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Sexta-feira, 3/4/2015
Ficção hiper-real
Gian Danton

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Uma das possíveis divisões da literatura seria entre ficção e não-ficção. A ficção seria composta de obras surgidas da imaginação humana, tais como contos e romances. No outro extremo, estariam obras que tratam de fatos "reais", tais como biografias, livros acadêmicos, históricos... entretanto, cada vez mais surgem livros que testam os limites entre essas duas categorias. Usando o recurso da verossimilhança, eles se tornam hiper-reais e muitas vezes passam a ser vistos como mais reais que a realidade.

O recurso da verossimilhança já era mencionada por Aristóteles em seu livro A arte poética. Segundo o filósofo grego, a verossimilhança não significava que a obra de arte devesse ser real, mas antes parecer real. O dramaturgo deveria convencer o público dessa realidade, por mais fantasiosa que fosse e, quanto mais eficiente nesse sentido, melhor era o resultado. Hoje, nos manuais de roteiro, a técnica também é chamada de suspensão de descrença. O público inicia a fruição da obra descrente de aquilo pode ser real. O escritor habilidoso vai aos poucos minando essa descrença e fazendo o leitor acreditar nos fatos narrados. Exemplo clássico disso foi o Super-homem, cuja primeira página da primeira história se dedicava a fazer uma comparação com os poderes dos animais. Se um gafanhoto poderia pular várias vezes a sua altura, um ser-humano também o poderia, se fosse alienígena. Se uma formiga era capaz de carregar várias vezes o seu peso, um ser-humano especial também o poderia. Estabelecido esse pacto, outros poderes foram sendo introduzidos ao longo do tempo.

Esses recursos, entretanto, podem ser eficientes a ponto de o público confundir o ficcional com o real.

Talvez o primeiro exemplo nesse sentido tenha sido o episódio conhecido no Brasil como "Balela do Balão".

Em 13 de abril de 1844, Edgar Alan Poe publicou no jornal The Sun uma matéria jornalística sobre um aventureiro que estaria cruzando o Atlântico em um balão. Para aumentar a credibilidade da história, o escritor usou até mesmo personagens reais, como o novelista inglês William Harrison Ainsworth. A notícia provocou furor e filas para comprar jornais, que rapidamente se esgotaram, fazendo com que muitas pessoas fossem até a sede do The Sun para comprar seu exemplar.

Discípulo de Poe, H. P. Lovecraft provavelmente se tornou o mais hiper-real escritor de todos os tempos. Sua descrição da mitologia dos velhos deuses, em especial de Cthullu, fez com que muitos acreditassem que seus contos não eram fantasia, mas realidade. O livro Necronomicon, citado em vários textos, foi cercado de tantos detalhes que não só foi tomado como real como, de fato, posteriormente, surgiram várias versões do mesmo. Lovecraft usou a tática de atribuir a autoria do livro a um autor antigo, o árabe louco Abdul Alhazred, criando inclusive sua biografia. Entre os detalhes agregados estavam o de que o livro teria sido proibida pelo papa Gregório IX quando de sua tradução para o latim, em 1232.

Apesar do próprio autor ter declarado diversas vezes que o Necronomicon era uma ficção de sua autoria, muitos acreditaram que ele existia mesmo. Uma dessas pessoas foi o escritor Frank G. Ripel, fundador da Ordem Rosa Mística. No seu livro La Magia Lunar, o autor, apresenta, em castelhano, o que seria o verdadeiro necronomicon, escrito há 4 mil anos, que Abdul Alhazred teria copiada e adulterado. Esse "verdadeiro" necronomicon fundamenta todos os rituais da Ordem. Ou seja: um grimoire ficcional acabou se tornando a base de uma seita real. Uma pesquisa rápida no Google permite encontrar vários Necronomicons à venda e até imagens do livro original - trabalhos feitos por fãs ou aproveitadores que só contribuem para aumentar ainda mais o fascínio sobre o livro fictício e levar mais pessoas a acreditarem que ele de fato existe.

Outra obra que de ficção que foi tida como verdadeira foi O código Da Vinci, de Dan Brown. Antes do início da narrativa, Brown introduziu uma página com o que chamou de fatos: "O Priorado de Sião - sociedade secreta europeia fundada em 1099 - existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiês Secretos, que identificam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci.

A prelazia do Vaticano, conhecida como Opus Dei, é uma organização católica profundamente conservadora, que vem sendo objeto de controvérsias recentes, devido a relatos de lavagem cerebral, coerção e uma prática perigosa conhecida como "mortificação corporal". A Opus Dei acabou de completar a construção de uma Sede Nacional em Nova York, ao custo de aproximadamente 47 milhões de dólares.

Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos, rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade".

Embora não tenha dito que todos os fatos ali descritos eram reais, o autor usou uma estratégia lógica: apresentou diversas premissas, que aparecem no romance, como a existência do Opus Dei e os rituais secretos, como verdadeiros. E deixou para o leitor a conclusão. O leitor, por outro lado, pensou: se todos esses "fatos" são reais e estão no romance, então tudo que nele está também é real. O resultado disso nós vimos na maioria dos veículos de comunicação: matérias e mais matérias sobre Maria Madalena, o Santo Grall e sobre o suposto casamento de Jesus. Por mais que muitas dessas matérias tratassem de desmentir o romance, elas aumentavam o burburinho e o interesse pelo mesmo, fazendo com que aumentasse o roll das pessoas que confundiam ficção com realidade.

Outro que usou o recurso, talvez com mais delicadeza e certamente sem tanto alarde foi Umberto Eco em "O nome da Rosa". Na introdução do volume, intitulada "Um manuscrito, naturalmente", o autor declara que não está apresentando um texto original, mas uma tradução de uma versão francesa do século XIX de um texto de um monge germânico do século XIV.

Segundo Eco, enquanto lia, traduzia livremente o texto, até que o livro lhe foi levado por uma pessoa amada, sem querer, após o fim do relacionamento. O autor conta que consultou medievalistas ilustres, como Etienne Gilson, que não souberam lhe dar informações sobre o tal monge Adso de Melk. Já convencido de que tinha em mãos uma falsificação, ele já desistia de divulgar o texto quando achou, em um sebo da avenida Corrientes, em Buenos Aires, um livrinho de Milo Temesvar que citava diversas vezes o tal Adso.

A exemplo de Poe, Eco cita diversos pessoas e locais reais (a avenida Corrientes, de fato, é repleta de sebos) para dar credibilidade à sua narrativa. Em um pós-escrito, o autor italiano admitiu que seu objetivo com essa estratégia era fruto de pura covardia: ele não sabia como o livro seria recebido pela crítica (já que era seu primeiro romance) e preferiu apresenta-lo como sendo de outra pessoa.

JJ Benítez aperfeiçoou o recurso no livro "Operação Cavalo de Tróia", que conta a história de uma viagem no tempo organizada pelo governo norte-americano à época de Jesus. Benítez argumenta que o texto não é seu, mas é a transposição do diário de um major americano, que teria participado da missão.

A longa introdução do primeiro volume (mais de 50 páginas!) se dedica a narrar como conseguiu o diário em uma trama que mistura decifração de mensagens secretas e espionagem, com o escritor sendo perseguido pelo FBI enquanto tenta retirar os diários do major dos EUA. Se Eco diz que o livro original foi perdido e Lovecraft nos informa que seu original está disponível em algumas poucas universidade (a única nomeada nem mesmo existe), Benítez diz que tem os originais em posse, mas teme o serviço secreto norte-americano, que faria qualquer coisa para impedir a publicação dos livros. Ao final da introdução, faz a ressalva: "antes de passar ao diário propriamente dito, quero deixar assente que meu dever, como jornalista, começa e termina precisamente com a obtenção da notícia. Ao leitor (...) caberá tirar suas próprias conclusões". Esse arremate final, acrescido à toda a trama narrada levou muitos a acreditarem que os diários eram reais e que liam de fato a história de Jesus narrada por quem o conhecera.

No Brasil o exemplo mais famoso provavelmente é o desenhista Francisco Irwenten e seu personagem Capitão Gralha, um dos primeiros, senão primeiro super-herói brasileiro. Iwerten é verbete em enciclopédias, ganhou prêmios, foi objeto de várias matérias jornalísticas e até de artigos científicos e quase se torna enredo de escola de samba. Apesar da popularidade, tanto criador quanto criatura nunca existiram. Ele surgiu em 1997 em um texto publicado na revista Metal Pesado Curitiba. Na época os nove criadores do personagem Gralha haviam imaginado que seria interessante apresentá-lo não como um personagem original, mas como a recriação de um herói clássico, o Capitão Gralha.

Eu fui encarregado de escrever o texto que apresentava o herói clássico e seu criador. Na época acreditei que apenas estava dando verossimilhança à história do Gralha, a exemplo do que fizeram Umberto Eco em O nome da Rosa e Benítez em Operação Cavalo de Tróia. Assim, espantei-me quando a história começou a repercutir como verdadeira (com o surgimento da internet a lenda se alastrou e ganhou inclusive acréscimos, como a de que Irwenten teria estagiado com Bob kane, criador do Batman). O grupo de criadores se dividiu entre os que pretendiam revelar a história e os que achavam que se "deixasse quieto" a história logo sumiria. O dilema durou 17 anos, nos quais a história só se ampliou. Em 2014 a verdade sobre Iwerten e o Capitão Gralha foi finalmente contada em um álbum de quadrinhos e em uma mesa-redonda na Gibicon Curitiba. Mesmo depois da revelação, ainda há quem se recuse a acreditar. Corre agora o boato de que nós roubamos os exemplares das revistas originais da gibiteca de Curitiba para impedir que alguém provasse a existência do Capitão Gralha.

Num mundo em que ficção e realidade se misturam cada vez mais, o boato muitas vezes parece mais real que a realidade.


Gian Danton
Goiânia, 3/4/2015


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