A morte de Sardanapalo de Delacroix | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
30385 visitas/dia
851 mil/mês
Mais Recentes
>>> Exposição destaca figura feminina com a leveza da aquarela
>>> Obra de paranaense radicada no Amazonas está entre as finalistas do prêmio Jabuti 2018
>>> Festival Dansk!!BR 10 anos de colaboração Dinamarca - Brasil
>>> Terapeuta de Ambientes Miguel Heilborn ministra palestra no Clube Hebraica, em São Paulo
>>> Livro Politicamente Incorreto da Virgem Maria
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Inferno em digestão
>>> Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos
>>> As pedras de Estevão Azevedo
>>> O artífice do sertão
>>> De volta à antiga roda rosa
>>> O papel aceita tudo
>>> O tigre de papel que ruge
>>> Alice in Chains, Rainier Fog (2018)
>>> Cidades do Algarve
>>> Gosta de escrever? Como não leu este livro ainda?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> Que galho vai dar
>>> Relâmpagofágico
>>> Caminhada
>>> Chama
>>> Ossos perduram
>>> Pensamentos à política
>>> A santidade do pecado em Padre António Vieira
>>> Casa de couro III
>>> Nó de Ventos
>>> Letra & Música
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Redentor, a versão nacional e atualizada da Paixão
>>> Como detectar MAVs (e bloquear)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II)
>>> Filmes on-line
>>> A Trilogia de Máximo Górki
>>> Apresentação
>>> A Estratégia de Barack Obama, por Libert e Faulk
>>> O som na cabeça
>>> Kasabian - Re-Wired
>>> Zicartola
Mais Recentes
>>> Divergente de Veronica Roth pela Rocco (2012)
>>> Migração e Mão-de-obra: Retirantes Cearenses na Economia Cafeeira... de Paulo Cesar Gonçalves pela Humanitas (2006)
>>> Italianos Sob a Mira da Polícia Polícia Política de Viviane Teresinha dos Santos pela Humanitas (2008)
>>> Catatau de Paulo Leminski pela Iluminuras (2010)
>>> Armagedom em Retrospecto de Kurt Vonnegut pela Lpm (2018)
>>> Democracia Sindical no Brasil de Ericson Crivelli pela LTr (2000)
>>> Instituições de Direito Civil - Volume 1 de Caio Mário da Silva Pereira pela Forense/Gen (2010)
>>> Maçonaria - Coletânea de Trabalhos dos Anais de 10 Anos - Acomp. CD de Loja Francisco Xavier Ferreira pela Grande Oriente do Rio Grande do Sul (2007)
>>> Prática de Contratos e Instrumentos Particulares de Antonio Celso Pinheiro Franco e Celina Raposo do Amaral Pinheiro Franco pela Revista dos Tribunais (2005)
>>> O Livro do Travesseiro de Sei Shonagon pela 34 (2018)
>>> O Homem Que Ri de Victor Hugo pela Liberdade (2014)
>>> Responsabilidade Civil - Lei 10.406, de 10.01.2002 de Arnaldo Rizzardo pela Forense (2006)
>>> Contratos e Regulamentações Especiais de Trabalho de Alice Monteiro de Barros pela LTr (2001)
>>> O Poder da Arte de Schama, Simon pela Companhia Das Letras (2010)
>>> Sudário de John Benville pela Biblioteca Azul (2015)
>>> O violão azul de John Benville pela Biblioteca Azul (2016)
>>> Os infinitos de John Benville pela Nova Fronteira (2011)
>>> 2666 de Roberto Bolaño pela Companhia das Letras (2010)
>>> Box Fernando Pessoa: Ficções do interlúdio, Mensagem & Livro do desassossego de Fernando Pessoa pela Novo Século (2018)
>>> O leão e o chacal mergulhador de Anônimo pela Globo (2009)
>>> O Livro de Orações de Equipe da Editora Eco pela Eco (1973)
>>> Jeito de Ser de Marenos Schmidt e Cláudia Bruscagin Schwantes pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Há Poder em Suas Palavras de Don Gossett pela Vida (1993)
>>> Nada É Impossível Para Deus de Jocymar Fonseca pela Casa Nazareno de Publicações (2003)
>>> Quando o Falar É Ouro de Guiomar de Oliveira Albanesi pela Vida & Consciência (2008)
>>> A gazeta esportiva ilustrada nº295 de Fundação Cásper Libero pela Cásper Libero (1966)
>>> Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos de Hermínio C. Miranda pela Feb (1990)
>>> ...E as Vozes Falaram de Fernando do Ó pela Feb (1946)
>>> Instruções Psicofônicas de Francisco Cândido Xavier pela Feb (1962)
>>> Amarás de Xavier de Chalendar pela Edições Paulinas (1967)
>>> Cristo em Retalhos de Lambert Noben Mo pela Edições Paulinas (1982)
>>> Luz Acima de Francisco Cândido Xavier pela Feb (1984)
>>> Mãe: Antologia Mediúnica de Francisco Cândido Xavier pela Casa Ed. O Clarim (1971)
>>> Senzala de Salvador Gentile pela Instituto de Difusão Espírita (1992)
>>> Motoqueiros no Além de Eurícledes Formiga pela Instituto de Difusão Espírita (1996)
>>> Síntese de O Livro dos Espíritos de B. Godoy Paiva pela Edições Feesp (1978)
>>> Sulco de Josemaría Escrivá pela Quadrante (1987)
>>> Bezerra de Menezes: Ontem e Hoje de Equipe da Feb pela Feb (2000)
>>> Lições Para o Cotidiano de Masaharu Taniguchi pela Seicho-no-ie (2008)
>>> Vida e Atos dos Apóstolos de Cairbar Schutel pela Casa Ed. O Clarim (1981)
>>> Mente, Corpo e Destino de Katsumi Tokuhisa pela Seicho-no-ie (1984)
>>> Estudando a Mediunidade de Martins Peralva pela Feb (1975)
>>> Escuta, Meu Filho de Corina Novelino pela Instituto de Difusão Espírita (1991)
>>> Anjos cabalisticos de Monica buonfiglio pela Rodar (2018)
>>> O zahir de Paulo coelho pela Gold (2018)
>>> Quatro num fusca de Esdras do nascimento pela Ediouro (2018)
>>> Alameda do sexo de Carlos frança pela Sorvil (2018)
>>> Direitos e garantias no processo penal brasileiro de Rogerio laura tucci pela Saraiva (2018)
>>> Contra o abuso dos bancos de Jonair nogueira martins pela Cs (2018)
>>> Arte no xadrez moderno de Barnie f. winkelman pela Hemus (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 31/7/2012
A morte de Sardanapalo de Delacroix
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 17100 Acessos

Para o poeta Charles Baudelaire, Delacroix era o mais sugestivo de todos os pintores, o que mais fazia pensar e mais trazia à memória sentimentos e pensamentos poéticos. Isso se deve, explicava o autor de As flores do mal, à "leitura dos poetas que deixava em Delacroix imagens grandiosas". Para os dois artistas, a imaginação era a rainha das faculdades e o dom mais precios de um homem.

Delacroix pintou a obra A Morte de Sardanapalo, em 1827, inspirando-se no trabalho do poeta romântico inglês Lord Byron, que conta a história do cerco e da queda do rei da segunda dinastia assíria, cercado no seu palácio, no final do século IX.

Sobre um publico ofendido, Delacroix apresentava com esta tela uma avalanche de cor e movimento. O impacto da obra era forte demais para o público e a crítica acostumados ao neoclassicismo, que não demorou a condená-la. O que era inspiração, imaginação livre e referência na pintura de Rubens foi considerado como irresponsabilidade; as incertezas do espaço, amplo e não matemático, visto como confusão.

Na verdade A Morte de Sardanapalo destruía as três unidades sagradas do estilo acadêmico. Transcendendo as leis da perspectiva, a tela demonstra uma coerência estilística absoluta no seu jogo livre de volumes sinuosos, enquanto todos os componentes do quadro (vestuário, corpos e objetos), testemunham as virtualidades de Delacroix.

Em A Morte de Sardanapalo, o artista mergulha o espectador no interior da representação do horror. Ele pinta uma apoteose da crueldade. A composição, de vermelhos e dourados, retrata o holocausto do legendário rei assírio, destruindo suas posses antes de se suicidar. Atacado pelos rebeldes, o seu castelo, suas riquezas, está tudo perdido; reclinado sobre uma suntuosa cama, Sardanapalo ordena, então, que os eunucos e oficiais do palácio cortem a garganta de suas mulheres, pagens e mesmo de seus cavalos e cães favoritos. Nenhum dos objetos que lhe proporcionaram prazer deveriam sobreviver para além dele. As suas mulheres são colocadas no mesmo nível que os seus cavalos e cães.

Os ritmos diagonais, a fluidez das linhas, o brilho das cores e a sua profunda sensualidade fazem de A Morte de Sardanapalo uma das maiores obras-primas do século XIX. Baudelaire perceberá o grande pintor que nasce ali, resumindo o sentido de sua obra no célebre texto "A vida e a obra de Eugène Delacroix", onde diz: "Sua imaginação ardente brilha com todas as chamas e com todas as úrpuras. Tudo o que há de dor na paixão o apaixona; tudo que há de explendor o ilumina; verte sobre suas telas inspiradas o sangue, a luz e as trevas".

Mas para o público o quadro era no mínimo escandaloso. A mulher contorcendo-se aos pés da cama real ao mesmo tempo que uma adaga se levanta em direção à sua garganta tem uma expressão de sofrimento demasiado voluptuosa para o gosto da época. Erotismo e morte se fundiam num mesmo corpo representado. Delacroix desenvolvera a capacidade de observar na natureza todas as suas sinuosidades e delas extrair a mais sublime voluptuosidade.

Os críticos riram e um pintor como Ingres já havia falado a respeito da arte de Delacroix como o "massacre da pintura".

As mulheres pintadas por Delacroix tinham cabelos selvagens e costas arqueadas. São de carne e osso, conscientes de sua carnalidade, de sua sensualidade, de seu apelo erótico. São vítimas do terror, sabendo que a morte estava perto; perante seus olhos, os seus assassinos, os carrascos de Sardanapalo, estão a trabalhar, e vibram como se o fizessem sob as carícias do olhar do rei. É um holocausto de orgasmo e morte. Através dessa massa de cadáveres com espasmos de angústia e êxtase, Delacroix transmitiu uma vitalidade frenética. As mulheres, os assassinos, os animais, contorcem-se como se fossem chamas que rodeiam a cama-cadafalso do principesco Sardanapalo.

Há algo do que seria a música de Richard Wagner, onde a adoração da morte atinge o plano da consciência poética. A decisão fundamental da opção pela morte no mundo prestes a ser regido pela dissolução das formas e dos seres amados se concretiza tanto em Tristão e Isolda quanto em Sardanapalo. A tela representa um espetáculo digno de assustar o próprio Sade: eis um homem com um poder suficiente para espalhar o terror e a morte por onde quer que passe, cujo máximo prazer é a destruição total de sua montanha de carne, os gritos, os cadáveres que respiram pela última vez, as bestas orgulhosas e os esplendores desconhecidos, no topo dos quais ele permanece impassível.

No seu Diários, Delacroix concorda com o que Baudelaire chamava de ideal em sua pintura: "o terrível". Segundo Mario Praz, em A carne, a morte e o diabo na literatura romântica, "é sintomático que Baudelaire devesse ouvir especialmente os pintores e os músicos que estavam mais impregnados de literatura, um Delacroix, um Wagner, cerebrais da sensualidade perturbada".

Sardanapalo representa a máxima autodestruição, um príncipe cujo suicídio adquire a forma pretendida pelo seu estatuto e crenças, na pompa e circunstância assassinas do massacre. O sangue mistura-se com pedras preciosas numa cascata tumultuosa. Os cavalos relincham, as mulheres recuam numa sinfonia veemente de ancas e nádegas. O êxtase orgiástico que se pode ler da mesma forma nos olhos das mulheres e dos cavalos não permite fazer distinção entre prazer e pânico.

Ao centro da tela encontra-se Sardanapalo, central e estupendo, como quem controla, como quem tem o poder sobre a vida e a morte. É notável a gama de cores, do ouro ao vermelho sangue e à púrpura que são a potência e a glória, anunciando o sangue e as chamas, ou seja, a morte. Também notável as linhas, nos primeiros planos dos contornos. Não se trata de caos, embora estejamos falando de horror. Tudo pede o olhar: a crina dos cavalos, os cabelos das mulheres, as dobras dos tecidos, e pode-se imaginar o som, os gritos, as ordens aos berros, os relinchos dos cavalos, os cascos no mármore, o metal contra o metal e os perfumes; pois é possível imaginar e sentir a fragrância do Oriente, o mirto, o ópio, o suor, o cheiro do sangue, o cheiro do terror.

Todos os sentidos são chamados num desespero controlado dos ritmos lineares. Isso é a potência de Delacroix. Isso é o que se chama "o poder da arte". Sardanapalo no topo da pirâmide, indecifrável, alucinado, mas calmo. Todos os seus sentidos estão saturados. E ele foi além do paroxismo e se instalou num patamar que só pertence ao iniciados, aos mártires, aos loucos, aos drogados. É esta a quintessência do romantismo.

Todas as grandes filosofias se interessaram pela morte. O romantismo é agitado, não é prudente. Ele não espera a morte, ele se antecipa a ela, e a celebra ou retrata, para melhor apreciar suas fases. O romantismo erotiza a morte como já falava Baudelaire.

A estética romântica capta o desvairado poder da morte, como uma droga que, dentro das veias, vai dilatar a capacidade de sentir, de gozar e até de contemplar. Foi o que fez Sardanapalo. Ele contempla com prazer nostálgico os corpos e as coisas que está tomando do inimigo. Ele goza duas vezes mais numa perfeição absoluta e última. Uma última orgia do olhar. Esse gozar sublime na ação.

Em A Morte de Sardanapalo, Delacroix chamou a atenção para os delírios místicos-eróticos do submundo como um bacanal, uma imagem satânica construindo o suporte imposto ao universo transcendental. As massas sempre apreciam os sacrifícios humanos a deuses, reis ou causas. Se o romantismo está em conformidade com a definição de tragédia dada por Racine, ao exigir como tema "uma princesa suportando a desgraça", Delacroix é sem dúvida o romantismo par excellence.

Sua obra, resume as palavras de Baudelaire, "é um hino terrível composto em honra da fatalidade e da dor irremediável". Mais ainda, dizia o poeta: "Delacroix era ardorosamente amoroso da paixão, e friamente determinado a procurar os meios de exprimi-la de maneira mais visível".


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 31/7/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Dilapidare de Elisa Andrade Buzzo
02. A noite em que Usain Bolt ignorou nosso Vinicius de Elisa Andrade Buzzo
03. Brasil em Cannes de Guilherme Carvalhal
04. Em noite de lua azul de Elisa Andrade Buzzo
05. Ler Oswald Spengler em 2014 de Celso A. Uequed Pitol


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2012
01. A morte de Sardanapalo de Delacroix - 31/7/2012
02. Roland Barthes e o prazer do texto - 21/8/2012
03. Semana de 22 e Modernismo: um fracasso nacional - 6/3/2012
04. A origem da dança - 14/2/2012
05. Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte II) - 31/1/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




EDUCAÇÃO BATISTA NO BRASIL UMA ANÁLISE COMPLEXA
JOSÉ NEMÉSIO MACHADO
CBB
(1999)
R$ 8,00



PROGRAMAÇÃO JAVA PARA WIRELESS
ÉRICO TAVARES DE MATTOS
DIGERATI
(2005)
R$ 7,00



FORMULÁRIO MÉDICO FARMACÊUTICO
JOSÉ ANTONIO DE OLIVEIRA BATISTUZZO E MASAYUKI ITAYA E YUKIKO ETO
TECNOPRESS
(2002)
R$ 130,00



VIDAS DE ESTADISTAS AMERICANOS - 1º VOLUME - 2ª EDIÇÃO
HENRY THOMAS; DANA LEE THOMAS
GLOBO
(1957)
R$ 10,00



GESCHICHTEN AUS DEM FABELWALD VON DEN TIEREN, ZWERGEN UND RIESEN
TONY WOLF (ILLUSTRATOR)
PESTALOZZI VERLAG
(1984)
R$ 29,90



UM MUNDO TRANSPARENTE
MORRIS WEST
RECORD
(1983)
R$ 7,00



TOBRUK A CHAVE DO EGITO
JAMES W. STOCK
RENES
(1973)
R$ 10,00



CAPACITAÇÃO PARA IMPLEMENTAÇÃO DO SUAS E DO PBF
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL
MINISTÉRIO DO DENSENVOLVIMENT
(2008)
R$ 23,90



8 VITAL RELATIONSHIPS FOR THE GROWING CHRISTIAN
HADDON W. ROBINSON - R. LARRY MOYER
BIBLE BELIEVERS CASSETTES
(1982)
R$ 35,00



A NUVEM ENVENENADA
A. CONAN DOYLE
NEWTON COMPTON BRASIL
R$ 8,99





busca | avançada
30385 visitas/dia
851 mil/mês