Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II) | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
16941 visitas/dia
829 mil/mês
Mais Recentes
>>> Dança de Santa Cruz e arte cigana são temas das Rodas em Conversa no Teatro do Incêndio em abril
>>> Mostra gratuita reúne obras de 14 artistas em Curitiba
>>> Livro reúne contos consagrados de João Carrascoza
>>> 'Os trabalhos da mão' traz parceria entre Alfredo Bosi e Nelson Cruz
>>> Exposição Malabaristas Urbanas de Carolina Saidenberg
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
>>> Joan Brossa, inéditos em tradução
>>> Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia
>>> 40 anos sem Carpeaux
>>> Minha plantinha de estimação
>>> Corot em exposição
>>> Existem vários modos de vencer
Colunistas
Últimos Posts
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
>>> Existem vários modos de vencer
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
Últimos Posts
>>> Desenhos a lápis na poesia de Oleg Almeida
>>> Eloquência
>>> Cenas do bar - Vladimir, o solteiro.
>>> Deu na primeira página...
>>> Palavra vício
>>> Premissas para reflexão
>>> Sem troco
>>> Libertarias
>>> A mandioca e o canário da terra
>>> Lua nova
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Casa Arrumada
>>> Anti-Jô Soares
>>> Algo em común
>>> Pedro Paulo de Sena Madureira
>>> Entrevista com Claudio Willer
>>> 22 de Abril #digestivo10anos
>>> A arapuca da poesia de Ana Marques
>>> 2010 e os meus álbuns musicais
>>> O Frankenstein de Mary Shelley
>>> Apresentação
Mais Recentes
>>> Los Efectos Perversos Del Petróleo
>>> Afiliadas, a Tv Que Te Vê
>>> O Ajudante de Mentiroso
>>> Toulouse Lautrec miniguia de arte
>>> Farrapos de Lembranças
>>> Next
>>> A Expansão da Memória (Uma Sátira à Informática)
>>> O Jogo de Runas
>>> Escola Gaiola
>>> Poemas Seletos
>>> De volta à cabana
>>> O Guarda noturno da literatura brasileira vida e obra de Joaquim Osório Duque Estrada
>>> Saber Viver Pessoalmente Profissionalmente Financeiramente
>>> O feitiço da ilha do pavão
>>> Folhas da Fortuna
>>> Adube sua Carreira
>>> Marketing para negocios de sucesso Volume II
>>> O que os Ricos sabem e não contam
>>> Vai Fundo! O Guru das Midias Sociais Ensina a Ganhar Dinheiro Fazendo o que Voce Gosta
>>> Os Panzers da Morte
>>> Fissurar o Capitalismo
>>> Trauma - Condutas na abordagem inicial
>>> Cristo
>>> Os segredos de o simbolo perdido
>>> Hadoop:the Definitive Guide (inglês)
>>> Dieta Ortomolecular
>>> Tratado de Medicina Física e Reabilitação de Krusen Vol 2
>>> Tratado de Medicina Física e Reabilitação de Krusen Vol 1
>>> Dor nas costas
>>> Aspectos Biomecânicos - Cadeias Musculares e Articulares- Método GDS
>>> Exame da OAB Unificado. 1ª Fase
>>> Anatomia Funcional das Cadeias Musculares
>>> Os Doze Passos e as Doze Tradições
>>> Vivendo Sóbrio
>>> Pedra Bonita - Coleção Literatura Brasileira Contemporânea
>>> Pensão Riso da Noite - Coleção Literatura Brasileira Contemporânea
>>> Olhai os Lírios do Campo - Coleção Literatura Brasileira Contemporânea
>>> As Três Irmãs / Contos
>>> Estado de Sítio / o Estrangeiro
>>> Dicionário de Milagres
>>> Minha Fama de Mau
>>> Só É Gordo Quem Quer
>>> Feliz Aniversário - o Poder dos Dias, Estrelas e Números na Sua Vida
>>> Serafim Ponte Grande - Coleção Grandes da Literatura Brasileira
>>> Macunaíma - Coleção os Grandes da Literatura Brasileira
>>> O Fio da Navalha
>>> Os Mandarins - Volume Único
>>> História de Pobres Amantes
>>> Clarissa
>>> A Bagaceira - Coleção os Grandes da Literatura Brasileira
COLUNAS

Terça-feira, 31/1/2012
Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II)
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 8100 Acessos

Espécies de irmãs revolucionárias, a obra As Senhoritas de Avignon, de Picasso, e A Sagração da Primavera, de Stravinsky, colocam na ordem do dia a conjunção entre as forças primitivas e o experimentalismo levado às últimas consequências. E é incrível a proximidade entre as datas das duas obras, abrindo o século XX com tamanha transgressão (a obra de Stravinsky foi apresentada em 1913 e Picasso mostrou sua obra aos amigos em 1907).

Conforme já comentei em um artigo no Digestivo sobre a obra de Stravinsky, segundo Stuckenschmidt, "o que faz a Sagração uma obra única no seu gênero é a reunião de elementos que parecem provenientes da primeira idade do mundo e do modernismo mais avançado."

No caso de Picasso, ele percebeu que era o momento da arte se emancipar de vez das aparências visuais naturalistas e construir um mundo novo, particular à própria esfera da tela, o que o levou no diálogo com a arte primitiva a adotar formas mais abstratas e estilizadas.

O artista renascentistas, e seu legado na história da arte até o século XIX, procurou tornar-se o modelo único da pintura: o fim a atingir era o de desenhar os corpos como corpos, de explorar a natureza pela natureza, de, usando-os como modelos, reencontrar-lhes as harmonias e reproduzir-lhes as aparências até o mais perfeito tromp-l´oeil. Para isso foram desenvolvidas técnicas adequadas para criar na superfície pintada a mais completa ilusão de realidade dos corpos, dos seus contornos exatos, do seu volume e de sua profundidade.

Picasso destruiu este sistema ao demonstrar que, apesar de seu caráter matemático e racional, se tratava de um método artificioso que criara uma armadura rígida para o olhar Ocidental.

A ruptura com os cânones clássicos se deu em As Senhoritas de Avignon sobre múltiplos planos.

Em primeiro lugar, pelo abandono do relevo, repartindo-se o modelado em superfícies lisas de cor, com planos contornados por traços vindos até à superfície, ao nível da figuras em primeiro plano.

Os planos, tornados geométricos, encaixam-se, separados um dos outros, apenas por uma bordadura branca ou sombria, que ajuda na constituição do corpo humano.

As relações com o espaço são marcadas pela coloração de diferentes planos, com sombras que bordam os corpos fragmentados, como se vê nos traços dos seios da mulher de pé, da direita, e pela aresta côncava, fortemente sombreada, do nariz.

As cabeças evocam as primeiras visões da humanidade: a fonte são as máscaras africanas, de forma oval, com órbitas vazias e com um olho pintado de frente num rosto de perfil, à maneira egípcia. Os corpos são decompostos em planos distintos, a curva aparece cada vez menos, para dar lugar às linhas diretas, semelhantes às arestas de um cristal.

Os granes traços simplificadores criam a decomposição das figuras, que deixam de ser contornos para se tornar os limites de um prisma fragmentado, onde aparecem presas as figuras. Os corpos são integrados ao espaço e o fundo é da mesma natureza que as figuras. Constituem parte de um único todo. A unidade do quadro nasce do campo de força onde seres e espaço obedecem a um ritmo único. Se existe equilíbrio é o do quadro e nunca somente o das figuras.

Este espaço afasta o modelado e o relevo como parte constituinte e formadora das figuras. No que diz respeito à figura do primeiro plano à direita já não é sequer possível definir a posição exata do braço apoiado. Corpo e cabeça têm uma formação completamente diferente, mostrando simultaneamente as costas e a cara. Os olhos e a boca contradizem qualquer lei da natureza. Atrás, outra mulher, com sua cabeça deformada, um focinho de cão, a cara desmontada num tracejado verde-vermelho, o corpo fragmentado em partículas incompatíveis umas com as outras. A quinta mulher, no lado esquerdo da tela, encontra-se em estado de imobilidade, a cara empedernida, como uma máscara.

Todas as figuras são submetidas a uma geometrização radical, o artista deformando-as à sua livre vontade, fundindo-as com o pano de fundo; o espaço parece corrompido, a falta de modelação das figuras consuma a ruptura das formas naturais, e os vários ângulos que formam as figuras cria tipos humanos jamais vistos na natureza.

Se existe relevo, ele faz parte da repartição nova dos corpos humanos conduzidos à autonomia dos elementos fragmentados. Na tela, todos os elementos, todos os objetos submetem-se à mesma lei de construção, a cortina enrugando-se em várias faces, às quais um azul sombreado e de claridades brancas criam seu aspecto de prisma de cristal.

A nova geometria de Picasso, com seus retângulos ou triângulos de seios, de troncos ou de joelhos, não é mais a geometria plana. Fundamenta-se agora uma representação não-euclidiana do mundo, contestando a idéia de que seja possível apenas um único sistema de representação do espaço. Picasso rejeitou a concepção da perspectiva monocular e da quadratura geométrica simples do espaço, admitindo o espaço plural e a multiplicidade, e mesmo a simultaneidade dos pontos de vista.

Uma tal decomposição do objeto ajuda-nos a tomar consciência de que olhar é um ato que corresponde, para além das convenções contemplativas da pintura renascentista, à experiência de um homem que explora ativamente o mundo e as coisas.

André Masson dizia que "a grande pintura é uma pintura onde os intervalos estão carregados de tanta energia quanto as figuras que a determinam". Como não pensar em Picasso ao ler esta formulação?

Picasso cria para os expectadores novas exigências em relação à linguagem plástica, convidando-o também a participar não só de forma contemplativa, mas de forma ativa na construção dos significados da obra.

Picasso é o primeiro a afirmar o primado da vontade da construção da obra, ou seja, a pintura como ato deliberado de organização arquitetônica. Sua rebelião situa-se no plano plástico, colocando em causa, simultaneamente, a concepção de realidade e a concepção de beleza. Procura definir a realidade pictórica sob novas leis, independentes das leis naturais do mundo dos corpos e da paisagem, e define a beleza sob novas normas independentes das que tinham sido codificadas até o momento por seus séculos de pintura européia.

A síntese mental das formas que a pintura de Picasso exigirá do expectador obriga-nos a tomar consciência da nossa própria atividade na ordenação geral do mundo que sentimos.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 31/1/2012


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2012
01. A morte de Sardanapalo de Delacroix - 31/7/2012
02. Roland Barthes e o prazer do texto - 21/8/2012
03. Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional - 6/3/2012
04. A origem da dança - 14/2/2012
05. Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II) - 31/1/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




NOSSO FILHO VAI SER MÃE - WALMIR AYALA (TEATRO BRASILEIRO)
WALMIR AYALA
LETRAS E ARTES
(1965)
R$ 18,00



DIETA E EMAGRECIMENTO - GUIA DE BELEZA E BOA FORMA
NÃO CONSTA
NÃO CONSTA
R$ 8,99



A CIDADES E AS SERRAS
EÇA DE QUEIROZ
GARNIER
(2018)
R$ 15,00



MILAGRES ACONTECEM DE FATO
BRIEGE MCKENNA, HENRY LIBERSAT
LOYOLA
(1997)
R$ 6,70



CARAPEÇO - POESIAS
HERMES PIRES LEÃO
BELO HORIZONTE
(1958)
R$ 169,90



OS 50 MAIORES ERROS DA HUMANIDADE
TRAJANO LEME FILHO
AXCEL BOOKS
(2004)
R$ 38,99



INFÂNCIA
GRACILIANO RAMOS
RECORD
(1976)
R$ 8,60



ARENA CONTA TIRADENTES - AUGUSTO BOAL E GIANFRANCESCO GUARNIERI (TEATRO BRASILEIRO)
AUGUSTO BOAL E GIANFRANCESCO GUARNIERI
SAGARANA
(1967)
R$ 35,00



SIGNO Y SIGNIFICACIÓN - GONZALO ABRIL (EM ESPANHOL)
GONZALO ABRIL
PABLO DEL RÍO
(1976)
R$ 8,00



A REVOLUÇÃO FRANCESA - HISTÓRIA MUNDIAL EM QUADRINHOS
DINIZ
ESCALA EDUCACIONAL
(2008)
R$ 12,00





busca | avançada
16941 visitas/dia
829 mil/mês