A bibliotecária de plantão | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
47273 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Talvez...
>>> 2007 e os meus CDs ― Versão Internacional 1
>>> A felicidade, segundo Freud
>>> Memória das pornochanchadas
>>> Magia além do Photoshop
>>> Meu Telefunken
>>> Meu Telefunken
>>> Vida Virtual? Quase 10 anos de Digestivo
>>> Sombras Persas (X)
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Mais Recentes
>>> Terapia do Abraço 2 de Kathleen Keating pela Pensamento (2012)
>>> História Resumida da Civilização Clássica - Grécia/Roma de Michael Grant pela Jorge Zahar (1994)
>>> Cães de Guerra de Frederick Forsyth pela Record (1974)
>>> Jogo Duro de Mario Garnero pela Best Seller (1988)
>>> Psicologia do Ajustamento de Maria Lúcia Hannas, Ana Eugênia Ferreira e Marysa Saboya pela Vozes (1988)
>>> Uma Mulher na Escuridão de Charlie Donlea pela Faro (2019)
>>> Pra discutir... e gerar boas conversas por aí de Donizete Soares pela Instituto GENS (2015)
>>> Educomunicação - o que é isto de Donizete Soares pela Projeto Cala-boca já morreu (2015)
>>> Ficções fraternas de Livia Garcia-Roza - organizadora pela Record (2003)
>>> Prisioneiras de Drauzio Varella pela Companhia das Letras (2017)
>>> O diário de Myriam de Myriam Rawick pela Dark Side Books (2018)
>>> Contos de Rubem Fonseca pela Nova Fronteira (2015)
>>> Notícias - Manual do usuário de Alain de Botton pela Intrínseca (2015)
>>> Um alfabeto para gourmets de MFK Fisher pela Companhia das Letrs (1996)
>>> Os Mitos Celtas de Pedro Paulo G. May pela Angra (2002)
>>> A vida que ninguém vê de Eliane Brum pela Arquipélago Editorial (2006)
>>> As Cem Melhores Crônicas Brasileiras de Joaquim Ferreira dos Santos - organizador pela Objetiva (2007)
>>> O tigre na sombra de Lya Luft pela Record (2012)
>>> Elza de Zeca Camargo pela Casa da Palavra (2018)
>>> Sexo no cativeiro de Esther Perel pela Objetiva (2007)
>>> O clube do filme de David Gilmour pela Intrínseca (2009)
>>> Coisa de Inglês de Geraldo Tollens Linck pela Nova Fronteira (1986)
>>> As mentiras que os mulheres contam de Luis Fernando Veríssimo pela Objetiva (2015)
>>> Equilíbrio e Recompensa de Lourenço Prado pela Pensamento
>>> Cadernos de História e Filosofia da Ciência de Fátima R. R. Évora (org.) pela Unicamp (2002)
>>> Revista Internacional de Filosofia de Jairo José da Silva (org.) pela Unicamp (2000)
>>> Dewey um gato entre livros de Vicki Myron pela Globo (2008)
>>> Ilha de calor nas metrópoles de Magda Adelaide Lombardo pela Hucitec (1985)
>>> Sua santidade o Dalai Lama de O mesmo pela Sextante (2000)
>>> Meninas da noite de Gilberto Dimenstein pela Ática (1992)
>>> Paulo de Bruno Seabra pela Três (1973)
>>> Grandes Enigmas da Humanidade de Luiz C. Lisboa e Roberto P. Andrade pela Círculo do livro (1969)
>>> A História de Fernão Capelo Gaivota de Jonathan Seagull pela Nórdica (1974)
>>> Os Enigmas da Sobrevivência de Jacques Alexander pela Edições 70 (1972)
>>> Mulheres visíveis, mães invisíveis de Laura Gutman pela Best Seller (2018)
>>> Construir o Homem e o Mundo de Michel Quoist pela Duas cidades (1960)
>>> Vida Positiva de Olavinho Drummond pela Olavinho Drummond (1985)
>>> Força para Viver de Jamie Buckingham pela Arthur S. DeMoss (1987)
>>> Consumidos de David Cronemberg pela Alfaguara (2014)
>>> Viver é a melhor opção de André Trigueiro pela Correio Fraterno (2015)
>>> O Caso da Borboleta Atíria de Lúcia Machado de Almeida pela Ática (1987)
>>> Cânticos de Cecília Meireles pela Moderna (1995)
>>> Caminho a Cristo de Ellen G. White pela Cpb - Casa Publicadora Brasileira (2019)
>>> Um Estranho no Espelho de Sidney Sheldon pela Nova Cultural (1986)
>>> Le Divorce de Diane Johnson pela Record (1999)
>>> Trajetória do Silêncio de Maria do Céu Formiga de Oliveira pela Massao Ohno-Roswitha Kempf (1986)
>>> Zezinho, o Dono da Porquinha Preta de Jair Vitória pela Ática (1992)
>>> Aconselhamento Psicológico de Ruth Scheeffer pela Atlas (1981)
>>> Razão e Revolução de Herbert Marcuse pela Paz e Terra (1978)
>>> A Doutrina de Buda de Bukkyo Dendo Kyokai pela Círculo do livro (1987)
COLUNAS

Sexta-feira, 18/10/2013
A bibliotecária de plantão
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4900 Acessos

Era assim: eu planejava tudo, pensava em um jeito de os meninos curtirem livros e histórias, tirava-os de dentro daquela sala insossa, levava-os, em fila, para a biblioteca escolar e a moça nos atendia com cara de medrosa. Lá, eu dizia pra a gurizada explorar, escolher e capturar. Depois disso, que era tipo uma festa, eu pedia que eles lessem e curtissem. Simples assim: pegue, leve, abra, leia. Goste ou não. Do it yourself, que era meu lema para a leitura, a experiência da leitura. Tá. Mas aí eu fazia isso sob o olhar opressor daquela moça.

Eu não sei o nome dela. Não guardei ou não perguntei. Mas ela certamente tinha um. Eu não sabia que ela ficaria tão chateada por ver "sua" biblioteca tão remexida. Mas eu, que curtia livros - e não apenas guardá-los -, ficava meio sem graça com o incômodo da bibliotecária. Eu não sei se ela tinha formação para administrar aquele espaço, eu não sei quem era ela. E até queria saber. Mas eu sabia era que a considerava desajustada às funções daquele lugar.

Certa vez, ao levar a moçadinha pra lá e pedir que eles, de novo, explorassem, escolhessem e lessem, ela fez um bico de quem estava mais brava do que o normal. Eu continuei sorrindo de canto de boca pra ela. Mas eu sabia que vinha chumbo. Mais tarde, a diretora e dona da escola veio me chamar. "Olha, a Fulana disse que você leva os meninos para a biblioteca e eles tiram os livros do lugar". Se eu fosse aquela diretora, eu não ia ligar a mínima para aquela reclamação descabida. Mas, em todo caso, se fosse só uma questão de pegar livro e por de volta na estante, no lugarzinho e do jeitinho que estava, tudo bem. Vamos nos esforçar. E foi o que fizemos.

Mas a moça continuava triste com as nossas visitas. Continuava querendo me matar. Continuava amaldiçoando cada criança que explorava, escolhia e pegava um livro na estante. Estante, prateleira, organização, catalogação. Meu Deus, quanto caminho para se obter um livro! Quanto protocolo. Mas eu insisti. Eu enchi a paciência daquela moça por um tempão. E acho que ela não aprendeu nada com isso.

Mas ela me lembrava uma outra moça: a bibliotecária da escola onde eu estudei, por anos a fio. Na falta de uma professora ou de um professor gente boa para me levar até lá com meus colegas, eu mesma ia, mais ou menos sorrateira, na hora do recreio. A turma fazia planos para o vôlei ou para o lanche, mas eu dizia que ia ali e já voltava. Na verdade, eu passava pelo corredor de baixo, virava à direita, descia a escadinha lateral da cantina e entrava na portinha da biblioteca, no subsolo. Sim, não era uma bela biblioteca, como a da escola em que leciono hoje. Era uma espécie de porão, escuro, inclusive, onde livros velhos e livros de vestibular estava dispostos em prateleiras. A bibliotecária era uma moça de nariz adunco, pequena e simpática, que achava sempre curiosa a minha chegada. Ela dizia: "Por que você não vai pro recreio?", mas eu não sentia nenhum tom malicioso na pergunta dela. Era curiosidade mesmo. Era atípico uma adolescente preferir aquele beco às delícias do recreio, lá em cima. Eu, pra começar, não gostava de barulho e gritaria. Lembro-me dessa sensação desde a pré-escola. Mas a moça não queria me expulsar ou dizer pra eu não mexer nas prateleiras tão organizadinhas. Ela só queria saber de onde vinha aquele meu gosto pelo improvável.

De vez em quando, a moça pequena me ajudava. Eu ia pescando os livros pela fila que eles faziam uns com os outros. Não havia indicação prévia. Eu simplesmente explorava aquelas prateleiras pra ver se elas me diziam alguma coisa. E elas sempre diziam. E um livro puxava o outro, como numa teresa de fugir da prisão. E eu fazia isso quase todos os dias. Só de vez em quando, enquanto ainda estava lendo algum livro, eu não aparecia lá. Nesses dias, eu curtia a roda de violão do canto do pátio, perto do vestiário.

Eu achava os bibliotecários uns seres meio mágicos. Eu pensava: que trabalho paradisíaco será esse? Como essa pessoa conseguiu ter a função de tomar conta de uma biblioteca inteirinha? Que coisa linda, gente. Mas eu não tinha ideia de como chegar lá, a não ser comprando meus próprios livros, meu acervo. Ah, que palavra linda: acervo. Ainda teria o meu. E ele começou a ser formado naqueles anos, enquanto eu descobria e aproveitava o acervo público.

Imagine-se uma pessoa que gostasse de livros e pudesse ter, ao seu alcance, todos os dias, uma casa inteira cheia deles. A bibliotecária era invejável. Mas eu não queria livros apenas para guardar, organinzar, catalogar. Eu queria livros para ler. Então não podia ser justo encontrar obstáculos à minha chegada ou à dos meus aluninhos.

Um dia, me disseram, que muitas bibliotecárias de escola não estavam onde queriam estar. Isso me deixou pesarosa por um tempo. Como pode? Contaram-me umas histórias terríveis de pessoas que ficaram doentes ou de pessoas que queriam sair da sala de aula. Essas pessoas chateadas eram "mandadas" ou "desviadas" para algumas bibliotecas, onde podiam se isolar. Que tristeza não estar onde se quer estar! E aí eu entendia o ar de castigo que uma das bibliotecárias tinha. Que sentido aquele lugar tinha para ela? Punição?

Não era assim com todos os bibliotecários. Certa vez, conheci uma moça, também em uma escola, que tinha o maior sorriso do mundo quando eu lhe chegava com doações. Ela abraçava os livros antes de colocá-los em cima da mesa. E eu sentia que ela era amorosa com eles, por isso eu doava para lá. Algumas pessoas defendem gatos, outras, cães. Eu defendo livros. Acho que eles têm de ser bem cuidados e bem cultivados. E essa moça me deixava sempre emocionada quando eu a via gostar daqueles objetos.

Certa vez, fui até lá, num dia de movimento, só para observar o que ela fazia enquanto as pessoas iam lá mexer, explorar, escolher, tirar do lugar. E eu via que ela se orgulhava, ela ficava numa alegria danada. E eu fiquei com meu coração bem tranquilo.

Uma coisa que me intrigava era que eu não via algumas dessas bibliotecárias lendo. Eu ficava pensando em como isso podia ser. Era como morrer de sede em frente a um tonel de água boa. Era um desperdício. Ah, como eu ia ficar sabida se eu tivesse de tomar conta de uma grande biblioteca. Eu ia, tenho certeza. E eu pensava: um bibliotecário precisa gostar disso, gostar de livros, gostar de textos, gostar de pessoas e ter um certo gostinho pela desorganização. Dessa forma, ele não vai sofrer quando as pessoas quiserem por vida naquele lugar de prateleiras cor de mate.

Até que, um dia desses, eu conheci um bibliotecário bagunceiro. Eu achei uma coisa tão engraçada que eu passei uns dias rindo daquelas moças que não gostavam de crianças indo ler na biblioteca. Eu sabia que o bibliotecário contava histórias e fazia os livros se moverem daqui para ali; ele lia os livros que ele guardava, então ele os conhecia e os fofocava para os leitores; e soube também que ele achava muito difícil por ordem nas coisas, e ele ainda me disse que achava muito tristes, quase mortas, as feiras de livros onde as pessoas não deixavam rastro, não passavam para mexer, pegar, ler e bagunçar. Foi aí que eu pensei que esse moço bem que podia ter estado em tudo quanto é canto onde eu fui levar minhas crianças, onde eu fui ler ou onde eu fui doar livros. Ah, como eu teria sido mais sabida com a ajuda de um desses!


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 18/10/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A palavra silenciosa de Elisa Andrade Buzzo
02. Escrevo deus com letra minúscula de Jardel Dias Cavalcanti
03. Religião prêt-à-porter de Verônica Mambrini
04. Entre o copo, a vitrola, a fumaça e o boicote de Waldemar Pavan
05. O Ano Novo de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2013
01. Elogio ao cabelo branco - 16/8/2013
02. A bibliotecária de plantão - 18/10/2013
03. O fim e o café solúvel - 26/4/2013
04. Coisas que eu queria saber fazer - 18/1/2013
05. Se ele não me lê - 8/3/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




MARNIE
WINSTON GRAHAM
ABRIL
R$ 7,00



A ORIGEM DAS ESPÉCIES
CHARLES DARWIN
TECNOPRINT S.A
(1987)
R$ 28,00



OS OCEANOS
NÃO CONSTA
GT
(1980)
R$ 5,00



LEI DE MURPHY DE GERENCIAMENTO DE PROJETOS
EDUARDO GORGES
BRASPORT
(2007)
R$ 10,00



O DISCÍPULO VERDADEIRO
WILLIAM MAC DONALD
MUNDO CRISTÃO
(1981)
R$ 12,00



MIRO MARAVILHA
PEDRO BLOCH
EDIOURO
R$ 8,00



DESVENDANDO A MENTE DO INVESTIDOR: O DOMÍNIO DA MENTE SOBRE O DINHEIRO
RICHARD PETERSON
CAMPUS
(2008)
R$ 170,00



A ARCA DE NOÉ
LUCY COUSINS(RECONTADO E ILUSTRADO POR)
BRINQUE-BOOK
(1996)
R$ 43,00



O CIMO DO MONTE, COLECÇÕES DOIS MUNDOS
IRWIN SHAW
LIVROS DO BRASIL
(1979)
R$ 16,75



NOUVELLES TECHNOLOGIES: NOUVEAU MONDE?
LA PENSÉE (REVISTA) NÚMERO 326 DE 2001
PUF
(2001)
R$ 23,28





busca | avançada
47273 visitas/dia
1,3 milhão/mês