À primeira estrela que eu vejo | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
54801 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> 14ª Visões Urbanas tem Urbaninhas com quatro espetáculos para crianças
>>> Visões Urbanas permanece online em sua 14ª edição
>>> Ensaios Perversos traz papo cabeça com drag, performances e festa pra dançar
>>> Chega a São Paulo projeto cultural que vai levar teatro a crianças de seis estados
>>> Clube do Disco - Os Saltimbancos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Jean Baudrillard
>>> Anotações durante o incêndio
>>> Um Furto
>>> Evolução e Adaptação da Imprensa Escrita
>>> Jackie O., editora
>>> Sobre o hábito de cutucar o nariz
>>> Eric Clapton ― envelhecendo como um bluesman
>>> Crítica à arte contemporânea
>>> O Velho e Bom Complexo de Inferioridade
>>> Do inferno, com amor
Mais Recentes
>>> Pontos e Contos de Chico Xavier pela Feb (2008)
>>> Os Estagiários do Crime de Roberto Araújo pela Europa (2013)
>>> Educação Como Prática da Liberdade de Paulo Freire pela Paz e Terra (1999)
>>> Entre Nos de Lygia Barbiere Amaral pela Petit (2012)
>>> El Psicoanalista de John Katzenbach pela Penguin Random House (2018)
>>> Extraordinário de R. J. Palacio pela Intrinseca (2013)
>>> Filhos do Éden - Herdeiros de Atlântida Volume 1 de Eduardo Spohr pela Verus (2012)
>>> Família Em Missão - o Protagonismo das Famílias na Evangelização de Jose Bosco Oliveira; Aparecida de Fátima pela Santuario (2020)
>>> Os Sertões - Col. Classicos para Todos de Euclides da Cunha pela Nova Fronteira (2016)
>>> Sombra de um Anjo de Ana Beatriz Brandão pela Novos Talentos (2014)
>>> O Quarto Crescente de Ana Cristina Vargas pela Vida e Consciência (2015)
>>> Alexandros - Areias de Amon - Vol.II de Valerio Massimo Manfredi pela Rocco (2002)
>>> De Anchieta a Euclides - Breve Historia da Literatura Brasileira José Guilherme Merquior de José Guilherme Merquior pela Realizações (2014)
>>> O Despertar do Bebê - Praticas de Educação Psicomotora de Janine Levy pela Martins Fontes (1999)
>>> Democracia: Cinco Princípios e um Fim - Coleção Polêmica de Carla Rodrigues pela Moderna (1996)
>>> Duvidas e Impertinências de Richard Simonetti pela Ceac (2009)
>>> Duvidas e Impertinências de Richard Simonetti pela Ceac (2009)
>>> Virus de Robin Cook pela Record (1994)
>>> Depressão: Causas, Consequências e Tratamentos de Izaias Claro pela O Clarim (2002)
>>> Vetor de Robin Cook pela Record (1999)
>>> Depresssão: Causas, Consequências e Tratamentos de Izaias Claro pela O Clarim (1999)
>>> Terminal de Robin Cook pela Record (2021)
>>> Abduzidos de Robin Cook pela Record (2021)
>>> Eu Não Consigo Emagrecer - a Dieta da Princesa Kate de Dr Pierre Dukan pela Ediouro (2008)
>>> Eu Não Consigo Emagrecer - a Dieta da Princesa Kate de Dr Pierre Dukan pela Ediouro (2008)
COLUNAS

Sexta-feira, 7/10/2011
À primeira estrela que eu vejo
Ana Elisa Ribeiro

+ de 5800 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Era anoitecer. O Sol já se recolhera, enquanto a Lua surgia em algum lugar do céu que não podíamos contemplar. Mas é sempre bom saber que ela está lá. E resolvemos nos deitar na rede, pendurada na varanda, para viver uns momentos de pausa naquele dia tão enfiado de problemas e ações. É parar, momento de parar. Parar para pensar, para olhar, para enxergar, talvez. O dia, as pessoas, as conversas, os alimentos, os sons e tudo o que há passaram tão desavisadamente em frente ao nosso olhar. Desmazelo quase. Aflição quase nenhuma, de tão desapercebido que o dia passa. E ali estávamos nós, mãe e filho, deitados na rede bordada que ganhamos de um amigo.

Deitados então na rede, falávamos das pequenas ocorrências de um dia comum. A escola, o recreio, o colega brigão, o trânsito, os cabelos, as unhas, os telefonemas, os espirros, o dever de casa. Falávamos sem o tilintar dos sinos ou a buzina ansiosa da van que busca meu filho para ir ao colégio. Falávamos ignorando um pouco o alarido da rua ao lado, por onde muitas pessoas passam voltando para casa. (Sim, neste bairro ainda moramos em casas, com telhados só nossos e jardins de grama, como se estivéssemos fazendo algo muito acintoso.) E foi então que uma estrela surgiu no céu, bem à nossa frente.

Piscando levemente, ela parecia ainda indecisa. Enquanto meu filho reparava nela, atento, eu ainda me enrolava com as franjas da rede. E aí ele me lembrou daquela brincadeira eterna e popular: "Mãe, é a primeira estrela que eu vejo. Vamos fazer um pedido?". E entoou, evocativo: "Primeira estrela que eu vejo, satisfaz o meu desejo...".

Eu me surpreendi um pouco com a ideia. Nem sabia que meu filho já conhecia a brincadeira, muito menos que andava assim tão cheio de desejos. Lembrei que pedi muitas coisas às estrelas da noite, especialmente às primeiras que lampejavam diante dos meus olhos míopes. Lembrei também que andei pedindo coisas a Deus, aos santos, às santas e a Iemanjá, que atendeu quase prontamente à minha última sessão de pedidos aflitos. Já passei por Jesus e Deus, em momentos de angústia extrema; por São Jorge, quando a ideia era guerreira; por São Judas Tadeu, inclusive fazendo e cumprindo promessa (e recentemente o descobri meu protetor, São Judas/Xangô); Nossa Senhora Desatadora dos Nós, à qual ainda devo visita no santuário em Campinas (SP); virei as costas a Santo Antônio, mas andei dando umas rezadinhas para Santa Luzia, em intenção de meu irmão. Mas fazia tempo que eu não pedia nada às estrelas.

Meu filho, então, se calou. Ainda criança, já sabe que os desejos infinitos, aqueles bem internos, estados d'alma mesmo, pedem silêncio, calma, paz e um pedido concentrado. Calou-se o menino para centralizar as forças do pedido numa espécie de oração estelar. Peça, meu filho. Peça seu carrinho, seu brinquedo, sua infância. Peça sua alegria, que ainda é fácil como jogar bola de gude. Peça sua namoradinha, que ainda o paquera apenas com olhares. Peça sua aula de judô, seu DVD do Scooby Doo, sua ida ao cinema. Peça sua pipoca, seu chaveiro e sua falta de banho. Peça seu combo de sanduíche. Peça seu passeio pela praia. Peça, meu filho, fale com as estrelas. Parece que as crianças costumam ter muito mais crédito nos pedidos. Há qualquer tolerância a mais com elas. Peça.

Era o que eu esperava: que meu filho se calasse, mas concentrado aos pedidos das coisas que ele via na TV, nas propagandas de fábricas de brinquedos ou nas promoções dos programas infantis. Eu esperava que a primeira estrela a surgir na nossa noite, na varanda, deitados na rede, fosse ouvir os cochichos de um garotinho esperto, ansioso por ganhar uma pista de carrinhos, um robô, um bicho de pelúcia ou um novo transformer. Mas não. Meu filho, como quase sempre, é mais esperto e observador do que posso supor. E ele me surpreendeu. Depois de uns minutos de silêncio profundo, inclusive de olhos cerrados, como quase a rezar, meu filho disse: "pronto, mãe, já pedi". Eu, incontrolavelmente curiosa, como quase toda mãe-coruja, não me aguentei na discrição (que me parecia de bom tom) e acabei perguntando, meio timidamente: "O que foi que você pediu para a estrela?"

Meu filho não pestanejou. A despeito de todo o desejo pelos carrinhos e pelas plataformas de jogos eletrônicos; a despeito das propagandas de TV e do apelo dos supermercados; a despeito de tudo quanto é promessa de alegria e brincadeira, meu filho me revelou: "Mãe, eu pedi para você ser feliz".

Eu, completamente desfeita, envergonhada por me deixar subestimar os mais profundos desejos do meu pequeno; constrangida por desconsiderar a capacidade de observação e mesmo a inteligência dele; esquecida de que tinha dado a luz a um canceriano doce e sensível no trato com a mãe (sua única companheira de morada, cama, mesa e banho), só pude abraçá-lo muito, verdadeiramente agradecida, cheia de pejo por deixar tão à vista minha infelicidade flagrante, ou meio sem jeito porque não consigo mesmo esconder qualquer coisa dele neste meu olhar de Capitu. Ainda assim, diante de um exímio leitor de pessoas, tentei esconder a lágrima quente que me escorreu dos olhos. Acho que consegui.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 7/10/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Os dilemas da globalização de Gian Danton


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2011
01. É possível conquistar alguém pela escrita? - 21/1/2011
02. Meus livros, meus tablets e eu - 15/4/2011
03. Você viveria sua vida de novo? - 18/2/2011
04. Bibliotecas públicas, escolares e particulares - 20/5/2011
05. À primeira estrela que eu vejo - 7/10/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
8/10/2011
08h29min
Um encanto ser mãe? Emoção em cada letra dessa crônica. E um sentimento de agradecimento pela sua existência. Esconder a tristeza e melancolia não passa desapercebido por uma criança. E espero que essa estrela se torne guia, permanente, da sua felicidade. E a nossa, ao ler. Abraços!
[Leia outros Comentários de Cilas Medi]
10/10/2011
10h51min
Que um dia Deus me conceda essa graça... Linda crônica!!
[Leia outros Comentários de Marta]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Noções de Direito: direito usual
Otto Costa
Do Brasil



México
Érico Veríssimo
Globo
(1987)



Como Atrair Seu Parceiro Ideal
Linda Georgian
Record
(2001)



Equipes campeãs: potencializando o desempenho de sua equipe
Antônio Paulo Reginatto ; Roseane Fraga Pinheiro
Sebrae
(2004)



Os Filhos de Jocasta
Christiane Oliver
L&pm
(1986)



Aforismos Musicais
Wolfgang Amadeus Mozart
Etm
(2016)



Fuga do Pantanal
Teresinha Cauchi de Oliveira
Ftd
(1990)



Das confusões desse Mundo de águas
Adelson José Fontes Santos
Angellara
(1996)



Crítica e Verdade - 3ª Edição - 4ª Reimpressão
Roland Barthes
Perspectiva
(2013)



Proenf Programas de Atualização Em Enfermagem Saúde do Adulto 3 Mód. 1
Carmen Elizabeth Kalinowski
Artmed
(2008)





busca | avançada
54801 visitas/dia
1,8 milhão/mês