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Quarta-feira, 18/7/2001
Soy loco por ti, America
Daniela Sandler
+ de 4000 Acessos

Na semana retrasada, falei do "valor monetário cultural" e do prestígio que acompanha, por exemplo, filmes asiáticos. Depois fiquei pensando. Por que é, então, que o Irã ou Taiwan ganharam esse prestígio e o Brasil, não?

Muitos fatores entram na conta, claro. O cinema brasileiro "ressurgiu" - para o Brasil e para o mundo, nos festivais internacionais - mais tarde e mais discretamente que outras cinematografias. Será só isso? O que torna mais palatável a aridez da paisagem dos filmes iranianos, por exemplo, que a do sertão nordestino? Desde que fui estudar nos Estados Unidos, em 99, comecei a ter a sensação crescente de que as pessoas lá sabem muito pouco sobre o Brasil. Somos muito pouco familiares.

Não estou falando de dados concretos, do nome do presidente, da língua que falamos, que muita gente não sabe mesmo (bom, eu não sei o nome de todos os presidentes do mundo de cor). Uma vez, estava conversando com a curadora da coleção de imagens da biblioteca de arte da minha universidade. Ela é culta, fala alemão, japonês, francês, tem mestrado em Biblioteconomia, é especialista em história da arte. Bem, no meio da conversa, ela diz que seria bom que eu a ajudasse com os slides de obras brasileiras, já que ela não fala espanhol ... Mas falo de outra coisa - de um sentimento geral, mais que aspectos específicos. Por isso usei a idéia de familiaridade.

Nos Estados Unidos, a "consciência latina" é superaguçada. Está presente em todos os aspectos da vida - comunidades de imigrantes mexicanos ou porto-riquenhos; os muito populares clubes de música latina, em que cada vez mais gente se aperta para dançar salsa, mambo, tango; restaurantes e bares mexicanos e "Tex Mex" (a comida do Texas); out-doors e programas de televisão em espanhol; lojas de artesanato da América Central e do Sul. Não é só nessas instâncias declaradamente latinas que a "latinidade" aparece. Cada vez mais gente fala espanhol; quase todo bar serve tequila e margaritas; "quesadillas" e "burritos" já viraram prato de lanchonete; Bart Simpson solta "ay caramba" e "no problema" várias vezes por episódio. Sobrenomes latinos já estão incorporados à cena norte-americana, devidamente associados a curvas, sensualidade e bumbuns bem fornidos - da Lopez à Aguillera.

No começo, achei simpática, até hospitaleira essa presença penetrante de elementos latinos. Que diferença de alguns anos atrás, quando, em minhas visitas ao exterior, latino era sinônimo de chicano (termo que, quando surgiu, era pejorativo, ofensivo e preconceituoso - tipo "cabeça-chata" ou "preto") e Brasil, de futebol e Pelé. Depois comecei a perceber que toda a propagandeada "latinidade" - presente tanto no cotidiano quanto na academia, em várias correntes de estudo, dos Latin American Studies à Post-Colonial Theory, todos ligados ao Politicamente Correto - tem, na verdade, nacionalidade e abrangência muito específicas. México, Cuba e Porto Rico - é basicamente essa a carne da identidade latino-americana nos Estados Unidos. Há razões para isso, que não devem ser ignoradas. Geograficamente, são esses os países latino-americanos mais próximos dos Estados Unidos. Historicamente (no que pesa tanto a geografia quanto o passado político e cultural da região), são essas as principais fontes de imigrantes para a América do Norte. As comunidades de imigrantes mexicanos, cubanos e porto-riquenhos não são apenas mais numerosas que as de outras nacionalidades da América - são também mais antigas, mais bem organizadas politicamente, mais visíveis socialmente e mais influentes culturalmente. Natural que a popularidade de coisas latinas tenha raiz nessas, e não em outras, culturas do continente. Tanto é assim que, nas cidades em que a comunidade imigrante brasileira é mais numerosa, presente e visível, como Miami e Nova York, os elementos culturais brasileiros são também mais conhecidos. Um amigo de Nova York contou ser apaixonado por pão-de-queijo e queijo-de-minas fresco (como o nosso queijo branco, lá não há). "White cheese", ele repetia, desolado por não poder achá-lo em Rochester.

Mas, na maior parte dos casos e dos lugares, é a tríade acima mencionada - com predominância do México - que define o que é "latinidade". Esse fato, porém, não é nunca reconhecido. Muito significativo dessa generalização vaga é o personagem Fez, da série de TV That 70's Show. Fez é um estudante de intercâmbio do qual se sabe que:

a) tem o espanhol como língua nativa

b) vem de algum país da América Latina, nunca revelado

Fez, como convém, tem cabelos e olhos negros e pele morena (o que, para a gente, é variação da raça branca, para eles é nitidamente "escuro" e sinal de "outra raça"). O ator, Wilmer Valderrama, é venezuelano. Mas, na série, seu país de origem é um mistério. A indefinição, aliás, motiva inúmeras piadas e situações engraçadas - para os norte-americanos, pelo menos. Duas personagens dialogam.

- De onde vem mesmo Fez?

- Panamá, eu acho... - responde a outra, com ar pensativo, sublinhando a palavra "Panamá" com uma entonação intrigada, como se estivesse pronunciando algo esquisito ou engraçado.

- Será? Hum.... sei lá!

A audiência cai na gargalhada - menos eu, claro. Aliás, se algum de vocês descobrir a graça dessa piada, por favor, me explique. Para além do humor, no entanto, acho revelador que um dos protagonistas de uma das séries de maior sucesso nos Estados Unidos seja um "representante" latino (assim como toda propaganda ou programa agora inclui um representante "negro" ou "oriental") genérico, para cuja caracterização não faz diferença a nação, a cultura específica ou o sotaque com que fala espanhol. Pensemos que os mexicanos, para dizer calle (rua), pronunciam "caie", e os argentinos, "caje". Pensemos no físico tão diverso de argentinos, chilenos, paraguaios, bolivianos... não só as diferenças entre as nações, mas dentro das nações. Pensemos em nós! Por que a versão pasteurizada do latino - as cores que se encaixam sem surpresa nas expectativas formadas por estereótipos e preconceitos - deveria servir de emblema para todo o continente?

Talvez "identidade latino-americana" seja uma bandeira mais forte do que, por exemplo, "mexicanidade" ou "identidade cubana". Talvez não seja nem por escolha própria que essas nacionalidades específicas tenham vindo a significar o continente inteiro. Talvez haja até vantagens nisso - vou deixar tudo isso em aberto, mesmo porque, na ressaca da guerra dos Bálcãs, não quero fomentar nacionalismos sectários ou patriotada.

Mas talvez seja também o caso de concluir que "latinidade" não significa nada - ou nada daquilo que imaginamos. Somos a América Latina, originalmente, porque fomos colonizados por povos latinos e porque falamos línguas latinas. Até aí, nossa filiação ao Lácio nos irmanaria aos franceses, italianos e romenos. Aliás, outro estereótipo, o de que povos latinos são sensuais e abertos, faz com que muita gente associe, por exemplo, brasileiros e franceses. "Nós somos dois povos calorosos", ouvi uma vez de um francês. O quê? Só se eu considerar que há vários graus de temperatura! Mas talvez melhor diríamos que "somos duas pessoas calorosas" - e os povos teriam pouco a ver com isso.

Voltando à América. Temos, sim, muito em comum. Talvez não seja o que desejamos ver. Somos países do terceiro mundo, subdesenvolvidos, desiguais e injustos. Temos Histórias de repressão e ditaduras. O primeiro mundo nos vê tão próximos nesse sentido que, se a Argentina vai para o buraco, para lá vamos todos nós... Não é à toa que, na Guerra Fria, para garantir que o continente ficasse do lado certo, os Estados Unidos batizaram sua linha de montagem de ditadores (a despeito das diferenças sócio-políticas de cada país) de Escola das Américas. Por esse e outros motivos, acho que o intercâmbio, a tolerância e a convivência dos diferentes povos e culturas do continente americano é desejável. Essas intersecções, aliás, já ocorrem nas zonas de fronteira - ainda mais no Brasil, país continental, em que um gaúcho, um pantaneiro e um maranhense hão de ser tão diferentes (às vezes, não).

De fora, aquele que exclui acha que o excluído, o outro, é "tudo igual". Só nós podemos sentir a falsidade e a incorreção dessas generalizações vagas. Sim, sou pela integração dos povos; não acho que nossas diferenças e particularidades sejam estáticas, imutáveis ou essenciais. Mas não é ignorando as diferenças (menos ainda em troca de uma identidade irreal) que vamos nos entender ou contribuir uns com os outros. Acho que, para isso, precisamos ter a consciência histórica de nossas diferenças, passadas e presentes. Não se fala espanhol no Brasil, não se comem enchiladas, não se dança merengue por aqui. Como cantaria o Karnac, falando justamente de integração e entendimento: peruano não é mexicano, guatemalteca não é cubano e hondurenho não é brasileiro.

Para saber mais

That 70s Show


Daniela Sandler
São Paulo, 18/7/2001

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01. Livros para um cruzeiro de Eugenia Zerbini


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