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Sexta-feira, 25/11/2011
Da separação e dos desalinhamentos
Ana Elisa Ribeiro

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Quem já se separou sabe a sensação avassaladora de romper uma relação importante. Oficialmente ou não, morar sob o mesmo teto é um exercício de adaptação, amor & ódio, respeito e transbordamento, dissabor e delícia, limites & fronteiras, eu & outro, sexo e sensatez, amizade, denúncia, confissão e reajuste de identidade que se pode experimentar. Há outra imensa lista de coisas para completar a descrição dessa experiência, mas neste texto elenquei apenas o que me apareceu primeiro. É a tirania da quantidade de linhas que uma crônica pode ter antes de nos cansar.

Todo mundo nesta Terra se casa com uma pessoa e se separa de outra. Só pode ser assim. Entre um parêntese e outro desta frase vivida (que pode ser poética ou não) é que está o nó da questão, o X do problema. Esse intervalo, lapso ou colapso entre o dia da chegada e o dia da partida, esse ínterim entre a compra dos cabides e a insuficiência das melhores malas é que é difícil de atravessar. Mudar junto é a prova dos nove, dos dez, das bodas de ouro. Morar junto não é problema. Transformar-se enquanto se está junto é que faz a diferença. Como garantir uma transformação em parceria? Como conjugar os eus e os tus? Como respeitar os desejos naturalmente diversos? Como crescer sem estar à sombra? Nem todo caule é virtuoso à sombra de outro. Nem toda folha se desenvolve sem sol. Como mudar sem se desalinhar?

Todo mundo neste mundo se casa com os efeitos de alguém. Ninguém se casa sabendo ao certo quem está do lado de lá da cama, do box, da janela ou da cabine do carro. Ninguém se casa com certeza do próximo minuto. Dia a dia as coisas vão ficando menos claras ainda porque os quereres e as oportunidades vão chegando, atravessando a relação, todas elas.

É comum que alguém mais dominador, mais ciumento ou mais invejoso tente, a todo custo, privar o outro do acesso às oportunidades. O risco é tudo, está em tudo, é estar vivo. O risco é a esquina, a escola, os colegas. Mudam os trabalhos, as amizades, os empregos. Com eles, mudam as direções pra onde se pode ir. E como não se desajustar então?

Todas as pessoas se casam com outras pessoas em processo. Todos nos casamos com projeções pálidas do que nunca se estabilizará. Todos nos casamos com um projeto. Casamo-nos com o efeito que traz alguém hoje. Daqui a sete anos seremos outros, certamente. Nesse trajeto é que estão escondidas nossas surpresas, as melhores e as piores. Imagine-se, então, casar-se aos vinte e poucos anos, quando tudo ainda está por acontecer? A não ser que alguém, tiranicamente, atravanque o processo do outro, como era comum ocorrer às moças, em geral.

Casamo-nos, a exemplo, com o recém-formado profissional que ainda não viajou o mundo nem ganhou dinheiro. Casamo-nos com a jovem universitária que não enfrentou ainda sua pós-graduação e não se pôs à prova numa viagem ao exterior. Casamo-nos com o jovem professor que ainda não se tornou um doutor da universidade. Casamo-nos com a jovem dona de casa que não perdeu os pais. Casamo-nos com aqueles que ainda não tiveram filhos, não sabem o que é ter vida sexual monogâmica, cujos corpos ainda são rijos e ágeis, cujas ideias ainda estão na mais célere transição.

Anos depois, experimentando uma trajetória difícil e conturbada, damo-nos conta de que habitamos a casa com um estranho. Onde está aquele sorriso gratuito? E onde os cabelos na testa? E o olhar, onde foi parar? E as conversas no café da manhã? Jamais. E as conversas quaisquer? Raras. E o interesse pela banda? Pelo livro? Pelo filme? E o que são estas sessões de cinema corridas, sem mãos dadas pelo shopping depois? O que é esta impaciência para as pequenas angústias alheias? E a desatenção com a gripe, a dor, o calor? A falta de propostas para as férias em família? A preguiça cada vez mais duradoura? A má vontade para atender à porta ou ao telefone? E o olhar cada vez mais para fora.

Casamo-nos em processo. Difícil coordenar cada corpo e cada mente para que cheguem de mãos dadas a algum lugar. Às vezes um espaço comum, outras vezes os espaços alternados de um e de outro. Casamo-nos com os efeitos. E eles mudam.

Se a admiração se extinguiu. Se o beijo é raro. Se o abraço é breve. Se o aconchego é nulo. Se a paciência é um suspiro. Se o carinho é rarefeito. Se o olhar é fugidio. Se não se percebe a beleza, a unha, o corte do cabelo. Se os planos são segredos. Se os papos são desafios. Descasamo-nos. Capitulamos. Desistimos, provavelmente, porque admitimos (não sem custo) que nem tudo tem conserto. Nem tudo tem emenda, remendo, ajuste. Nem tudo tem tradução. Nem isto. Nada se põe no lugar do que foi envenenado pela falta de sentimento. Não se produz amor sintético. Com ele, também não se fabrica beijo quente e abraço de aconhego. Não se finge prazer, se finge orgasmo. Beijo técnico é o fim. Daí ao desrespeito, à desconfiança, à traição, à deslealdade é um pulo fácil. Até que alguém dá uma de editor e corta a cena. Pronto.

E lá vamos nós continuar de outro jeito. Se há filhos, maiores as chances de continuar mesmo, fazendo visitas, falando ao telefone, lidando com a mais remota vida do outro, mesmo a contragosto (por um tempo). É vontade de matar e morrer. Quem será feliz primeiro? Quem conseguirá mudar o quadro? Quem arrastará mais correntes por estes corredores assombrados? Quem fica na casa das memórias recentes? Quem sai para um novo apartamento? Quem se renova antes? Quem dos dois tem mais potente fator de cura? Quem engana a si mesmo?

Continuar, só que de outro jeito. Vamos ser amigos? Antes fôssemos. Vamos ser parceiros? Seremos pais, certamente, e sempre dos mesmos filhos, ao menos em parte. Seremos inimigos? De certa forma. Seremos falsos? Quem sabe? Do que teremos certeza? De nada e de qualquer coisa. Por que deu errado? Porque não estivemos atentos. Será que é isso? Em certos momentos, perdemos o foco de nós e olhamos para fora. Mas quem é que só vive do lado de dentro? Sufocamento. Se até a casa precisa de ar renovado, do abrir as folhas da janela e receber o sol da manhã, por que não nós?

Continuar, só que de novo. Não sem antes parar e pensar: o que eu fiz? O que pode ser diferente? Mas numa nova interação, a história é outra e é imponderável. Eu sou um intervalo entre ontem e amanhã. Não sou um resultado. O que eu sou agora atrai pessoas que me veem neste instante e que compartilharão comigo, ou não, um outro episódio, menos ou mais duradouro. E como é que ocorre esta separação? Eu desisto.

Eu paro tudo, interrompo um ciclo, abro o circuito, reposiciono as coisas, penso se devia ter feito ou se deveria fazer. Sofro, sofro muito. A memória é um inferno neste instante. Ela me enfraquece com sua edição dos melhores momentos. É ela também que me dá forças com seus clipes dos mais duros episódios de uma história em que as pessoas se desalinharam, em algum momento. Ou porque viveram sem compartilhar direito; ou porque não estiveram atentas entre si; ou porque cada uma foi para a sua janela; ou porque confiaram demais nos efeitos e nas projeções; ou porque não souberam viver suas vidas numa composição possível com a interseção que as unia; ou porque não há mesmo explicação.

Conheço, entre tantas e tantas, apenas uma pessoa que fala muitíssimo bem de sua ex-mulher. Elogia desbragadamente aquela que foi da maior importância, mãe de seu único filho, lindíssima aos quase 60. E conheço apenas uma mulher que se refere ao casamento vivido (e já rompido - ou seria melhor dizer transformado?, à maneira de um Lavoisier) com certa alegria: "o casamento deu certo. Ele só se acabou". Só esses dois casos me parecem felizes, mesmo no fim. De resto só conheço outros efeitos de um episódio sofrido, em que as pessoas fazem projeções furiosas de suas experiências. O presente muda o futuro, mas muda também o passado. Como garantir que um e um sejam dois de mesma natureza? Como afirmar que um mais um serão dois daqui a um tempo? Ninguém disse que seriam. Nem na matemática.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 25/11/2011


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