Roland Barthes e o prazer do texto | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
54703 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Rosas Periféricas apresenta espetáculos sobre memórias e histórias do Parque São Rafael
>>> Música: Fabiana Cozza se apresenta no Sesc Santo André com repertório que homenageia Dona Ivone Lara
>>> Nos 30 anos, Taanteatro faz reflexão com solos teatro-coreográficos
>>> ‘Salão Paulista de Arte Naïf’ será aberto neste sábado, dia 27, no Museu de Socorro
>>> Festival +DH: Debates, cinema e música para abordar os Direitos Humanos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
Últimos Posts
>>> Desigualdades
>>> Novembro está no fim...
>>> Indizível
>>> Programador - Trabalho Remoto que Paga Bem
>>> Oficinas Culturais no Fly Maria, em Campinas
>>> A Lei de Murici
>>> Três apitos
>>> World Drag Show estará em Bragança Paulista
>>> Na dúvida com as palavras
>>> Fly Maria: espaço multicultural em Campinas
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O primeiro livro que li
>>> Uma Obra-Prima Sertaneja
>>> O Chileno
>>> 17 de Julho #digestivo10anos
>>> Os Rolling Stones deveriam ser tombados
>>> Chuck Berry
>>> Autor não é narrador, poeta não é eu lírico
>>> E se tivesse dado certo?
>>> Entrevista com Milton Hatoum
>>> Um gourmet apaixonado por Paris
Mais Recentes
>>> As Crônicas do Rei Gormath de Nonato Peixoto nogueira pela Chiado Books (2021)
>>> Kaluana Kami de Nonato Peixoto nogueira pela Arte (2016)
>>> Arlindo de Ilustralu pela Seguinte (2021)
>>> Ver Bem Sem Óculos de Dr. Vander pela Mestre Jou (1967)
>>> Soma Uma Terapia Anarquista vol 2 -A Arma é o corpo de Roberto Freire pela Guanabara Koogan (1991)
>>> Dicionário Jurídico Italiano - Portoghese /Português-Italiano de Romolo Traiano pela Centro Studi Ca'Romana (1997)
>>> História da Umbanda: Uma Religião Brasileira de Alexandre Cumino pela Madras (2019)
>>> Cromoterapia Técnica de René Nunes pela Linha Gráfica (1987)
>>> Confissões de Santo Agostinho pela Principis (2019)
>>> A Vida Secreta das Árvores de Peter Wohlleben pela Sextante (2017)
>>> Macaco Preso para Interrogatório de João Aveline pela Age (1999)
>>> O Mal Não Vem de Fora de Lourdes Carolina Gagete pela Panorama (2004)
>>> Croma - O Oráculo de Atlon (Ficção Científica)li de Leandro Garcia Estevam pela Do Autor (2003)
>>> Cruzadox turbante Livro 15- Nível Médio de Coquetel pela Coquetel (2021)
>>> Palavras cruzadas Livro 52- Nível fÁCIL de Coquetel pela Coquetel (2020)
>>> Caça Palavras ouro euro nº 21- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Sob o vulcão de Malcolm Lowry pela Artenova (1975)
>>> Caça Palavras ouro dólar nº 16 de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> História da dança no ocidente de Paul Bourcier pela Martins Fontes (1987)
>>> Caça Palavras ouro dólar nº 11- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Cidades da noite escarlate de William Burroughs pela Siciliano (1995)
>>> Caça Palavras ouro euro nº 15- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Zenzele - Uma carta para minha filha de J. Nozipo Maraire pela Mandarim (1996)
>>> Caça Palavras ouro dólar nº 10- Nível Médio de Coquetel pela Ouro (2020)
>>> Lasar Segall e o modernismo paulista de Vera D'Horta Beccari pela Brasiliense (1984)
COLUNAS

Terça-feira, 21/8/2012
Roland Barthes e o prazer do texto
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 25100 Acessos

"O discurso está cansado, exausto de tanto produzir sentido". Com esse diagnóstico Roland Barthes não pretende instituir um saber, mas um certo jeito de viver o saber: "nenhum poder, um pouco de saber, um pouco de sabedoria, e o maior sabor possível".

Com a proposta de "saber com sabor", Barthes reinvindica, além da liberdade crítica, o prazer. Renunciando a qualquer pretensão de uma leitura sistemática, baseada em verdades linguísticas, históricas ou sociológicas. Barthes produz um texto desejado, sonhado, saboreado, transformado em texto prazeroso e deslumbrante, texto barthesiano.

Sua intensão foi buscar a produtividade do texto. Essa produtividade seria sua capacidade de produzir sentidos múltiplos e renováveis, que mudam de leitura a leitura. Ler não seria, então, aplicar modelos prévios, mas criar formas únicas, que são formas virtuais do texto ativadas pela imaginação do leitor. Ao reagir contra a indiferença da semiologia com relação aos objetos, Barthes reivindica a diferença: "cada texto é único em sua diferença. Cada leitura também é única em sua diferença". O próprio Barthes não desejava que seu trabalho fosse usado como modelo científico suscetível de ser aplicado a outros textos.

No seu livro "O prazer do texto", ele assume o individual contra o universal do modelo estruturalista, do corpo contra o conceito, o prazer contra a seriedade acadêmica, o diletantismo contra o cientificismo. Barthes se desloca a partir de então com um à-vontade despudorado, provocando os que exigem do intelectual uma estabilidade ideológica. Barthes não acredita em nenhuma posição de "verdade"; pelo contrário, achava que qualquer posição que se instala, que toma consistência e se repete, torna-se posição ideológica no mau sentido: uma posição que pode ser facilmente recuperada e utilizada pelo sistema dominante, para que ele mesmo se mantenha imutável.

Mas o livro "O prazer do texto" acabou desagradando a gregos e troianos, ou melhor, a marxistas, que o acusavam de ser um aristocrata, um individualista, um alienado; e a estruturalistas, que o acusavam de abandono do método.

Duas tendências coexistiam em Barthes: uma tendência apolínea (seu lado clássico, metódico, "científico") e uma tendência dionisíaca (seu lado sensual, anárquico). A partir de "O prazer do texto", foi a segunda tendência que prevaleceu: o Barthes do corpo, do gozo sensual dos signos, o Barthes escritor.

Barthes falava da escritura como instigadora da pulsão da curiosidade; e acrescentava freudianamente: "toda curiosidade é de fundo sexual. O que é erótico em um texto não é o tema, é o próprio texto. O texto é uma trança, cada fio, cada código é uma voz, essas vozes trançadas ou trançantes forma a escritura. O texto é em suma um fetiche, reduzi-lo à unidade do sentido, por uma leitura abusivamente unívoca, é cortar a trança, é esboçar o gesto castrador".

Assim Barthes desloca o erótico do tema para o texto, mostrando como o "fraseado" é líquido, lubrificado, "ele conjuga numa mesma plenitude o sentido e o sexo". A escritura é isso: "a ciência dos gozos da linguagem e seu kamasutra (dessa ciência, só há um tratado: a própria escritura)".

O texto não exprime nada, desdobra-se num duplo fetichismo: primeiro, o do sujeito que escreve sob suas eleições (a descrição da suavidade das mãos, o contorno dos lábios, o desenho do nariz, os pés) - tudo que no outro faz disparar o desejo; depois, já longe do quadro, o fetiche volta-se para a própria linguagem. Escreve-se, então, não para ser amado, mas para que as palavras sejam amadas, como fetiche. O texto, então, goza não da apreensão do significado, mas da voluptuosidade do significante.

Na verdade, diz Barthes, o sentido de um texto não pode ser outra coisa senão o plural de seus sistemas, sua transcriptibilidade infinita; um sistema transcreve o outro, mas reciprocamente: face ao texto não há língua crítica "primeira", "natural", "nacional", materna. O texto é, de chofre, ao nascer, multilíngue; não há nem língua de saída, nem língua de entrada, pois o texto tem do dicionário não o poder direcional (fechado), mas a escritura infinita.

Giles Deleuze, no seu livro "Dialogues" parece ter se sintonizado ao pensamento de Barthes, como fica claro na sua sugestão do que seria a leitura hoje: "As boas maneiras de ler um texto, é chegar a tratar um livro como se escuta um disco, como se olha um filme... como se é tocado por uma canção: todo tratamento do livro que exigisse um respeito especial, uma atenção de outra espécie, vem de outra época e condena definitivamente o livro. Não há nenhuma questão de dificuldade nem de compreensão: os conceitos são exatamente como sons, cores ou imagens, são intensidades que convêm a você ou não... não há nada a compreender, nada a interpretar."

O poeta inglês Dylan Thomas também sintetiza bem o que seria o pensamento barthesiano ao responder à pergunta: O que é poesia? "Que importa o significado da poesia? Se lhe pedirem uma definição digam: poesia é o que me faz rir ou chorar, que me faz vibrar, o que me faz desejar isso ou aquilo ou nada. O que interessa na poesia é o movimento eterno que está atrás dela, a vasta corrente subterrânea de dor, de loucura ou exaltação, por modesta que seja a intenção do poema".

No fim da vida, em sua "Aula", no Collège de France, a relação entre a língua e o poder se tornará uma assertiva radical. Para Barthes toda língua é uma classificação, a língua é fascista, pois obriga a dizer. Aqui se encontra a radicalização da idéia de discurso e poder de Foucault. Mas como sair da engrenagem fascista da língua? Para Barthes, só a literatura como "revolução permanente da linguagem" pode alterar essa situação.

Segundo Antoine Campagnon, no seu livro Os antimodernos, a questão que Barthes se coloca é: como neutralizar o poder da língua refazendo dela um objeto amado? Diferente do procedimento da vanguarda (surrealismo, principalmente) que incitava o ódio pela linguagem, em "O Neutro" Barthes propõe não a revolução, não a violência, mas a carícia. Ele diz: "Não desinfetar a língua, mas saboreá-la, roçá-la lentamente, ou até mesmo esfregá-la, mas não purificá-la". A língua como "écriture", lugar onde o homem pode exercer livremente sua sensualidade. Em seu Fragmentos de um discurso amoroso ele anota, finalmente: "A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras".

Para ir além



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 21/8/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Uma Receita de Bolo de Mel de Heloisa Pait
02. Um Furto de Ricardo de Mattos
03. Espírito e Cura de Ricardo de Mattos
04. Quero ser Marina Abramović de Elisa Andrade Buzzo
05. O PSDB e o ensino superior de Gian Danton


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2012
01. Roland Barthes e o prazer do texto - 21/8/2012
02. A morte de Sardanapalo de Delacroix - 31/7/2012
03. Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional - 6/3/2012
04. A origem da dança - 14/2/2012
05. Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II) - 31/1/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




RT Mini Códigos Coletânea de Legislação Administrativa Constituição Federal
Odete Medauar
Revista Dos Tribunais
(2005)



I was Once a Tree
Pedro Caldas
Ftd
(1991)



Livro Sobre Nada
Manoel de Barros
Alfaguara
(2016)



Uma Nova Vida com Sai Baba - Histórias de Devotos que Transformaram Seus Corações
Judy Warner - Organizador
Nova Era
(2005)



ChildÂ’s Play
Reginald Hill
Harpercollins
(1998)



Para Que Estou na Terra
Rick Warren
Vida
(2013)



A Força Do Amor - Beijada Por Um Anjo nº2
Elizabeth Chandler
Novo Conceito
(2010)



A Imagem Moderna um Olhar
Silvia Miranda Meira
C Arte
(2006)



O encontro inesperado
Zibia Gasparetto; Lucius
Vida E Consciencia
(2013)



Fundamentals of Engineering Mechanics
L. Levinson
Foreign Languages





busca | avançada
54703 visitas/dia
2,2 milhões/mês