exceto pelo próximo a fazer o mesmo).

A mostra esteve no Instituto Tomie Ohtake de maio a julho. Esse texto faz um percurso por essa e outras contradições na relação público-artista, até chegar a uma ótica em que ambos parecem pelo contrário muito alinhados. Não se pense que queremos dispor regras de como se deve visitar exposições; não se trata de que as pessoas não "tenham o direito" de fruir a arte conforme bem entendam, não obstante, no que se refere a Yayoi, parece que essa atitude mais nos protege da sua arte do que faz participar dela; ficamos só na superfície do que vemos.

Obliterar-se, apagar-se; Yayoi responde como o Radiohead, de outra forma, à pergunta como desaparecer completamente? Acompanhamos ao longo da retrospectiva o decaimento de todas as coisas a um princípio: ou a simplificação da percepção pela repetição de um tipo de figura (no caso, as bolinhas presentes em vários quadros e instalações, que permitem "compreender" num só lance toda a sua produção; de antemão, é como se já tivéssemos apreendido o "essencial" e pelos corredores apenas constatássemos sua persistência; perdendo, desse modo, os detalhes, a individualidade de cada peça); ou a fixação em um elemento físico (no caso, os objetos fálicos, dezenas de esculturas-lembrete do pênis enchendo sapatos de mulher, utensílios de cozinha, um barco, etc). O padrão recobre o real, deixa-o estranho ou atraente, porém o obscurece - a variedade se corrompe, tudo é, no fim, a mesma coisa.


série Mobiliário Compulsivo
[imagem: flickr de Rebeca Saez]

A "facilidade" da artista amplia-se para a sua biografia. Por exemplo, a Folha informou que "a mostra também revela as origens de tudo. Kusama, que hoje vive num hospital psiquiátrico em Tóquio, diz sofrer com alucinações desde a adolescência, enxergando o mundo sempre coberto de bolinhas coloridas" (o Globo falou de "transtorno artístico compulsivo", e destacou a declaração: "Eu luto contra a minha doença; (...) no meu caso, a cura [estava] em criar arte baseada na doença"). Naturalmente, isso não é explicação de nada; a variação de composições, o uso dos materiais e a aplicação de outras repetições ficam de fora, isso além da própria escolha dela pela arte, ou o processo exato como alucinações e obsessão se convertem em prática artística. No entanto, "explicam" a obra, cobrem-na com um referente simplório a que podemos apelar ao menor sinal de pensamento. Pergunto-me se também esse efeito não seria pretendido: Yayoi e sua produção se obliteram debaixo da explicação.

Essa desaparecença é tanto mais impressionante quando nos mergulha nela própria. Eu Estou Aqui, Mas Nada, uma sala de estar típica, cadeiras, sofás, estantes; escura, iluminada por focos de luz lilás e azul, ponteada por bolinhas coloridas; caminhamos dentro da compulsão de Yayoi (e é fascinante, sim, mas há um transtorno, uma tendência doentia, no subliminar dessa beleza - que escolhemos esquecer para ficar só com o que é "bonito"). O título parece evidente: ela está aqui, todavia, resumindo-se a um padrão, resume-se a nada. Sua presença é ausência. Sala de Espelhos Infinitos - Campo de Falos, um espaço rodeado de espelhos e preenchido de pênis infláveis brancos com bolinhas vermelhas (ou formas fálicas, que devem lembrá-los). Dessa vez, somos também recobertos pelo padrão, e nos multiplicamos nos reflexos: estamos alguns graus obliterados (além disso, é também "bonito", mas, para isso, ignoramos o fato de estarmos numa planície de pintos inumeráveis, o subliminar dessa beleza).


Sala de Espelhos Infinitos - Campo de Falos
[imagem: flickr de Central Asian

Ainda nesse sentido, Obsessão por Pontos - Amor Transfigurado em Bolas tem duas áreas. Na primeira, grandes bolas rosas com bolinhas pretas se espalham, em uma instalação fortemente lúdica e decorativa. À porta da segunda, nos entregam uma folha de adesivos, e podemos colar bolinhas coloridas em qualquer lugar da sala já completamente coberta deles. É principalmente agradável estar em uma e brincar na outra, e quem sabe o fundamental nisso esteja em que nós aprendemos a amar, isto é, a encontrar o agradável na compulsão de Yayoi. O distúrbio mental, sabemos o que há de bom nele, o abraçamos por um momento. Enfim, Sala de Espelhos Infinitos - Preenchida com o Brilho da Vida, leva esse prazer a um paroxismo: penduradas no teto estão dezenas de lâmpadas esféricas que brilham, harmonicamente, com variadas cores, refletidas até o sem número pelos espelhos em torno. Vemo-nos distantes nos espelhos, aqui e lá, misturados com outros de que não nos preocupamos em saber a posição real. Estamos aqui, mas nada.

Esta Coluna Contra Yayoi Kusama
Neste contexto, o selfie parece absurdo. Se a artista nos envolve no tudo (todas as identidades possíveis) e/ou no nada (nenhuma identidade possível), a insistência na nossa própria imagem, na conexão de um lugar com um eu estive aqui, de algo bonito com um eu vi algo bonito soa um pouco asséptica demais. A experiência construída por Yayoi propõe não a chance para reforçar uma ideia do que somos, mas sim para sentirmo-nos menos, sermos menos nós. I'm not here, this isn't happening...

Parece por outro lado que entre Yayoi e público existe na verdade uma identificação profunda. Como sinalizamos no primeiro parágrafo, há muito ou pouco de obsessão e compulsão no tirar fotos contínuo, no registro obrigatório de cada coisa que "precise ser guardada". Como dito, na sequência de fotos nossa cara se repete em fundos e situações distintas: com outras doses de compulsão e obsessão repetimos eu eu eu como em Quero Ser John Malkovich o protagonista assiste aos personagens na mente do ator-título repetirem john malkovich john malkovich john malkovich. Produzimos em série nossa imagem como a artista produz em série bolinhas. Ainda mais, se reuníssemos todas as fotografias feitas, o mosaico formado traria uma única informação e se reduziria a significar muito pouco ou nada, sala de infinitos espelhos, campo de rostos.

Também podemos enxergar que aquilo que chamamos de facilidade em Yayoi por sua vez causa uma padronização na recepção do público, ou facilita que a recepção seja padronizada. Assim, todos se assimilam em uma forma de ver, em uma forma de sentir prazer, em uma forma de se expressar sobre tais coisas. Crendo nisto, é um texto como este que estaria em contradição com a artista, com suas pretensões de determiná-la bem e de distinguir-se da avaliação comum. Pelo inverso, o público não estaria contra Yayoi; estaria, em verdade, completamente absorvido.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 22/7/2014

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