Tons por detrás do rei de amarelo | Eugenia Zerbini | Digestivo Cultural

busca | avançada
38320 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> De vinhos e oficinas literárias
>>> Michael Jackson: a lenda viva
>>> Gente que corre
>>> Numa casa na rua das Frigideiras
>>> Numa casa na rua das Frigideiras
>>> Reinaldo Azevedo no Fórum CLP
>>> Introdução ao filosofar, de Gerd Bornheim
>>> Companheiro dileto
>>> O Vendedor de Passados
>>> Eugène Delacroix, um quadro uma revolução
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Quinta-feira, 26/6/2014
Tons por detrás do rei de amarelo
Eugenia Zerbini

+ de 4700 Acessos



Walnice Nogueira Galvão, professora emérita de teoria literária da Universidade de São Paulo, afirma que deveria ser assegurado às crianças uma dose de Edgar Allan Poe (1809-1849) logo na infância. Além de Poe, eu recomendaria também algumas doses de Jan Potocki (1761-1815), Gérard de Nérval (1808-1855), e Théophile Gautier (1811-1872). Em síntese, boas páginas de literatura fantástica que, além de nutrir a imaginação dos leitores para o resto da vida, preveniriam encantamentos com brilhos duvidosos. No caso, O Rei de Amarelo, de Robert Chambers (1865-1933), hoje incensado como uma das obras primas da literatura de fantasia (por que o adjetivo fantástico foi abolido?).

Foram publicadas quase simultaneamente (em março e abril respectivamente) duas traduções da obra: O símbolo amarelo (Curitiba, Arte e Letra) e O rei de amarelo (RJ,Intrínseca). Optei pela segunda. Logo me decepcionei, na leitura do primeiro conto, "O reparador de reputações". Sempre fui atraída pela ideia de um livro dentro de outro livro. Um livro ao quadrado, conceito caro aos apaixonados pela leitura, uma colorida matrioshka, com suas surpresas, uma dentro da outra. O que dizer, então, de um livro fazendo referencia a outro, que quando lido leva o leitor à loucura, como no caso em questão?

"Durante minha convalescência, comprei e li pela primeira vez O Rei de Amarelo. Lembro, depois de terminar o primeiro ato, que me ocorreu que era melhor parar por ali, Arremessei o volume a lareira, mas o livro bateu na grade protetora e caiu aberto no chão, iluminado pelas chamas. Se não tivesse visto de passagem as primeiras linhas do segundo ato, eu nunca teria terminado a leitura, mas, quando me levantei para pegá-lo, meus olhos grudaram na página aberta, e com um grito de horror, ou talvez tenha sido de alegria, tão pungente que o senti em cada nervo, afastei o objeto das brasas e voltei em silêncio e tremendo para meu quarto, onde o li e o reli, e chorei, e ri e estremeci com um terror que às vezes me assola. É isso que me incomoda, pois não consigo esquecer de Carcosa, onde as estrelas negras pendem dos céus; onde as sombras dos pensamentos dos homens se alongam ao entardecer, quando os sóis gêmeos mergulham no lago de Hali; e minha mente guardará para sempre a lembrança da Máscara Pálida".

Notável o recurso do autor da narrativa em localizá-la no ano de 1920, um quarto de século além da data de publicação do volume, 1895. Desagradável, porém, sentir que tudo soa como um eco de coisas já escritas - e muito bem escritas - anteriormente. Ambrose Bierce (1842- Circa 1914) é uma referência expressa nesse universo, por meio das citações a Carcosa - cidade imaginária - e a Hali, possivelmente um de seus habitantes. Por detrás da Máscara Pálida está a outra, mais colorida, a da Morte Rubra, do conto de Edgar Allan Poe. Que, por sinal, faz-se onipresente não apenas no tom empregado na narrativa, mas também nos detalhes. Por exemplo, a ação do personagem central, o Sr. Castaigne, inicia-se na Washington Square. Como se sabe, a praça coincide com a área de um dos antigos cemitérios da cidade, ativo até 1825. Não bastassem os 20 mil corpos que ali jazem, Washington Square está a uma quadra de uma das ex-residências de Poe (85 West 3rd Street, cuja fachada foi preservada, integrada no edifício da Faculdade de Direito da New York Universty). Mr. Castaigne, pois bem, conhece o Sr. Wilde (outro tijolo alheio no pastiche alinhavado por Chambers), que o coloca em contato com a história de uma dinastia imperial americana, cujos galhos da árvore genealógica alcançam Castaigne.

Tzvetan Todorov (1939 -), no clássico Introdução à literatura fantástica, afirma que o sujeito das narrativas do gênero quase sempre é alguém de cultura e com conhecimentos específicos (como médico, cientista, ou então arqueólogo, estudioso de simbologia ou de culturas antigas), espécie de plataforma para a ampliação dos elementos e da voz de autoridade que conferem credibilidade à história. Robert Chambers (1865-1933) teve a vida semelhante a um desses narradores. Nasceu no Brooklin (NY), de família de meios e tradição. Frequentou bons colégios, dedicando-se ao desenho e às belas artes. Em 1886, partiu para França, prosseguindo seus estudos de ilustração e pintura. Retorna aos Estados Unidos, em 1893, após casar-se com uma franco-americana, filha de diplomata. Abraça a carreira de ilustrador em prestigiadas publicações. Em 1895, publica o livro que irá deixar seu nome inscrito nas crônicas da literatura fantástica, O rei de amarelo. Não foi seu livro de estreia, uma vez que, em 1894, publicou In the quarter, escrito em Munique: uma história de amor, nos moldes da ópera La bohème, de Puccini (1858-1924), ou do filme Moulin Rouge.

Robert Chambers foi autor de uma centena de obras, incluindo livros infantis e o que se chama hoje de chick lit. Estes últimos renderam-lhe a alcunha de shopgirls Sheherazade e Balzac de boudoir. H.P. Lovercraft (1890-1937), em sua obra subtraiu alguns elementos de O rei de amarelo (o principal deles a quimérica Carcosa), o que não impediu de referir-se a Chambers, em Horror Sobrenatural na literatura como um daqueles titãs decaídos que, embora dotado de boa cabeça e formação, perderam o hábito de usá-las. Lovecraft, na realidade, apropriou-se não de idéias de Chambers, mas de Ambrose Bierce. Este último - jornalista e escritor norte-americano, desaparecido quando se juntava à Revolução Mexicana - sim, o verdadeiro criador de Carcosa.

Morando na França, Chambers teve acesso à vasta literatura fantástica cultivada naquele país, ao longo do século XIX, cuja origens remontam ao Manuscrito encontrado em Saragoça, do autor polonês Jean Potocki. Considerado o Mil e uma noites do ocidente, a obra foi escrita em francês, no século XVIII, e publicado na França nas primeiras décadas do século seguinte. Trata de uma série de histórias interligadas que mesclam duas misteriosas irmãs, casadas com um mesmo homem, grupos de ciganos, magia, cabala, um eremita com seu criado possuído pelo demônio. E, convenhamos, a sonoridade de Carcosa está mais perto do som da espanhola Saragoça do que de Carcassone, cidade ao sul da França a qual se atribui a inspiração de Bierce em sua criação. Além de Potocki, lia-se muito em Paris, na segunda metade do século XIX, os contos fantásticos Theophille Gautier, a quem Charles Baudelaire (1821-1867) dedicou suas Flores do Mal. As mulheres sobrenaturais dos contos de Chambers seguem o mesmo molde das personagens de Gautier, vide seus contos: Angéla, Jacintha, a própria morte apaixonada...

Outro poeta e escritor contemporâneo de Gautier, Gerard de Nérval - incluído pelo crítico Harold Bloom (1930 -) em sua lista objeto do Canone Ocidental - ,com seus contos reunidos em Les filles du feu dá vida a esses tipos femininos intrigantes. O curioso é que até no nome parece que Chambers copia seu inspirador: Sylvie, nome que aparece em várias histórias deste último também é o nome escolhido por Nérval, na construção do seu eterno feminino infernal.

Por fim, atendo-se à tradução,causa estranhamento a remissão às "colunas iônicas", já notada no conto de abertura. A edição aparentemente bem cuidada, deveria acertadamente descrever as colunas como jônicas. De modo instantâneo, assim em um estalar de dedos, O rei de amarelo voltou à moda por meio da série True Dectetive, como anunciado até na quarta capa da edição da editora Intrínseca. Comenta-se inclusive que o visual da série é derivado da obra de Chambers, como denotado na cena do primeiro crime, objeto de investigação durante a primeira temporada do seriado. Outra afirmação leviana. A mulher lívida, de farta cabeleira ruiva, amarrada nua em um tronco, com uma coroa feita de galhos corresponde tem mais a ver com o visual do pintores pré-rafaelitas do que com qualquer outra medida.


Eugenia Zerbini
São Paulo, 26/6/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Nenhum Mistério, poemas de Paulo Henriques Britto de Jardel Dias Cavalcanti
02. Era uma casa nada engraçada de Cassionei Niches Petry
03. K 466 de Renato Alessandro dos Santos
04. 2 leituras despretensiosas de 2 livros possíveis de Ana Elisa Ribeiro
05. Famílias terríveis - um texto talvez indigesto de Ana Elisa Ribeiro


Mais Eugenia Zerbini
Mais Acessadas de Eugenia Zerbini em 2014
01. Bonecas russas, de Eliana Cardoso - 21/8/2014
02. Ossos, mulheres e lobos - 4/12/2014
03. O pródigo e o consumo - 11/9/2014
04. Jackie O., editora - 20/3/2014
05. Tons por detrás do rei de amarelo - 26/6/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




DECIDA-SE PELO SUCESSO
NOAH ST. JOHN
CULTRIX
(2003)
R$ 29,90



TEEN VILLAGE 1
DAVID SPENCER
MACMILLAN
(2008)
R$ 10,00



DO FUTURO - FATOS, REFLEXÕES, ESTRATÉGIAS
ANTONIO PASQUALI
UNISINOS
(2004)
R$ 7,90



RECIFE DOS HOLANDESES
JULIETA DE GODOY LADEIRA
ÁTICA
(1990)
R$ 4,42



O HÓSPEDE DE DRÁCULA COLEÇÃO MINI BIBLIOTECA
BRAM STOKER
PUBLICAÇÕES EUROPA - AMÉRICA
(1996)
R$ 21,78



O CAVALEIRO DOS SETE REINOS HISTÓRIAS DO MUNDO DE GELO E FOGO
GEORGE R.R. MARTIN
LEYA
(2017)
R$ 42,00



A VERDADEIRA HISTÓRIA DE MARIA MADALENA
DAN BURSTEIN J. DE KEIJZER
EDIOURO
(2006)
R$ 74,00



O LAVATER DAS SENHORAS
EDOUARD HOCQUART
IMPRENSA OFICIAL
(2010)
R$ 31,99



O CANTOR PRISIONEIRO
ROGÉRIO BORGES; ASSIS BRASIL
MODERNA
(2004)
R$ 10,00



JUSTIÇA E COMPORTAMENTOS DE CIDADANIA NAS ORGANIZAÇÕES UMA ABORD
ARMÉNIO REGO
SÍLABO
(2000)
R$ 39,70





busca | avançada
38320 visitas/dia
1,3 milhão/mês