Baiano bom de prosa | Paulo Polzonoff Jr | Digestivo Cultural

busca | avançada
77507 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Coletivo Mani Carimbó é convidado do projeto Terreiros Nômades em escola da zona sul
>>> CCSP recebe Filó Machado e o concerto de pré-lançamento do álbum A Música Negra
>>> Premiado espetáculo ‘Flores Astrais’ pela primeira vez em Petrópolis no Teatro Imperial para homenag
>>> VerDe Perto, o Musical Ecológico tem sessões grátis em Santo Antônio do Pinhal e em São Paulo
>>> Projeto Sinos volta a Teresópolis para oferecer aulas gratuitas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
Colunistas
Últimos Posts
>>> A melhor análise da Nucoin (2024)
>>> Dario Amodei da Anthropic no In Good Company
>>> A história do PyTorch
>>> Leif Ove Andsnes na casa de Mozart em Viena
>>> O passado e o futuro da inteligência artificial
>>> Marcio Appel no Stock Pickers (2024)
>>> Jensen Huang aos formandos do Caltech
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
Últimos Posts
>>> Cortando despesas
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
Blogueiros
Mais Recentes
>>> 2006, o ano que não aconteceu
>>> Com ventilador, mas sem educação
>>> Nem capitalismo, nem socialismo, nem morte
>>> O blog do Luiz Schwarcz
>>> Do Surrealismo
>>> Fórum das Letras 2007
>>> Um conto-resenha anacrônico
>>> Andaime, de Sérgio Roveri
>>> Um lugar para o tempo
>>> A nova queda da Bastilha
Mais Recentes
>>> Livro Ensino de Idiomas Italiano Para Viagem e Dicionário de Berlitz pela Berlitz (1998)
>>> Nemesis - The Battle for Japan, 1944-45 de Max Hastings pela Harper Press (2008)
>>> Como ser um herói de Lidia Maria Riba pela V&r (2010)
>>> Livro Infanto Juvenis Como Reconhecer Um Monstro de Gustavo Roldán pela Jujuba (2011)
>>> Livro História Do Brasil Breve História do Brasil 1500 1995 de Hernâni Donato pela Lisa (1995)
>>> Livro Literatura Estrangeira Vita The Life Of Vita Sackville West de Victori Glendinning pela Penguin (1983)
>>> Licence Renewed de John Gardner pela Jonathan Cape (1981)
>>> Andar... Andar... Andar de Adauto Barreto pela Ftd (1990)
>>> Kingdom Hearts II Volume 4 de Shiro Amano - História e Arte pela Abril (2014)
>>> A Lenda dos Guardiões : A Captura de Kathryn Lasky pela Fundamento (2010)
>>> Primavera Num Espelho Partido de Mario Benedetti pela Alfaguara (2018)
>>> Livro Infanto Juvenis Os Tatus-Bolinhas Coleção Pessoinhas Educação Infantil Volume 1 de Ruth Rocha pela Ftd (2010)
>>> Marie Antoinette - The Journey de Antonia Fraser pela Phoenix (2002)
>>> Livro Literatura Estrangeira A Idade da Razão de Jean Paul Sartre pela Difusão Européia do Livro (1963)
>>> Livro Psicologia O Infamiliar Das Unheimliche de Sigmund Freud pela Autentica (2020)
>>> Hitler's Pope - The Secret History of Pius XII de John Cornwell pela Penguin Books (2000)
>>> Livro Infanto Juvenis O Menino Que Queria Ser Celular de Marcelo Pires, Roberto Laurert pela Melhoramentos (2008)
>>> Bubba : Já consegue sozinho! de Carolina Micha pela V&r (2011)
>>> Bill Edrich - A Biography de Alan Hill pela Andre Deutsch (1994)
>>> Livro Literatura Estrangeira GänsebratenUnd Andere Geschichten de Jo Hanns Rösler pela Grafisk Forlag (1973)
>>> Livro Infanto Juvenis A Guerra De Troia Em Versos De Cordel de Fábio Sombra, Mauricio de Souza pela Melhoramentos (2015)
>>> Literatura Estrangeira The Last Tycoon de F. Scott Fitzgerald pela Penguin (1965)
>>> What If? - The World's Foremost Military Historians Imagine What Might Have Been de Edited by Robert Cowley pela Berkley (2000)
>>> Bubba, O Médico de Carolina Micha pela V&r (2011)
>>> Mahamudra - Como Descobrir A Nossa Verdadeira Natureza de Lama Thubten Yeshe pela Lúcida Letra (2020)
COLUNAS

Quarta-feira, 8/8/2001
Baiano bom de prosa
Paulo Polzonoff Jr
+ de 4500 Acessos

Estou meio abobado. Sento no computador para escrever esta coluna pensando em outra coisa quando escuto na TV que o Jorge Amado morreu. Sinto-me na obrigação para com meus leitores de escrever sobre o escritor baiano. Portanto, minhas considerações sobre o homem na Lua e sobre a Seleção ficam para as outras semanas, assim como a narrativa da minha estada em Paris, conforme solicitado no protocolo 7837-B, do Livro 12298, página 23, seção 9, prédio 11 desta minha cabeça atulhada de coisas inúteis.

Jorge Amado era ateu e comunista. Duas coisas que, se não me desagradam no todo, tampouco me fazem admirá-lo mais. Sua trajetória é invejável dentro da nossa literatura. Jorge Amado conseguiu vender proporcionalmente a mesma coisa que Paulo Coelho vende hoje, só que falando de coisas pretensamente sérias. Sim, sim, sei que muito da fama do escritor se deve à ajuda publicitária do Partidão. Falarei sobre isso mais tarde. Por ora, vale à pena nos atermos aos livros dele. Afinal, sou contra isso do autor ser venerado mais por sua biografia do que por sua bibliografia. E coerência é meu lema - nem sempre seguido à risca, é bom que se diga.

O primeiro livro que li de Jorge Amado foi Capitães de Areia. Todo mundo me falava deste livro como se fosse a coisa mais maravilhosa do mundo. Li-o quando tinha uns quinze anos e confesso que a parte que mais gostei foi a de sexo - não lembro de quem com quem. É basicamente isso o que passa na cabeça de um menino de quinze anos, por mais que ele já tenha pretensões literárias: sexo.

Capitães de Areia tem, sim, aquela criticazinha social que tanto encanta resenhistas. Não sei por quê. Pobres, meninos ou não, sempre pontuaram a literatura brasileira. Melhor e com mais intensidade retrataram as camadas miseráveis Lima Barreto e Aluísio de Azevedo. Aqui começa-se a ver o dedão do Partido, dando aquele abraço no velho Jorge. A gente releva, contudo, e pensa na cena de sexo do livro, que é para descontrair.

Confesso que já tive minha fase vermelha. Motivado por um professor da faculdade, eu cria que o Comunismo era a solução para o planeta. Sei lá, eu estava sem emprego, sem namorada, sem perspectiva. Era, portanto, o comunista perfeito: sem nada e querendo repartir este nada com todo mundo. Nivelar as coisas por baixo. Por esta época meu ídolo era ninguém mais ninguém menos que Luís Carlos Prestes. O Cavaleiro da Esperança, como foi alcunhado pelo correligionário Jorge Amado. Li a biografia de Prestes como quem lê uma Bíblia e até hoje ninguém me tira esta impressão. O livro é quase um livrinho vermelho de Mao para brasileiros. Ele tenta criar uma figura heróica, quase mítica. Depois de ler este livro, cheguei à conclusão de que o Brasil só não virou um país comunista porque Prestes não morreu. Morto, era mito; vivo, apenas um político com idéias subversivas.

Este livro, lançado na Argentina em 1942, é o auge da fase comunista de Jorge Amado. Ele foi largamente alardeado no exterior, com o apoio, obviamente, da União Soviética. Quando se fala que Jorge Amado vendeu milhões e milhões de livros, tem-se que pensar que este fenômeno de venda se deu menos por sua capacidade narrativa do que pela extensa campanha de marketing do Partidão, que não hesitava em publicar em tcheco uma obra de Jorge Amado a um, por exemplo, George Orwell. E seriam loucos?

Não há como negar, contudo, que havia certa lucidez naquela penumbra ideológica. Em 1958 Jorge Amado daria uma guinada em sua carreira - para melhor. Abandonaria todos os clichês à la Stálin e se concentraria nos costumes do brasileiro. Mais especificamente o baiano, negro, caliente, vivendo aquele sincretismo religioso que tanto agrada aos gringos e comendo comidas exóticas que nos dão diarréias homéricas. O livro que marca esta fase é Gabriela, Cravo e Canela. Com a receita comida-e-sexo, Jorge Amado não perdeu seus leitores estrangeiros e até ganhou a simpatia cá em terras brasileiras. Exceto por um ou outro que via como perniciosa a manutenção de um estereótipo brasileiro (mulato gostoso à procura). Certa vez me sentei com um baiano e ele me disse que Jorge Amado favorecia a prostituição infantil no Nordeste. Alguém aí tem opinião sobre o assunto?

Desta fase, li apenas Dona Flor e Seus Dois Maridos. De uma sentada só. Livro adorável. Sexual (e não sensual). Com cheiro de dendê. Sincrético. Aquela coisa toda. Não tive, contudo, ganas de ir para a Bahia praticar turismo sexual por conta do livro. Tampouco me senti menos brasileiro (sou branco e descendente de russos - olha a ironia), fora do protótipo, se é que há um. Enfim, o livro não me acresceu nada. A não ser, claro, umas boas risadas.

Quando eu penso em Jorge Amado hoje lembro um tempo que não vivi: um tempo em que se lia muito mais do que hoje. Calma, calma. Sei que "naquele tempo" havia muito mais analfabetos. Só que a classe média lia, proporcionalmente, mais e melhor que nestes dias. Com todas as reservas que se pode ter do baiano velho comunista que no fim da vida foi o mais rico de nossos escritores e que era admirador de Antônio Carlos Magalhães, ainda assim ele é melhor, infinitamente melhor que um Paulo Coelho. Prefiro seus negros estereotipados, cheios de volúpia e só volúpia, aos demônios do vigarista-mor de nossa escassa literatura.

Com Jorge Amado vai-se esta época. Apesar das discordâncias políticas de hoje, não posso deixar de admirar um homem que acreditou naquilo que escreveu e que soube cair fora na época certa (Jorge Amado deixou o Partidão após saber das atrocidades cometidas por Stálin, coisa que o Stédile não fez até hoje, para se ter uma idéia do que significa honestidade intelectual. Deixa para lá.). Além disso, Jorge Amado soube ter humildade, coisa tão rara em nossos "intelequituais" (adoro quando o Millôr escreve assim), e aceitar o fato de que, para ser admirado pelas massas (para usar um jargão de comunista), tinha de se curvar à tão difamada televisão.

Que descanse em paz, olhando o mar da Bahia por toda a eternidade.



Paulo Polzonoff Jr
Rio de Janeiro, 8/8/2001

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Anticristo: sexo como culpa de Wellington Machado
02. Fora de São Paulo de Alessandro Silva
03. Sem roupa e sem memória de Daniela Sandler
04. Em nome do senhor de Rafael Azevedo


Mais Paulo Polzonoff Jr
Mais Acessadas de Paulo Polzonoff Jr em 2001
01. Transei com minha mãe, matei meu pai - 17/10/2001
02. Está Consumado - 14/4/2001
03. A mentira crítica e literária de Umberto Eco - 24/10/2001
04. Reflexões a respeito de uma poça d´água - 19/12/2001
05. Deus - 25/7/2001


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Coleção Primeiras Descobertas - Répteis
Caramelo Livros Educativos
Caramelo Livros Educativos
(2008)



O Guia Pratico do Conhecimento Empresarial
Daniela Donata Scuderi
Demar



Comandos Eletroeletrônicos: Teoria
Senai
Senai Sp
(2016)



Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll
Cosac Naify
(2009)



Knights Templar Encyclopedia
Karen Ralls
New Page Books
(2007)



A Batalha Do Apocalipse: Da Queda Dos Anjos Ao Crepúsculo Do Mundo
Eduardo Spohr
Verus
(2013)



Comunicação Integrada de Marketing
Duda Pinheiro
Atlas
(2009)



Populaçao de Rua
Carlos Jose Morais Dias
Hucitec
(1994)



A Nova Era E A Revolução Cultural
Olavo De Carvalho
Vide Editorial
(2014)



Vinhos, arte & cultura
Eduardo mattos
Appears





busca | avançada
77507 visitas/dia
2,1 milhões/mês