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Quinta-feira, 6/5/2004
Leituras Inglesas (I) - W.S. Maugham
Ricardo de Mattos

+ de 5100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

"Viajei a cavalo através da Ásia Central, pela estrada que Marco Pólo tomou para chegar às fabulosas terras de Catay; tomei um copo de chá russo num correto salão de Petrogrado, enquanto um homenzinho de paletó preto e calças listradas me contava, na sua voz macia, como assassinara um grão-duque; sentado numa sala de visita de Westminster, ouvi a serena perfeição de um trio de Haydn, ao piano, enquanto as bombas explodiam lá fora; mas não creio que me tenha encontrado em mais estranha situação do que naquele momento, sentado numa das cadeiras de estofamento vermelho do alegre restaurante, durante horas a fio, enquanto Larry falava de Deus e da eternidade, do Absoluto e das cansadas rodas de interminável reprodução" (W. S. Maugham)

Os livros de W.S. Maugham (1.874/1.965) agradam com facilidade o leitor atento e bem disposto ao que se costuma chamar "romance de idéias". Contudo são de digestão demorada, principalmente se ministrada uma superdose tal como o fiz no feriado pascal ao ler Férias de Natal (1.939) e O Fio da Navalha (1.944). Não haja dúvidas quanto à excelência do escritor, demonstrada em especial no segundo título. Enredo e argumentos continuam a brincar na mente, ao estilo do trapézio de Brás Cubas, muito após a volta dos volumes para a estante. A permanência é uma das qualidades que aprecio n'um livro: não a causada pelo choque, mas aquela advinda d'uma exposição rica e consistente.

O Fio da Navalha é uma grande composição contrapontística para coro e solista, regidos pelo próprio escritor. A história começa logo após o encerramento da Primeira Guerra Mundial e termina com a Segunda já iniciada. Como há considerável participação de personagens dos Estados Unidos da América, Maugham detem-se um tanto sobre o chamado Crack da Bolsa de New York, ocorrido em 1.929. Os factos dão-se sobretudo em Paris, havendo passagens por Chicago, pela Riviera Francesa e com uma grande narrativa de Larry sobre sua viagem à Índia. O autor recorda eventos testemunhados ou sobre os quais foi muito bem informado, para organizá-los e tentar compreender a vida d'um grupo de pessoas no espaço de pouco mais de vinte anos. Admirado com o presente, remonta ao início para analisar a seqüência dos comportamentos e relações. Aqui há certa tangência entre Maugham e seu personagem Charley Mason, de Férias de Natal, como adiante se verá.

A função do contraste é aumentar a percepção sobre aquilo que é contrastado. O negro é mais negro se justaposto ao branco. O solista Lawrence Darrel, ou Larry simplesmente, retorna da Primeira Guerra, na qual actuou como aviador, com várias preocupações de ordem metafísica desencadeadas pela morte d'um companheiro. Questões acerca da existência ou não de Deus, da origem do mal, da imortalidade ou não da alma. Interrogações comuns a todos os homens, mas nem por todos respondidas. Larry mantinha várias perguntas em mente, considerou-as importantes demais para seguir sua vida sem resolvê-las e percebeu que não encontraria os esclarecimentos no seu meio social. A euforia posterior à guerra e anterior à depressão económica empestava o ar. Para todos, era indiferente a existência ou não de um Deus. Se a alma existe ou não, o problema é dela, o importante na época era divertir-se, procurar um emprego rentável o suficiente para sustentar a diversão refinada. Todos queriam enriquecer e quem já era rico queria ficar várias vezes milionário. Normalmente, uma pessoa com as mesmas dúvidas de Larry é recebida como estranha pela sociedade; n'aquele tempo e lugar, ele foi considerado estranhíssimo. E não teve a menor preocupação em ajustar-se.

Ao contrário. Percorreu o mundo atrás de respostas e somente aquietou-se quando satisfeito. Mesmo este sossego foi relativo. Também Maugham teria feito viagens ao Oriente para responder questões análogas, mas retornou e viveu dentro dos padrões vigentes. Larry voltou com suas respostas disposto a partir para outra fase de vida itinerante. Quem, hoje, desfazer-se-ia d'uma renda certa, segura e suficiente e passaria a conquistar o pão diário?

Uma personagem importante é a bela e pérfida Isabel. Por sua causa o casamento caritativo de Larry é obstado. No romance maior de ideias, Maugham encaixa um entreacto policial não muito bem sucedido ante a obviedade da situação.

Não foi apenas uma vez que vi Maugham sendo comparado a Maupassant. Ambos mostram o quão odiosas podem ser as pessoas e a naturalidade com que agem de maneira vil. Contudo aquele é mais subtil que este. Parece também mais propenso à indulgência, por investigas os antecedentes prováveis dos actos. E se não houvesse uma declaração do escritor afirmando ser a trajetória de Larry o que lhe interessa, O Fio da Navalha poderia limitar-se a uma bem elaborada crítica social, mas perderia muito. O representante da sociedade criticada é Elliott Templeton. Ele quem, na sua futilidade extrema, contrasta com Larry; ele o regente do coro que reprova indignado a indiferença d'este às convenções sociais. Embora tratado com benevolência pelo escritor, Elliott é um entusiasta e um dependente da vida social elegante. Tudo na sua vida é direccionado para bem receber e bem ser recebido. Necessário lembrar que se trata d'um norte-americano de Chicago lutando para ser aceito nas sociedades inglesa e francesa. Mesmo nos anos seguintes à depressão, é mais por dandismo que por solidariedade que ele socorre seus arruinados parentes. Como receberiam as altas rodas a notícia de que um casal de seus sobrinhos vive humildemente n'uma fazenda? Elliott é tio de Isabel e pessoas como ele conhecem a natureza humana melhor que muito estudioso, sendo seu apego à boa vida uma fuga ou uma fraqueza.

Sugiro a leitura do Sidarta, de Hermann Hesse. Fininho, li-o enquanto supervisionava minha avó durante a fisioterapia. Também trata da procura de respostas mais profundas para as inquisições espirituais. Em ambos os livros, os personagens estacionam suas existências para primeiro solucionar estas inquirições.

* * *

"Era maravilhoso ter vinte anos e estar sozinho em Paris"

Se O Fio da Navalha mostra um homem no encalço de conhecimentos elevados, de algo mais alto e nobre, o livro Férias de Natal faz-nos presenciar um jovem descobrindo a vida real existente além do conforto doméstico. Diz uma lenda que Buda, ainda jovem, estendeu-se certa vez além dos limites dos parques do palácio paterno e surpreendeu-se com a descoberta simultânea da pobreza, da velhice e da morte. O mesmo dá-se, n'este segundo livro, com Charley Mason ao sair do abrigo de sua casa e do afecto de seus familiares para conhecer, sem retoques nem preparativos, a sordidez humana.

Há pontos comuns entre os dois livros. Mason ganha dos pais uma viagem a Paris, cidade onde o escritor nasceu. Os personagens principais estão envolvidos com alguma forma de conhecimento, embora no segundo livro o escopo primário fosse o divertimento. Ao longo dos romances, nota-se certa mania de repetição quando Maugham parece querer atenção a determinado detalhe. No caso de Férias de Natal, várias vezes ele observa a reprodução da vida familiar de Mason no quarto de hotel com sua companheira provisória. Ao final, um breve apanhado sobre o fim real ou provável de cada participante da trama. Não se pode esquecer a presença do contraste, também n'este romance, entre a vida confortável de Mason e a tragédia de Lídia.

Felizmente, pouca a participação do personagem Simom Fenimore. Creio que até o escritor não o suportou e fê-lo sumir por quase todo o romance. É um jornalista com pretensões à ditadura, cuja verossimilhança seria abalada se não existisse o enfadonho Minha Luta.

A professora de Mason foi a prostituta Lídia, conhecida na primeira noite parisiense do rapaz. Do bordel onde a encontrou, levou-a consigo a uma missa cantada e com isso acabaram por passar juntos todo o feriado. Ele mostrou-se mais intrigado com ela do que entusiasmado. Não a tocou em todo o período, mantendo um distanciamento conveniente que lhe permitiu saber de toda a sua história e usufruir sua companhia. Aqui a tangência que mencionei no segundo parágrafo. Maugham e Mason reconstituem e permitem reconstituir a seqüência de factos para descobrir de onde a pessoa partiu e como caminhou para alcançar o estado actual. Charley impressionou-se com o impacto das novidades. Enriqueceu-se e pode ter refletido mais durante sua vida, porém não abandonou os pais nem passou a viver revoltado n'uma água furtada por causa d'isso.

Para ir além









Ricardo de Mattos
Taubaté, 6/5/2004


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/5/2004
23h26min
Parebéns pelo texto, Ricardo. De Maugham, li somente Servidão Humana (1915), um belo livro sobre a sordidez humana, no caso, de uma mulher, Mildred, que faz gato e sapato do protagonista, Philip. Tratava-se de um rapaz que nasceu com um defeito no pé, torna-se médico e se disciplina a entender das artes. O livro tem a descrição de uma bela e trste cena, que se passa em um teatro, onde o Philip está sentado ao lado de Mildred e ela, por sua vez, ao lado de um amigo em comum. Philip, que não tem certeza dos sentimentos de Mildred, sofre com a possibilidade de ela estar sorrateiramente dando pegando na mão ao amigo. Mas Philip nem tem coragem de olhar e muito menos de por a situação a limpo. Um belo e imperdível texto. Abs, Bernardo Carvalho - Goiânia-GO
[Leia outros Comentários de Bernardo Carvalho]
31/5/2009
20h59min
Qual o sentido da vida? Esta pergunta persegue o personagem ao longo do livro e é respondida de maneira brilhante.
[Leia outros Comentários de nelson eduardo]
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