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Quarta-feira, 19/3/2003
As Sobras do Banquete
Alessandro Silva

+ de 4500 Acessos

Estamos para os gregos como com o big-bang para o Universo: afastando-nos mais e mais em direção às trevas com uma hipótese entre os dedos para tentar explicar a vida.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche pressentia em que pé encontrava-se a civilização européia em seu tempo, e para aferir essa distância ele tecia analogias com a grega, enquanto tomava por base seu ideal de educação e formação ( paidéia ) e seu modo de vida. Nietzsche era um sismógrafo e era capaz de sentir o cheiro de declínio no ar, mesmo muitos séculos adiante do tempo de Platão, que viveu a mais ou menos quatrocentos anos antes do ano zero de nosso calendário cristão.

Nietzsche, que era filólogo e professor de grego, porém muito mais do que isso, um poeta à altura de Goethe, criticava sobretudo o caráter alexandrino próprio dos homens saturados de conhecimento que viviam em sua época. Para Nietzsche, o modo de vida erudito era altamente condenável, pois isso limita a vida humana. A vida reclusa seja no escritório, na redação de jornal ou na sala de aula empalidece o homem, subtrai sua coragem e infunde-lhe medo.

A vida de inseto condenada por Nietzsche à sua época foi apoiada pela grande descoberta que fez a partir da leitura das obras gregas, a saber que, a partir de Sócrates e Platão a vida autêntica, franca e envolta em mistérios e mitos, estava sendo demolida pela vontade de saber e pelo racionalismo pérfido que engendra.

Nietzsche associou esse racionalismo ao cristianismo e entendeu o entusiasmo de Platão por Sócrates como o de São João pela chegada do Messias.

Nietszche entendeu que culpa, piedade e compaixão são sentimentos que anulam a bravura necessária à elevação de uma sociedade de homens fortes, e esses sentimentos cristãos apresentam sua forma velada no ideal platônico, a saber, o ideal de saber.

Nietzsche dedicou sua existência solitária de poeta a sagrar Dioniso, o deus do vinho e do delírio místico cultuado pelas hostes mais distantes no tempo grego, e a exortar-se como "O Anticristo".

Nietzsche influenciou uma não pequena quantidade de poetas, filósofos e pintores que apareceram ao longo do século passado, século esse cujo início coincide com o ano de sua morte: 1900. Desde então ele vem servindo de bastião aos homens mais bravos que se opõem ao conformismo. O século vinte é o século da degenerescência, do caos e do absurdo. A tal ponto o é que basta compararmos um homem lenda de nosso século com, digamos, Rafaelo Sanzio, o jovem artista que encarnou o ideal do Renascimento e que teve morte prematura.

Nossos modelos estão no Lafcadio, herói de "Subterrâneos do Vaticano" de André Gide, em M. Meursault, protagonista do "Estrangeiro" de Albert Camus e nas figuras rastejantes de Samuel Beckett. ( Tratemos de não mencionar Joyce, Proust ou Kafka, para que o que vou dizer daqui em diante não se torne "sombrio" ou "profundo" ).

Dizíamos que o grau de decadência do século vinte pode ser medido pelos seus ícones. O século de Nietzsche mergulhou nas convulsões intelectuais transfiguradas em suas obras de arte. Mas nele, ainda havia a diversidade de posturas do artista em relação a seu tempo, pois o positivismo científico tanto era dardo quanto era alvo. Gustave Flaubert, muito contraditoriamente é certo, atacava dos dois lados: ele retratava apenas tipos desesperados e miseráveis com uma fé científica em sua arte. Por outro lado, o tal século era capaz de acomodar seus anseios apenas nos dilemas de Hamlet. Criaram-se a partir desse personagem poetas como Jules Laforgue ou T.S. Eliot ( poeta de entre-séculos ). As aspirações à liberdade não transgrediam todas as regras: Deus ainda era um momento de impasse, o que podemos notar em artistas tão diferentes quanto Rimbaud ou Dostoiévski. Proclamar em alto e bom som como o fez o poeta Nietzsche: "Deus está morto", ainda era tomado por loucura beata. Não é a toa que morreu envolvido nessa pecha.

Em suma, de algum modo podíamos dizer do século dezenove: ainda se respeitavam algumas regras.

Mas em nosso século vinte, fomos tragados pela nossa própria evolução mental e prepotência diante da natureza universal. É o século que não pode ser explicado apenas por suas duas guerras mundiais nem pelo fenômeno da degradação ambiental promovida pelo homem, por novas pestes desconhecidas, por repleção e excesso de população. Atualmente a "Terra Devastada" do poeta T.S. Eliot não soa como conto de fadas?

Do ponto onde chegamos, não há onde se agarrar: não temos nem mesmo um Deus para vilipendiar: somos ateus até a raiz de nossos cabelos. Nossas ações nos denunciam, nosso aparelho mental é demasiado sofisticado para não revestir-se de truques e espertezas que condenam desde o princípio os valores morais, o tipo de vida mais puro. O imensamente honesto ser humano Jean-Paul Sartre nos demonstrou algumas coisas em sua peças teatrais: em "Entre Quatro Paredes", que as pessoas não se suportam, e em "O Diabo e o Bom Deus", que tanto faz praticar o bem como o mal: tudo é gratuito na condição humana.

Friedrich Nietzsche disse a respeito de sua época que encontrava-se essa de tal modo permeada pelo saber que era necessário um homem da altura de um Goethe para admitir "ó, é claro, mas também há uma produtividade de fatos". Isso é, também as ações e não só o pensamento significam algo.

Se assim a via Nietzsche, como a vê esse tempo que se está afundando na comodidade das poltronas de cinema, nas salas de aula onde o ensino é pior do que prosa de bêbado, nos relatórios estatísticos de grandes companhias preparados por sujeitos dispostos a pensar que fazer ciência é uma forma mais significativa do que passear pelo campo ou olhar para uma planta; por aventais brancos, e não por gente de carne e osso, metidos em laboratórios assépticos sonhando com a criação de clones geneticamente perfeitos ou de sementes e grãos infalíveis, infensos às doenças - onde cabe a nossa decadência se robôs e não homens hoje atuam?

E não pequena, estimados leitores, mas digna de nota dentro desse novo século entrante é a missão de falar da obra máxima de um homem que guardamos como símbolo da cultura grega, a saber, a obra "O Banquete", de Platão.

Diante do que herdamos do século vinte, de suas irrupções de violência, restou-nos um pesadelo cujo nome genérico é história. Devemos partir daqui para comentar a atividade espiritual de um tempo distante e incólume cuja vida admiramos como quem admira as brincadeiras infantis. Evidentemente é uma injustiça ser parte de uma prole tardia na história das civilizações, e esse fato naturalmente cerceará nossas possibilidades diante da grandeza.

A obra "O Banquete" nos apresenta uma confraria de sábios em colóquio acerca de temas de filosofia. Estes homens reclinam-se sobre divãs e dissertam com o entusiasmo da embriaguez sobre algum tema proposto. ( Na Grécia Antiga, os banquetes possuíam um fim educativo. Depois de jantar, os homens reclinavam-se diante de suas taças de vinho e punham-se a discutir grandes temas ).

O exórdio para a dissertação, ou discurso dessa noite, é dado por Erixímaco, um dos convivas, que lamenta o fato de não ter recebido o Amor um discurso a sua altura, enquanto até mesmo o sal já havia sido alvo de encômio.

O discurso tem início com Fédon, que tece um elogio a Eros, por ser ele o Deus que une os homens em todas as circunstâncias. Supõem ele também quão valente não seria um exército composto por amantes, uma vez que amante e amado, diante de seus pais ou amigos não se preocupariam com o laivo de terem deserdado, amolecido ou largado a lança tanto quanto se preocupariam diante de si.

Retoma o discurso Pausânias, que tece uma divisão da Deusa Amor em dois, Eros Pandemos e Eros Urânios. Filho do Deus Caos, esta seria a responsável pelas causas mais nobres, enquanto Eros Pandemos, filha de Zeus e Dione, seria responsável pelo amor físico, por esse amor que unicamente busca corpo e não alma. Pausânias elogia o amor franco e desmaterializado dos amantes que não buscam riquezas nem proveitos, Eros Urânios, e descarta aquele que advém de Eros Pandemos, mais popular e vulgar.

O discurso seguinte, o de Erixímaco é uma homenagem dirigida ao Amor que fomenta as artes, da música à medicina.

Depois de Erixímaco, quem discursa é Aristófanes. E aqui o poeta faz a diferença.

Aristófanes quer exaltar o poder do amor indo de encontro à sua natureza. Para tanto, nos conta que em primeiro lugar eram três os gêneros da Humanidade: além do masculino e do feminino havia o andrógino. Também que a forma de cada homem era inteiriça, com dorso redondo e flancos em círculo; quatro mãos ele tinha e as pernas o mesmo tanto das mãos, dois rostos sobre um pescoço torneado, semelhantes em tudo; mas a cabeça sobre os dois rostos opostos um ao outro era uma só, e quatro orelhas, dois sexos, e tudo mais como desses exemplos poderia supor. E quanto a seu andar, era também ereto como agora, em qualquer das duas direções que quisesse; mas quando se lançavam a uma rápida corrida, como os que cambalhotando e virando as pernas para cima fazem uma roda, do mesmo modo, apoiando-se nos seus oito membros, rapidamente eles se locomoviam em círculo. Essa criaturas primitivas prenhes de vaidade por serem completas, contendo em si os dois sexos, ousaram uma escalada aos céus para se divinizarem. Em conseqüência, Zeus as puniu, cortando-as em duas metades. Em conseqüência disso, as metades restantes estariam condenadas a se perseguirem para conservar a geração da vida. Daí a origem natural do amor entre os humanos.

Esse é o discurso mais pitoresco, e os que o lêem podem ser estimulados por muitas outras imagens e idéias. Quem leu "As aventuras de Gulliver" de Jonathan Swift reconhece imediatamente o "parentesco" criativo do magnífico escritor com Aristófanes.

Ao discurso de Aristófanes segue-se o de Ágaton. Ele atribui à Eros traços essenciais que correspondem antes à pessoa digna de ser amada do que a que está inflamada de amor. É a sua própria imagem refletida no espelho que pinta com enleio narcisista na sua descrição de Eros. Seria esse o mais feliz, o mais formoso e o melhor de todos os deuses. É jovem, fino e delicado, e só mora em locais floridos e perfumados.

O discurso de Ágaton torna oportuno o ponto e partida de Sócrates.

Sócrates põem o esteta sensualmente refinado e conhecedor em contraste com o asceta filósofo, que o supera infinitamente, tanto na força íntima de sua paixão como na profundidade do seu conhecimento do amor.

Depois de levar Ágaton a confessar que não sabia o que estava dizendo, mostrando a ele que em si o amor não é bom nem belo, mas de natureza diversa, passa Sócrates a narrar o diálogo que outrora teve com Diotima, quem lhe revelou a essência do amor que hoje significa aquilo que entendemos por amor platônico, ou platonismo: o amor pela alma, o amor que tudo contém e a tudo se estende, o amor incondicional à natureza das coisas, o amor a sabedoria e o amor interior mais do que exterior, o tipo de amor encontrado no entusiasmo de Walt Whitman pela democracia.

A cena final do "Banquete" dá-se com Alcibíades, amante de Sócrates, que adentra bêbado a sala dos convivas e põem-se a cortejar Sócrates, enciumado e invejoso dele. Este diz: "Ágaton, vê se me defendes! Que o amor deste homem se me tornou um não pequeno problema.

Alcibíades pede a Ágaton as fitas para coroar o vencedor do discurso, coroa Sócrates e então principia um discurso em sua homenagem que nos impressiona ao nos fazer imaginar um Sócrates estóico, impassível diante do frio e da fome e sempre ocupado com suas meditações.

Da vertigem herdada dos séculos, do chão de nosso desespero em convencermo-nos a nos amarmos mais, não nos resta emprestar à obra nuclear do pensamento ocidental senão algumas tintas de humor, pastiche, superficialidade e contradição. Diante das sobras, não no resta senão o cinismo.

Evelyn Wagh, criticando Ernest Hemingway, disse: "eu admirava o modo como ele fazia os bêbados falarem". Bem, podemos admirar como Platão faz os seus falarem. Os convivas bebem litros de vinho e nunca têm "brancos"! Sócrates, enquanto interroga Ágaton, fazendo uso de sua arte dialética, mantém-se lúcido ao extremo - tente o leitor acompanhar seu raciocínio. Ora, é de se perguntar: mas como pode falar tão lucidamente aquele que está embriagado? Sem dúvida que Platão estava fazendo o papel do roto falando do mal arrumado quando comentava o hábito de mentir peculiar aos soldados.

Há mais pistas que denunciam a ficção platônica. Em uma nota de rodapé, o J. Cavalcante de Souza comenta: "é curiosa essa explicação de um hábito socrático a amigos de Sócrates, tanto mais que, um pouco abaixo, Agatão revela estar familiarizado com ele". ( Não vamos esquecer de render méritos à tradução do professor J. Cavalcante de Souza que dessa vez verteu a obra direto do grego, o que não alterou a antiga versão da obra editada pela coleção "Os Pensadores", vertida a partir de versões francesa e inglesa". )

Há outras sutilezas a serem observadas. Uma delas está presente nos truques de Platão para relegar a arte poética ao segundo plano ( como político Platão pensava em banir os poetas de sua República, pois segundo ele eram elementos de desagregação social ) O entusiasmo platônico pelo banimento da poesia está presente tanto na fala de Sócrates, quando este desconstrói um dito popular atribuído a Homero, quanto nos soluços de Aristófanes, que é tomado por uma crise deles bem no momento de discursar!

Graças à ficção platônica, havia um médico! E Aristófanes, o poeta zombeteiro de "Nuvens", não morre de congestão!

De qualquer forma, os esforços de Platão para popularizar a filosofia através da figura bizarra de Sócrates, estendendo o amor sexual às coisas do mundo, às artes, às ciências e aos alimentos da terra, não deixa de conter pureza. É aquele amor à infância do mundo de que falava Karl Marx que nos deslumbra.

Muito louváveis as intenções de Platão, mas se analisadas friamente, será nos métodos que encontraremos certo truísmo: e isso porque a arte dialética de Sócrates serve unicamente para um propósito: tornar nosso adversário perplexo diante se seus sofismas e de sua ignorância. Ao fim, também nós confessaremos não saber nada de nada, e o que ficou, como o que resta da leitura de versos, foi a emoção. E de fato só ela resta: não importa o instrumento, se poesia ou filosofia.

De modo mais cínico podemos explicar assim a arte dialética: é a arte de fazer nosso adversário intelectual cagar nas calças diante de nosso inquérito policial que visa destruir qualquer pretensão conhecimento.

As conclusões a que Nietzsche chegou a esse respeito são luminares. ( Elas estão prontas para serem colhidas, como plânctons boiando na água a cada página ). Com a palavra o filósofo:

"A mim mesmo, essa irreverência de pensar que os grandes sábios são tipos de declínio ocorreu pela primeira vez precisamente em que mais fortemente o preconceito erudito e não erudito se contrapõem a ela: reconheci Sócrates e Platão como sintomas de caducidade, como instrumentos da dissolução grega, como pseudogregos, como antigregos"(...)

E, em outro parágrafo:

"É a ironia de Sócrates uma expressão de revolta? De ressentimento plebeu? Frui ele, como oprimido, de sua própria ferocidade nas facadas do silogismo? Vinga-se dos nobres que ele fascina? - Têm-se, quando se é dialético, um impiedoso instrumento na mão; pode-se, com ele, fazer-se tirano; põem-se a nu aqueles que se vence. O dialético deixa para seu adversário o ônus de provar que não é um idiota: enfurece, e ao mesmo tempo desampara. O dialético despotencia o intelecto de seu adversário. - Como? É a dialética apenas uma forma de vingança, em Sócrates?"

( Ambos os trechos foram retirados do "Crepúsculo dos Ídolos". )

Platão exalta seu herói através das palavras de Alcibíades, fazendo com que dirija elogios a Sócrates que normalmente seriam dirigidos a atores: "quando com efeito os escuto, muito mais que aos coribantes em seus transportes bate-me o coração". Sócrates, coribantes? Sócrates o "novo" poeta? Sócrates, o aniquilador do mito e soldado do silogismo, o "novo" poeta?

Mas o que sobra do "Banquete"? O idealismo platônico que nos aquece, pois sabemos por ele que podemos nos dar incondicionalmente ao luxo e ao hedonismo; que em arte poderíamos reavivar Ruskin, Walter Pater ou Wilde, estetas completos em sua solidão específica vivendo seus cinco por cento de realidade.

Para ir além






Alessandro Silva
São Paulo, 19/3/2003


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