Elogio ao cabelo branco | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
61604 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Centro em Concerto - Palestras
>>> Crônicas do Não Tempo – lançamento de livro sobre jovem que vê o passado ao tocar nos objetos
>>> 10º FRAPA divulga primeiras atrações
>>> Concerto cênico Realejo de vida e morte, de Jocy de Oliveira, estreia no teatro do Sesc Pompeia
>>> Seminário Trajetórias do Ambientalismo Brasileiro, parceria entre Sesc e Unifesp, no Sesc Belenzinho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> Melhores filme da semana em Cartaz no Cinema
>>> Casa ou Hotel: Entenda qual a melhor opção
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> O Apocalipse segundo Seu Tião
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
>>> Para não dizer que eu não disse
>>> Espírito criança
>>> Poeta é aquele que cala
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Aconselhamentos aos casais ― módulo I
>>> Violões do Brasil
>>> Heróis improváveis telefonam...
>>> A esquerda nunca foi popular no Brasil
>>> Na minha opinião...
>>> Amores & Arte de Amar, de Ovídio
>>> VOCÊS
>>> As sombras e os muros de José J. Veiga
>>> Entrevista com o poeta Júlio Castañon Guimarães
>>> 30 de Junho #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> Água para Elefantes de Sara Gruen pela Arqueiro (2011)
>>> Introdução ao Pensar de Arcangelo R. Buzzi pela Vozes (2004)
>>> Desonrada de Mukhtar Mai; Marie Thérèse Cuny pela Best Seller (2007)
>>> Coisas do Mundo de Eric Nepomuceno pela Companhia das Letras (1994)
>>> Capitão América - O Soldado Invernal (A Coleção Oficial nº 45) de Ed Brubaker; Steve Epting pela Salvat / Panini (2014)
>>> Liderança e Motivaçao de Martius Vicente Rodriguez y Rodriguez pela Elsevier (2004)
>>> Como enfrentar os problemas da vida de Harida Chaudhuri pela Pensamento (1968)
>>> Pequenos Delítos de Anderson Petroni pela Patuá (2013)
>>> O Amor do Soldado de Jorge Amado pela Martins
>>> A águia e a Galinha de Leonardo Boff pela Vozes Nobilis (2017)
>>> How to Raise Successful People de Esther Wojcicki pela Hutchinson London (2019)
>>> Organizational Theory, Design, and Change de Gareth Jones pela Prentice Hall (2009)
>>> Tratamento Respiratório Intensivo de John M. Luce / David J. Pierson / Martha L. Tyler pela Revinter (1995)
>>> 1001 Maneiras de Premiar seus Colaboradores de Bob Nelson pela Sextante (2007)
>>> Psicomotricidade: Filogênese, Ontogênese e Retrogênese de Vitor da Fonseca pela Artes Medicas (1998)
>>> Sumulas da Agu Comentadas de Nilma de Castro Abe; Adriana Aghinoni Fantin pela Saraiva (2013)
>>> Temas Atuais de Direito Civil na Constituicao Federal de Rui Geraldo Camargo Viana pela Revista dos Tribunais (2000)
>>> O brasil por seus artistas / Brazil Through its artists de Walmir Ayala pela Abril (1601)
>>> Show Off - How to do Absolutely Everything de Sarah Hines Stephens ;bethany Mann pela Candlewick Press (2009)
>>> Auditoria: um Curso Completo e Moderno de Marcelo Cavalcanti Almeida pela Atlas (2007)
>>> A Cena Brasileira em Santo André de José Armando Pereira da Silva pela Secretaria de Cultura (2001)
>>> O Livro Secreto de Beleza das Divas de Hollywood de Kym Douglas e Cindy Pearlman pela Larousse (2011)
>>> Triple de Ken Follett pela Signet (1979)
>>> A Essência da Visualização a Arte de Viver de Não Indicado pela Martin Claret
>>> Confissões de Adolescente de Maria Mariana pela Relume Dumara
COLUNAS

Sexta-feira, 16/8/2013
Elogio ao cabelo branco
Ana Elisa Ribeiro

+ de 7000 Acessos

Os cabelos brancos são incomuns em minha família. Quem os podia ter, mantinha-os pintados de um castanho claro bastante convincente. O avô mais velho ostentava, desde sempre, uns cabelos prateados que em nada se pareciam com algo deselegante. Jeitosos e frequentemente penteados - com um pequeno pente de bolso -, esses cabelos foram motivo, a vida toda, de comentários elogiosos. É daí que conheço o mito do "homem grisalho charmoso".

Entre os parentes ainda mais próximos, vi reproduzido o mesmo expediente: a mãe com um castanho calculado, uma mistura de duas tinturas, para obter um resultado menos artificial. O pai de cabelos eternamente pretos, naturais, com leves insinuações de fios brancos na barba e nas costeletas.

Não somos uma família em que os fios brancos são precoces. Nenhum tio, nenhum primo. Não posso afirmar sobre as mulheres justamente porque nem elas mesmas devem se lembrar da última vez em que viram seus cabelos como são. Fica, então, a história camuflada dos fios de cabelo e, talvez, do envelhecer dessas pessoas. E a mim? O que caberia?

Certa vez, diante de Angela Lago, autora de literatura infantil que admiro muito, tomei coragem e elogiei seus branquíssimos cabelos curtos. Ela, com aquele olhar sorridente, me respondeu dizendo que "depois de certa idade, o branco traz um semblante de paz". Achei bonito, mas a baliza da "certa idade" ainda me desconcertou. O mesmo talvez eu dissesse a Adélia Prado, aquela senhora poeta mineira, que também traz sobre si uma coroa de fios branquíssimos. Quantos conselhos sobre isso ela deve ter enfrentado na vida? E quantos ela solenemente desconsiderou?

É, então, algo em que ponho reparo, desde sempre. Mas nem sei se sempre achei bonito ou interessante. Na verdade, meu incômodo vem das questões com a liberdade e os moldes - não modelos - que configuram o comportamento estético de uma mulher, em nossa sociedade.

Não quero enveredar por um discurso feminista ou cansativo. Quero mesmo é me lembrar da minha trajetória até o momento em que decidi que meus fios brancos ficariam como estão. E já estão há algum tempo.

Minha amiga, professora da Universidade Federal de São Carlos, tem os cabelos médios extraordinariamente grisalhos. E eu disse isso a ela, certa vez, prevendo meu futuro. Mas eu também investigava, junto ao meu elogio, como ela suportava a vida sendo uma mulher grisalha. E, sim, ela tinha umas experiências a contar.

Quantas pessoas se admiraram, ao me ver de perto, com meus fios longamente brancos? Quantas, quase desconhecidas, me deram conselhos sobre desleixo, cuidados, estética, feminilidade e tinturas? Quantos já me disseram, em tom tão delicado quanto auxiliar, que o cabelo branco me envelhece? Ah, caros, é bem o contrário: o envelhecimento é que os traz. Mas afora as questões de cronologia e lógica, estou diante de um conflito entre o que sou e o que devo ser.

Até hoje, desobedeci, francamente, a todos os conselhos, de amigos ou não, sobre cabelos brancos. Também desprezei as indicações de cor e técnica. Balaiagem pode despistar. Não vem ao caso. Mesmo nos salões de beleza, onde minhas características saltam mais aos olhos, tenho me esquivado dos desejos alheios para dar vazão aos meus. E vamos ficando assim, enquanto dura a persistência.

É teimosia? Não creio. É apenas o que é. Simples como as unhas crescerem e as rugas surgirem são os cabelos embranquecerem. Ou não? Curiosamente, isso não me parece extraordinário. Nem nos outros, nem em mim mesma. Onde está minha beleza? Se há alguma, está num conjunto e talvez na pinta ao lado do olho.

Os fios brancos vêm do couro cabeludo e descem até as espáduas. São transgressores, vivazes, destacam-se dos outros fios, tão mais, que são pretos. Fogem do alinhamento de tudo, esvoaçam mais transparentes. Ao contrário dos velhos da cidade, os fios brancos são pouco penteáveis. Alguns, para minha surpresa, são degradê. Vão ficando brancos, numa trajetória que deve ter ocorrido junto com os fatos da vida. Vão ficando mais duros e menos conciliáveis.

Li, numa revista, que os homens andavam platinando os cabelos pretos. Oh, céus! Para homens, isso é platinar. Quantos discursos não temos para nos driblar. Apenas às muito velhas é permitido desistir de se parecerem jovens. Que xampu é esse que deixa seus cabelos de um cinza lindo?

E então, vivia eu, plenamente, meu conflito entre os outros e meu cabelo, quando um amigo, terrivelmente doce, ao falarmos sobre alguma foto em que meus fios alvos apareciam em destaque, disse: "Deixa assim. Isso te dá um charme". Não foi pequeno meu susto ao ouvir um homem dizer o que quase ninguém diz, especialmente a uma mulher. Uma mulher charmosa não costumava ser a grisalha. Não sou ainda isso, mas posso vir a ser. E alguém me acharia, então, charmosa? É isso o que me anima a sempre pensar que há gosto para tudo, neste mundo. O discurso da diversidade é uma brincadeira, eu sei. Ele, geralmente, não passa de meia dúzia de frases na boca da maioria das pessoas. É, ainda, necessário se "encaixar". Mas quando um homem diz que está tudo bem, é pra se comemorar. E quando uma mulher me disser isso - o que é mais difícil -, vou achar que ainda é tempo de a gente viver como quer, inclusive com os cabelos.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 16/8/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O carnaval e a cidade de Almandrade


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2013
01. Elogio ao cabelo branco - 16/8/2013
02. O fim e o café solúvel - 26/4/2013
03. A bibliotecária de plantão - 18/10/2013
04. Coisas que eu queria saber fazer - 18/1/2013
05. Se ele não me lê - 8/3/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Estudos Econômicos Vol 11 Número Especial -1981
Ipe
Ipe
(1981)



1984
George Orwell
Principis
(2021)



A Oeste Nada de Novo
Erich Maria Remarque
Europa-américa
(1954)



Goiás - Cozinha Regional Brasileira - Vol. 15
Abril Coleções
Abril Coleções
(2012)



Não Se Apega, Não
Isabela Freitas
Intrinseca
(2014)



Historia e Memoria, V. 4
Marlene Marchiori
Senac
(2014)



Cidadania e loucura: políticas de saúde mental no Brasil
Silvério Almeida Nilson do Rosário
Vozes
(1992)



Mar Morto
Jorge Amado
Livraria Martins
(1970)



O Que Esperam de Mim na Gestão Escolar Volume I
Douglas Menslin
Mm
(2012)



O Anjo, A Pérola e o Pequeno Deus
Wiston Graham
Círculo do Livro
(1979)





busca | avançada
61604 visitas/dia
1,8 milhão/mês