A obra-prima de Raymond Chandler | Maurício Dias | Digestivo Cultural

busca | avançada
88959 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Rosas Periféricas apresenta Labirinto Selvático e Ladeira das Crianças em novembro
>>> SESI-SP apresenta Filó Machado 60 Anos de Música em teatros de São Paulo e Piracicaba
>>> Clube do Conto outubro - Sesc Carmo - literatura infantojuvenil
>>> Projeto seleciona as melhores imagens de natureza produzida por fotógrafos de Norte a Sul do país
>>> Infantil com a Companhia de Danças de Diadema tem sessão presencial em Ilhabela e Caraguatatuba
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Como no céu & Livro de visitas
>>> Drummond: Procura da Poesia
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> Preconceitos
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> So much that was good but is gone
>>> Decálogo (Comentado) do Perfeito Contista, de Horacio Quiroga
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Patrícia Melo mergulha no ciúme e na loucura
>>> Sobre viver em qualquer lugar
Mais Recentes
>>> Venda Mais - Marketing Direto - Ano 8 - Nº91 de Vários pela Quantum (2001)
>>> Massilon - nas veredas do Cangaço e outros temas afins de Honório de Medeiros pela Sarau das Letras (2010)
>>> Venda Mais - Plantas vendas para colher lucros - Ano 8 - Nº 96 de Vários pela Quantum (2002)
>>> Venda Mais - Dia de Reunião - Ano 8 - Nº 94 de Vários pela Quantum (2002)
>>> História do Ceará dos índios à Geração Cambeba de Aírton de Farias pela TRopical (1997)
>>> Informática: teoria e questões de concursos com gabarito de Rogério Amigo de Oliveira pela Campus/ Elsevier (2007)
>>> Economia da Consciência: Construindo Um Novo Paradigma Econômico a Partir dos Princípios da Física Quântica de Amit Goswami pela Goya (2015)
>>> A Plenitude Do Cosmos: A Revolução Akashica Na Ciência E Na Consciência Humana de Ervin Laszlo pela Cultrix (2018)
>>> A Revolução Mindfulness: Um guia para praticar a atenção plena e se libertar da ansiedade e do estresse de Sarah Silverton pela Alaúde (2018)
>>> Uma Amizade Com Deus - Um diálogo incomum de Neale Donald Walsch pela Sextante (2000)
>>> Teoria do conhecimento de Johannes Hessen pela Martins Fontes (2012)
>>> Introdução à epistemologia de Luiz Henrique de Araujo Dutra pela Unesp (2010)
>>> Exercícios d'alma: A Cabala como sabedoria em movimento de Nilton Bonder pela Rocco (2010)
>>> Tratado da Pedra Filosofal e a Arte da Alquimia de Santo Tomás de Aquino pela Isis (2015)
>>> Guia Prático para Redação Científica de Gilson L. Volpato pela Best Writing (2015)
>>> Emmanuel Bassoleil - Uma Cozinha sem Chef de J. A. Dias Lopes... et al. (Textos) pela DBA - Dórea Books and Art (1994)
>>> Psicologia da Evolução Possível ao Homem de P. D. Ouspensky pela Pensamento (2019)
>>> As Ciências das Religiões de Giovanni Filoramo pela Paulus (1999)
>>> Ordens do Executivo de Tom Clancy pela Record (1999)
>>> Airline Transport Pilot Test Prep 2019 de Asa Test Prep Board pela Aviation Supplies & Academics (2019)
>>> Enciclopédia Agrícola Brasileira - Vol 1 - A-B de Julio Sousa pela Edusp (1995)
>>> Rainbow de Tom Clancy pela Record (2000)
>>> Educação e Empreendedorismo de Carmen Luan de Castro Dias Coelho pela Clube De Autores (2018)
>>> Las Posturas Claves En El Hatha Yog - Vol 2 de Ray Long pela Blume-acanto-naturart (2009)
>>> Filosofia da ciência: Introdução ao jogo e a suas regras de Rubem Alves pela Loyola (2015)
COLUNAS

Terça-feira, 21/1/2003
A obra-prima de Raymond Chandler
Maurício Dias

+ de 12100 Acessos

Se você gosta dos filmes noir de Billy Wilder e John Huston; se gosta de Tarantino e seu séqüito de imitadores; ou de filmes tão dispares quanto Blade Runner ou Los Angeles, Cidade Proibida, é melhor tratar de conhecer logo o pai da matéria, o homem que influenciou todos eles: o escritor americano Raymond Chandler (1888-1959), alguém capaz de agradar a nomes tão diversos quanto o crítico literário e escritor Edmund Wilson ou o roqueiro Lou Reed.

Chandler é quase que unanimemente tido como o maior autor da literatura policial. Na verdade, ele é bem mais que isso. Recentemente estive relendo O Longo Adeus (1953), seu melhor livro. A densidade, o humor e a ironia da obra me fizeram confirmar algo que há muito já desconfiava: com a possível exceção de William Faulkner, Chandler é o maior autor de romances americano do século XX. Com certeza é muito melhor que Hemingway, apesar de ter sido de certa forma influenciado pelos diálogos secos do autor de Os Assassinos e O Velho e o Mar.

O fato é que O Longo Adeus, mais ainda do que os demais livros de Chandler, não é bem um livro policial, mas um apanhado de observações sobre a sociedade americana entremeado por uma trama policialesca para agradar ao grande público. E especialmente neste livro, a trama policial funciona como uma argumentação a favor da lealdade, de sua grandeza moral, da necessidade dela como cimento da vida em sociedade. O personagem principal de todos os romances de Raymond Chandler, o detetive particular Philip Marlowe é um sir Galahad, que percorre desde a high society até os becos mais imundos com uma fé inabalável no seu dever de agir corretamente, ainda que sabendo que neste mundo tem-se que jogar duro. Este confronto de sua noção do que é certo contra sua acurada visão de mundo - pois Marlowe não é um imbecil, ele sabe onde vive - é a força motriz das suas muitas observações, recheadas quase sempre de uma certa amargura.

Magnífica é a descrição que o criador Chandler faz da criatura Marlowe em um ensaio que aqui foi publicado ao final da edição de A Simples Arte de Matar (L&PM Editores), coletânea de contos onde já se delineava algo do personagem Marlowe, embora ele ainda não fosse assim chamado: " ... nas ruas sórdidas da cidade grande precisa andar um homem que não é sórdido, que não se deixou abater e não tem medo. Neste tipo de história o detetive deve ser este homem. Ele é o herói; ele é tudo. (...) Não me interessa sua vida particular; ele não é nem um eunuco nem um sátiro; penso que ele poderia seduzir uma duquesa e tenho certeza de que não se aproveitaria de uma virgem; se é um homem honrado em uma coisa, é um homem honrado em todas as coisas".

E voltando a O Longo Adeus, a trama é complexa: tudo começa casualmente quando Philip Marlowe socorre Terry Lennox, um bêbado caído no estacionamento de uma boate. Inicia-se uma amizade, que será abruptamente terminada quando Lennox se envolve em problemas e Marlowe o ajuda a fugir para o México. Após o desfecho destra trama, aparentemente o livro recomeça do zero, e Marlowe vai trabalhar para um escritor alcoólatra. Mas as histórias acabam se interligando ao final, e mais que isso não posso contar.

A história, apesar de bem construída, não é o principal. A qualidade do texto em si é que impressiona. E como já disse no texto Escrita e Artes Visuais (publicado aqui no Digestivo), prefiro me calar diante da perfeição, deixar que ela fale por si mesma. Seguem trechos dos ótimos diálogos de O Longo Adeus, extraídos da edição - de bolso - que ainda pode ser encontrada nas livrarias, a da L&PM Pocket, com bela tradução de Flávio Moreira da Costa:

Dito por um multimilionário sexagenário:

"- ... Nós vivemos no que se chama de democracia, regida pela maioria do povo. Uma idéia ótima se chegasse a funcionar. O povo elege, mas são as máquinas partidárias que nomeiam, e as máquinas partidárias, para serem eficientes, precisam de muito dinheiro. Alguém precisa dar este dinheiro a eles e este alguém, seja um indivíduo, um grupo financeiro, um sindicato ou o que você quiser, espera alguma coisa em troca." (...; pág. 252)

O mesmo multimilionário:

"- ... Não se pode esperar qualidade de pessoas cujas vidas são uma sujeição à falta de qualidade. Não se pode ter qualidade com produção em massa. Não se deseja isso porque demoraria muito a chegar. Portanto, para substituir isso há o estilo. Que é um logro comercial com a intenção de produzir coisas obsoletas e artificiais. A produção de massa não poderia vender seus produtos no ano que vem a não ser que faça o que vendeu este ano ficar fora de moda. Temos as cozinhas mais brancas e os banheiros mais brilhantes do mundo. Mas na adorável cozinha branca a dona-de-casa americana média não consegue cozinhar uma refeição boa de se comer, e o adorável banheiro brilhante é sobretudo um receptáculo para desodorantes, laxativos, soníferos e produtos desta quadrilha de vigaristas que se chama indústria de cosméticos. Nós fazemos as embalagens mais bonitas do mundo, Sr. Marlowe. O que está lá dentro é, na maior parte, lixo." (pág. 253)

Dito por um escritor de romances históricos best sellers:

"- ... Uma vez tive um secretário homem. Despedi-o. Me incomodava ficando sentado por aí esperando eu criar alguma coisa. Cometi um erro. Devia tê-lo deixado ficar. Iam começar a dizer por aí que eu era homossexual. Os garotos inteligentes que escrevem resenhas de livros, porque não conseguem escrever mais nada, iam se encarregar de espalhar a notícia e minha carreira estaria feita. É preciso cuidar da carreira da gente, você sabe. São todos uns veados, todos eles. A bicha é o juiz artístico da nossa era, meu chapa. O pervertido é que está por cima agora." (pág. 270)

Diálogo entre o mesmo escritor e Marlowe:

"- Sabe de uma coisa? Não passo de um mentiroso. Meus personagens têm quase dois metros de altura e minhas heroínas têm calos no bumbum de tanto deitar na cama com os joelhos pra cima. Laços e fitas, espadas e carruagens, elegância e gentileza, duelos e mortes galantes. Tudo mentira. Usavam perfume em vez de sabonete, os dentes delas apodreciam porque nunca os escovavam, as unhas eram negras da sujeira dos estábulos. A nobreza francesa mijava nas paredes dos corredores de mármores de Versalhes, e quando finalmente se conseguia tirar as várias roupas de baixo da adorável marquesa, a primeira coisa que a gente notava era que ela precisava tomar um banho. Deveria escrever assim.

- E por que não?

- Claro; e iria morar numa casa de cinco cômodos em Compton....se tivesse sorte." (pág. 271)

Em que outro livro policial se encontraria comentários deste tipo?


Maurício Dias
Rio de Janeiro, 21/1/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O assassinato de Herzog na arte de Jardel Dias Cavalcanti
02. Eu, tu, íter... de Guga Schultze


Mais Maurício Dias
Mais Acessadas de Maurício Dias em 2003
01. A obra-prima de Raymond Chandler - 21/1/2003
02. Picasso e Matisse: documentos - 10/6/2003
03. Uma teoria equivocada - 14/10/2003
04. Quentin Tarantino: violência e humor - 29/7/2003
05. Por onde anda a MPB atualmente? - 20/5/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Plantão da Paz
Francisco Candido Xavier
Geem
(1988)



Canção para Antes do Amanhecer
José Leão de Carvalho
Doxa



Sociedade de Bairro
António Firmino da Costa
Celta
(1999)



Don Quijote - Vive el español - Curso de español- Nível inicial
Rosário Garcés Rodriguez e outros
Edebé
(2011)



Evolução a era do Espírito
Julio Goelzer
Ônix
(2010)



O Decênio Que Precedeu a era Collor de Mello
Jair Ribeiro da Silva
João Scortecci
(1991)



As Sacerdotisas de Atlântida e o Pássaro Sagrado
Nelli Célia
Panorama
(1998)



A Vida Sempre Vence
Marcelo Cezar
Vida e Consciência
(2002)



Comici Spaventati Guerrieri
Benni Stefano
Feltrinelli
(1999)



Ficar ou Nao Ficar - Ficção - Literatura
Tom Wolfe
Rocco
(2001)





busca | avançada
88959 visitas/dia
1,8 milhão/mês