O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece | Daniela Sandler | Digestivo Cultural

busca | avançada
32715 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 8/8/2001
O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece
Daniela Sandler

+ de 10400 Acessos

Assisti a um Show do Milhão pela primeira vez na semana retrasada. Apesar de eu lutar contra os preconceitos, em especial os meus próprios, um resquício de empáfia me fazia dizer, até então, com orgulho, que minhas retinas nunca haviam sido expostas ao dito programa. Achava que não precisava ver para saber do que se tratava. Engano! O Show do Milhão trata de coisas que eu nunca imaginara. Claro, trata-se também de um programa de perguntas que imita produtos similares norte-americanos e que atrai gente por oferecer dinheiro em troca de conhecimentos diversos. Mas isso eu já sabia, e vocês também. Não é disso que estou falando.

Concedo que o programa pode ser criticado de inúmeras maneiras, a começar da macaquice. Todo o esquema - título, música, cenário, proposta - é calcado no programa Who Wants to Be a Millionaire (Quem Quer Ser Milionário), que passa nos Estados Unidos. Para o meu gosto, pelo menos, os shows - tanto o brasileiro quanto o americano - são duvidosos e bregas. Aqueles universitários em traje de gala, os brilhos e luzes em cena, a trilha sonora... ou talvez seja a voz do Lombardi, já indelevelmente ligada à memória da Porta da Esperança, do Show de Calouros, do Domingo no Parque e outras pérolas do SBT que me deprimiam na infância.

Talvez se possa também questionar a exploração de um saber aleatório, às vezes superficial, um conhecimento de variedades vazio e sem sentido - como sempre, tudo vira produto, de uma forma ou de outra. O conhecimento só vale pelo valor em dinheiro da resposta. Falando em dinheiro, citemos também o dinheiro que o programa deve render, não só em audiência e anúncios como na venda das revistinhas.

E, por fim, há o incômodo voyeurismo de platéia e audiência, vendo a vida ao vivo se desenrolar - o nervosismo das pessoas, que muitas vezes mal conseguem sorrir, a voz baixa e tênue, os olhos brilhando sob os holofotes. O gozo vicário se perpetua, no público televisivo, na satisfação de dizer: essa eu sei!, cantando a resposta para os familiares ou quem mais estiver perto da tevê.

Ao começar a ver o show, no entanto, fui sentindo coisas bem diferentes, além de pensar todas essas. Silvio Santos, cuja figura imutável já é icônica - o microfone preso ao pescoço, o sorriso cheio de dentes, os cabelos arruivados -, entrevista os candidatos sorteados e seus acompanhantes. Silvio Santos sabe entrevistar e extrair da entrevista a "carne humana" que interessa ao público de seus programas. As perguntas básicas - de onde a pessoa vem, o que faz, de quanto dinheiro precisa, para quê - são seguidas de comentários baseados nas respostas, em que o apresentador espreme o sumo pessoal, quase íntimo, e ao mesmo tempo universal dos candidatos. "Sua mãe vai usar o dinheiro para quê?", pergunta ao menino de uns dez anos, que responde: "Para uma casa, um carro, pagar uma dívida e um aparelho para os meus dentes." "Você precisa de aparelho? Deixe eu ver os dentes". A câmara enquadra os dentinhos tortos. "É", diz Silvio, quase carinhoso, "acho que você precisa mesmo". O menino sorri. Não está encabulado nem ofendido. Quase à minha revelia, sinto ternura pelo menino e começo a torcer por seu aparelho. "Mas o seu aparelho vem por último? O que sua mãe vai fazer primeiro com o dinheiro?" "Tem a casa, o carro, a dívida..." "Mas é nessa ordem?" Close do menino. Silvio continua, terno: "Não é o aparelho que vem primeiro?" "É", o menino concede, dando a Silvio - e a nós - o que queremos ouvir.

Ao meu lado, diante da tevê, uma espectadora assídua me explica: "O Silvio adora garotinhos. Ele só teve filhas, acho que era louco para ter um filho homem. Olha só como ele está gostando do menino". Ela me conta os detalhes. Segundo ela, o Silvio protege candidatos que parecem ter mais necessidade dos prêmios. "Ele ajuda mesmo", diz, convencida. Não importa, aqui, se ele ajuda ou não - o que seria uma acusação grave. Importa a impressão que ele passa de envolvimento num drama real.

A estratégia é essa: o show seria sem graça, sem emoção e sem novidade se não tivesse entonação dramática - "drama" não no sentido de exagero emocional, mas de encenação, enredo, caracterização de personagens. Uma pitada de novela, uma pitada de documentário. Para confirmar minha impressão, um clipe mostrando a mudança na vida de uma participante após ganhar dinheiro no programa. Lombardi apresenta o clipe dizendo algo como "gostamos de mostrar o que aconteceu na vida das pessoas que já participaram".

Mas não é só isso, simplesmente. A inclinação - ou, por assim dizer, a "mensagem" - é clara. Silvio dá a tudo um tom social. Não só porque é gente simples que está na tela e diante dela, mas porque o apresentador se investe de benfeitor: meio pai dos pobres, assim como era na Porta da Esperança. Quase como se tivesse a missão social de ajudar as classes baixas, de contentá-las duplamente: com o espetáculo televisivo e com a matéria concreta dos prêmios. Sua figura mistura os ingredientes do paternalismo: seu tom é simpático, às vezes terno, às vezes complacente, sempre interessado e atento; no centro e no comando do show, deixa claro quem tem o poder, num autoritarismo disfarçado que às vezes se revela, por exemplo, nas brincadeiras benevolentes que faz com os candidatos.

Criticar essa estratégia do pão e circo seria óbvio, assim como seria óbvio espinafrar a demagogia comercial do programa. Não vou fazer isso aqui. Acho que esse tipo de fenômeno cultural - não só esse, mas todos - merece uma análise complexa, que inclua todas as nuances em vez de simplificar e cair em crítica maniqueísta.

Sim, sei que o Silvio não vai resolver a pobreza do Brasil. A esperança de ganhar dinheiro no jogo de perguntas ou de ver atendido o pedido atrás da porta é inebriante, anestesia, adia o problema sem resolvê-lo. Por outro lado, e apesar de isso também fazer parte da estratégia toda, fiquei impressionada com o interesse e o envolvimento do Silvio nesse universo social, cultural e econômico, em seu imaginário e em suas vidas reais. Fiquei me perguntando por que ele enveredou por esse caminho até meio messiânico, por que se fixou nas faixas C e D (como diz o frio alfabeto das pesquisas de mercado), mundo que, com certeza, é bem diferente de sua própria fortuna construída, claro, sobre essa mesma vertente.

Mas não acho que a escolha tenha sido simplesmente mercadológica. É preciso talento para conquistar. Sempre ouço dizer que o próprio Silvio tem origem humilde, trabalhou como camelô e mascate. Não sei se é verdade, mas, de novo, o que importa aqui é a força da história (sic), o apelo que tem. Senor Abravanel, de família imigrante, judia, de nome estranho, adotou não só o nome comum e brasileiro como também a cultura simples e gentia. Por um momento, ao ver seu show, eu me comovi, vi um interesse genuíno pelo povo, uma espécie de missão social. Não vejo muito esses programas, mas duvido que eu vá me sentir assim ao ver Gugu, Ratinho ou Faustão. Talvez o Chacrinha fosse meio como o Silvio, imagino. Sei que faz parte do show, mas não sei se é tudo cenário.



Daniela Sandler
São Paulo, 8/8/2001


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Os encontros dos estranhos de Elisa Andrade Buzzo
02. O Ouro do Brasil de Marilia Mota Silva
03. Novos velhos e lagostas de Carla Ceres
04. O jornalismo na fervura de Marta Barcellos
05. Amor (in)Condicional de Marilia Mota Silva


Mais Daniela Sandler
Mais Acessadas de Daniela Sandler em 2001
01. O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece - 8/8/2001
02. Quiche e Thanksgiving - 21/11/2001
03. A língua da comida - 29/5/2001
04. Mas isso é arte??? - 29/8/2001
05. Notícias do fim-do-mundo - 24/10/2001


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PRATICA NO PROCESSO CIVIL
GEDIEL CLAUDINO DE ARAUJO JUNIOR
ATLAS
(2013)
R$ 34,04



CUCA FUNDIDA
WOODY ALLEN
CIRCULO DO LIVRO
(1971)
R$ 5,50



DIREITO COLETIVO DO TRABALHO EM UMA SOCIEDADE PÓS INDUSTRIAL
TÁRCIO JOSÉ VIDOTTI/FRANCISCO ALBERTO DA MOTTA
LTR
(2003)
R$ 16,34



PARA SEMPRE - SÉRIE OS IMORTAIS ? VOLUME 1
ALYSON NOËL
INTRINSECA
(2009)
R$ 15,00



EVIDENCE-BASED TRAINING METHODS
RUTH COLVIN CLARK
ASTD PRESS
R$ 40,00



OS VISITANTES DA NOITE
SILVIO FIORANI
LAZULI
(2006)
R$ 6,28



O LIVRO DOS FRACTA
HORÁCIO COSTA
ILUMINURAS
(1990)
R$ 25,00



OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA
JULIO DINIS
LELLO & IRMÃO
R$ 8,11



UM JANTAR COM FERNANDO PESSOA
ANTONIO CHIBANTE
AO LIVRO TÉCNICO
(2009)
R$ 20,80



MINHA TERRA E MEU POVO - A TRAGÉDIA DO TIBETE - EDIÇÕES MELHORAMENTOS
DALAI LAMA
MELHORAMENTOS
(1963)
R$ 18,00





busca | avançada
32715 visitas/dia
1,4 milhão/mês