John Fante: literatura como heroína e jazz | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
22994 visitas/dia
708 mil/mês
Mais Recentes
>>> "A PALAVRA FORA DO LUGAR: ESCRITORES REFUGIADOS E EM RISCO no CCBB RJ
>>> Escritora Regina Zappa fala sobre maio de 1968 no Sem Censura
>>> Roberta Sá e Gilberto Gil lançam single
>>> Renova Centro promove evento de entrega do Prêmio Dom Quixote a quem faz a diferença no Cen
>>> Exposição gratuita retrata cultura underground de São Paulo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Cães, a fúria da pintura de Egas Francisco
>>> O Vendedor de Passados
>>> A confissão de Lúcio: as noites cariocas de Rangel
>>> Primavera para iniciantes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
>>> Joan Brossa, inéditos em tradução
>>> Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
>>> Existem vários modos de vencer
Últimos Posts
>>> Entre a esperança e a fé
>>> Tom Wolfe
>>> Terra e sonhos
>>> Que comece o espetáculo!
>>> A alforja de minha mãe
>>> Filosofia no colégio
>>> ZERO ABSOLUTO
>>> Go é um jogo mais simples do que imaginávamos
>>> Wild Wild Country
>>> Um velho adolescente
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O lilás da avenida sou eu
>>> O Anvil e o amor à música
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Physica Curiosa: a feiura dos pés
>>> Olga e a história que não deve ser esquecida
>>> Ficção Brasileira Contemporânea, por Karl Erik Schøllhammer
>>> Mário Botas ou o Regresso de Narciso
>>> Ficar ou não ficar?
>>> Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia
>>> Acordo Internetês Ortográfico
Mais Recentes
>>> Iemanjá/Ogum - Volume 1
>>> Corações de Pedra
>>> A Escolha de Sofia
>>> Pedagogia Do Amor
>>> Veja - A História é Amarela
>>> Os Segredos que não contei para as Donas de Casa
>>> Deficiência e Trabalho
>>> A Alegoria da Caverna
>>> O Duque e Eu - Os Bridgertons - 1
>>> Até que a Vida os Separe
>>> Nos Subterrâneos da Mente - Psiquiatria na Vida Diária
>>> Desenvolvimento da Linguagem Oral e Escrita em Criancas de 0 A 5 Anos
>>> Os Sentidos da Paixão
>>> As Marcas Diabólicas
>>> Entenda e Ponha em Prática as Ideias de Stephen Covey
>>> O Fardo da Nobreza
>>> Entenda e Ponha em Prática as Ideias de Andrew Grove
>>> A Dieta do Rabino ( A cabala da Comida)
>>> A guerra suja
>>> A Cabala do Dinheiro
>>> Secretário intimo preboste e juiz ou intendente dos edifícios ou mestre em Israel
>>> La Fête au Bouc
>>> O Retrato 2 Tomo
>>> O Continente- Tomo 2
>>> Esaú e Jacó
>>> Dom Casmurro
>>> Memorial de Aires
>>> A mão e a luva
>>> Obra Poética
>>> Obra completa - 02 vols.
>>> Os Sertões - 03 vols.
>>> O homem
>>> O mulato
>>> Casa de Pensão
>>> Livro de uma sogra
>>> Fantoches e Outros contos
>>> Noite e O prisioneiro
>>> Saga
>>> O resto é silêncio
>>> Caminhos Cruzados
>>> Israel em abril.
>>> A volta do gato preto
>>> Um lugar ao sol
>>> O Senhor Embaixador
>>> Gato preto em campo de neve
>>> Solo de clarineta - 02 vols.
>>> Clarissa
>>> Música ao longe
>>> Um certo Henrique Bertaso e Artigos diversos
>>> México
COLUNAS

Segunda-feira, 21/7/2003
John Fante: literatura como heroína e jazz
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 16000 Acessos
+ 7 Comentário(s)

(Dedicado a Welbert Belfort.)

Quem quiser seguir o conselho de Baudelaire e, vez por outra, chafurdar o fochinho na lama, deve ler a obra de John Fante, ou apenas Pergunte ao Pó, lançado este ano no Brasil pela editora José Olympio, com tradução de Roberto Muggiati.

O escritor ítalo-americano John Fante nasceu no Colorado, em 1909. Sua carreira literária começou em 1929, mas só conseguiu publicar seu primeiro conto em 1932, na The American Mercury. Seu primeiro romance, Espere a primavera, Bandini, saiu em 1938. Logo após, no ano seguinte, publicou Pergunte ao pó. Em 1940 saiu uma coleção de contos, denominada Dago Red, que se encontra reunida agora no livro O vinho da juventude.

Fante também ocupou-se com roteiros de cinema para Hollywood — vale conferir o sugestivo "Walk on the wild side" (Pelos bairros do vício).

No ano de 1955 Fante começou a sofrer por causa da diabete, que o levaria à cegueira em 1978 — o que não o impediu de continuar a criar, ditando sua prosa para a sua companheira Joyce. Aos 74 anos, bastante convalescido, bateu as botas.

O prefácio da edição brasileira de Pergunte ao pó traz um texto escrito por Charles Bukowski. Ali ele narra seu interessante encontro com a obra de Fante. Naquela época, passando fome, trepando com qualquer buraco que encontrava, bebendo feito um desgraçado e tentando ser escritor, Bukowski procurava alguma coisa que prestasse para ler, numa biblioteca pública de Los Angeles. Cansado da mistura de sutileza, técnica e forma que encontrava nos romances, deu de cara com Pergunte ao pó. Deu uma espiada, viu que valia a pena investir tempo naquela leitura, decidindo-se por levá-lo para casa. Claro, leu numa sentada só e, depois, procurou tudo o que o escritor havia publicado. Encontrou na obra de Fante seu irmão literário. Sentiu-se, como descreve, como alguém que encontra ouro no meio de um lixão da cidade.

As características que encantaram Bukowski? Um fluxo cambaleante de escrita que parecia uma mistura de jazz, conhaque barato, heroína, linhas movidas a energia descontrolada, uma emoção criada apenas por aqueles que não a temem, um humor e dor entrelaçados numa soberba simplicidade.

O livro conta a história do alter-ego do autor, o escritor Arturo Bandini, filho de imigrantes, jovem dotado de interesse por ser escritor e marginalizado pela sociedade. O personagem sente através de sua vocação literária o desejo de traduzir na sua obra o calor da vida desregrada na qual ele mesmo vive mergulhado. O romance se passa nos anos trinta, nas ruas, bares e hotéis pobres e podres de Los Angeles.

Bandini é um herói literário que se consome no sexo e no álcool, um vagabundo melancólico, eufórico e sórdido, trazendo uma cota de escatologia, autenticidade e autodestruição bastante exemplar do niilismo que lembra o fim do século XIX. Sua obsessões são alcançar a fortuna,o êxito literário e conquistar as mais belas mulheres. Porém, não consegue mais que derrotas, trabalhos medíocres onde o pagam quase nada e o amor de uma mulher que tem a idade de sua mãe, com a qual viverá experiências grotescas.

Lida em perspectiva, a obra de Fante é um registro do rápido século XX que encontrou nos Estados Unidos uma mistura frágil de ambição e desilusão, concentradas na idéia da luta pelo progresso e pelas oportunidades individuais que se potencializam mutualmente: quanto maior o fracasso, maior o desejo de seguir à frente, a qualquer preço.

O livro é escrito em ritmo de alta velocidade, num calor próximo às apresentações jazzísticas da época. Assim também nós fazemos a sua leitura. Nesse sentido, ele anuncia o que viria a ser a prosa e a poesia da Geração Beat.

Não se deve procurar nesse romance uma "prosa de época", uma "reportagem" sobre a Los Angeles dos anos 30. Não há aqui nenhum tipo de jornalismo. Como disse Proudhon, "o jornal é o cemitério das idéias". Na literatura a coisa é diferente. E neste caso, em Pergunte ao pó, as coisas esquentam como o sangue injetado de cocaína e uísque. A vida flui em sua contradição mais desesperadora, misturando afetos, desejos, pobreza, desdém, desespero, solidão, descontrole alcoólico e libidinal.

Ao invés da América ascética, protestante, bem firmada em seu conservadorismo, em seu racismo e prepotência fascistóide, mergulhamos com o romance de Fante em situações e emoções tipicamente humanas, do mais baixo calão, porém, dotadas de uma vitalidade noturna traduzida, no fraseado melódico de sua literatura, em gritos e hurros provindos da natureza animal daqueles que habitam à margem das cidades. Sim, trata-se dos cidadãos da noite, que vivem em bares sujos, dormindo em hotéis decadentes, gozando de prazeres desregrados, consumindo heroína, blues, jazz (essa manifestação, segundo Norman Mailer, do lado negro e reprimido da América), e vivendo atolados em delírios alcoólicos.

"Venha para a América e conheça o quão selvagem pode ser o amor, a ambição e a dor do homem civilizado". Esta poderia ser a epígrafe do livro de Fante.

Este romance encontra sua tradução perfeita no belíssimo poema "Howl", de Allen Ginsberg, que traduz uma geração inteira, posterior a Fante, no entanto, devedora de seu espírito literário e existencial. Um poema de longos fraseados, como o sax de John Coltrane num bar esfumaçado (danem-se os não-fumantes — que se tranquem em casa e nos deixem em paz com nossos sentimentos e bares noturnos), fruto de uma mente que corre solta, desengonçada, inspirada e selvagem. Eis um trecho do poema:

"Histéricos, nus e famintos
tragados pelas ruas negras da madrugada a procura
de um pico raivoso,
Hipsters angelicais queimando-se pela primitiva ligação celestial
Nos dínamos chocantes das engrenagens da noite,
Miseráveis e esfarrapados com olhos sagrados nas alturas do fumo
Na escuridão do topo das cidades contemplando jazz..."

Mas não se pense que o caso de Fante se relaciona com a literatura de protesto. Aqui a vida se transfigura, não em discursos politicamente corretos, mas em visões delirantes, talvez mais próximas de um Blake do que de um Marx. Os personagens de Fante se torcem pelas ruas e pela vida numa verdadeira fúria adversa, numa ambientação muito próxima a das soturnas obras criadas por Goya. Seu realismo é sujo, vulgar, pronto para a indecência e o desespero. Assim o é porque seu escritor é um selvagem, um antiintelectual.

Apesar disso, os personagens de Fante estão orgulhosos de ter nascido na América, de ali viver, pois eles sabem que "vão comer hamburgueres, ano após ano, e viver em apartamentos e hotéis empoeirados, infestados de vermes, mas toda manhã vão ver o poderoso sol, o eterno azul do céu, e as ruas estarão cheias de belas mulheres que vocês nunca possuirão e as noites quentes e semitropicais recenderão a romances que vocês nunca vão viver, mas ainda assim estarão no paraíso, rapazes, na terra do sol".

A loucura do personagem Bandini, com seus delírios de grandeza e seu impiedoso orgulho, tem a virtude de expressar as pressões morais dos sujeitos "incorrigíveis". Sua fúria contra a religião, seu desprezo pelos débeis, seu ódio pela mediocridade burguesa e a seu próprio abatimento, são os elementos que dão a voltagem do personagem e seu encantamento.

Para ir além






Jardel Dias Cavalcanti
Campinas, 21/7/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O bosque das almas infratoras de Elisa Andrade Buzzo
02. Literatura, Interação e Interatividade de Marcelo Spalding
03. Não presta, mas vá ver de Carla Ceres
04. A idade que habito de Marta Barcellos
05. A convergência das mídias de Gian Danton


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2003
01. Felicidade: reflexões de Eduardo Giannetti - 3/2/2003
02. Entrevista com o poeta Augusto de Campos - 24/3/2003
03. John Fante: literatura como heroína e jazz - 21/7/2003
04. Os Dez Grandes Livros - 15/10/2003
05. O Fel da Caricatura: André de Pádua - 3/3/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/7/2003
08h54min
Parabéns pelo artigo, caro Jardel. O início do texto é um primor de concisão acerca da obra de Fante. Ler pergunte ao pó é, de fato, chafurdar o focinho na lama.
[Leia outros Comentários de Fabio Cardoso]
21/7/2003
09h51min
Caro Fabio, obrigado pelo comentário e leitura. fante é eletricidade pura, no estilo. jardel
[Leia outros Comentários de jardel]
6/8/2003
13h54min
"Hurros"? Bom texto, Jardel. Pena que alguns livros de Fante (como Sonhos em Bunker Hill) e Bukowski (Hollywood, A mulher mais linda da cidade, etc) só se têm em português e a preços razoáveis naquela coleção da L&PM pocket, cheia de erros.
[Leia outros Comentários de Fabiana]
6/8/2003
14h30min
fabiana, obrigado pelo comentário. em termos editoriais estamos num buraco sem fundo. não há nada traduzido nesse país. e as editoras exigem traduções diretas do original, o que piora tudo. jardel
[Leia outros Comentários de jardel]
4/9/2003
12h14min
Bom texto,traduz bem o espírito da obra de Fante. Comete apenas um equívoco: Pergunte ao Pó não foi lançado no Brasil este ano. E sim em 1983, pela Editora Braziliense, com boa tradução.
[Leia outros Comentários de Cleber Borges]
4/9/2003
22h31min
caro Cleber, obrigado pelo comentário. eu usei a edição nova da editora josé olympio. infelizmente, eu não conhecia esta outra. abraço, jardel
[Leia outros Comentários de jardel]
12/9/2003
11h06min
Essa edição de 83 tem tradução do Paulo Leminski e só se encontra em sebos e a preços não muito convidativos.
[Leia outros Comentários de Leonardo Alonso]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




CONHECIMENTO OBJETIVO - UMA ABORDAGEM EVOLUCIONÁRIA
KARL POPPER
ITATIAIA
(1975)
R$ 49,90



A ESPANTOSA VIDA DE OCTAVIAN NOTHING - TRAIDOR DA NAÇÃO
M. T. ANDERSON
WMF MARTINS FONTES
(2009)
R$ 14,90
+ frete grátis



BAZAR DO FOLCLORE - VOLUME 5 (LITERATURA INFANTO-JUVENIL)
RICARDO AZEVEDO
ÁTICA
(2001)
R$ 8,00



GRACILIANO RAMOS
ASSIS BRASIL
ORGANIZAÇÃO SIMÕES
(1969)
R$ 45,00



LIVRO DEPRESSÃO E ANSIEDADE
LINCOLN MIYASAKA E CELMA MIYASAKA
ABBA PRESS
(2008)
R$ 19,90



SR. GUM E OS CRISTAIS DE PODER
ANDY STANTON
GALERINHA RECORD
(2013)
R$ 11,50



COZINHA CAIPIRA DE CELIA E CELMA
CELIA MAZZEI
NOVA FRONTEIRA
(1994)
R$ 50,00



A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS
JÚLIO VERNE
LIVRARIA BERTRAND
R$ 50,00



THE LENORMAND FORTUNE-TELLING CARDS: THE LEGENDARY 18TH-CENTURY ORACLE
HAROLD JOSTEN
STERLING ETHOS
(2017)
R$ 199,99



QUALIDADE DE V|IDA - 3ª EDIÇÃO
DR. WANDERLEY RIBEIRO PIRES
DO AUTOR
(1997)
R$ 7,00





busca | avançada
22994 visitas/dia
708 mil/mês