Carles Camps Mundó e a poética da desolação | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
84710 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Relacionamentos amorosos com homens em cárcere é tema do espetáculo teatral ‘Cartas da Prisão’, monó
>>> Curso da Unil examina aspectos da produção editorial
>>> “MEU QUINTAL É MAIOR DO QUE O MUNDO - ON LINE” TERÁ TEMPORADA ONLINE DE 10 A 25 DE ABRIL
>>> Sesc 24 de Maio apresenta Música Fora da Curva: bate-papos sobre música experimental
>>> Música instrumental e natureza selvagem conectadas em single de estreia de Doug Felício
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
>>> O zunido
>>> Exposição curiosa aborda sobrevivência na Amazônia
>>> Coral de Piracicaba apresenta produção virtual
>>> Autocombustão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O grito eletrônico do Overmundo
>>> Picasso versus Duchamp e a crise da arte atual
>>> Usina
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Web 2.0 reloaded
>>> Lendas e mitos da internet no Brasil
>>> A loucura das causas
>>> Queen na pandemia
>>> Nerd oriented news
Mais Recentes
>>> O Retorno À Origem de Lex Hixon pela Cultrix (1997)
>>> Emma - Edição Bilíngue - Português/ Inglês de Jane Austen pela Landmark (2012)
>>> O Vento Da Mudança de Julie Soskin pela Pensamento (2000)
>>> A Nave de Noé de Trigueirinho pela Pensamento (1999)
>>> Karma E Maturidade Um Guia Diferente para a Jornada de Eileen Connolly pela Cultrix (1999)
>>> Diálogos de Roman Jakobson e krystyna Pomorska pela Cultrix (1985)
>>> Receita da felicidades de Ken Keyes Jr. E Penny Keyes pela Pensamento (1995)
>>> História Caderno de Competências Conecte de M. Esther Nejm et al pela Saraiva (2014)
>>> A Viagem de Uma Alma de Peter Richelieu pela Pensamento (2006)
>>> Entre o Agora e o Sempre de J. A. Redmerski pela Suma de Letras (2014)
>>> Respostas da Vida de Francisco Cândido Xavier (Espírito André Luiz) pela Instituto André Luiz (1975)
>>> Entre o Agora e o Nunca de J. A. Redmerski pela Suma de Letras (2013)
>>> O Guardião de Nicholas Sparks pela Arqueiro (2013)
>>> Viagem Atraves Da Luz de Lorna Todd pela Pensamento (1995)
>>> Curso Básico de Mecânica dos Solos de Carlos de Sousa Pinto pela Oficina de Textos (2002)
>>> Anjo da Morte de Pedro Bandeira pela Moderna (2009)
>>> História Volume Único Conecte Lidi de Ronaldo Vainfas et al pela Saraiva
>>> Vidas que nos Completam de Américo Simões pela Barbara (2011)
>>> Uma O Tau. Um Sinal Espiritualidade de Mariano Bigi pela Vozes (2004)
>>> Diálogo Com A Cidade de Cardeal Dom Cláudio Hummes pela Paulus (2005)
>>> Patologia das Fundações de Jarbas Milititsky, Nilo Cesar Consoli, Fernando Schnaid pela Oficina de Textos (2005)
>>> Escrita chinesa de Viviane Alleton pela L&Pm (2010)
>>> Caderno de revisão Química Conecte de M. Esther Nejm et al pela Saraiva (2014)
>>> A Igreja. 51 Catequeses do Papa Sobre a Igreja de Felipe Aquino pela Cleofas (2004)
>>> O Sono dos Hibiscos de Lygia Barbiere Amaral pela Lachatre (2005)
COLUNAS

Terça-feira, 9/2/2016
Carles Camps Mundó e a poética da desolação
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2000 Acessos


O que restaria para a poesia contemporânea depois que o modernismo fragmentou todas as certezas e instalou a ausência de perspectiva como um carma para o presente?

Ninguém melhor do que o poeta catalão Carles Camps Mundó para responder. E a antologia de poemas editado agora, com seleção, tradução e introdução de Ronald Polito, publicada pela Portal Editora de São Paulo, nos dá a medida da desolação, da certeza de que vivemos numa espécie de campo minado onde a curva da onda da maré da linguagem só pode falar dessa desesperança em queda livre.

Na introdução, onde se apresenta o percurso poético de Mundó, o tradutor Ronald Polito nos dá o topos dessa poesia: “Sem imagens, sem movimentos, sem destinos, o campo da linguagem pode se recolher ou reduzir às experiências tomadas como realmente essenciais ou verídicas: da dor, da ausência, da solidão, da errância, da impossibilidade de diálogo, da perda e do silêncio, corolários naturais de um mundo desprovido de magia, na qual precisamente as palavras estão destituídas de toda esperança e não oferecem a possibilidade de um exorcismo”.

Na coleção de poemas de “O ausente” (1989), a prova dessa desolação é concreta. A nostalgia dolorosa de um suposto lugar que a memória guarda como possibilidade, um jardim primigênio, faz do poeta, “ferido de pretérito”, o que canta sua perda. Já que... “Lá estive”, diz o poeta.

Segundo Polito, no caso de Mundó “as palavras poderiam se aproximar da clara enunciação dessa carência de plenitude”, dentro de “todos os instantes sucessivamente vazios” tal qual existem como legados de certa modernidade: “A escolha dessa alternativa situa a poética de Carles Camps Mundó na fratura de certa modernidade e suas projeções fracassadas, uma modernidade em eterna carência do absoluto, tornada concreta a agonia que não finda de um tempo sem perspectiva”, completa o tradutor.

É notável em Mundó o projeto de uma poesia para esse campo do esgarçamento das forças vitais do presente. Manter-se, ainda assim, como criador da linguagem capaz de enunciar essa “queda” constitui sua poética. Em seu texto em prosa “Ideia do poema”, uma citação de Hegel nos aproxima desse projeto: “a vida do espírito não é a vida que se espanta diante da morte e se mantém pura da desolação, mas a que sabe enfrenta-la e manter-se. O espírito somente conquista a sua verdade quando é capaz de se encontrar em si mesmo no absoluto esgarçamento”.

Como anota Victor da Rosa, no posfácio à tradução de Polito, “o próprio Mundó define o poema como uma viagem do otimismo à decepção”. Essa decepção existe porque o mundo que se coloca ao poeta é, como diz Polito, “sem deuses, sem epifanias, sem resgate pela história pessoal ou coletiva, mas principalmente sem nenhuma essência e sem sossego”.

Em sua “Autoapresentação”, Mundó fala de sua própria poética como “uma metafísica negativa”, alimentada pela "contradição entre o desejo e a realidade do corpo”. A sua angústia existencial se baseia, diz Mundó, nesta “oposição desejo-lembrança que nos impede de viver, como os animais e as plantas, o eterno presente de que nos fala Rilke”. Animais da linguagem, nos homens perdemos a unidade, ainda mais quando na modernidade desfragmentamos a ideia da própria linguagem (“Já nem gemido. Só palavras/ anônimas –/ imagens que me omitem”), sendo expulsas todas as esperanças como Adão foi expulso do Paraíso.



Então, da lembrança de um jardim primigênio,

do anseio sepre irresoluto da memória,

ferido de pretérito,

eu canto minha perda: lá estive.

Unicamente isto, e este irredutível

corrompimento das perguntas

que inda me faço indenes.



O que o poeta invoca é essa fratura do ser, única possibilidade do poema ainda poder dizer algo, mesmo que apenas sobre o que sobra como o oco:



Inclino-me sobre mim mesmo

já oco. Sombra de Narciso:

evaporação da água que

contém o reflexo. E me invoco.



Talvez a parte mais atordoante da seleção dos poemas de Mundó seja o “Livro das alusões”, onde o pessimismo, a dor, a violência da morte se concentram na ideia da ausência de possibilidade de redenção pela palavra do poeta.



Morreste, e vivo com a culpa

da vida: como se viver

fosse não ser triste bastante.

---

Irremissivelmente. Agonizavas.

E te dávamos a mão

para ajudar-te a morrer, para que o tato

- já último dos sentidos –

te fizesse sentir um pouco menos só

na solidão da morte,

mas a mim me parecia notar

- talvez, desamparados, todos o notávamos –

que eras tu que nos seguravas

com tuas benignas mãos

- como quando crianças – para ajudar-nos

a viver.

---

A tua morte fez com que a palavra

mãe – tão terrena e alimentadora –

se haja convertido em mim numa

palavra sem nada tangível

que a assegure,

uma palavra isenta,

como Deus ou ausência.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 9/2/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A derrota do Marketing Político de Fabio Silvestre Cardoso
02. Estamos nos desarticulando de Julio Daio Borges


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2016
01. Os dinossauros resistem, poesia de André L Pinto - 9/8/2016
02. O titânico Anselm Kiefer no Centre Pompidou - 5/4/2016
03. Tempos de Olivia, romance de Patricia Maês - 5/7/2016
04. A literatura de Marcelo Mirisola não tem cura - 21/6/2016
05. Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte II) - 1/11/2016


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Tempos de Traição - Possuídos por Ambição
Joao Manoel da Costa
Barauna
(2011)



Os Dois Corpos do Presidente e Outros Ensaios
Luiz Eduardo Soares
Iser; Relume Dumara
(1993)



Seu Futuro Segundo os Tarôs
Giovanni Sciuto
Nordica
(1992)



Tábuas de Logaritimos
Irmãos Maristas
Ftd
(1973)



The Life You Want - Get Motivated, Lose Weight, and Be Happy
Bob Greene e Ann Kearney Cooke
Simon & Schuster
(2010)



Tocaia Grande - a Face Obscura - Coleção Grandes Escritores Brasileiro
Jorge Amado
Folha de S. Paulo
(2008)



O Sonho - Nova Concepção
José Maria Arantes
Fgv
(1993)



Lusco Fusco Vida E Morte De Um Desconhecido
Pablo La Noche
Bertrand
(1974)



Dicionário Enciclopédico Ilustrado Veja Larousse Volume 9
Abril
Abril
(2006)



God Is Dead
Ron Currie Jr
Penguin Paperbacks
(2008)





busca | avançada
84710 visitas/dia
2,6 milhões/mês