À primeira estrela que eu vejo | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
22991 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Mostra Primeiros Passos
>>> José Patrício inaugura exposição inédita em Brasília
>>> Livro mostra a ambiguidade entre amor e desamor
>>> Red Bull Station estreia exposições de letrista e de coletivo feminino em julho
>>> Alaíde Costa e Toninho Horta mostram CD em parceria na CAIXA Cultural São Paulo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entrevista com a tradutora Denise Bottmann
>>> O Brasil que eu quero
>>> O dia em que não conheci Chico Buarque
>>> Um Furto
>>> Mais outro cais
>>> A falta que Tom Wolfe fará
>>> O massacre da primavera
>>> Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> A luz da alma - Haifa Israel
>>> Tempo & Espaço
>>> Mão única
>>> A passos de peregrinos ll
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES IV
>>> Shomin-Geki, vidas comuns no cinema japonês
>>> Con(fusões)
>>> A passos de peregrinos l
>>> Ocaso
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES I
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A música clássica ensurdece a democracia caótica
>>> Dê-me liberdade e dê-me morte
>>> Telemarketing, o anti-marketing dos idiotas
>>> Memórias da revista Senhor
>>> É o Fim Do Caminho.
>>> Ao Abrigo, poemas de Ronald Polito
>>> O massacre da primavera
>>> Raio-X do imperialismo
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> O Brasil que eu quero
Mais Recentes
>>> Tomás de Aquino
>>> Minha limpeza corporal - Le grand Ménage
>>> Max Weber e a política alemã
>>> Isaiah Berlin
>>> La Magia en Acción
>>> Introdução à epistemologia
>>> As causas da grandeza do romanos e da sua decadência
>>> Hannah Arendt
>>> Paixão por vencer. A bíblia do sucesso
>>> O Livro Completo de Bruxaria do Buckland
>>> O Escaravelho do Diabo
>>> Llora Herraiz
>>> Festa no Covil
>>> O Fazedor de Velhos
>>> Mentes Tranquilas, Almas Felizes
>>> Contabilidade Pública: da Teoria à Prática
>>> Estudo de Movimentos e Tempos
>>> Cartas Comerciais em Espanhol
>>> Organização , Sistemas e Métodos e As Tecnologias de Gestão Organizacional
>>> Perdas & Ganhos
>>> Dom Casmurro
>>> História da Arte
>>> O sentido da realidade. Estudos das ideias e de sua história
>>> Práticas de Linguagem - Leitura & Produção de Textos
>>> Pássaros Feridos
>>> Geografia do Brasil - Espaço Natural, Territorial e Sócioeconômico brasileiro
>>> Contratos Internacionais do Comércio
>>> Marketing Social: Novos Paradigmas
>>> Gestão Financeira das Empresas: um Modelo Dinâmico
>>> Fundamentos de Economia
>>> Economia Brasileira Contemporânea: Para Cursos de Economia e Administração
>>> À Margem da Linha
>>> Conecte História - 3º Ano - Ensino Médio
>>> Biologia 3 - 3ª edição
>>> Culinária para Bem Estar
>>> A Ilíada e a Odisseia - Coleção Clássicos Em Quadrinhos
>>> Asas do Brasil - Uma História que Voa Pelo Mundo - Em Ótimo Estado
>>> Esquecer o natal
>>> O Mistério dos Sete Candelabros de Ouro
>>> Dom Quichote De La Mancha - Cervantes / Gustavo Doré - Raro
>>> Coleção Fernando Sabino 12 Volumes Editora Record 1984
>>> Livro Curso Prático De Imposto De Renda
>>> O Medo e a Ternura
>>> Liberdade Virtual
>>> A Colina dos Suspiros
>>> Pretinha, eu?
>>> Amor Não Tem Cor
>>> A Morte Tem Sete Herdeiros
>>> Contos Urbanos e Lendas Rurais
>>> Redes de Abuso
COLUNAS

Sexta-feira, 7/10/2011
À primeira estrela que eu vejo
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4200 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Era anoitecer. O Sol já se recolhera, enquanto a Lua surgia em algum lugar do céu que não podíamos contemplar. Mas é sempre bom saber que ela está lá. E resolvemos nos deitar na rede, pendurada na varanda, para viver uns momentos de pausa naquele dia tão enfiado de problemas e ações. É parar, momento de parar. Parar para pensar, para olhar, para enxergar, talvez. O dia, as pessoas, as conversas, os alimentos, os sons e tudo o que há passaram tão desavisadamente em frente ao nosso olhar. Desmazelo quase. Aflição quase nenhuma, de tão desapercebido que o dia passa. E ali estávamos nós, mãe e filho, deitados na rede bordada que ganhamos de um amigo.

Deitados então na rede, falávamos das pequenas ocorrências de um dia comum. A escola, o recreio, o colega brigão, o trânsito, os cabelos, as unhas, os telefonemas, os espirros, o dever de casa. Falávamos sem o tilintar dos sinos ou a buzina ansiosa da van que busca meu filho para ir ao colégio. Falávamos ignorando um pouco o alarido da rua ao lado, por onde muitas pessoas passam voltando para casa. (Sim, neste bairro ainda moramos em casas, com telhados só nossos e jardins de grama, como se estivéssemos fazendo algo muito acintoso.) E foi então que uma estrela surgiu no céu, bem à nossa frente.

Piscando levemente, ela parecia ainda indecisa. Enquanto meu filho reparava nela, atento, eu ainda me enrolava com as franjas da rede. E aí ele me lembrou daquela brincadeira eterna e popular: "Mãe, é a primeira estrela que eu vejo. Vamos fazer um pedido?". E entoou, evocativo: "Primeira estrela que eu vejo, satisfaz o meu desejo...".

Eu me surpreendi um pouco com a ideia. Nem sabia que meu filho já conhecia a brincadeira, muito menos que andava assim tão cheio de desejos. Lembrei que pedi muitas coisas às estrelas da noite, especialmente às primeiras que lampejavam diante dos meus olhos míopes. Lembrei também que andei pedindo coisas a Deus, aos santos, às santas e a Iemanjá, que atendeu quase prontamente à minha última sessão de pedidos aflitos. Já passei por Jesus e Deus, em momentos de angústia extrema; por São Jorge, quando a ideia era guerreira; por São Judas Tadeu, inclusive fazendo e cumprindo promessa (e recentemente o descobri meu protetor, São Judas/Xangô); Nossa Senhora Desatadora dos Nós, à qual ainda devo visita no santuário em Campinas (SP); virei as costas a Santo Antônio, mas andei dando umas rezadinhas para Santa Luzia, em intenção de meu irmão. Mas fazia tempo que eu não pedia nada às estrelas.

Meu filho, então, se calou. Ainda criança, já sabe que os desejos infinitos, aqueles bem internos, estados d'alma mesmo, pedem silêncio, calma, paz e um pedido concentrado. Calou-se o menino para centralizar as forças do pedido numa espécie de oração estelar. Peça, meu filho. Peça seu carrinho, seu brinquedo, sua infância. Peça sua alegria, que ainda é fácil como jogar bola de gude. Peça sua namoradinha, que ainda o paquera apenas com olhares. Peça sua aula de judô, seu DVD do Scooby Doo, sua ida ao cinema. Peça sua pipoca, seu chaveiro e sua falta de banho. Peça seu combo de sanduíche. Peça seu passeio pela praia. Peça, meu filho, fale com as estrelas. Parece que as crianças costumam ter muito mais crédito nos pedidos. Há qualquer tolerância a mais com elas. Peça.

Era o que eu esperava: que meu filho se calasse, mas concentrado aos pedidos das coisas que ele via na TV, nas propagandas de fábricas de brinquedos ou nas promoções dos programas infantis. Eu esperava que a primeira estrela a surgir na nossa noite, na varanda, deitados na rede, fosse ouvir os cochichos de um garotinho esperto, ansioso por ganhar uma pista de carrinhos, um robô, um bicho de pelúcia ou um novo transformer. Mas não. Meu filho, como quase sempre, é mais esperto e observador do que posso supor. E ele me surpreendeu. Depois de uns minutos de silêncio profundo, inclusive de olhos cerrados, como quase a rezar, meu filho disse: "pronto, mãe, já pedi". Eu, incontrolavelmente curiosa, como quase toda mãe-coruja, não me aguentei na discrição (que me parecia de bom tom) e acabei perguntando, meio timidamente: "O que foi que você pediu para a estrela?"

Meu filho não pestanejou. A despeito de todo o desejo pelos carrinhos e pelas plataformas de jogos eletrônicos; a despeito das propagandas de TV e do apelo dos supermercados; a despeito de tudo quanto é promessa de alegria e brincadeira, meu filho me revelou: "Mãe, eu pedi para você ser feliz".

Eu, completamente desfeita, envergonhada por me deixar subestimar os mais profundos desejos do meu pequeno; constrangida por desconsiderar a capacidade de observação e mesmo a inteligência dele; esquecida de que tinha dado a luz a um canceriano doce e sensível no trato com a mãe (sua única companheira de morada, cama, mesa e banho), só pude abraçá-lo muito, verdadeiramente agradecida, cheia de pejo por deixar tão à vista minha infelicidade flagrante, ou meio sem jeito porque não consigo mesmo esconder qualquer coisa dele neste meu olhar de Capitu. Ainda assim, diante de um exímio leitor de pessoas, tentei esconder a lágrima quente que me escorreu dos olhos. Acho que consegui.


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 7/10/2011


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Primavera para iniciantes de Elisa Andrade Buzzo
02. Nobel, novo romance de Jacques Fux de Jardel Dias Cavalcanti
03. Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso de Cassionei Niches Petry
04. Séries da Inglaterra; e que tal uma xícara de chá? de Renato Alessandro dos Santos
05. Brasil, o buraco é mais embaixo de Luís Fernando Amâncio


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2011
01. É possível conquistar alguém pela escrita? - 21/1/2011
02. Meus livros, meus tablets e eu - 15/4/2011
03. Você viveria sua vida de novo? - 18/2/2011
04. Pressione desfazer para viver - 17/6/2011
05. Bibliotecas públicas, escolares e particulares - 20/5/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
8/10/2011
08h29min
Um encanto ser mãe? Emoção em cada letra dessa crônica. E um sentimento de agradecimento pela sua existência. Esconder a tristeza e melancolia não passa desapercebido por uma criança. E espero que essa estrela se torne guia, permanente, da sua felicidade. E a nossa, ao ler. Abraços!
[Leia outros Comentários de Cilas Medi]
10/10/2011
10h51min
Que um dia Deus me conceda essa graça... Linda crônica!!
[Leia outros Comentários de Marta]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




ESPAÇO NACIONAL, FRONTEIRAS E DESLOCAMENTOS NA OBRA DE ANTÔNIO TORRES
CLÁUDIO CLEDSON NOVAES, ROBERTO H. SEIDEL (ORG.)
UEFS
(2010)
R$ 25,00



UM LIVRO FORJADO NO INFERNO- O TRATADO ESCANDALOSO DE ESPINOSA E O NASCIMENTO DA ERA SECULAR.
STEVEN NADLER
TRÊS ESTRELAS
(2013)
R$ 29,99



QUINCAS BERRO D'ÁGUA E O GATO MALHADO
JORGE AMADO
RECORD
(1983)
R$ 30,00
+ frete grátis



TUDO É POSSIVEL
ALLAN PERCY
SEXTANTE
(2013)
R$ 10,00



RANGERS: ORDEM DOS ARQUEIROS 1 - RUÍNAS DE GORLAN
JOHN FLANAGAN
FUNDAMENTO
(2009)
R$ 16,90



SCJP SUN CERTIFIED PROGRAMMER FOR JAVA 5 NEW EDITION (SEM CD)
KATHY SIERRA / BERT BATES
MCGRAW HILL
(2006)
R$ 29,00



UM AMOR PARA RECORDAR
NICHOLAS SPARKS
NOVO CONCEITO
(2013)
R$ 6,78



VIAGENS PSÍQUICAS
RUSSEL B. ADAMS
ABRIL LIVROS
(1993)
R$ 10,00



OS JOGOS TEATRAIS DE VIOLA SPOLIN: UMA PEDAGOGIA DA EXPERIÊNCIA
KARINE RAMALDES E ROBSON CORRÊA DE CAMARGO
KELPS
(2017)
R$ 35,00
+ frete grátis



JOSÉ E SEUS FILHOS VOL 8
GORDON LINDSAY
GRAÇA
(2001)
R$ 5,00





busca | avançada
22991 visitas/dia
1,1 milhão/mês