Babenco traz sua visão do país Carandiru | Lucas Rodrigues Pires | Digestivo Cultural

busca | avançada
74271 visitas/dia
2,0 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Inspirado nas Living Dolls, espetáculo de Dan Nakagawa tem Helena Ignez como atriz convidada
>>> As Caracutás apresentam temporada online de Tecendo Diálogos com bate-papo e oficina
>>> Obra de referência em nutrição de plantas ganha segunda edição revista e ampliada
>>> FAAP promove bate-papo com as atrizes Djin Sganzerla, Zezita Matos e com o diretor Allan Deberton
>>> Elísio Lopes Jr comanda oficina gratuita de dramaturgia nesta sexta-feira (27)
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Carol Sanches, poesia na ratoeira do mundo
>>> O fim dos livros físicos?
>>> A sujeira embaixo do tapete
>>> Moro no Morumbi, mas voto em Moema
>>> É breve a rosa alvorada
>>> Alameda de água e lava
>>> Entrevista: o músico-compositor Livio Tragtenberg
>>> Cabelo, cabeleira
>>> A redoma de vidro de Sylvia Plath
>>> Mas se não é um coração vivo essa linha
Colunistas
Últimos Posts
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
>>> Como elas publicavam?
Últimos Posts
>>> O poder da história
>>> Caraminholas
>>> ETC. E TAL
>>> Acalanto para a alma
>>> Desde que o mundo é mundo
>>> O velho suborno
>>> Normal!
>>> Os bons companheiros, 30 anos
>>> Briga de foice no escuro
>>> Alma nua
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Show him what he is like
>>> Machado polímata
>>> In the Line of Fire
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> A polêmica dos quadrinhos
>>> Ad Usum Juventutis
>>> Schopenhauer sobre o ofício de escritor
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Últimos Dias, de Gus Van Sant
>>> Poesia sem ancoradouro: Ana Martins Marques
Mais Recentes
>>> Passagens – Crises Previsíveis da Vida Adulta de Gail Sheehy pela Francisco Alves (1980)
>>> A Chave da Longevidade de Dr. Hugues Destrem pela Europa-América (1979)
>>> A Força da Saúde de Victor Hugo Belardinelli pela Movimento (2013)
>>> O Envelhecimento de Luiz Eugênio Garcez Leme pela Contexto (1997)
>>> Velhice - Culpada ou Inocente? de Carlos Eduardo Accioly Durgante pela Doravante (2008)
>>> Envelhecimento Bem-Sucedido de Newton Luiz Terra e Beatriz Dornelles (Orgs.) pela Edipucrs (2003)
>>> Naturalmente Mais Jovem de Roxy Dillon pela Sextante (2016)
>>> Direito Administrativo Descomplicado de Marcelo Alexandrino e Vicente Paulo pela Método (2019)
>>> Tópicos de Matemática Aplicada de Luiz Roberto Dias de Macedo, Nelson Pereira Castanheira e Alex Rocha pela Intersaberes (2018)
>>> Gestão de Custos de Carlos Ubiratan da Costa Schier pela Ibpex (2011)
>>> Ética Empresarial na Prática de Mario Sergio Cunha Alencastro pela Intersaberes (2016)
>>> Gestão Socioambiental no Brasil de Rodrigo Berté pela Intersaberes Dialógica (2013)
>>> Ferramentas Para a Moderna Gestão Empresarial - Teoria, Implementação e Prática de Maria Inês Caserta Scatena pela Intersaberes Dialógica (2012)
>>> O rio do tempo de Hernani Donato pela Círculo do livro (1976)
>>> O menino de areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1986)
>>> Breton/ Trotski - Por uma arte revolucionária independente de Valentim Facioli pela Paz e Terra (1985)
>>> Dize-me com quem andas de Mary McCarthy pela Civilização Brasileira (1967)
>>> Uma vida encantada de Mary McCarthy pela Civilização Brasileira (1967)
>>> Quem vai fazer a chuva parar? de Robert Stone pela Companhia das letras (1988)
>>> Meus amigos de Emmanuel Bove pela Companhia das letras (1987)
>>> Rastro do fogo que se afasta de Luis Goytisolo pela Companhia das letras (1988)
>>> Vista do amanhecer no Trópico de G. Cabrera Infante pela Companhia das letras (1988)
>>> Tebas do meu coração de Nélida Piñon pela José Olympio (1974)
>>> A república dos sonhos de Nélida Piñon pela Francisco Alves (1984)
>>> O caso Morel de Ruben Fonseca pela Artenova (1973)
>>> E do meio do mundo prostituto só amores guardei do meu charuto/História de amor (Box) de Ruben Fonseca pela Companhia das letras (1997)
>>> A marcha Húngara de Henri Coulonges pela Difel (1994)
>>> A mais que branca de José Geraldo Vieira pela Melhoramentos (1975)
>>> Sobras completas de Nelson Motta pela Nova fronteira (1984)
>>> O Amor é a Melhor Estratégia de Tim Sanders pela Sextante (2003)
>>> Seria trágico... se não fosse cômico: Humor e Psicanálise de Abrão Slavutzky; Daniel Kupermann pela Civilização Brasileira (2005)
>>> Dez Coisas que Eu Amo em Você - Trilogia Bevelstoke Livro 3 de Julia Quinn pela Arqueiro (2020)
>>> S.O.S. Dinâmica de Grupo de Albigenor & Rose Militão pela QualityMark (2001)
>>> Constelação Familiar de Divaldo Franco pela Livraria Espírita Alvorada (2009)
>>> Outlander: A Viajante do Tempo - Livro 1 de Diana Gabaldon pela Saída de Emergência (2014)
>>> Investimentos Inteligentes (Para Conquistar e Multiplicar o Seu Primeiro Milhão) de Gustavo Cerbasi pela Thomas Nelson Brasil (2008)
>>> El Cuaderno de Maya de Isabel Allende pela Sudamericana (2011)
>>> A Cama na Varanda: Arejando Nossas Idéias a Respeito de Amor e Sexo de Regina Navarro Lins pela Rocco (2000)
>>> A Vida é Bela no Trabalho de Dominique Glocheux pela Sextante
>>> Eugène Delacroix 1798-1863: O Príncipe do Romantismo de Gilles Néret pela Taschen (2001)
>>> Agora Aqui Ninguém Precisa de Si de Arnaldo Antunes pela Companhia das Letras (2015)
>>> Nu de Botas de Antonio Prata pela Companhia das Letras (2013)
>>> Trilogia Suja de Havana de Pedro Juan Gutiérrez pela Companhia das Letras (1999)
>>> As Religiões no Rio de João do Rio pela Jose Olympio (2015)
>>> A Teoria da Causa Madura no Processo do Trabalho de Ben-hur Silveira Claus pela Ltr (2019)
>>> Pimentas de Raul Lody pela Nacional (2018)
>>> Zen a a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert M. Pirsig pela Paz e Terra (1984)
>>> Monobloco - uma Biografia de Leo Morel pela Azougue (2015)
>>> Lei Antiterror Anotada - Lei 13. 260 de Acácio Miranda Silva Filho, Alex Wilson Ferreira pela Foco (2018)
>>> Marketing de Nichos de Alexandre Luzzi las Casas pela Atlas (2015)
COLUNAS

Quinta-feira, 17/4/2003
Babenco traz sua visão do país Carandiru
Lucas Rodrigues Pires

+ de 17900 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Mesmo depois de mais de 30 anos morando e filmando no Brasil, Hector Babenco não perdeu o sotaque de quem nasceu e viveu infância e adolescência na Argentina. Sua fala mansa e ponderada nada tem a ver com a força e a contundência das imagens registradas em quase duas horas e meia de sua adaptação ao livro de Drauzio Varella, Carandiru. A figura humana e tranqüila do cineasta contrasta com a crueza das cenas que Carandiru carrega, muitas delas próximas do mesmo impacto causado por Cidade de Deus, outro filme que traz a bandidagem como protagonista.

Recentemente, Babenco esteve no MAM de São Paulo exibindo o making of do filme e respondendo a perguntas das mais de 80 pessoas que lá estiveram. Entre os presentes, dois ex-presidiários (um deles morador do Carandiru por mais de dois anos) que tiveram a coragem de se expor e acrescentar algo à discussão. "O mais importante do livro do Drauzio é que ele mostra que a cadeia não é um inferno, tal qual a idéia geral difundida na sociedade. Aqueles homens são seres humanos, com sentimentos e dramas pessoais", afirmou um ex-detento que ficou por sete anos preso em Porto Alegre. Mesmo sem ver o filme, ele conseguiu compreender a visão do cineasta para o livro de Varella.

Assim como em Estação Carandiru, o filme assume declaradamente a visão dos presos. "No livro, o Drauzio conta que só ouviu os presos. Adotei o mesmo ponto de vista do médico-narrador", afirma o diretor. Mesmo assim, não deixa de frisar que seu filme, ou qualquer outro que venha a ser feito, impõe uma verdade que no fundo é um discurso, ou seja, está imbuído de parcialidade. "O filme emana da leitura do livro, não de páginas deles. Eu trago imagens do que é a minha visão daquelas palavras. Qual a versão verdadeira? Todas. Amanhã pode vir alguém e fazer algo dizendo o contrário", explica Babenco.

Carandiru foca o cotidiano de mais de sete mil presos no até então maior presídio da América Latina (o complexo foi desativado e demolido ano passado). A experiência de Drauzio Varella em buscar conscientizar a população carcerária do perigo da Aids, doença que se tornara uma epidemia no complexo penitenciário, começou em 1989. Foi durante esse trabalho que o médico escutou relatos, confissões mesmo ouvidas na enfermaria, localizada no primeiro andar do Pavihão 5. Esses retalhos de vidas, por incentivo de Babenco, começaram a ganhar forma de texto, no que resultou o livro que já vendeu mais de 350 mil exemplares e agora no filme que promete atrair milhares aos cinemas e reaquecer o debate levantado por Cidade de Deus no ano passado.

Muitos críticos vêm afirmando que Carandiru é uma revisita do diretor a sua mais conhecida produção, Pixote - A Lei do Mais Fraco. Babenco já declarou que só foi relacionar os dois mundos quando da montagem do filme, mas relembra que cada um tem história própria e Carandiru não foi realizado com espírito de continuação, apesar de concordar que "os Pixotes de ontem estão no Carandiru de hoje". No fundo, ambos tratam do mesmo espectro social - os marginalizados a quem a sociedade finge que dá chances de recuperação, mas acaba apenas por reforçar o estigma de malfeitor.

O cinema brasileiro contemporâneo tem-se voltado muito à temática social. Seu maior exemplo talvez esteja no ótimo documentário Ônibus 174, de José Padilha. Aqui, o episódio célebre do seqüestro de um ônibus e a conseqüente morte de uma refém e do bandido Sandro do Nascimento, ocorrido em junho de 2000, outra chaga exposta da violência nacional, é o detonador para uma pesquisa sobre os "invisíveis da sociedade" (nas palavras do secretário de segurança do RJ Luiz Eduardo Soares), os excluídos sociais que a classe média alta insiste em ignorar e a segregar em guetos, sem perceber que há muito tempo esses guetos já invadiram seu mundo.

No campo da ficção, Carandiru chegou para somar ao debate levantado por Cidade de Deus, o filme de Fernando Meirelles que narra a ascensão do tráfico e da violência numa favela carioca. Após ver a obra de Babenco, não há como não enxergar paralelo entre eles. Carandiru começa onde Cidade de Deus acaba...

O filme de Meirelles traz o mundo dos bandidos nas ruas, nas favelas. Mostra a evolução do tráfico, as normas de conduta e sobrevivência da malandragem na Cidade de Deus. Termina com a morte do então líder Zé Pequeno, a prisão de outros e a substituição na hierarquia do tráfico. Carandiru desemboca nessa extensão, quando o criminoso chega ao presídio e deve se acostumar com a "nova" vida, ser útil ao grupo para sobreviver. Sobreviver no meio da guerra entre facções criminosas em favelas como a Cidade de Deus descrita por Meirelles é tão difícil ou até mais do que sobreviver dentro do Carandiru. "O grau de marginalidade dentro da prisão é o mesmo de um bairro como Capão Redondo, por exemplo", afirma Babenco, que antes da desativação do presídio acompanhou Varella numa visita, conheceu algumas normas e leis que há entre os presos e até bebeu uma limonada com eles. Conta ele esta experiência: "Um dos detentos me chamou à cela para tomar uma limonada. Tudo limpíssimo! Nem na minha casa teria aquela limpeza, talvez na casa da minha mãe. Aí um deles estava me encarando e eu tremendo de medo. Sabia que não devia demonstrar isso e acabei por perguntar se tinha algum problema. No que ele me respondeu: 'O senhor se importa de eu estar sem camisa?'".

As regras sociais na prisão formam um complexo a mais na exploração da vida na cadeia. O respeito às visitas, às mulheres, à dívida assumida e, principalmente, ao código de silêncio, de não delatar nenhum companheiro, deve ser seguido à risca, sob pena de morrer na ponta de uma faca durante a madrugada. "Eles criaram um código de convivência que no fundo é um modelo de sobrevivência para quem não quer sair dali morto", afirma o diretor. Essa nova sociedade hierarquizada que se vê na Casa de Detenção, assim como na Cidade de Deus, reflete o próprio país, num espaço geográfico em menor escala. Enquanto vemos pela televisão presidente, ministros, executivos, políticos e jornalistas, não temos a oportunidade de ver como funciona a mesma hierarquia no microcosmo desses guetos sociais. São traficantes, faxineiros, enfermeiros, cozinheiros, laranjas pra assumir o crime de outrem e muitas outras "funções" que se amontoam dentro daquele espaço limitado.

Temática corrente nos dois filmes é a exclusão social. Ambos tratam de marginalizados, de "outsiders" da sociedade atual, em que apenas aqueles que têm poder aquisitivo são considerados cidadãos. Nesse sentido, não há diferença entre o bandido Bené de Cidade de Deus e Ezequiel de Carandiru. Enquanto um está preso, endividado e marcado pra morrer, o outro é um dos "donos do pedaço" na favela, mas não tem a liberdade para ir onde quer e nem comprar o que quer. "Olha o grau de exclusão a que chegamos. O cara tem dinheiro pra comprar um shopping inteiro, mas tem de pedir a outro pra comprar umas roupas, pois nunca tinha entrado num shopping. Falta ao Brasil vergonha na cara. Ele se resume a pessoas que freqüentam shopping e assistem TV a cabo", desabafa o cineasta, lembrando que deu emprego a 14 mil pessoas durante quatro meses com a produção de Carandiru.

Na miríade de personagens descritos por Drauzio Varella em Estação Carandiru, Babenco e os roteiristas tiveram o mesmo trabalho que Meirelles e sua equipe enfrentaram para condensar as centenas de páginas e vidas descritas por Paulo Lins em Cidade de Deus. Enquanto um é o retrato da marginalidade em campo aberto, Carandiru limita o espaço físico e remonta as vidas e ramificações daqueles que foram presos.

Babenco elegeu alguns personagens e foi com eles até o final. Entre principais e secundários, são quase 150 atores que desfilam nas telas. A rostos desconhecidos juntam-se famosos, mas sem que estes tenham papel de maior destaque ou importância. Assim, vemos Rodrigo Santoro, Milton Gonçalves, Antonio Grassi e Caio Blat contracenando com uma nova geração de atores que (re)surgiu com a Retomada do cinema brasileiro (Wagner Moura, Sabrina Greve, Lázaro Ramos, Robson Nunes e Gero Camilo) e com rostos inéditos ao público (Aílton Graça, Milhem Cortez, Julia Ianina, Dionísio Neto). Babenco faz questão de lembrar que foi Rodrigo Santoro que se ofereceu a viver o personagem Lady Di ("uma flor brotada no asfalto", diz o diretor), um travesti que teve mais de 2 mil parceiros sexuais e milagrosamente não se infectou com o vírus HIV.

Enquanto no livro a presença subjetiva do médico é sentida a cada linha lida, no filme houve a opção de incluí-lo como mero observador dos fatos, o que é mais fácil de ser absorvido por imagens do que por palavras. Com isso, o Carandiru ganha vida própria, sem a intermediação de uma voz que nos apresente o local (apesar de duas ou três intervenções em off do personagem do médico) e as pessoas. Assim, Babenco buscou escapar de qualquer forma de glorificação ao amigo que lhe salvou a vida quando teve um câncer linfático. "Filmar o livro fazia com que corresse o risco de transformar o Drauzio numa Madre Tereza de Calcutá. Esse afastamento dele no filme foi uma opção de linguagem, narrativa. Sua presença tinha de ser discreta, passiva, mas com a impressão de que ele esteve em todo o filme", confessa o cineasta.

No mosaico de "short cuts" que se tornou Carandiru, o fio condutor da trama parece ser mesmo o próprio espaço físico - o presídio. Seus corredores, suas celas escuras onde se espremiam dezenas de presos, o pátio onde recebiam as visitas, a enfermaria suja e pestilenta, o campo de futebol de barro... Por este espaço, ao mesmo tempo opressivo e libertador, seus personagens desfilam dilemas, escolhas, dramas, sentimentos, arrependimentos, saudades, lembranças. Por dar vazão ao ser humano que existe em cada um dos criminosos, uma opção clara à proposta de Varella em ver os presos como seres humanos e não como bandidos assassinos ("estava ali para ajudá-los e não para julgá-los", escreveu o médico), Babenco traz no gene do filme sua postura diante da crise penitenciária e da violência imposta a todos atualmente. Essa crítica, acentuada pelo tom seco e cru (que muitos identificam com certo tom documental) da fotografia de Walter Carvalho, está longe do denuncismo panfletário barato e atingirá seu ápice no final da fita, com a seqüência da rebelião no Pavilhão 9 e conseqüente invasão e massacre por parte da tropa de choque da PM, fato ocorrido em 2 de outubro de 1992.

Babenco acredita numa verdade - a sua - e, mesmo que transmitida via ficção, vai às últimas conseqüências, colocando claramente que houve um massacre contra a população desarmada e sem chances de defesa (numa cena, um policial invade uma cela, metralha vários e deixa um vivo e diz: "Você fica pra contar a história". Sai da cela, o preso sorri aliviado, mas o mesmo policial volta, dá um sorriso cínico, diz que mudou de idéia e o fuzila a queima-roupa). Mesmo que sejam questionáveis fatos que o filme retratam, como a chuva de facas e paus que se segue após o diretor do presídio pedir aos presos que se acalmassem e voltassem a suas celas, Babenco ousa dizer o que muitos têm medo. "Os personagens do filme não existem naquela totalidade. Todos os nomes são fictícios, a personalidades. Os únicos que coloco e deixo claro são o governador, o secretário de segurança e coronel que deu a ordem de invasão". Ainda indignado, confessa: "Quantos foram mortos não importa! Se 111, 14 ou 184, isso não tem a menor importância!!".

Uma cena em Carandiru talvez sintetize bem a visão do diretor para o fato: entre os cadáveres ao chão ensangüentado jogados no corredor do pavilhão, um cão pastor caminha farejando algo. Ele encontra um gato e, com delicadeza e receio, se aproxima dele, quase a lhe tocar focinho. Um não ataca o outro. Eis talvez a maior mensagem de Carandiru...

Post Scriptum
Para quem gosta do tema, no Festival de documentários É Tudo Verdade está sendo exibido o filme O Prisioneiro da Grade de Ferro, dirigido por Paulo Sacramento. Nasceu de um projeto junto a presos do Carandiru em 2001, quando a equipe de Sacramento entregou aos próprios presos câmeras digitais para eles próprios filmarem o que quisessem. Daí o subtítulo de auto-retratos dado ao filme. Carandiru é película em forma de ficção; O Prisioneiro da Grade de Ferro tem praticamente o mesmo conteúdo, as mesmas abordagens temáticas daquele, com a vantagem de ser um documentário filmado pelos próprios protagonistas...


Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 17/4/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. As luzes se apagam de Cassionei Niches Petry
02. Meu Sagarana de Renato Alessandro dos Santos
03. Saudade de ser 'professor' de Filosofia de Cassionei Niches Petry
04. Um parque de diversões na cabeça de Renato Alessandro dos Santos
05. A Coreia do Norte contra o sarcasmo de Celso A. Uequed Pitol


Mais Lucas Rodrigues Pires
Mais Acessadas de Lucas Rodrigues Pires em 2003
01. Babenco traz sua visão do país Carandiru - 17/4/2003
02. O cinema brasileiro em 2002 - 16/1/2003
03. A normalidade sedutora d'Os Normais - 3/12/2003
04. Top 10 da literatura - 16/10/2003
05. O lado A e o lado B de Durval Discos - 3/4/2003


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
19/5/2003
16h54min
O autor fez uma bela resenha do filme
[Leia outros Comentários de Piero Floripa]
6/4/2005
11h12min
Bela matéria, estou elaborando um documentário sobre o assunto e o conteúdo foi muito útil, principalmente na indicação de outros filmes que ajudaram a enriquecer as informações do trabalho. Parabéns!!!
[Leia outros Comentários de Jaqueline]
20/6/2007
07h35min
Mesmo depois de mais de 30 anos morando e filmando no Brasil, Hector Babenco não perdeu o sotaque de quem nasceu e viveu infância e adolescência na Argentina. Sua fala mansa e ponderada nada tem a ver com a força e a contundência das imagens registradas em quase duas horas e meia de sua adaptação ao livro de Drauzio Varella, Carandiru. A figura humana e tranqüila do cineasta contrasta com a crueza das cenas que Carandiru carrega, muitas delas próximas do mesmo impacto causado por Cidade de Deus, outro filme que traz a bandidagem como protagonista. Recentemente, Babenco esteve no MAM de São Paulo exibindo o making of do filme e respondendo a perguntas das mais de 80 pessoas que lá estiveram. Entre os presentes, dois ex-presidiários (um deles morador do Carandiru por mais de dois anos) que tiveram a coragem de se expor e acrescentar algo à discussão. "O mais importante do livro do Drauzio é que ele mostra que a cadeia não é um inferno, tal qual a idéia geral difundida na sociedade.
[Leia outros Comentários de diego graça da silva]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




COMUNICAÇÃO COM OS ANJOS E OS DEVAS - 1ª EDIÇÃO
DOROTHY MACLEAN
PENSAMENTO
(2001)
R$ 25,95



A GAROTA INGLESA
DANIEL SILVA
ARQUEIRO
(2015)
R$ 130,00



O EXAME DE LATIM (EDIÇÃO B - SEM PONTOS)
NICOLAU FIRMINO
SIMÕES LOPES E OUTRAS
(1941)
R$ 32,28



THE VITAMINS - CHEMISTRY, PHYSIOLOGY, PATHOLOGY VOL III
W. H. SEBRELL JR ROBERT S. HARRIS
ACADEMIC PRESS
(1954)
R$ 31,98



DENUNCIAÇÃO DA LIDE NO DIREITO PROCESSUAL CIVIL BRASILEIRO
SYDNEY SANCHES
REVISTA DOS TRIBUNAIS (SP)
(1984)
R$ 31,28



FILOSOFAR PELO FOGO ANTOLOGIA DE TEXTO ALQUÍMICOS
FRANÇOISE BONARDEL
MADRAS
(2012)
R$ 68,61



NOVÍSSIMO CURSO VESTIBULAR NOVA CULTURAL HISTÓRIA DO BRASIL 1 E 2
CLARENCE JOSÉ DE MATOS
NOVA CULTURAL
(1991)
R$ 20,00



SOCIEDADES POR QUOTAS
AGOSTINHO ANTONIO F. CADETE
ELCLA (PORTO)
(1992)
R$ 26,82



SEXO DEFINITIVO-TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE SEXO SENSUALIDADE
JUDY BASTYRA
MADRAS
(2013)
R$ 99,00



TABLEAUX SYNOPTIQUES D EXPLORATION CHIRURGICALE DES ORGANES
DOCTEUR CHAMPEAUX
J-B BAILLIÈRE ET FILS
(1901)
R$ 75,87





busca | avançada
74271 visitas/dia
2,0 milhões/mês