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COLUNAS

Terça-feira, 11/5/2004
As Mil e Uma Noites de Nélida
Luis Eduardo Matta
+ de 5600 Acessos

Um clássico da Literatura árabe e uma das peças literárias mais fascinantes de todos os tempos, a coletânea de contos de As Mil e Uma Noites atravessou séculos encantando gerações com a atmosfera inebriante e sedutora de um Oriente longínquo, mágico e quase mítico. O Califa de Bagdá, após descobrir a infidelidade da sua esposa que o traíra com um escravo, a mata e decide vingar-se de todas as donzelas do reino, deitando-se com uma a cada noite e assassinando-as no dia seguinte. A filha do Vizir, a, sagaz e impetuosa Scherezade, a mais linda princesa da corte, decide arriscar a própria vida para por um fim a essa matança indiscriminada e oferece-se para passar uma noite com o soberano, pedindo-lhe, apenas, a companhia de sua irmã, Dinazarda na câmara nupcial. O Califa concorda e, no meio da noite, Dinazarda, obedecendo ao plano previamente arquitetado pela irmã, pede a Scherezade que lhe conte uma de suas fábulas maravilhosas. Seduzido pela narrativa, o Califa adia a execução da jovem por um dia a fim de poder conhecer o seu final. No entanto, a habilidade de Scherezade em contar histórias, aliada a uma bem urdida tática de sempre reservar o desfecho para a noite seguinte a fim de atiçar a curiosidade do soberano, faz com que sua morte seja postergada indefinidamente por mil e uma noites, ao término das quais o Califa, irremediavelmente apaixonado pela jovem, renuncia à sua sede de vingança.

Símbolo da tradição oral dos povos muçulmanos, a maior parte das histórias de As Mil e Uma Noites teria sido redigida no Egito no século XIV e sua primeira versão para o Ocidente, realizada pelo francês Antoine Galland, data do XVII. Por se tratar de uma obra tão antiga e cativante – e, por isso mesmo, já suficientemente explorada por escritores, dramaturgos e artistas em todo o mundo – debruçar-se sobre ela com o intuito de recontá-la sem cair na armadilha da repetição fácil, é um desafio com enormes chances de fracasso. É preciso que o autor possua uma sensibilidade e um talento imaginativo tão extraordinários quanto os da própria Scherezade, além de uma profunda intimidade com a natureza da obra e das suas personagens, para conseguir recriá-las de forma lúdica e atraente sem, contudo, trair a sua essência original.

Com a recente publicação do romance Vozes do Deserto (Record; 352 páginas; 2004), a escritora e acadêmica Nélida Piñon foi além dessas expectativas e brindou os leitores com um verdadeiro tratado sobre o exercício da criação literária, ao magnificar duas das grandes metáforas presentes na história: a relação entre autor e leitor - representados respectivamente por Scherezade e pelo Califa - e a própria formação do escritor e o gradual aprimoramento da sua técnica, simbolizados pelas noites seguidas nas quais a princesa tenta seduzir o soberano com suas fábulas, pondo repetidamente à prova a sua capacidade imaginativa. Dessa forma, Nélida expõe com rara habilidade todos os mistérios, dilemas e angústias inerentes ao ofício literário, que vão desde a escrita propriamente dita até o desafio de cativar leitores através das palavras, convidando-os a abrir mão, por alguns instantes, da realidade e imergir no universo onírico da ficção. Uma bela homenagem da autora à arte milenar de contar histórias.

Valendo-se da linguagem elegante, refinada e fluente característica dos seus livros, como A República dos Sonhos e A Casa da Paixão, Nélida transpõe com maestria a história, originalmente ambientada na Pérsia, para a esplendorosa e vibrante Bagdá do apogeu do Califado Abássida. A escritora dedicou cinco anos ao estudo minucioso da história e da cultura árabe e islâmica a fim de reproduzir com fidelidade atmosfera, hábitos e sensações do Oriente Médio de mil anos atrás, tomando, porém, o cuidado de não lotear o livro com informações em excesso, uma verdadeira tentação para os escritores às voltas com pesquisas aprofundadas, longas e, muitas vezes, apaixonantes. É justamente nesse ponto que reside, a meu ver, um dos maiores méritos do livro: o seu caráter inovador dentro do contexto da Literatura brasileira. Ao optar pelo Oriente Médio medieval como cenário de seu livro – uma região pródiga e extraordinária na criação, a começar pela invenção do Deus monoteísta, segundo a própria escritora – Nélida Piñon contrariou uma espécie de regra informal vigente entre os escritores brasileiros de, unicamente, conceber livros sobre o Brasil, ambientados no Brasil ou, ao menos, protagonizados por brasileiros, sob pena de terem os seus trabalhos tachados como pastiches sem identidade. O Brasil, talvez por conta da sua eterna e insaciável busca por uma imagem e um sentido que satisfaçam aos anseios das elites e dos intelectuais e, ao mesmo tempo, se ajustem à realidade nacional sem mais ousar adaptá-la a um desejado e inacessível modelo puramente europeu, sempre desprezou aqueles que buscaram lançar um olhar para além das nossas fronteiras, provavelmente por julgar que temos muitos problemas por aqui que necessitam ser continuamente debatidos e aprofundados. Não deixa de haver uma certa lógica neste raciocínio, ainda mais se considerarmos que os grandes cérebros são escassos em nosso país, mas a Literatura e a arte de um modo geral, não podem se deixar confinar por esses limites, pois isso vai contra a sua natureza insubordinada e liberta. Uma obra como a monumental O Último Refúgio, da inglesa M. M. Kaye, uma saga apaixonante ambientada na Índia da segunda metade do século XIX e um dos melhores romances lidos por mim até hoje, certamente jamais alcançaria a projeção que alcançou, caso houvesse sido escrita por um brasileiro (e, naturalmente, encontrasse alguma editora disposta a lançá-la). Da mesma forma, o peruano Mario Vargas Llosa não conseguiria publicar autênticas obras-primas como A Festa do Bode (passado na República Dominicana do ditador Trujillo) ou A Guerra do Fim do Mundo (sobre o conflito de Canudos), nem Shakespeare teria escrito peças célebres do quilate de Romeu e Julieta e Hamlet, se vivessem no Brasil, pois o patrulhamento intelectual disfarçado de patriotismo não permitiria.

Se bem que, se pensarmos com cuidado, tanta artilharia não encontraria munição suficiente no caso particular de Vozes do Deserto, uma vez que a saga de Scherezade não é exclusiva dos povos árabes; ela pertence a todos que prezam a imaginação e o fabulário como patrimônios intransferíveis do homem. Inclusive, mostrando através de histórias como as de Aladim, Simbad e Ali Babá que não há fronteiras para o exercício da criação. Vozes do Deserto, além de um romance primoroso, funciona como uma aula sobre a prática de narrar, de inventar, de não ter pudores em mergulhar no mundo da imaginação e da fantasia. Todo ficcionista que der as mãos a Nélida Piñon e a Scherezade e se entregar com atenção e arrebatamento às páginas deste livro, certamente terminará a leitura com um sorriso no rosto e a certeza de ter auferido um inestimável conhecimento técnico e sensorial a partir da experiência da mais célebre contadora de histórias da Literatura universal.

Para ir além






Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 11/5/2004

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