Beckett e Joyce | Sérgio Augusto

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ENSAIOS

Segunda-feira, 22/5/2006
Beckett e Joyce
Sérgio Augusto

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Joyce and Beckett, por Erico Ayres

Se Samuel Beckett, que em abril faria 100 anos, jamais foi secretário particular de James Joyce, conforme afirmou o necrológio da Folha de S. Paulo, já lá se vão quase 17 anos, como qualificar o tipo de trabalho que ele fazia para o autor de Ulisses? Supersecretário particular? Factótum graduado?

Joyce tinha o hábito de explorar ao máximo os seus devotos. Que o digam Frank Budgen e Sylvia Beach, dona da legendária livraria Shakespeare & Co., no coração da Rive Gauche, penhor, catapulta e vitrine da revolucionária prosa joyceana. Com Beckett não foi diferente. Beckett serviu a Joyce tanto quanto ou mais que Thomas McGreevy e outros irlandeses exilados em Paris nos anos 20 e 30. Ao mestre emprestou seus olhos (para leituras diversas), sua cabeça (até para fazer pesquisas) e suas pernas (até para fazer compras).

O que Beckett, bem no íntimo, achava de Joyce continua sendo uma incógnita. Os personagens que teria criado à imagem dele, como o mítico clochard de Watt, o Pozzo de Esperando Godot e o Hamm de Endgame, me parecem homenagens discutíveis. Pozzo e Hamm, por exemplo, são dois megalômanos.

Além de mobilizá-lo para todo tipo de serviço, Joyce encomendou a Beckett um ensaio crítico sobre o que mais tarde seria conhecido como Finnegans Wake e era apenas uma obra em progresso em 1929. O ensaio "Dante...Bruno...Vico...Joyce", ao contrário do que a mesma Folha de S. Paulo propalou, não punha em relevo as admirações literárias e filosóficas que Beckett então cultivava e sim as fontes italianas — Dante Alighieri, Giordano Bruno e Gianbattista Vico — nas quais Joyce bebera com maior freqüência antes de pôr Humphrey Chimpden Earwicker para dormir. Nesse ensaio, o primeiro que publicou, Beckett, então com 23 anos, discutia algumas idéias que sustentariam, teoricamente, sua obra literária e teatral: o direito do autor a um texto opaco, fim da divisão entre forma e conteúdo etc. Ainda naquele ano, Beckett publicou seu primeiro conto, "Assumption", nas páginas de transition, revista de vanguarda e simpática ao surrealismo, dirigida por Eugene Jolas e por algum tempo a única aberta ao experimentalismo beckettiano.

A sombra de Joyce se projeta sobre as primeiras obras de Beckett quase sem deixar claros para outras influências. Os dez contos enfeixados em More Pricks Than Kicks, urdidos a partir de 1932, pretendem ser uma variação irônica de Dublinenses e têm como herói um personagem (Belacqua) extraído de uma das admirações de Joyce: Dante. É indisfarçavelmente joyceana a exuberante linguagem de Murphy, sua primeira novela (não um romance), escrita em 1935, mas os diálogos da peça Esperando Godot, escritos 13 anos mais tarde, originalmente em francês e comprometidos com uma prosa enxuta, coloquial, confirmaram o que alguns já haviam percebido: o discípulo tornara-se um antípoda do mestre.

A economia de linguagem de Godot é um dos vários exemplos da apostasia beckettiana. Ao passo que Joyce não só acreditava como investia, qual um fanático, no poder das palavras, Beckett passou a tratá-las com crescente ceticismo. Um exame de seus manuscritos revelou os intensos processos de redução, enxugamento e simplificação a que se submetia até considerar um texto acabado. Confidências de parceiros o pintam como um autor aberto a sugestões destinadas a facilitar a compreensão de sua complexa dramaturgia. Quando montava Krapp’s Last Tape, Alan Schneider (1918-1984), o único diretor americano a encenar todas as peças de Beckett, sugeriu que se trocasse uma palavra do texto. Pouca gente, alegou, iria entender o significado de wir (eclusa). Sugeriu lock (comporta). Beckett não só aceitou como agradeceu a sugestão.

Àqueles em quem confiava, como era o caso de Schneider, Beckett costumava dar ampla liberdade de criação. De modo geral, porém, patrulhava com extremo rigor as montagens de suas peças para evitar distorções e picaretagens do tipo Esperando Godot representada por quatro hermafroditas ou coisa parecida. Em 1973, Andre Gregory encenou Endgame com os atores pontuando suas falas com ruídos escatológicos e a platéia confinada numa jaula. Beckett ficou deprimido. Se soubesse o que outros fariam com a mesma peça, teria proibido qualquer montagem fora do alcance de sua vigilância. Em meados da década de 1980, JoAnne Akalaitis pôs em cena, em Cambridge (Massachusetts), uma versão de Engdame cujo metafórico fim do mundo acabou virando um apocalipse explítico. Beckett arrependeu-se de ter dado carta branca à diretora.

Enquanto pajeava Joyce e dava aulas na École Normale Supérieure de Paris, Beckett concluiu um estudo crítico sobre os conceitos de tempo, memória e costumes na ficção proustiana. "Proust" é um ensaio bem menos polêmico do que o centrado em Joyce, mas nele ainda sobram farpas contra o realismo. O impressionismo proustiano só não o encantou mais que o racionalismo cartesiano. Nada mais filosoficamente próximo ao universo beckettiano que a função privilegiada atribuída por Descartes à mente humana e às suas dúvidas em relação ao real por ela percebido.

Tão grande era sua estima por Descartes que chegou a utilizá-lo como o versejador de Whoroscope, erudito poema de 98 linhas, confeccionado meio às pressas para um concurso patrocinado, em 1930, por Nancy Cunard, a milionária herdeira que barbarizava Paris com seu comportamento, sua poesia e seu penchant por amantes negros. Beckett levou o prêmio (10 libras) e continuou fiel a Descartes, inventando e reinventando cérebros que questionam a validade dos seus questionamentos. Um homem (ou uma mulher) em conflito com os limites de sua percepção, celebrando a futilidade da existência — eis, em suma, do que trata a obra de Beckett.

Comemorar seu centenário de maneira convencional seria outra futilidade, talvez a maior de todas. Em respeito a Beckett, apenas reeditem, traduzam e encenem (bem) sua obra. Isso basta. Endgame.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Publicado originalmente na revista Argumento, na edição de março de 2006.


Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 22/5/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/6/2006
14h15min
A minha geração (estou com 38) foi marcada pela abertura política (1982) e pelo caderno Ilustrada, da Folha de S Paulo. Todos os dias esperávamos ansiosos para ler aquilo que nos parecia o oráculo da modernidade. De repente, naquelas páginas marcadas de preto, estava toda a informação que nos foi negada durante anos (e nos parecia que ninguém, além de nós, éramos os detentores desse santo graal). Aqueles que não tinham grana, surrupiavam o jornal da biblioteca, de algum departamento, do escritório do pai ou mesmo de bancas com atendentes distraídos. Os honestos esperavam pacientemente que alguém cedesse uma das páginas. Ah, e que páginas. Ali ficamos sabendo da existência dos beats, beatniks, Joyce, Pound, Beckett, do ovo de Ginsberg e do pé na estrada de Kerouac. Tivemos a chance rara de sermos iluminados pelos quadrinhos do underground americano (Fritz, the cat, me fez rir tanto quanto Mr. Natural) e dançar o bebop e ficar míope de tanta nouvelle vague. Foi nossa primavera. Foi bom.
[Leia outros Comentários de Wilson Sagae]
9/6/2006
03h43min
Entre James e Samuel (Joyce e Beckett) havia um espaço muito maior do que a proximidade física entre os dois deixava perceber. Joyce, mais velho, é um brilhante adolescente. Beckett já era velho aos vinte e poucos anos. Joyce nunca saiu de dentro dos seus textos, andava por ali meio deslumbrado com o labirinto de suas próprias palavras e, se o problema de Joyce for a tradução para o português, tudo bem, que seja, mas Joyce escreve de um jeito meio infantil. Beckett saiu do labirinto, como Dédalo, e o único risco que correu foi se afastar demais dele (do labirinto) a ponto de perdê-lo de vista. Ambos tinham em comum interesses literários, cultura, inteligência e poucos outros amigos. Se entendiam muito bem. Mas é tentador imaginar o que Beckett pensava de seu ilustre e mais velho colega: "Não vou escrever dessa maneira".
[Leia outros Comentários de Guga Schultze]
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