Harold Ramis (1944-2014) | Marcel Plasse

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Segunda-feira, 3/3/2014
Harold Ramis (1944-2014)
Marcel Plasse

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Morreu o ator, diretor, roteirista e caça-fantasmas Harold Ramis, criador de comédias inovadoras que marcaram época. Ele faleceu na segunda-feira (24/2) aos 69 anos de idade em Chicago, em decorrência de um tipo raro de vasculite autoimune, contra a qual lutava desde 2010.

Ramis nasceu em 21 de novembro de 1944 em Chicago, filho de lojistas. Após se formar na Universidade de Washington, trabalhou sete meses num hospital psiquiátrico e como professor num dos bairros mais violentos de Chicago, antes de começar a escrever para a imprensa como freelancer, o que eventualmente o levou a se tornar editor da página de humor da revista Playboy.

Na metade dos anos 1960, juntou-se à trupe teatral Second City, um grupo de atores de Chicago que fazia comédia de improvisos, que se tornou tão famoso que acabou virando a fonte do elenco original do programa humorístico Saturday Night Live. Foi lá que descobriu grandes amigos e sua verdadeira vocação.

"O momento em que eu percebi que não me tornaria uma grande estrela da comédia foi quando eu subi no palco com John Belushi pela primeira vez", ele contou ao jornal Chicago Tribune em 1999. "Quando eu vi o quão longe ele estava disposto a ir para obter um riso. como se atirava, literalmente, para fora do palco, tomando grandes quedas, estrangulando outros atores, eu pensei: 'Como eu poderia chamar mais atenção que um cara como esse?'"

Mas ele tinha uma vantagem. Ele podia escrever. Dedicaria-se também a dirigir. E faria alguns papeis secundários para acompanhar os amigos, só por diversão. Com isso em mente, juntou-se a Belushi e a outro colega da Second City, Bill Murray (com quem filmaria seis comédias), para tentar emplacar em Nova York nos anos 1970.

Os três acabaram trabalhando num programa humorístico de rádio, The National Lampoon Radio Hour, produzido pela equipe da revista de humor National Lampoon. E quando Belushi e Murray foram integrar a equipe do Saturday Night Live, Ramis desenvolveu o programa de TV da Second City (SCTV, com John Candy, Eugene Levy, Rick Moranis e Martin Short) e seu primeiro roteiro de cinema.

Com produção da National Lampoon, a estreia de Ramis como roteirista foi simplesmente O Clube dos Cafajestes (1979), comédia cultuadíssima e uma das mais influentes de todos os tempos, que mudou o tom do humor juvenil no cinema com a inclusão de muito sexo, festas universitárias e disputas entre fraternidades.

Dirigido por John Landis, o filme foi um grande sucesso de bilheterias e originou inúmeras imitações, como Porky's (1982) e A Vingança dos Nerds (1984). De quebra, também lançou uma geração de atores que marcaram época, entre eles o grande John Belushi, que em seu primeiro filme transformou o animal festeiro John Blutarsky num personagem icônico, além dos estreantes Kevin Bacon (série The Following), Karen Allen (Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal) e Tom Hulce (Amadeus).

Mais que impulsionar o humor sexual que tomaria o cinema nos anos 1980, O Clube dos Cafajestes também tinha um tom subversivo, que sutilmente celebrava o revide dos excluídos contra o sistema autoritário, representado pelo reitor da universidade. "Eu tento dar voz aos perdedores, porque a comédia geralmente fala para as classes mais baixas", disse Ramis uma vez. "Atacamos os vencedores." O que não deixa de ser um modo de resumir sua galeria de personagens inesquecíveis.

Seu roteiro seguinte foi Almôndegas (1979), outra comédia juvenil picante, que lançou Bill Murray no cinema, além de inaugurar o filão dos filmes de acampamentos de férias e uma parceria bem-sucedida com o diretor Ivan Reitman.

Com a confiança obtida por dois sucessos de bilheterias, Ramis fez sua estreia como diretor, filmando mais um clássico do humor, Clube dos Pilantras (1980), passado num clube elitista de golfe, novamente com Bill Murray, além de Chevy Chase e Roger Dangerfield. Entre as piadas anárquicas, que expunham a hipocrisia dos ricos e poderosos, destacavam-se a confusão causada por um chocolate de aparência suspeita flutuando numa piscina e o raio que acerta um clérigo após ele agradecer a Deus pela melhor partida de sua vida.

Ramis só foi aparecer diante das câmeras em sua quarta comédia, Recrutas da Pesada (1981), também dirigida por Reitman, como coadjuvante de Murray numa tropa de soldados ineptos, que ainda incluía John Candy. O longa conseguia avacalhar o militarismo americano, sem que os conservadores pudessem fazer seus protestos serem levados a sério.

Seu segundo filme como diretor foi também um dos mais bem-sucedidos de sua carreira. Ramis lançou uma franquia ao levar às telas o primeiro Férias Frustradas (1983), no qual Chevy Chase tenta viajar com a família de férias, apenas para ver tudo dar errado. Um clássico indisputável do bom humor, que inspirou, além de sequências, inúmeras variações cinematográficas, abrangendo da filmografia quase completa do diretor Todd Phillips (Se Beber, Não Case) até o fenômeno indie A Pequena Miss Sunshine (2006).

A esta altura, ele já tinha começado a transitar do humor picante do começo de sua carreira para as comédias voltadas para toda a família, acumulando ao longo de sua filmografia algumas das comédias mais famosas da década de 1980. Mas o maior sucesso ainda estava por vir, em sua próxima parceria com o diretor Ivan Reitman.

Ramis escreveu e atuou em Os Caça-Fantasmas (1984), seu primeiro filme de fantasia e efeitos especiais. Na trama, ele encarnava Egon Spengler, o mais nerd do trio de cientistas especializados em parapsicologia, que incluía Bill Murray e Dan Aykroyd. Juntos, eles se tornam a única esperança de Nova York, quando a cidade se vê em meio a uma crise sobrenatural, com ataques de fantasmas e a ameaça do apocalipse.

A produção de Os Caça-Fantasmas era caríssima para a época: US$ 30 milhões, graças aos efeitos visuais elaborados. Mas seu lançamento mundial rendeu 10 vezes este valor, quebrando recordes de bilheteria para se tornar uma das comédias mais bem-sucedidas de todos os tempos, com direito a trilha na parada de sucessos e incorporação eterna na cultura pop. Foi um fenômeno tão grandioso que seria difícil superá-lo.

Inevitavelmente, Ramis conheceu seu primeiro fracasso em seu trabalho seguinte, como roteirista e diretor de Clube Paraíso (1986), comédia passada num resort habitado por Robin Williams, Peter O'Toole e o cantor Jimmy Cliff. No mesmo ano, seu roteiro de Armados e Perigosos, com John Candy e Meg Ryan, implodiu nas bilheterias e arrancou críticas negativas. Ele também se divorciou. E foi encontrar refúgio na religião, convertendo-se ao budismo.

A continuação de Os Caça-Fantasmas em 1989 mostrou que Ramis ainda tinha boas piadas para contar. Embora com menos sucesso, o filme ajudou a manter os personagens no imaginário popular. Foi uma injeção de ânimo para que ele pudesse se reinventar.

Após quatro anos, ele retornou com seu melhor roteiro. Em 1993, Ramis escreveu e dirigiu sua obra-prima: O Feitiço do Tempo. Na trama, Bill Murray vivia um repórter rabugento que acabava magicamente preso numa repetição constante do mesmo dia. Único com consciência da reprise dos fatos, ele testemunha as pessoas fazerem e dizerem as mesmas coisas, dia após dia, até mudar sua atitude e decidir ter um dia perfeito, com direito a final feliz romântico.

O Feitiço do Tempo provou-se imbatível como comédia, fantasia e romance. Uma combinação rara e perfeita, que influenciou roteiros dos mais diversos gêneros, desde a comédia Click (2006), com Adam Sandler, até a ficção científica Contra o Tempo (2011), com Jake Gyllenhaal. O filme também lhe rendeu os únicos prêmios de sua carreira, incluindo o BAFTA (o Oscar britânico) de Melhor Roteiro Original.

Ramis voltou à fantasia com a comédia de clones Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias (1996), sem tanto sucesso. Mas seu último grande êxito veio logo em seguida, com Máfia no Divã (1999), que consagrou o ator Robert De Niro como comediante, ao satirizar os diversos personagens mafiosos de sua filmografia.

Assim como Clube dos Pilantras e Os Caça-Fantasmas, o filme também ganhou uma sequência menos divertida, A Máfia Volta ao Divã (2002). Mas a continuação arrecadou apenas um terço do que obteve a comédia original, resultando num grande prejuízo financeiro ― a produção não se pagou.

O último longa que escreveu e dirigiu foi Ano Um (2009), comédia pré-histórica estrelada por Jack Black, que também teve desempenho medíocre de público e crítica. Ele ainda escreveu para a TV, ajudando a desenvolver a série animada baseada em Os Caça-Fantasmas e dirigiu episódios de The Office.

Nos últimos anos, vinha sendo assediado por cineastas da nova geração para aparecer em comédias. Judd Apatow dizia que ele "era o pai que sempre quis ter", e assim o filmou como o pai de Seth Rogen no filme Ligeiramente Grávidos (2007). Como ator, também foi o médico de Jack Nicholson no divertido e premiado Melhor É Impossível (1997), o pai de John Cusack no cultuado Alta Fidelidade (2000) e participou de dois filmes do jovem cineasta Jake Kasdan: Correndo Atrás do Diploma (2002) e A Vida é Dura: A História de Dewey Cox (2007).

Ramis ainda tentava tirar do papel o projeto de Os Caça-Fantasmas 3, que desenvolvia com Dan Aykroyd e seus co-roteiristas de Ano Um, mas não conseguiu devido à recusa de Bill Murray em participar do projeto. Numa entrevista de 1993 ao jornal Los Angeles Times, realizada na época de O Feitiço do Tempo, ele se dizia orgulhoso de ter feito dois ― talvez quatro ― filmes que poderiam ganhar uma nota de rodapé na história do cinema. "Isso me dá um tremendo senso de realização."

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no site Pipoca Moderna.


Marcel Plasse
São Paulo, 3/3/2014

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