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Quarta-feira, 8/8/2001
O primeiro Show do Milhão a gente nunca esquece
Daniela Sandler

+ de 9200 Acessos

Assisti a um Show do Milhão pela primeira vez na semana retrasada. Apesar de eu lutar contra os preconceitos, em especial os meus próprios, um resquício de empáfia me fazia dizer, até então, com orgulho, que minhas retinas nunca haviam sido expostas ao dito programa. Achava que não precisava ver para saber do que se tratava. Engano! O Show do Milhão trata de coisas que eu nunca imaginara. Claro, trata-se também de um programa de perguntas que imita produtos similares norte-americanos e que atrai gente por oferecer dinheiro em troca de conhecimentos diversos. Mas isso eu já sabia, e vocês também. Não é disso que estou falando.

Concedo que o programa pode ser criticado de inúmeras maneiras, a começar da macaquice. Todo o esquema - título, música, cenário, proposta - é calcado no programa Who Wants to Be a Millionaire (Quem Quer Ser Milionário), que passa nos Estados Unidos. Para o meu gosto, pelo menos, os shows - tanto o brasileiro quanto o americano - são duvidosos e bregas. Aqueles universitários em traje de gala, os brilhos e luzes em cena, a trilha sonora... ou talvez seja a voz do Lombardi, já indelevelmente ligada à memória da Porta da Esperança, do Show de Calouros, do Domingo no Parque e outras pérolas do SBT que me deprimiam na infância.

Talvez se possa também questionar a exploração de um saber aleatório, às vezes superficial, um conhecimento de variedades vazio e sem sentido - como sempre, tudo vira produto, de uma forma ou de outra. O conhecimento só vale pelo valor em dinheiro da resposta. Falando em dinheiro, citemos também o dinheiro que o programa deve render, não só em audiência e anúncios como na venda das revistinhas.

E, por fim, há o incômodo voyeurismo de platéia e audiência, vendo a vida ao vivo se desenrolar - o nervosismo das pessoas, que muitas vezes mal conseguem sorrir, a voz baixa e tênue, os olhos brilhando sob os holofotes. O gozo vicário se perpetua, no público televisivo, na satisfação de dizer: essa eu sei!, cantando a resposta para os familiares ou quem mais estiver perto da tevê.

Ao começar a ver o show, no entanto, fui sentindo coisas bem diferentes, além de pensar todas essas. Silvio Santos, cuja figura imutável já é icônica - o microfone preso ao pescoço, o sorriso cheio de dentes, os cabelos arruivados -, entrevista os candidatos sorteados e seus acompanhantes. Silvio Santos sabe entrevistar e extrair da entrevista a "carne humana" que interessa ao público de seus programas. As perguntas básicas - de onde a pessoa vem, o que faz, de quanto dinheiro precisa, para quê - são seguidas de comentários baseados nas respostas, em que o apresentador espreme o sumo pessoal, quase íntimo, e ao mesmo tempo universal dos candidatos. "Sua mãe vai usar o dinheiro para quê?", pergunta ao menino de uns dez anos, que responde: "Para uma casa, um carro, pagar uma dívida e um aparelho para os meus dentes." "Você precisa de aparelho? Deixe eu ver os dentes". A câmara enquadra os dentinhos tortos. "É", diz Silvio, quase carinhoso, "acho que você precisa mesmo". O menino sorri. Não está encabulado nem ofendido. Quase à minha revelia, sinto ternura pelo menino e começo a torcer por seu aparelho. "Mas o seu aparelho vem por último? O que sua mãe vai fazer primeiro com o dinheiro?" "Tem a casa, o carro, a dívida..." "Mas é nessa ordem?" Close do menino. Silvio continua, terno: "Não é o aparelho que vem primeiro?" "É", o menino concede, dando a Silvio - e a nós - o que queremos ouvir.

Ao meu lado, diante da tevê, uma espectadora assídua me explica: "O Silvio adora garotinhos. Ele só teve filhas, acho que era louco para ter um filho homem. Olha só como ele está gostando do menino". Ela me conta os detalhes. Segundo ela, o Silvio protege candidatos que parecem ter mais necessidade dos prêmios. "Ele ajuda mesmo", diz, convencida. Não importa, aqui, se ele ajuda ou não - o que seria uma acusação grave. Importa a impressão que ele passa de envolvimento num drama real.

A estratégia é essa: o show seria sem graça, sem emoção e sem novidade se não tivesse entonação dramática - "drama" não no sentido de exagero emocional, mas de encenação, enredo, caracterização de personagens. Uma pitada de novela, uma pitada de documentário. Para confirmar minha impressão, um clipe mostrando a mudança na vida de uma participante após ganhar dinheiro no programa. Lombardi apresenta o clipe dizendo algo como "gostamos de mostrar o que aconteceu na vida das pessoas que já participaram".

Mas não é só isso, simplesmente. A inclinação - ou, por assim dizer, a "mensagem" - é clara. Silvio dá a tudo um tom social. Não só porque é gente simples que está na tela e diante dela, mas porque o apresentador se investe de benfeitor: meio pai dos pobres, assim como era na Porta da Esperança. Quase como se tivesse a missão social de ajudar as classes baixas, de contentá-las duplamente: com o espetáculo televisivo e com a matéria concreta dos prêmios. Sua figura mistura os ingredientes do paternalismo: seu tom é simpático, às vezes terno, às vezes complacente, sempre interessado e atento; no centro e no comando do show, deixa claro quem tem o poder, num autoritarismo disfarçado que às vezes se revela, por exemplo, nas brincadeiras benevolentes que faz com os candidatos.

Criticar essa estratégia do pão e circo seria óbvio, assim como seria óbvio espinafrar a demagogia comercial do programa. Não vou fazer isso aqui. Acho que esse tipo de fenômeno cultural - não só esse, mas todos - merece uma análise complexa, que inclua todas as nuances em vez de simplificar e cair em crítica maniqueísta.

Sim, sei que o Silvio não vai resolver a pobreza do Brasil. A esperança de ganhar dinheiro no jogo de perguntas ou de ver atendido o pedido atrás da porta é inebriante, anestesia, adia o problema sem resolvê-lo. Por outro lado, e apesar de isso também fazer parte da estratégia toda, fiquei impressionada com o interesse e o envolvimento do Silvio nesse universo social, cultural e econômico, em seu imaginário e em suas vidas reais. Fiquei me perguntando por que ele enveredou por esse caminho até meio messiânico, por que se fixou nas faixas C e D (como diz o frio alfabeto das pesquisas de mercado), mundo que, com certeza, é bem diferente de sua própria fortuna construída, claro, sobre essa mesma vertente.

Mas não acho que a escolha tenha sido simplesmente mercadológica. É preciso talento para conquistar. Sempre ouço dizer que o próprio Silvio tem origem humilde, trabalhou como camelô e mascate. Não sei se é verdade, mas, de novo, o que importa aqui é a força da história (sic), o apelo que tem. Senor Abravanel, de família imigrante, judia, de nome estranho, adotou não só o nome comum e brasileiro como também a cultura simples e gentia. Por um momento, ao ver seu show, eu me comovi, vi um interesse genuíno pelo povo, uma espécie de missão social. Não vejo muito esses programas, mas duvido que eu vá me sentir assim ao ver Gugu, Ratinho ou Faustão. Talvez o Chacrinha fosse meio como o Silvio, imagino. Sei que faz parte do show, mas não sei se é tudo cenário.



Daniela Sandler
São Paulo, 8/8/2001


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