Canto Infantil Nº 1: É Proibido Miar | Daniel Aurelio | Digestivo Cultural

busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Zeca Camargo participa de webserie sobre produção sustentável de alimentos
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
>>> Edital seleciona 30 participantes do país para produção de vídeos sobre a infância
>>> Joca Andreazza dirige leitura de Auto da Barca de Camiri na série 8X HILDA
>>> Concerto Sinos da Primavera
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
>>> Sementinas
>>> Lima nova da velha fome
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A escola está acabando
>>> Co-opting creative revolution
>>> Gigantes de Tecnologia na Bolsa dos EUA
>>> Daily Rituals - How Artists Work, by Mason Currey
>>> Quem é o abutre
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> O computador de antigamente
>>> Privacidade
>>> A nova Casa da MPB em São Paulo
>>> Carnaval só ano que vem, da Orquestra Imperial
Mais Recentes
>>> Revista hot--36--frances sarado. de Sisal pela Sisal
>>> Revista hot--22--picape corsa--opala x opala. de Sisal pela Sisal
>>> Revista carstereo tuning--70--maremoto de Crazy turkey pela Crazy turkey
>>> Carros antigos--02--40 modelos de Escala pela Escala
>>> Revista opala & cia--10--ss caravan--discreto street rod. de On line pela On line
>>> Revista transporte mundial--6--catalogo de onibus e microonibus 2005 de Motor press brasil pela Motor press brasil (2005)
>>> Office 2007 Excel 2007 Básico de Gilberto Carniatto dos Santos pela Senac (2008)
>>> Info Profissional EXCEL de Vários pela Abril (2021)
>>> Venda Mais Nº79 - 2000 GAY de Vários pela Quantum (2000)
>>> Você s/a Exame. As melhores empresas para você trabalhar (edição de 15 anos) de Vários pela Abril (2011)
>>> Nova escola Nº271/2014 (avaliação processual) de Vários pela Abril (2014)
>>> Carta Fundamental Nº44 Era uma vez de Vários pela Carta capital (2013)
>>> Brasil Almanaque Cultura Popular. (edição de aniversário) Nº144 de Vários pela Andreato (2011)
>>> Não se apega, não de Isabela Freitas pela Intrínseca (2015)
>>> Não se apega, não de Isabela Freitas pela Intrínseca (2015)
>>> Pro Teste nº31/nov/2004 - nº34/Mar/2005 - nº22/Fev/2004 de Vários pela Proteste (2004)
>>> Pro Teste Nº129/2013 (Sabões em pó e líquido) de Vários pela Proteste (2013)
>>> Em busca do tempo perdido Vol 3. Dic Porto Fr-Pt-Pt-Fr c/ CD. O Escafandro e a Borboleta de Marcel Proust / Porto / Jean-Dominique Bauby pela Globo
>>> Pro Teste nº67/2008 - nº48/2006 de Vários pela Proteste (2008)
>>> Pro Teste nº122/mar/2013 - nº49/Jul/2006 de Vários pela Proteste (2013)
>>> Pro Teste nº127 - nº123 de Vários pela Proteste (2013)
>>> Password English Dictionary For Speakers of Portuguese de Martins Fontes pela Martins Fontes (1998)
>>> Vidas Secas de Graciliano Ramos pela Record
>>> New Framework 4a de Richmond pela Richmond
>>> New Framework Student Book 2A de Rich pela Richmond
COLUNAS >>> Especial Biblioteca Básica

Sexta-feira, 26/9/2003
Canto Infantil Nº 1: É Proibido Miar
Daniel Aurelio

+ de 16100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Dedicado ao mero estudante de sociologia que o assina.

"Vem que vem cantar/ Vem que vem soprar/ Vem que vai voltar/ Vem que vai trazer/ Tudo aquilo que eu tive/ E o ventou carregou/ Quando eu estava distraído/ a olhar pro meu umbigo/ E o momento já passou"
("Vento Perdido", Pedro Bandeira in Cavalgando o Arco Íris, 1984).

O livro da minha vida chama-se É proibido Miar, do Pedro Bandeira. Uma revelação dessas, iniciativa de alguém que, deduz-se, seja um suposto crítico literário ou congênere, não é lá algo muito positivo para o currículo. Estou disposto a pagar o preço. Não seria honesto renegar que toda minha volúpia - às vezes exacerbada, confesso - pela leitura tenha nascido a partir de suas páginas.

É demasiado humano (e compreensível) que determinada falange de críticos necessite expressar, ad infinitum, seu apreço pelas obras-primas adultas; quando não para encontrar ressonância entre seus leitores, tal ato tem o rasteiro propósito de demonstrar força e enciclopédicos saberes, feito glacê para um bolo de feno.

John Fante, por exemplo. É a bola da vez. O clichê do ramo. Que mais precisamos conhecer sobre ele e seu Pergunte ao Pó (Ask The Dust, 1939) , disparado um dos vinte melhores livros do século XX? Todavia, é o atual número um dos cadernos culturais. Fácil enfrentar a ribalta do palco com uma platéia entupida de amigos.

Mas na medida em que o jovem toma seu primeiro contato com a literatura através dos infanto-juvenis, fico com a impressão de que é espantosa burrice (pequenez intelectual dos doutos) rebaixá-los a divisões intermediárias em pujança artística. Quando muito, fala-se no sazonal Salinger e seu Apanhador no Campo de Centeio. Pior: qual passe de mágica, todos os déspostas esclarecidos da "periferia do capitalismo" (quem pescou a ironia, pescou) iniciaram suas leituras aos 14 anos, com Kafka e Saramago. Aos 16, deglutiam com fluência filosofia alemã: Liebniz, Schoppenhauer, Kant, sempre consideraram as teorias hegelianas de um idealismo carola deprimente e só então passaram a Nietzsche, a espinafrar de pronto seus dualismos e os flertes que sofreu a direita e a esquerda. Um assombro.

Não faz muito, já em vista a confecção deste artigo, cavouquei pelos sites de busca da Internet ensaios ou vestígios relativos a prosa de Pedro Bandeira. Fiquei no vácuo. Em compensação, trabalhos sobre cânones literatos piscavam convidativos na tela. Alguém precisa, urgente, clamar pelo óbvio: Bandeira, ladeado por Ziraldo, é o autor mais adotado pelos colégios brasileiros (supera as badaladas Lygia Bojunga, Ana Maria Machado e Ruth Rocha, três ganhadoras do Hans Christian Andersen Medalhe, equivalente ao Nobel na categoria), e diretamente tem influenciado e formado nossos garotos e garotas desde a década de 80. Modular o discurso pulando um conceito cientifico e pedagogicamente sacramentado é covardia, é achaque.

Pouquíssimas obras mantêm tamanha sintonia com temas relacionados à segregação social e a liberdade de expressão quanto meu favorito. Talvez só encontre similaridades no espetacular Tanto, tanto! (de Trish Cooke, ed. Ática), livrinho infantil que revolucionou as táticas educacionais anti-preconceito (deixo os motivos no vazio como lição de casa: procure-o em livrarias e sebos). Outro perdido na solidão empoeirada das prateleiras.

Lançado pela editora Moderna em 1983, no limiar da ditadura militar, É proibido miar narra a trajetória do cãozinho Bingo, que desde seu nascimento demonstrava certa inabilidade com o espírito de corpo coletivo (ainda que fosse explicitamente doce, afetuoso e peralta), característica que se acentua drasticamente ao estabelecer amizade com um gato misterioso (oras, todo felino é um mistério pardo). Bingo admira seu amigo e decide copiá-lo em seus miados. Um insulto à raça canina, um código estranho ao seu meio. Configura-se a partir desse confronto um pesadelo foucaultiano clássico. Bingo sofre sucessivas tentativas de enquadramento à norma, a começar pelo desgosto e ausência de brilho nos olhos paternos, passando por vizinhos e até pela família que acolhe os cães, que representam todo o peso da super-estrutura que paira sobre o grupo. Acaba aprisionado juntos aos seus "iguais" (errantes em pobreza, sujeira e doença) no Canil Municipal, alegoria dos manicômios, prisões ou linhas ferrenhas de produção as quais um desviante humano será subjugado. Decide fugir. E foge. Para miar em paz.

Daí entra o vetor principal dos infantis de Bandeira: travestido na redentora sensação de happy end, aquele final metafórico, algo ambíguo, que tornam boas histórias em apoteoses artísticas. O mundo exterior a ele pergunta-se, solerte, por onde andarás seu filho desgarrado. Continuará a receber chibatas por ai ou migrou para uma tribo?

"Ninguém mais pôde encontrar o Bingo. Nunca mais se soube para onde ele foi (...) Outros acham que ele foi para uma terra onde todo mundo pode falar à língua que quiser. Uma terra onde é permitido miar. Uma terra onde é permitido ser diferente"

O livro é recomendado para crianças entre oito e nove anos.

Imaginou o quanto isso pode reverberar numa criança dessa idade?

Nos anos 60, Pedro Bandeira fez tudo o que se esperava de um filhote da esquerda contra-revolucionária. Foi jornalista do campeão de matérias decapitadas, o Ultima Hora de Samuel Weiner, meteu-se com teatro e ciências sociais na USP, todas essas atividades cancerígenas ao andamento azeitado de saúde das reformas propostas por militares e dinastias ultra-conservadoras da igreja e da política. Tem, portanto, o pedigree de outros mais incensados pelas altas rodas culturais, vende muito bem, é um mestre do texto, mas estranhamente não rende um debate, uma tese, uma linha. Desleixo, deliberado ou não, vergonhoso.

Antes de um prepotente onanismo acadêmico, autofágico e um tanto canalha, isso aqui é um puxão de orelhas vigoroso em quem se enxerga formador de opinião.

Pois saibam, damas e cavalheiros, que os primeiros filhos da geração Pedro Bandeira cresceram. E agora já começam a soltar seus primeiros miados incômodos de desabono.

É proibido proibir, esqueceram?

Para ir além





Daniel Aurelio
São Paulo, 26/9/2003


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A insignificância perfeita de Leonardo Fróes de Fabrício Carpinejar


Mais Daniel Aurelio
Mais Acessadas de Daniel Aurelio em 2003
01. Canto Infantil Nº 2: A Hora do Amor - 7/11/2003
02. Canto Infantil Nº 1: É Proibido Miar - 26/9/2003
03. O Sociólogo Machado de Assis - 5/9/2003
04. O Calígrafo de Voltaire - 13/6/2003
05. Elogio Discreto: Lorena Calábria e Roland Barthes - 19/12/2003


Mais Especial Biblioteca Básica
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/10/2003
11h11min
Eu lembro de outros livros, como os vários de Monteiro Lobato, as histórias mais amenas das 1001 Noites, as fábulas dos irmãos Grimm, Esopo e por aí vai. Mas, pelo calor da sua defesa, estarei comprando este para presentear a Damaris, minha filha de 8 anos. É uma leitura útil num tempo em que se discutem tanto as diferenças de credo, de cor, políticas e sexuais. Abraços
[Leia outros Comentários de donizeti costa]
11/2/2004
10h21min
Querido Daniel, Você realmente me tocou com o seu texto. Como agradecer-lhe? Você, que escreve, sabe o quanto é importante saber que algo que se escreveu teve alguma ressonância no coração e na mente de quem leu. É por isso que a gente escreve, não é? Aquele abraço do Pedro Bandeira
[Leia outros Comentários de Pedro Bandeira]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Pais e Filhos Vivendo a Missa
Bernardo Cansi
Paulinas
(1979)
R$ 8,00



Através dos Olhos do Outro -um Guia para Revisar Sua Vida
Karen Noe
Magnitudde
(2013)
R$ 21,83



Como ensinar crianças a conviver
Manuel Segura
Vozes
(2009)
R$ 10,00



A Nau dos Insensatos
Katherine Anne Porter
Abril Cultural
(1974)
R$ 5,00



A atitude muda tudo
Jeronimo Mendes
Literare Books International
(2018)
R$ 39,90



Gentlemen
Klas Ostergren
Record
(2010)
R$ 24,00



Semiótica & literatura
Décio Pignatari
Ateliê Editorial
(2004)
R$ 22,00



Os Grandes Líderes - Khomeini
Nova Cultural
Nova Cultural
(1988)
R$ 5,00



O Ourives Sapador do Pólo Norte
Ana Cecília Carvalho
Formato
(1995)
R$ 5,00



Maiores de 40 -guia de Viagem para a Vida
Maria Tereza Maldonado
Saraiva
(1995)
R$ 5,00





busca | avançada
83267 visitas/dia
2,3 milhões/mês