O assassinato de Herzog na arte | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
14917 visitas/dia
954 mil/mês
Mais Recentes
>>> João da Cruz encerra temporada na Casa das Rosas
>>> 36Linhas lança Graphic Films Collection
>>> Em novo dia e horário, Trilha de Letras presta tributo a Darcy Ribeiro
>>> Teatro do Incêndio é indicado ao Prêmio Governador do Estado
>>> Nathalia Timberg é homenageada no Recordar é TV desta terça (20)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Digestivo e o texto do Francisco Escorsim
>>> Piada pronta
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. Epílogo. Ambaíba
>>> Claudio Willer e a poesia em transe
>>> Paul Ricoeur e a leitura
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 12. Rumo ao Planalto
>>> Dilúvio, de Gerald Thomas
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 11. A Quatro Braçadas
>>> Crônica de Aniversário
>>> Os Doze Trabalhos de Mónika. 10. O Gerador de Luz
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
Últimos Posts
>>> Tatuagens eólicas
>>> Terra úmida
>>> Cidadão de 2ª Classe - Você se Reconhece Como Um?
>>> Espectros
>>> Bojador
>>> Inversões
>>> Estado alterado
>>> Templo
>>> Divagações
>>> Convicto
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha
>>> Nuvem Negra*
>>> Contos fantásticos no labirinto de Borges
>>> Ilustres convidados
>>> Por que comemorar o dia das mães?
>>> Poeira, pra que te quero?
>>> Notas de um ignorante
>>> Teoria do Buraco de Rua
>>> Soluções geniais para a escola e a educação
>>> Orkut, ame-o ou deixe-o
Mais Recentes
>>> A Doutrina de Buda
>>> Dívida de Sangue
>>> Com Maria, a Mãe de Jesus
>>> Leitura Dinâmica e Memorização
>>> Introdução à Morfologia
>>> Paulo Francis Nu e Cru
>>> Morte na Alta Sociedade
>>> Cupom Zero
>>> A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen
>>> Caçada Mortal
>>> O Santo e a Porca e O casamento Suspeitoso
>>> Sociologia do Direito (O Fenômeno Jurídico como Fato Social)
>>> Azeite e azeitonas
>>> O Prazer Dos Aperitivos
>>> Cozinha Das Caraibas
>>> Cozinha Mexicana Sabores sedutores de uma cozinha , picante e temperada
>>> Ovos Sem Casca
>>> Tentação Da Culinária Frutas
>>> O Melhor Da Cozinha Portuguesa
>>> Cozinha Das Caraíbas
>>> Cozinha Mexicana
>>> Deliciosas Receitas De Peixe
>>> Arroz e arrozes
>>> A Mesa Com Burle Marx
>>> Flores De Jardim
>>> Ikebana
>>> Para Sempre Sua (3º Livro da Trilogia Crossfire)
>>> Profundamente Sua (2º Livro Trilogia Crossfire)
>>> Toda Sua (1º Livro da Trilogia Crossfire)
>>> Truques de Mágica
>>> Mondrian
>>> Realismo
>>> Salmo 119- O Alfabeto de Ouro
>>> O melhor Da Música Clássica
>>> Pollock
>>> Felino Selvagem Psicopata e Homicida
>>> O mundo é Mágico
>>> La Démocratie et Les Partis Politiques
>>> Sopas Receitas Caseiras
>>> Soja Receitas De Chef
>>> Tofu Receitas Chef
>>> The New Portuguese Table
>>> Receitas Do Castelo
>>> Um Rei A Mesa
>>> A Cozinha Antilhana
>>> A Cozinha Marroquina
>>> Cozinha Indonésia
>>> Pratos Basicos De Arroz
>>> Literatura, Cinema e Televisão
>>> The Bedford Reader
COLUNAS

Terça-feira, 30/9/2014
O assassinato de Herzog na arte
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 7900 Acessos

"Diante de um homem morto, todos precisam se definir. Ninguém pode permanecer indiferente. A morte de um homem é a de todos nós". (Gianfrancesco Guarnieri)

Dois artistas abordaram em suas obras a morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências de uma prisão militar. Cildo Meireles e Antonio Henrique Amaral, cada um dentro de estéticas específicas, questionaram a versão de suicídio dada pelos militares à morte de Herzog. Trataremos neste artigo, em primeiro lugar, de relatar "o caso Herzog", e, em seguida, de tratar da obra dos dois artistas citados.

HERZOG, PRISÃO E MORTE:

Vladimir Herzog assumiu na década de 1970 a direção do departamento de telejornalismo da TV Cultura, de São Paulo. Vladimir era membro do Partido Comunista Brasileiro, passando a atuar politicamente no movimento de resistência contra a ditadura.

Em 24 de outubro de 1975 agentes do II Exército convocaram Vladimir para prestar depoimento sobre as ligações que ele mantinha com o Partido Comunista Brasileiro, partido que atuava na ilegalidade durante o regime militar.

No dia seguinte, Herzog compareceu espontaneamente ao DOI-CODI. Permaneceu na prisão com dois jornalistas, George Benigno Jatahy Duque Estrada e Rodolfo Konder. Pela manhã, Vladimir negou seu vínculo com o PCB. Os jornalistas foram levados para um corredor, de onde escutaram uma ordem para que se preparasse a máquina de choques elétricos para tortura. Em seguida, Konder foi levado à tortura, e Herzog não mais foi visto vivo.

O Serviço Nacional de Informações recebeu uma mensagem em Brasília de que naquele dia 25 de outubro o jornalista Vladimir Herzog havia se matado no DOI/CODI/II Exército". Era prática do governo militar que as vítimas de suas torturas e assassinatos fossem dados por suicidas.

As fotos que mostravam os pés de Herzog tocando o chão depõem contra a ideia de suicídio, pois nessa posição o enforcamento seria impossível. O rabino Henry Sobel, líder da comunidade judaica, viu as marcas da tortura e enforcamento em Herzog, o que levou a decisão de que seu enterro fosse realizado no centro do Cemitério Israelita do Butantã, o que implicava em desmentir publicamente a versão oficial de suicídio. A morte de Herzog se espalhou, inclusive em jornais, contrariando as normas de censura estabelecidas pelos militares.

O ato religioso pela morte de Vladimir Herzog se tornou a primeira grande manifestação de protesto contra a violência da ditadura militar. Uniu milhares de pessoas dentro e fora da Catedral da Sé, em São Paulo.



CILDO MEIRELES: PROJETO CÉDULAS

A obra "Inserções em circuitos ideológicos: projeto cédula", de Cildo Meireles, trata da morte do jornalista Vladimir Herzog. Em algumas notas de cruzeiro, moeda corrente no período militar, Meireles carimba a pergunta: "Quem matou Herzog?"

A obra indaga sobre os assassinos de Herzog. Aproveitando a facilidade da circulação das notas de um Cruzeiro (quanto menor o valor, maior a circulação), ele cria uma forma de denúncia sobre o assassinato do jornalista.

O projeto nasceu a partir de um convite para participar da exposição Information (Museu de Arte Moderna de Nova York). Para a exposição foram enviados dois projetos. Um denominado "Projeto coca-cola" e outro denominado "Projeto cédula".

Em ambos o objetivo era gravas informações, opiniões críticas e devolvê-las à circulação. Cildo definiu o projeto a partir do seu contexto e das intenções da obra: 1) a dolorosa realidade político-social-econômica brasileira; 2) a crítica à política americana expansionista, intervencionista, hegemônica; 3) aspectos formais da linguagem - produzir objetos inspirados nos ready-mades de Marcel Duchamp.

Cildo aponta o seu interesse por livrar-se do culto da arte enquanto objeto puro. Para ele, a arte deveria existir "em função do que podiam provocar no corpo social (...) a partir da necessidade de criar um sistema de circulação, de intercâmbio de informações, que não dependesse de nenhum controle centralizado".

O objetivo era minar o controle das informações pelos órgãos do poder (TV, rádio, Imprensa), fazendo circular informações que nesses órgãos seriam censuradas. Tratava-se, na verdade, de se criar uma rede de contra-informações.

Negando também a ideia de que a arte se baseia numa mística do autor ou do mercado, a exigência era de que a obra só existe na medida em que outras pessoas também a praticassem.

Para Cildo, a estética fundamenta a arte, mas a política é que fundamenta a cultura. Como uma espécie de ready-made duchampiano, o objeto mais banal e cotidiano é transformado temporariamente em obra de arte, para depois ser colocado em circulação em seu circuito social original, negando-se, nesse momento, enquanto arte, e tornando-se veículo de uma ação tática clandestina de resistência política, pois, "a pergunta tão incômoda ao regime quanto a uma população amedrontada, circula livremente em cédulas, porque ninguém guardaria ou destruiria dinheiro para esconder a dúvida".

O que interessa na escolha dos materiais, diz Ciro, é que sejam invadidos por significados externos que contaminem a obra com as tensões do mundo. A máxima reprodutibilidade da obra lhe dá um caráter não autoral, ou seja, o fato da obra poder ser refeita por qualquer pessoa mergulha-a no domínio público. É que retirando seu poder de autoria, aumenta-se seu poder de circulação.

Diz o artista: "A maior parte das minhas obras pode ser reconstruída; a preocupação é fazer obras libertas do autor, da corporeidade que legitima o original. Queríamos nos libertar da aura do original".



A MORTE NO SÁBADO - ANTONIO HENRIQUE AMARAL

A série de quatro obras denominada "A morte no sábado (1975/6), de Antonio Henrique Amaral, enfocam o assassinato de Herzog. "A morte no sábado - tributo a Vladimir Herzog" (1975) e "Ainda a morte no sábado" (1976) são exemplares na descrição alegórica da violência militar sobre o corpo dos presos políticos torturados.

Em "A morte no sábado - tributo a Vladimir Herzog" a oposição entre formas orgânicas e metálicas num jogo de violência é o que predomina nas telas. Sobre um fundo escuro, como que um corpo manchado por pancadas aparece em cores vermelhas, amarelas e brancas uma espécie de representação das vísceras sendo perfuradas por quatro garfos.

Como um "troféu da repressão, garfos erguem o corpo reduzido a um monte de carne ensanguentada". Peles se abrem para fora, depois de rasgadas; veias surgem em meio ao amontoado de gorduras e tripas. O tom vermelho predomina, nos fazendo imaginar órgãos sujos de sangue.

O contraste produzido pelo encontro do metal com a carne reforça a violência da cena. Numa espécie de grande zoom, podemos ver de perto o estrago que se produz. Nesta alegoria sobre Herzog, revela-se a causa de sua morte: a tortura.

Em "Ainda a morte no sábado", mais uma vez o artista retoma a oposição violenta entre metais e vísceras. Desta vez, acrescenta um novo elemento, uma espécie de "coroa de Cristo", que acompanha e ajuda o garfo a perfurar a carne.

Gorduras brancas abundam ao lado das vísceras, sendo também ultrapassadas pelos objetos metálicos. O recurso ao zoom novamente é usado. O título faz referência ao dia da prisão de Herzog e de sua morte.

Em entrevista, Antonio Henrique conta sobre a criação de suas obras com a temática da morte de Herzog.

Jardel: Falemos do caso Herzog. Como foi a notícia da morte dele e esses seus quadros sobre ele?

A notícia da morte dele... eu me lembro até hoje, foi manchete em todos os jornais... Era um cara de trinta e poucos anos, jovem, diretor de jornalismo da TV Cultura. E de repente ele vai depor, todo mundo sabia que ele ia depor, e no dia seguinte aparece a notícia da morte dele. Foi um choque, saiu no Estadão em página inteira, no Jornal da Tarde. Sob esse impacto eu resolvi pintar quatro quadros que eram A Morte no Sábado ― Tributo à morte de Vladimir Herzog. O fato de os militares matarem uma pessoa dessa qualidade humana, cultural, foi um choque, e o cinismo brutal de tentar afirmar que tinha sido suicídio...! Um horror!

Jardel: Houve censura aos quadros nessa época ou não?

Não foram imediatamente expostos. Quando completou um ano da morte dele eu os doei para o Sindicato dos Jornalistas. Depois começaram a serem expostos em exposições.

Jardel: Mas o povo não tinha acesso...

Não tinha. O povo sempre teve pouco acesso à cultura, o povo sempre teve muito acesso ao futebol, às noticias sobre futebol, com o apoio de toda a elite política que se protege à sombra do noticiário futebolístico... O fato de a gente fazer coisas que não são imediatas, que não são claras, exige que as pessoas pensem, se informem, sintam, abram a cabeça. É o papel civilizador da arte. Música popular é de consumo imediato, o cara não precisa pensar, a letra entra, sai. Claro que tem compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gil, Vinicius, Tom Jobim e tantos outros que fazem musica para a pessoa ficar mais alerta. Mas, em geral, o povo brasileiro gosta mesmo é de música que entra por um ouvido e sai pelo outro...! "Eguinha Pocotó" e coisas do gênero...!

Décia: A fase das bananas foi mais zombando, mas o caso Herzog foi um grande impacto que o fez expressar seu sentimento de revolta?

Exatamente. Porque houve outras mortes. Mas foi emblemática a morte de Herzog. Também o caso do filho da Zuzu Angel, o caso do Paiva, que foi jogado do avião... Como o Herzog era um jornalista da TV Cultura, tinha uma projeção maior do que o Paiva, que era um ativista. No fundo essa obra vale para todos os mortos, vítimas da violência da ditadura militar.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 30/9/2014


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2014
01. Simone de Beauvoir: da velhice e da morte - 29/7/2014
02. O assassinato de Herzog na arte - 30/9/2014
03. As deliciosas mulheres de Gustave Courbet - 3/6/2014
04. Narciso revisitado na obra de Fabricius Nery - 11/3/2014
05. A Puta, um romance bom prá cacete - 2/12/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




RETRATO EM BRANCO E NEGRO
LILIA MORITZ SCHWARCZ
COMPANHIA DAS LETRAS
(2010)
R$ 47,50



APRENDA A RELAXAR
MIKE GEORGE
PUBLIFOLHA
(2007)
R$ 6,99



GÊNIO OBSESSIVO - O MUNDO INTERIOR DE MARIE CURIE
BARBARA GOLDSMITH
COMPANHIA DAS LETRAS
(2011)
R$ 22,55



INVISTA COMO WARREN BUFFETT
LARRY E . SWEDROE
FIGURATI
(2016)
R$ 26,00



A SABEDORIA DOS LAMAS
LOBSANG RAMPA
RECORD
(1965)
R$ 9,00



HISTÓRIA DAS RELIGIÕES: DESAFIOS, PROBLEMAS E AVANÇOS TEÓRICOS, METODOLÓGICOS E HISTORIOGRÁFICOS
IVAN AP. MANOEL E NAINORA M. B. DE FREITAS (ORG.)
PAULINAS
(2006)
R$ 32,00



HOFFMAN
AUGUST SARNITZ
TASCHEM
(2018)
R$ 40,00



O CONHECIMENTO DA VIDA
GEORGES CANGUILHEM
FORENSE UNIVERSIDADE
(2018)
R$ 60,00



O IMPÉRIO DO SOL
J.G. BALLARD
RECORD
(2007)
R$ 10,00



LIVRO DE HORAS DE SOROR DOLOROSA
GUILHERME DE ALMEIDA
NACIONAL
(1928)
R$ 20,00





busca | avançada
14917 visitas/dia
954 mil/mês