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COLUNAS

Quinta-feira, 13/2/2003
A estréia de Glauber Rocha em DVD
Lucas Rodrigues Pires
+ de 3300 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Muita gente ouve falar de Glauber Rocha e torce o nariz; outros escutam seu nome e só faltam incluir um são antes dele. Assim é o legado de Glauber Rocha, se não o melhor diretor de cinema que o Brasil já teve, o mais discutido e conhecido nacional e internacionalmente. A obra de Glauber é vasta e nada homogênea. Composta por curtas, documentários (pouco conhecidos) e longas, tem em Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe seus grandes filmes, considerados obras-primas, apesar de alguns outros receberem rótulo antagônico, como foi com sua obra derradeira - A Idade da Terra.

O motivo desse artigo é apenas um - celebrar o lançamento em DVD de Deus e o Diabo na Terra do Sol, que abre a Coleção Glauber Rocha com uma edição dupla e o filme restaurado e remasterizado digitalmente. Numa parceria entre as distribuidoras Versátil Home Video e Riofilme, tal coleção terá dois pacotes com nove filmes do diretor a sair no decorrer de dois anos. O primeiro tem início com Deus e o Diabo, segue com Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e O Leão de Sete Cabeças. O segundo pack traz Barravento, Claro, Câncer, Cabeças Cortadas e A Idade da Terra.

A importância de Glauber Rocha para o cinema brasileiro está delineada até hoje, mais de 20 anos depois de sua morte. Suas obras, Deus e o Diabo encabeçando a lista, são referências estilísticas e temáticas para muitos novos cineastas. Seria uma volta ao Nordeste, ou o Nordeste Revisitado, como chamou a crítica e teórica do cinema Lúcia Nagib. Encontra-se "várias citações explícitas, próximas da pura homenagem", a Glauber e seu universo árido de personagens e situações. O messianismo religioso e, principalmente, o cangaço, dois assuntos que marcam Deus e o Diabo, ressurgem renovados em filmes como Baile Perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, a refilmagem de O Cangaceiro, de Aníbal Massaini Neto, Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariri, e Guerra de Canudos, de Sérgio Resende. Além disso, o documentário Rocha que Voa, uma produção dirigida por Eryk Rocha, filho de Glauber, trata do cineasta e sua passagem pela Cuba de Fidel.



Deus e o Diabo traz à tona a história de Manoel e Rosa. Vaqueiro no sertão nordestino, quando se vê injustiçado pelo coronel Moraes na partilha do gado, acaba por matá-lo e com a esposa foge para Monte Santo, onde o beato Sebastião e seus seguidores esperam "o sol chover ouro" para poderem se dirigir a uma ilha paradisíaca depois de concretizada a profecia de Conselheiro - "o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão". A história escrita por Glauber invoca explicitamente a história de Canudos, desde seu messianismo até a profecia. E, para tanto, se utilizou dos antagonismos para mostrar a miséria, o cangaço, o fanatismo religioso e o coronelismo, características da cultura nordestina há mais de um século. O mar e o sertão, deus e o diabo, vida e morte, negro e loiro, cruz e espada, fé e razão, o céu e a terra. Numa cena rápida, um padre e um coronel encomendam a Antônio das Mortes o fim de Sebastião. A Igreja e as forças de opressão locais unem-se contra o povo miserável que apenas a fé cega lhe alimentava.

Glauber não esconde o caráter negativo dessa religiosidade - deformada para o fanatismo - e nem o aspecto revolucionário do cangaço. Este, fora da ordem, traz junto da violência a revolução, a desordem. Algo nisso era de simpatia dos ideais glauberianos.

Do encontro trágico com o beato Sebastião, o deus negro, quando a Manoel foi pedido o sacrifício de uma criança para purificar a alma de Rosa, o casal cruza com Corisco, o diabo louro. Nova forma cega de crença e nova desilusão, mas do embate final entre Corisco e Antonio das Mortes a salvação de ambos está assegurada, com o sertão virando mar e o mar virando sertão. Mas não antes da semente do continuísmo (e por que não, revolução?), representada pelo filho que Rosa terá, se perpetuar.

Filme à parte, a importância desse lançamento está no montante de extras que acompanha o DVD. Entre as relíquias encontradas pela distribuidora, o trailer de cinema, uma galeria de mais de 200 fotos inéditas (inclusive imagens do arquivo pessoal do fotógrafo do filme Waldemar Lima), entrevistas e depoimentos de pessoas ligadas ao filme e a Glauber, como os atores Othon Bastos e Yoná Magalhães, além de Dona Lúcia Rocha, Waldemar Lima, Arnaldo Carrilho, presidente da Riofilme, e Walter Lima Jr. Para os estudiosos e amantes da teoria, há a opção de assistir ao filme ouvindo os críticos especialistas na obra glauberiana Ismail Xavier e Ivana Bentes comentando cena a cena, expondo idéias que o filme levantou e ainda levanta. Também tem o texto mais conhecido de Glauber, o manifesto Estetyka da Fome, onde o diretor expõe alguns pontos-chave para a compreensão de sua obra e de suas propostas estéticas.

Fecha o DVD mais completo de filme nacional já lançado um encarte especial de 20 páginas, que é a reprodução fiel do libreto original de cinema do filme, que traz texto ilustrado de Glauber Rocha apresentando a história, seus personagens e equipe técnica.

Um cineasta genial, que se definiu certa vez como "agitador cultural", merecia mesmo um DVD genial.

OS EXTRAS DE DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

. Reprodução fiel do libreto original de cinema do filme, com texto de Glauber Rocha e xilogravuras de Calazans Netto
. Depoimentos de Arnaldo Carrilho (diretor-presidente da Riofilme), Dona Lúcia Rocha (mãe de Glauber), José Carlos Avellar (crítico), Othon Bastos e Yoná Magalhães (atores), Orlando Senna e Walter Lima Jr. (cineastas), Carlos Roberto de Souza (curador da Cinemateca Brasileira) e Waldemar Lima (diretor de fotografia)
. Comentários críticos em áudio de Ivana Bentes e Ismail Xavier
. Galeria de fotos
. Críticas e matérias da época, de publicações nacionais e estrangeiras
. Sertão de Glauber - ilustrações e desenhos de Glauber
. Trilha sonora isolada
. Restauração - antes e depois
. Esboços do Cartaz
. Publicidade da época
. Trailer de cinema
. Textos de Glauber Rocha - A Estetyka da Fome (1965); do crítico Paulo Emilio Salles Gomes - Nota Aguda (1975); e de Arnaldo Carrilho - o inédito A Fome como Ameaça (2002)


Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 13/2/2003

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/2/2003
13h55min
Glauber dizia que Cinema Novo não era estética revolucionária, era ideologia revolucionária. E é(ra).
[Leia outros Comentários de Mírian Macedo]
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