O fim e o café solúvel | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 26/4/2013
O fim e o café solúvel
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4600 Acessos

Levantou-se da cama e tropeçou no chinelo dele. Era o começo de mais um dia de pequenas ausências. Deu-lhe o chinelo com um laço de fita vermelho, quando tinham já uns meses de namoro. Já pensou o que é dar chinelos? Era como se ela lhe dissesse: "Aqui, sinta-se à vontade". Ou: "A casa é sua". Ou: "Podemos relaxar nas nossas presenças". Gostava também muito de ver-lhe os pés, que eram bonitos, mesmo sendo de homem que vivia em sapatos fechados. Lembrou-se do episódio em que pediu para beijar-lhe os pés, isto é, ela os dele. Era uma cena incomum, que podia ser facilmente confundida com vassalagem (em tempos de discursos inflamados), mas, ali, era apenas um imenso desejo de beijar uns pés bonitos e mesmo de declarar admiração. Uns pés morenos, resumidos e macios.

Desvencilhou-se do tropeço nos chinelos pensando no que fazer com eles. Jogar fora? Dar para alguém? Guardar no armário? Guardá-los poderia parecer esperança. Àquela altura, isso podia fazer mal. E foi para o café da manhã, na cozinha particularmente branca.

Nessa cozinha, se exibiam as latas de Coca Zero com os nomes deles, colecionadas em lanches, jantares e viagens, ao longo de meses. Jogá-las no lixo? Reciclá-las poderia parecer metáfora. Melhor não. E enquanto fazia o capuccino, pensava no açúcar cristal que passou a consumir por sugestão dele. Até o açúcar, meu Deus. E pensava em como separá-lo de sua vida, em tempo recorde. Separar o açúcar da lembrança dele; separar o cristal dos olhos dele; separar sua vida da dele.

Sentou-se à mesa branca (onde costumavam dividir as xícaras) e olhou ao redor. Adiante, bem à sua frente, a prateleira onde descansava o vidro de café solúvel que ele tomava. O chinelo, as latas e o café. Jogar fora? Dar a alguém? Deixar o café mofar na prateleira? Podia parecer ironia. Melhor não.

E até quando ela teria de tomar tantas pequenas decisões? Por que, então, agora ele parecia tão presente? Por que ele parecia o ar que ela respirava? O que fazer? Parar de respirar? Podia parecer fraqueza. Melhor não, isso não. E então ela tomou o capuccino mais rapidamente, a fim de driblar um tempo sem alguém com quem conversar.

Andou até a sala, tirou do lugar o porta-retrato da viagem a Ouro Preto, colocou-o dentro do armário. Escondido ficaria mais discreto. Na foto, um sorriso já distante. Em outro porta-retrato, no criado-mudo, eles mostravam uns olhos cúmplices que já não existiam fazia tempo. Como as coisas escoam por entre os dedos? E nem se descuidaram um do outro! Ou será que sim? Porta-retratos desmontados podem dar azar. Tão chato retirar fotos e deixar os vidros vazios. Quem caberá novamente ali? Melhor jogar tudo fora e comprar novos porta-retratos para quando houver outras lembranças. Mas será isso mesmo?

Quanto custa tentar de novo? E quanto custa não tentar? É com essas perguntas que a vida brinca com ela todos os dias, desde que ele se foi. E a sensação de que o caminho é este? É um trote? É consciência? E a memória enganadora? O que fazer com ela? Acreditar nas lembranças alegres? Ou manter em riste os momentos difíceis?

Aquelas garrafas pet são dele; a TV ainda está no canal de filmes; o travesseiro baixo não precisa mais ficar na cama; os lados invertidos do casal; o chuveiro no fraco e o sabonete em barra pra ele usar; o Balm pós-barba ficará até secar; o cheiro amadeirado que vem de dentro da gaveta em que ele deixou a escova de dente; o biscoito doce que ele comprou está no fim. É uma indireta? Os pacotes de bolachas vão se acabar até que isso suma da despensa. Sugestão? As coisas vão sendo consumidas até chegarem ao fim.

Uns queijos e uns vinhos na geladeira. Ela vai, lentamente, curtindo sozinha, enquanto não encontra outra realização. O livro emprestado nunca mais voltará. Provavelmente, contaminará a casa dele da presença dela. E ela espera que ele nem note, que é pra ficar mais tempo no ar que ele respira. O livro não lido. O livro ignorado. O livro, onde estará?

Não há tantos presentes. Quase nada. O contrário ocorre a ele, que ganhou dela quase todas as roupas e uma infinidade de bibelôs. Os cheiros que ela lhe deu são todos conspiratórios agora. O que ela tem, no entanto, são lembranças.

Ela se deita, espera o tempo passar, vê qualquer série na TV, mas logo vem a memória de uma cena feliz: onde estão os pés descalços dele por onde passar as unhas? "Covarde", é o que ele diria, dissimulando um prazer intenso e, na verdade, oferecendo a planta dos pés a ela. Brinca comigo, era o que ele dizia com um sorriso escamoteado. E um beijo na covinha da bochecha direita.

Os dias vão passar, as folhas do calendário serão arrancadas, uma a uma, a cada mês atravessado. Em algum momento, a sensação já não será mais essa. Ela saberá como respirar melhor, o que fazer aos chinelos, aos sabonetes e ao café solúvel. Enquanto isso não passa, o mundo parecerá cinza-chumbo.

Mas pior mesmo é a roseira que vinga na porta da casa. Isso não tem solução. A roseira viçosa, que brota e oferece flores vermelhas, continua dando as boas vindas quando ela chega do trabalho, para enfrentar mais uma noite de pequenas decisões sobre como dispor das coisas que ele deixou dentro dela.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 26/4/2013


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