A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
78320 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Quarador de imagens partilha experiências em música, teatro e cinema
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Temporada Alfa Criança estreia Zazou, um amor de bruxa dia 24 de abril
>>> Operilda na Orquestra Amazônica Online tem temporada grátis pela Lei Aldir Blanc
>>> Festival SP Choro in Jazz reúne 22 músicos em espetáculos, encontros sonoros, oficinas e jam session
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
>>> Coral de Piracicaba apresenta produção virtual
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> A morte da Gazeta Mercantil
>>> A hora certa para ser mãe
>>> Blogging+Video=Vlogging
>>> In London
>>> Mil mortes de Michael Jackson
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Dalton Trevisan revisitado
>>> Who killed the blogosphere?
Mais Recentes
>>> Contos de Voltaire pela Abril Cultural (1983)
>>> O assassino de Evelyn Anthony pela Martins (1974)
>>> O condenado de Gabriel Lacerda pela Lacerda Ed. (1998)
>>> Curso de Aperfeiçoamento Em Betão Armado - livro de J. Darga e Lima e Outros pela Lnec (1969)
>>> O dinheiro de Arthur Hailey pela Nova Fronteira (1975)
>>> A insurreição de Antonio Skármeta pela Francisco Alves (1983)
>>> Era Uma Vez o Amor, Mas Tive Que Matá-lo de Efraim Medina Reyes pela Planeta (2006)
>>> Dominó de Ross King pela Record (2010)
>>> Jogos Surrealistas de Robert Irwin pela Record (1998)
>>> Revista Planeta 11 - Julho 1973 - a Psicologia Pode Melhorar o Mundo de Ignácio de Loyola Brandão pela Três (1973)
>>> O Último Cabalista de Lisboa de Richard Zimler pela Companhia das Letras (1997)
>>> Livro Alegria e triunfo de Lourenço Prado pela Pensamento (2021)
>>> Perigos Que Rondam o Ministério de Richard Exley pela Ucb (2003)
>>> Revista Planeta 12 - Agosto 1973 - Para que serve a Ioga de Ignácio de Loyola Brandão pela Três (1973)
>>> Predestinação e Livre-arbítrio de John Feinberg pela Mundo Cristão (1989)
>>> Cartas de João Guia de Estudos Práticos de Laudir e Sonia Pezzatto pela Sepal (1989)
>>> Mulher & Homem o Mito da Desigualdade de Dulce Whitaker pela Moderna (1991)
>>> Como Ser um Herói para Seus Filhos de Josh Mcdowell pela Candeia (2001)
>>> O Toque de Midas de Anthony Sampson pela Best Seller (1989)
>>> Essa Maldita Farinha de Rubens Figueiredo pela Record (1987)
>>> Vivendo Felizes para Sempre de Marsha Sinetar pela Record (1993)
>>> Cuidados Com a Pele Mitos & Verdades de Shirlei Schnaider Borelli pela Iglu (1994)
>>> Três Vezes Trinta de Carmo Chagas pela Best Seller (1992)
>>> Ameaça Nas Trilhas do Tarô de Sérsi Bardari pela Ática (1992)
>>> A Besta Humana de Emile Zola pela Hemus (1982)
COLUNAS

Segunda-feira, 5/12/2011
A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal
Ricardo de Mattos

+ de 8300 Acessos

"Por que eles conseguiram atravessar a guerra escondidos quando tanta gente se escondeu e não conseguiu?" (Edmund de Waal).

O professor e ceramista inglês Edmund de Waal (1964) é autor de um daqueles felizes livros em que o tema inicial é por vezes esquecido e a narrativa espraia-se tanto, que podemos abrir um volume de memórias e fechar um de História. Ou começarmos lendo sobre uma jornada familiar e terminarmos melhor informados a respeito do movimento Impressionista francês. N'A lebre com olhos de âmbar, acompanhamos o roteiro de sua família e, ao encerrarmos a leitura, restou-nos a sensação de termos mergulhado com o autor num universo ficcional do qual gradativamente emergimos de volta à realidade. Ele mesmo assim expressa-se: "Já não sei mas se o livro é sobre minha família, sobre a memória ou sobre mim mesmo, ou ainda se é um livro sobre pequenos objetos japoneses".

Os "pequenos objetos japoneses" são os netsuquês, peças de marfim ou de madeira, esculpidas de forma a representar pessoas, animais ou plantas. As pessoas são representadas num minúsculo contexto, como o monge adormecido, a menina que se banha, o menino reclinado sobre um búfalo... Segundo Waal, sua coleção tem 264 destas peças e nenhuma ultrapassa "o tamanho de uma caixa de fósforos". Foram esculpidas por deleite ou para servirem de fecho para sacolas, com furos onde passassem o cordão. Contudo, para levantar o percurso delas em sua família, Waal realizou pesquisas em Paris, Viena, Japão e Odessa.

O autor é descendente direto da família Ephrussi, de negociantes judeus. Originários da Ucrânia o patriarca Charles Joachim Efrussi - a grafia com "ph" viria mais tarde - envia seus filhos a Paris e Viena, incumbindo-os de estabelecer a família e os negócios fora dos limites pátrios, ampliando assim o campo de atuação. Dos seus netos parisienses, seu homônimo Charles foi aquele que se dedicou totalmente à Arte. Não como artista, mas como estudioso, colecionador, e patrocinador. Mecenas, numa só palavra. Quando na França sobreveio a onda de interesse pela cultura japonesa, decorrente da abertura promovida no século XIX pela dinastia Meiji, Charles - neto - adquiriu caixas de laca, gravuras e os cobiçados netsuquês. Desfez-se deles apenas quando seu primo Viktor casou-se em Viena, enviando-lhe como presente nupcial.

Em Viena, a coleção sobreviveu às duas guerras mundiais. Seguiu para a Inglaterra, onde estagiou até ser levada para Tóquio por Iggy, tio-avô de Waal. Atualmente encontra-se de volta a Londres, instalada na casa do autor. A estes objetos reunidos por Charles no século XIX agregou-se todo um histórico familiar. Como se diz em Direito Civil, encontra-se agora entre as "coisas fora do comércio".

A primeira parte do livro é dedicada a Charles Ephrussi. Discorrendo sobre este colateral da terceira geração, Waal descreve o cenário em que ele viveu, o contato que teve com pintores como Renoir, Manet e Monet. O autor foi minucioso: visitou os imóveis que pertenceram à família, leu cartas, diários e livros de autores da época. Visitou arquivos oficiais e pediu o auxílio de acadêmicos para o que estava fora de seu alcance. Antes de escrever, esforçou-se por reconstruir a ambiência. Traz revelações diversas, nem sempre alegres. Exemplo disso envolve o quadro Rosa e Azul, de Renoir, exposto no MASP. É das obras mais famosas do pintor. O que poucos devem saber é que a menina de faixa azul foi uma das vítimas de Auschwitz.


Rosa e Azul, por Renoir

A vida literária também tem presença viva. Começa com Marcel Proust, secretário de Charles, com quem conviveu o suficiente para incluí-lo na modelagem da qual resultou seu personagem Swann. Há o implicante Edmond de Goncourt, que nomeia um prêmio literário francês. Os livros de Arthur Schnitzler - ora editados no Brasil - nortearam Waal a respeito da Viena saída do século XIX. A avó paterna de Waal, Elisabeth, filha de Viktor Ephrussi, nutriu sincera adoração pelo poeta Rilke, enviando-lhe seus versos e recebendo inéditos dele. Somos remetidos a Hannah Arendt quando mencionado certo Eickmann, eficiente burocrata.
Viena é objeto das partes II e III, quando a cena é ocupada por Viktor e sua família.Para uma parcela do povo de Israel daquele tempo, ser judeu significou distanciar-se de suas raízes hebraicas, mas não encontrar total assimilação no meio germânico cristão. Seja por pacificidade natural, seja para não se exporem em conflitos e assim dar munição ao adversário - difícil precisar - as medidas antissemitas tiveram livre e progressivo curso, resultando na morte, prisão, tortura e expropriação de bens de milhares de pessoas. Waal não carrega nas cores, nem seu livro tem feição trágica - muito pelo contrário. Contudo, certas ocorrências, por si sós, são tão terríveis que nenhuma narrativa resulta neutra. Afetou-nos vivamente a descrição da tomada da casa e recolhimento da biblioteca de livros raros de Viktor. Ele foi banqueiro por força das circunstâncias. Teria sido mais feliz como leitor erudito e colecionador. Este ponto do livro de Waal complementa a leitura d'A biblioteca esquecida de Hitler, de Timothy Ryback.

O envolvimento cultural dos Ephrussi não era uma tentativa de forçar a assimilação nos países aos quais chegavam. Em visita e pesquisa em Odessa, Waal identificou também uma rica atmosfera cultural que não era estranha à família. A última parte do livro parece um pouco "corrida", talvez pelo retorno à realidade referido acima.

Redigimos esta coluna no banco do jardim de casa, com o Sol reaparecendo após breve chuva. Um bando de maritacas debate na árvore do vizinho dianteiro. As cadelas vêm conferir si ainda estamos aqui e aproveitam para solicitar o centésimo cafuné do dia. Levantando os olhos da prancha, identificamos no jardim molhado os alvos dos trabalhos da próxima semana. Na sala, o presépio armado aguarda acabamento antes da visita dos foliões. Não é agradável imaginar a invasão por uma horda que tudo chute e destrua. Não possuímos nenhum incunábulo, nenhum quadro de "Velho Mestre". Todavia, não queremos revirado o que temos, em busca de "provas".

Respondendo à pergunta epigrafada, por que as peças foram salvas e tantas pessoas não? Por causa de Anna, empregada da família Ephrussi, que conviveu com a avó e os tios-avôs de Waal. Porque entre aderir às ordens dos burocratas e oficiais nazistas e enfrentá-los, ela preferiu uma atuação anódina como funcionária na casa de seus antigos patrões, onde foi instalado um departamento qualquer. Com isso, salvou cada um dos netsuquês, pois para ela eram os "brinquedinhos" com os quais suas crianças gostavam de brincar enquanto a mãe deles vestia-se para os compromissos sociais. Escondia-os no bolso do avental e depois no próprio colchão, dormindo sobre eles. Si hoje a única ajuda que podemos esperar dos empregados é a necessária para subir ao patíbulo da guilhotina, Anna deve ser incluída entre aqueles casos em que bons sentimentos desafiam e superam os rígidos cálculos da maldade.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 5/12/2011



Quem leu este, também leu esse(s):
01. A pintura do caos, de Kate Manhães de Jardel Dias Cavalcanti
02. Retratos da ruína de Elisa Andrade Buzzo
03. Comunicado importante: TV mata! de Pilar Fazito
04. Uma (selvagem?) celebração literária de Jonas Lopes
05. A Feira do Livro de Porto Alegre de Marcelo Spalding


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2011
01. Do preconceito e do racismo - 18/4/2011
02. Geza Vermes, biógrafo de Jesus Cristo - 7/3/2011
03. A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal - 5/12/2011
04. Clássicos para a Juventude - 27/6/2011
05. Sobre um tratado chinês de pintura - 24/1/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Júlio César: Biografia
Joel Schmidt
L&pm Pocket
(2006)



Ainda Lembro
Jean Wyllys
Globo
(2005)



Vidas Passadas, Milagres Presentes
Denise Linn
Larousse
(2008)



Literatura Comentada Bocage
Marisa Lajolo
Nova Cultural
(1981)



Introdução À Ciência Do Direito
André Franco Montoro
Revista Dos Tribunais



Português Prático
Jesus Ruescas Organização
Sivadi



Premier Dictionnaire En Images
Pierre Fourré
Bertrand
(1962)



Prática de Psicologia Moderna
Varios Autores
Honor
(1973)



A Forca Esta Com Voce
Stephen Simon
Best Seller
(2007)



Os Novos Titãs Nº87
Abril Jovem
Abril Jovem
(1993)





busca | avançada
78320 visitas/dia
2,6 milhões/mês