Elke Coelho e a estética glacial-conceitual | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
49037 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 16/7/2013
Elke Coelho e a estética glacial-conceitual
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 6200 Acessos

A Divisão de Artes Plásticas da Casa de Cultura da UEL, sob a direção do artista Danillo Villa, tem representado para a cidade de Londrina um acontecimento exemplar, tornando-se o único espaço realmente vivo na cidade onde a arte contemporânea tem sido exibida, através da apresentação de uma grande variedade de artistas e de suas propostas, criando uma conjunção extremamente rica entre exposição, debates (com os artistas, críticos e público) e uso educativo do espaço pela comunidade. Além disso, mantendo um edital anual aberto a artistas de todo o país. (visitem o blog)

É dentro dessa política que foi inaugurada este mês a instigante exposição "Quando os objetos se tornam abismos", da artista plástica Elke Coelho. São dois andares da Casa de Cultura ocupados por uma grande variedade de objetos criados pela artista, reunidos a partir de uma proposta conceitual com forte teor introspectivo.

A arte conceitual abriu um espaço, a partir dos anos 60 e 70, para que artistas pudessem criar obras de forma extremamente livre, a partir de uma infinidade de objetos apropriados do universo industrial ou natural, e no qual a ideia fosse mais importante que a fatura do próprio objeto. A (re)construção de significados a partir do encontro de objetos recortados e agrupados de forma inusitada advinha das experiências das vanguardas, principalmente dadaísta e surrealista, que tomaram, a partir da segunda metade do século XX, um caminho bastante profícuo em proposições artísticas. Artistas como Kosuth, Manzoni, Morris, Sol Lewitt, Buren, Cildo Meireles, Eva Hesse, Gober, dentre tantos outros, abriram espaço para experiências artísticas onde forma, ideologia, identidades, gêneros, política, subjetividades, história apareciam discutidas nesse entrecruzar de objetos redefinidos a partir do interesse particular de cada artista.

No caso específico da artista Elke Coelho, essa tendência conceitual se dá pela apropriação de objetos industriais como cotonetes, giletes, vidros, alfinetes, palitos de fósforo, palitos de dente, algodão, caixas de acrílico, espuma, rolhas, pregos, canecas, esferas peroladas, etc, e pela apropriação de objetos naturais como plantas e frutas (cactos, flor sempre-viva e maçãs).

Ao se percorrer a exposição da artista, a primeira coisa que salta aos olhos é o predomínio da cor branca dos objetos por ela criados (ou apropriados). Na obra "Deserto", por exemplo, Elke organiza uma espécie de campo desértico, através de um fileira de "telas", construídas por um ajuntamento de centenas de cotonetes, sustentados por estruturas acrílicas. O branco que se estende pela ampla parede que o recebe indica e reforça, sem sombra de dúvida, a imagem do deserto ou de um amplo vazio.

Apesar da ideia de deserto não ser atraente, pois significa uma possibilidade de ausência de vida, de solidão, os cotonetes, em sua fatura algodoada, nos transmitem uma sensação de aconchego, de conforto dentro desse deserto.

Embora o efeito imediato do branco na obra seja sensorial, vale atentar para o seu sentido simbólico. Segundo Kandinski, em seu livro Do espiritual na arte, "o branco, considerado muitas vezes como uma não-cor, é como o símbolo de um universo onde todas as cores, enquanto propriedades de substâncias materiais, se desvanecem. Este universo é de tal forma elevado, que dele não chega qualquer som. Apenas um grande silêncio se estende até ao infinito, como uma fria muralha, impenetrável e indestrutível. Na nossa alma, o branco atua como o silêncio absoluto. Interiormente, ressoa como ausência de som, que na música equivale ao silêncio, esse silêncio que apenas interrompe o desenvolvimento de uma frase, sem constituir remate definitivo. Este silêncio não está morto, antes transborda de possibilidades vivas. O branco soa como um silêncio que de súbito pudesse ser entendido. É um quase "nada" pleno de alegria juvenil, ou melhor, um nada anterior ao nascimento, a qualquer começo. Talvez a Terra, na sua época glacial, soasse assim, branca e fria."

Este branco tem consequências simbólicas fortes em todas as obras de Elke Coelho. Outra obra em que é visível essa ideia de "fria muralha impenetrável" (ou que não se deixa penetrar), como o branco sugere, é "Coágulos", na qual uma grande quantidade de pequenas caixas de acrílico contendo bolinhas brancas são coladas sobre a parede branca, que funciona como uma duplicação da sua opacidade. O coágulo, que deveria ser vermelho, aqui é exposto numa brancura irremediável.

Segundo Kandinski, "o calor da cor tende a aproximar o espectador, enquanto o frio o afasta". Essa sobreposição de brancos e transparências criado pela artista, nesse sentido, impede que o espectador se detenha diante da obra, sendo chamado por qualquer referência calorosa; ao contrário, causa-lhe a sensação de ausência de vida. Na parede branca quase se anula o valor que sobre ela é adicionado pela obra.

No caso da obra "Proposta (situação outra)", duas maçãs aparecem lado a lado, uma delas com esferas peroladas e a outra totalmente espetada por alfinetes. A maçã, que deveria nos aproximar por sua cor vermelha (que segundo Kandinski evoca a força, a energia, a decisão, a alegria e o triunfo e, ao contrário do branco, soa como uma fanfarra em que predomina o som forte, obstinado e importuno do clarim), se torna, depois da inserção de um grande agrupamento de alfinetes espetados na fruta, semelhante ao cacto, esta planta simpática que, apesar de formosa, impede qualquer aproximação. A sensação que temos diante das duas maçãs é de que a primeira nos chama ao contato, já que as esferas peroladas a torna atraente, mas a segunda seria a resposta à aproximação: o seu impedimento espinhoso. Simbolicamente também sabemos que a maçã é o sedutor fruto do pecado ao qual não se resiste e pelo qual se pode perder o paraíso. Então, essa particularidade da forma com que a artista apresenta as duas frutas pode significar o tensionamento entre o desejo e sua impossibilidade (ou proibição) de realização.

É interessante como o procedimento se repete em "Sobre as aparências e os desejos", quando duas canecas são colocadas lado a lado, uma branca e outra vermelha, ambas com uma bola branca por dentro, mas justamente na caneca vermelha, que nos atrairia por sua cor, a bola encontra-se espetada por uma espécie de prego que sugere um impedimento à nossa aproximação.

Essa indisposição entre materiais que se contrapõem também pode ser vista na obra "Casulo II", onde uma sucessão de giletes (lâminas de barbear), colocadas dentro de caixas como "telas", são acondicionadas junto a pequenos pedaços de algodão. À delicadeza do algodão, contrapõe-se o perigo do corte pela lâmina de aço.

O que se percebe no conjunto das obras desta exposição é uma dinâmica do perigo (alfinetes, giletes, pregos, fósforos) aliada à cor fria, distante, opaca do branco. Quando não, como, por exemplo, na série com palitos de fósforo, é a sensação de perigo, ou a criação de áreas de perigo, que impedem também qualquer tentativa de aproximação. Coexistências como áreas de risco, como diz o título do trabalho e diz tudo.

A obra "Castelos" também nos faz pensar nessa barreira estabelecida entre espectador e obra. Os vasos brancos recebem de forma serial seus cactos, estes denominados pela artista com o nome de "castelos", impossíveis de se penetrar dada a possibilidade de ferimento que os espinhos insinuam a quem se aproximar. O mesmo procedimento das maçãs, ao criar a barreira de alfinetes que nos afasta do objeto.

A artista opta por materiais delicados, singelos, mas cortantes e/ou perigosos. A sua organização metódica desses materiais denota uma paciência de monge zen budista, um autocontrole férreo, uma disposição minimalista pela repetição.

A exposição é, aparentemente, à primeira vista, leve, serena, elaborada com cuidado e delicadeza, mas sob a menor aproximação começa-se a perceber o engano, através das armadilhas que vão se estabelecendo para o espectador a cada obra que se apresenta. Se se chegar muito perto, os pequenos objetos se tornam abismos.


Na foto acima, a artista conversa com o público sobre seu processo de criação.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 16/7/2013


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2013
01. A Última Ceia de Leonardo da Vinci - 12/2/2013
02. Mondrian: a aventura espiritual da pintura - 22/1/2013
03. Gerald Thomas: arranhando a superfície do fundo - 26/2/2013
04. Cinquenta tons de cinza no mundo real - 3/9/2013
05. O corpo-reconstrução de Fernanda Magalhães - 18/6/2013


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




FRACASSINHO - MEMÓRIAS
GARY SHTEYNGART
ROCCO
(2014)
R$ 9,51



CÓDIGO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR - 6ª EDIÇÃO
ADA PELLEGRINI GRINOVER & OUTROS
FORENSE UNIVERSITÁRIA
(1999)
R$ 60,00



LITERATURA TEMPOS, LEITORES E LEITURAS - PARTE I
MARIA LUIZA M ABAURRE
MODERNA
R$ 6,50



QUASI UNA FANTASIA - ESCRITOS MUSICAIS II
THEODOR W. ADORNO
UNESP
(2018)
R$ 57,90



EL ALMA DEL HOMBRE BAJO EL SOCIALISMO
OSCAR WILDE
FONDO DE CULTURA
(1989)
R$ 7,00



ASTROLOGIA REAL O QUE SEU SIGNO QUER DIZER A VOCÊ
OSCAR QUIROGA 8225
ROCCO
(2002)
R$ 10,00



PARE DE ACREDITAR NO GOVERNO: POR QUE OS BRASILEIROS NÃO CONFIAM NOS POLÍTICOS E AMAM O ESTADO
BRUNO GARSCHAGEN
RECORD
(2015)
R$ 30,00



EFICÁCIA GERENCIAL
W. J. REDDIN
ATLAS
(1970)
R$ 5,00



INIBIÇÕES PROCESSUAIS
WENDEL DE BRITO LEMOS TEIXEIRA
DEL REY
(2011)
R$ 44,00



RUA DA DESILUSÃO
JACQUELYN MITCHARD
RECORD
(2007)
R$ 23,00





busca | avançada
49037 visitas/dia
1,4 milhão/mês