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Terça-feira, 29/9/2020
Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes
Jardel Dias Cavalcanti

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Este texto, escrito a quatro mãos por Jardel D. Cavalcanti e Ronald Polito, que trata de O enigma das ondas, novo livro de poemas de Rodrigo Garcia Lopes, publicado pela Iluminuras, quer ser uma conversa, um diálogo, não uma resenha. Não busca ser sistemático, prefere ser seletivo, fragmentar. Poderia ser estendido, mas é sua intenção a incompletude, a lacuna, o segmento. É um modo de deixar a palavra em aberto, como nos poemas de Rodrigo Garcia Lopes.

Ronald, creio que em boa parte do livro do Rodrigo há uma tensão entre uma prosa que se quer poética e uma prosa que é de fato poema. Essa tensão é comum na poesia moderna, inclusive, creio que a domina de canto a canto. Não é um problema, já que o que se quer nessa prosa poética é captar o pré-poético de uma situação e jogá-lo na onda do poético. Veja-se o caso do poema “Aéreo reverso”, onde a palavra “surfista” e o próprio ato de surfar apresentam uma relação comum. Fazer a palavra surfista surfar talvez seja o objetivo máximo do poema. Para tanto, o poeta precisa dos elementos prosaicos da aventura do surfista para desencadear as relações possíveis entre palavra e ação. O ritmo próprio da ação de surfar vai fazer o poema ganhar também um ritmo parecido com o da prancha sobre as ondas. E é como se a palavra surfista reaparecesse em movimento próprio como que surfando também, como podemos ver nos versos seguintes: “A palavra surfista ressurge do spray da casa de vidro/ rasga a muralha esmeralda/ em uma manobra/ clássica/ corta por dentro/ Uma vez mais/ atinge o lábio da onda/ e voa.” Uma tentação seria Rodrigo ter colocado os versos na página no formato de um “S perfeito”, movimento pelo qual a palavra surfista escala a onda do poema.

O interesse por fazer o sentido residir no próprio processo da experiência da criação nesse poema faz com que os versos possam sustentar uma densidade ornamental na página em branco, não sendo acometidos por um adormecimento dos significados. Por isso, a transposição da força e do dinamismo da narração do ato de surfar avança em direção a uma “esvoaçante” elaboração de imagens. Daí o recurso a meios rítmicos e cadências não prosaicas. Aqui o tom, a velocidade e a entonação são exigências para se quebrar o prosaísmo do poema. Isso acontece porque a cadência do poema controla nossa leitura, nos retirando imediatamente da veleidade da prosa e nos jogando nos interstícios do poema.

Jardel, outros poemas do livro buscam realizar o que você anotou, fazer com que a disposição das palavras (“fazer a palavra surfista surfar”) materialize a ideia, quando forma é conteúdo, o que é o cerne da arte. “Sextina: o Dia da Marmota”, por exemplo, é uma bela solução formal para materializar a paralisação do tempo. Creio que não é o caso de prosseguir essa enumeração, temos mais questões a abordar. Outro aspecto que me parece particularmente bem realizado é o jogo entre a dicção e a forma “cultas”, por um lado, e, digamos, a oralidade, as palavras comuns da fala cotidiana, o aparentemente não poético, por outro, como na “Sextina” já citada, reunindo, a um só tempo, o traço que você salientou e o que estou abordando agora. Isso abre uma série de considerações. Podemos pensar no quanto a poesia beat impregna a obra de Rodrigo ao longo de sua trajetória. Podemos ainda anotar como ele é um dos melhores leitores de Leminski entre nós, sem ser epígono. E talvez principalmente como ele soube digerir o pop, a poesia marginal etc. sem se reduzir a esse figurino estrito em que tantos incorrem no Brasil. Isso porque, em contrapartida, Rodrigo é um poeta de formação erudita e ele não abre mão disso. Ainda bem. O trato com as formas fixas, metros, rimas, presente desde seu primeiro livro e exacerbado neste que está lançando, a prática da tradução de textos de tradições variadas, tudo isso cria exigências próprias, obriga o poeta a não fazer concessões, poesia fácil, palatável e adolescente, fricotes de classes médias. E exige que o leitor vá além da diversão rumo aos problemas que uma poética deve encerrar. Entre tantos exemplos, o “Short Cuts: epigramas”, retomando a grande tradição latina, Catulo, Marcial, utiliza uma forma canônica para disparar dardos no alvo contra a poesia fácil e engraçadinha, a política mesquinha, a realidade aterradora desse país, o mundo literário e suas questiúnculas, a culminar em um “Epitáfio” autocrítico.

Ronald, bem corretas suas observações. É um livro grande, com interesses diversos na criação dos poemas. Voltarei a insistir na tensão dentro do livro entre os elementos de natureza poética e os de natureza prosaica. Veja-se, por exemplo, poemas como “Selvageria” e “Últimas notícias”. São uma espécie de poema-noticiário-denúncia, que envolve a realidade, elencando problemas de natureza política bastante referenciais ao contexto atual. Os poemas não avançam para uma dicção menos objetiva, encadeando-se como trechos do noticiário que ouvimos todos os dias pelas mídias contemporâneas. A poesia não sofre o atropelo da realidade, ela apenas mapeia suas complicações, padecendo de uma insuficiência formal e sendo, por isso, pura comunicação. O poder de duplicar a realidade torna dócil o poema. Se a apresentação abrupta dos problemas sociais nos perturba, o papel da poesia difere da comunicação do choque no sentido de que precisa ter mais do que eficácia. Para quem gosta de poesia, a falsidade eloquente vale mais do que a supérflua realidade dos fatos.

Diferente de poemas como “Solstício”, cuja matéria-prima poética pode nos lembrar Rimbaud (amplamente traduzido por Rodrigo), pela formalidade do impulso de fazer poesia através de um aglutinar de imagens. Ou o poema “Uma rápida visita”, muito próximo da dicção de Sylvia Plath (também traduzida por Rodrigo), onde, “o inesperado faz-nos esquecer o lugar-comum”. Ainda podemos citar o poema “Dreamscape”, onde a realidade é obscura, não mapeada, mas temos o seu efeito presente, como podemos ver nos primeiros versos: “Ir além de mim/ Num tapa// A tal realidade alterada/ Não está em nenhum mapa// Tão nublado agora/ Que poderia ser noite”. O que se segue no poema é uma espécie de pesadelo onde o real se apresenta como surreal. Outro poema – aliás, um dos grandes poemas do livro -, onde a realidade da guerra se apresenta totalmente, sem precisar estar descritivamente ali, é “Polônia, 1945”. Além desses poemas, há evidentemente outros muito bem realizados que poderíamos citar.

Polônia, 1945

Apanhando lenha

na linha do horizonte vejo

ponto negro.



Homem atravessando

campo nevado

e sem som.



Por um minuto

pensei ser meu pai

voltando para mim.



Jardel, concordo com você. Os trabalhos de Rodrigo que são uma espécie de “poema-noticiário-denúncia” ecoam inumeráveis tentativas de outros poetas no Brasil contemporâneo. A lista seria enorme. E nenhum desses poetas consegue realizar formalmente uma transfiguração do que nos cerca. Os noticiários de todo dia conseguem ir muito além de qualquer frase chocante que alguém possa elaborar. A realidade atropela a linguagem. É impossível épater, impressionar, chocar, espantar tentando duplicar o horror, os meios teriam de ser outros e eu não sei quais são, tenho apenas vagas ideias sobre isso. Observo, ainda, que Rodrigo já havia trabalhado essa perspectiva em livros anteriores, como Nômada e Experiências extraordinárias, sem alcançar melhores resultados.

Onde ele inova e realiza muito bons poemas é quando se dedica a temas que tocam na relação entre o homem e a natureza. Como no caso das ondas que intitulam seu novo livro. Aqui também ela está dando desenvolvimento a algo que cruza boa parte de seus livros. Leiam-se os excelentes poemas sobre o mar, a praia e as ondas em Visibilia, que ocupam ali um lugar bem central. Nos outros livros, ainda que talvez mais discretamente, a presença do mar e das ondas também se efetua. Mas no livro novo ela adquire uma significação maior, mais decisiva, com diversos poemas, chegando até à écfrase bem realizada de um quadro de Edwad Hopper, Ground swell. O último poema do livro, não por acaso, é a culminância dessa investigação, é o “fecho de ouro” do trabalho. E nele podemos rever o aspecto que você inicialmente abordou. “O enigma das ondas” é abordado pela formalização de cada estrofe pensada como uma onda, quando a forma materializa a ideia. A sucessão dessas ondas desemboca, ao final, na constatação maior, a última frase da última estrofe: “A língua que falam é a nossa”. Resolvido o enigma? Claro que não, pelo contrário, a língua alcança a consciência de sua ignorância de si e do mundo, repondo o mistério que somos nós e a realidade. Isto é muito bom e ilumina, retroativamente, todas as dúvidas de que o livro está repleto. E sem oferecer respostas, o que seria um “erro”, uma pretensão inadmissível.

Há ainda, Ronald, uma coisa que me chama a atenção na poesia de Rodrigo, ou mais especificamente nesse livro, que é a presença de um “espírito haikai ou epigramático”, não só nos pequenos poemas, mas também em alguns dos maiores. Por vezes, dentro de um longo poema alguns dos versos se individualizam para além da totalidade do poema e se anunciam como se estivessem livres do entorno, realizando aquela “percepção momentânea autossuficiente” exigida no haikai. Para essa operação não é necessário que se trabalhe no formato clássico do haikai, mas dentro do seu espírito. Veja-se, por exemplo, o caso de “Manhã em Olímpia”. Poderíamos enumerar vários outros casos, mas por falta de espaço aqui deixemos que o leitor abra as suas “portas da percepção” para esse fato.

Jardel, queria ainda salientar um pequeno aglomerado de poemas, entre os mais interessantes, que enfoca as co-ocorrências da história, da arte e da natureza, de uma parte, e as possibilidades do eu, de outra. “Breve história da solidão”, abordando milênios de nossas tentativas de fixar a memória da experiência humana das mais diversas formas, conflui para a consciência de que existimos precisamente pela assunção dessas frágeis tentativas de registrarmos quem somos. O terror da temporalidade, assim, torna-se uma potência em aberto, a depender do que faremos dela, com ela. Termino comentando um poema que me agradou particularmente: “Paisagem”. Ele amarra diversos aspectos aqui abordados: a natureza, a arte, o eu. Seu minimalismo oriental repõe com plasticidade a “teoria das pinceladas incompletas”, quando realidade, sua transfiguração pela arte e as tentativas de registro das experiências do eu poético, tudo parece se desvanecer. As poucas palavras e o silêncios entre as estrofes realizam inconicamente a típica sugestão de um nanquim chinês. Não exatamente o “tudo névoa nada”, de Haroldo de Campos. Estamos um pouco antes disto, há ainda uma imagem, mesmo que esbranquiçada.

Ronald, essa “imagem esbranquiçada” sobre a qual você se referiu talvez seja fruto da crença do poeta de que a realidade só pode ser apresentada com perfis infinitos, que só apareçam acidentalmente e que estão em mudança constante. Tais perfis estão sempre devorados pela luz, a luz das destruições que hoje brilham mais que o sol sobre as ondas.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 29/9/2020


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