Eu quero pagar imposto sorrindo | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
82631 visitas/dia
2,6 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Curitiba On-line: atividades culturais disponíveis para fazer em casa
>>> Luis Stuhlberger, um dos maiores gestores de fundos do país, participa do próximo Dilemas Éticos
>>> Cia. Palhadiaço faz temporada online de Depósito acompanhada por oficinas grátis
>>> GRUPO MORPHEUS TEATRO leva obra audiovisual “BERENICES” para teatros públicos do munícipio de São Pa
>>> II Bibliofest debate Agenda 2030 da ONU/IFLA em bate-papos literários e oficinas culturais
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
>>> Curtíssimas: mostra virtual estreia sexta, 16.
>>> Estreia: Geração# terá sessões virtuais gratuitas
>>> Gota d'agua
>>> Forças idênticas para sentidos opostos
>>> Entristecer
>>> Na pele: relação Brasil e Portugal é tema de obra
>>> Single de Natasha Sahar retrata vida de jovem gay
>>> A melancolia dos dias (uma vida sem cinema)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Deficiente capilar
>>> A imaginação do escritor
>>> Caindo de paraquedas na escrita
>>> Inteligência artificial
>>> Rimbaud, biografia do poeta maldito
>>> 7 de Setembro
>>> Deixa se manifestar
>>> Auctoritas
>>> A arte do cinema imita o caos. Ou vice-versa
>>> Toca Raul!
Mais Recentes
>>> José Duarte- um Maquinita da Historia de Luiz Momesso pela 8 de Março (1988)
>>> Perfil Literário dos Presidentes das Sobrames Regionais- 2000/2002 de Varios Autores pela Santa Rita (2002)
>>> Dragões do Eter Vol. 3 - Círculos de Chuva de Raphael Draccon pela Leya (2010)
>>> Tecnica e Sociedade no Brasil - de Diana Gonsalves Vidal pela Contexto (1988)
>>> Projeto Resgate Pernambucano-vol. 01 de Varios Autores pela Alepe-pe (2007)
>>> Oásis do Meier de Altamir Tojal pela Calibar (2010)
>>> Redação para o 2 grau- Pensando lendo e escrevendo de Ernani e Nicola pela Scipione (1996)
>>> Gestao Radical: As Licoes Do Programa De Gestao Avancada Da Harvard Business de Mark Stevens pela Campus (2001)
>>> Os Vigilantes de Philip Cornford pela Record (1991)
>>> Inferno na Torre de Richard Martin Stern pela Record
>>> Contos Fluminenses-edições Criticas de Machado de Assis pela Civilização Brasileira (1975)
>>> Discursos- Vol. 01 - 1974 de Ernesto Geisel pela Assessoria Imprensa Nacional (1975)
>>> Cantos do Brasil - o Caminho das Pedras de Shirley Souza pela Escala Educacional (2000)
>>> Remedio Amargo de Arthur Hailey pela Record
>>> A Câmera do Sumiço de Laura Bergallo pela Dcl (2007)
>>> Turismo Em Cronicas de Geraldo Granja Falcão pela Do Autor (1977)
>>> Bonecos na Ladeira de Adriana Victor pela Publikimagem (2011)
>>> Operação Rhinemann de Robert Ludlum pela Record (1974)
>>> Abilio Diniz. Caminhos E Escolhas de Renato pela Campus (2004)
>>> Historias Que o Tempo Esqueceu de Melchiades Montenegro Filho pela Fac Form (2011)
>>> A Saga da Wilson Sons de Patricia Saboia pela Index (1997)
>>> Respostas ao Criador das Frutas de Sonia Carneiro Leão pela Do Autor (2010)
>>> Envolvido pela Luz - 3ª de Betty J. Eadie pela Nova Era (1994)
>>> A Era Da Mulher de Alison Maitland pela Campus (2008)
>>> Mais rápido, barato e melhor de Michael Hammer e Outros pela Campus (2011)
COLUNAS >>> Especial Eleições 2006

Quarta-feira, 4/10/2006
Eu quero pagar imposto sorrindo
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4000 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Lembro direitinho da rua onde ficava o TRE. Era lá que tínhamos que ir se quiséssemos "tirar o título". Para minha sorte, era bem perto do colégio. À pé, era só descer a Almirante Alexandrino, andar pela Contorno e virar na Prudente de Morais. Pronto. A meninada combinava de ir em grupo para ser mais divertido. Na volta, andávamos ao lado da Assembléia Legislativa, onde passaríamos a ter influência. Entrei lá várias vezes. Minha carteira de identidade foi tirada no subterrâneo. Depois fui conhecer o plenário, os corredores e os banheiros. Muitos anos depois, voltei para ler poemas, junto com dois poetas queridos, nas comemorações dos 30 anos da Revolução dos Cravos, em Portugal. Entrei como uma noiva (que não fui), grávida, vestida de preto, de braços dados com os dois poetas, e li uns poemas, nem me lembro de quem. Mas foi bonito o episódio.

Dia desses fui a Brasília para uma reunião no Palácio do Planalto. Confesso que foi bacana entrar lá, ser barrada por todos aqueles detectores e seguranças. Estava lá para construir um instrumento de avaliação para um programa nacional de educação, o ProJovem. Aí, sim, tive a impressão de poder participar, embora eu faça isso todos os dias, na sala de aula.

Na época do colégio municipal, escola pública de ótima qualidade, era novidade votar aos 16 anos. Meu pai nunca havia votado na vida e estava perplexo com a tarefa. Minha mãe estava confusa. A questão era: posso votar mesmo ou é pro forma? E eu, meu pai e minha mãe teríamos a mesma experiência, pela primeira vez, juntos. Eles, com alguns anos de atraso, talvez.

Votar, naquela época, aos 16 anos, era voluntário. Ainda é, mas a novidade deixava a escola excitada. Não tínhamos a exata noção do que isso significava, mas queríamos participar. Não sabíamos, ainda, tecer críticas aos candidatos ou aos programas eleitorais. Achávamos chato o atraso da novela ou daqueles caras falando mentiras na tevê, mas era necessário. Boa hora para tomar um banho.

Tirei meu título. Lembro vagamente do dia em que fui buscar. A moça sugeriu que eu o plastificasse. Está lá, na carteira, até hoje, intacto. Desde aquela época, votei várias vezes. Coleciono os comprovantes, que ficam dentro de uma caderneta, cada um com o nome do candidato em que votei escrito atrás. De alguns, me envergonho. De outros, nunca mais tive notícia.

Alguns elegíveis marcaram época com suas campanhas engraçadíssimas. Lembro do Afif Domingos e a linguagem dos surdos-mudos. "Juntos chegaremos lá", quem não lembra dos gestos da mão? Até hoje eu brinco com isso em sala de aula. Grande parte dos meus alunos do noturno se lembra. E nada mais modernoso do que incluir os surdos-mudos na campanha.

Enéas foi talvez o candidato mais comentado de todos os tempos, com aqueles segundos de verborréia aceleradíssima. Quem não brincou com o bordão "meu nome é Enéas"? Pois eu brinco com isso até hoje.

As campanhas mudaram, as pessoas também. Os candidatos ficaram mais expostos. Os eleitores parecem mais desconfiados. Um presidente ladrão, outro presidente acadêmico, um presidente que se gaba de mal saber ler. Estamos bem, hein? E que outra opção há? Minas Gerais insiste em certos nomes que parecem cristalizados. Newton Cardoso soa piada a esta altura. E a caravana passa, com todos os mensalões e mensalinhos.

No meu bolso, nada. Na minha vida, alguma coisa muito difusa. O governo Lula abriu, de fato, muitos concursos públicos, especialmente para repor os contingentes das universidades públicas, único lugar do país em que a ciência e a pesquisa andam a passos largos, muito embora isso se justifique pela eficácia dos pesquisadores.

Você já tentou fazer um concurso público para ser professor universitário? Pois tente. É uma bela experiência. Além da maratona física e intelectual, os acontecimentos são impagáveis. Dependendo da área, os aposentados voltam para suas cadeiras de estimação, concorrem com os pirralhos e, claro, ganham o direito de morrer na universidade. Lado a lado ficam um jovem pesquisador, cheio de gás, e um medalhão e suas caixas de publicações. É claro que isso só serve como experiência de treinante. Outra vez, os professores apenas mudam de estado ou de cidade. Um aposentado do Mato Grosso migra para uma Federal da Bahia e assim vai, numa ciranda. No interior, muitas vezes, a famosa "carta marcada" é que ganha o páreo, sem qualquer preocupação em esconder que o jogo já está ganho. Abraços e beijos nos componentes da banca, apelidos e até o cumprimento entre comadres. Experiência de dar nojo.

Mas isso não é culpa do presidente ou do deputado. Isso é o que está ao nosso redor, cultura impregnada nas coisas. Certo? Mas isso não é política? É, também, mas é de outro tipo, de outro calibre.

A gente passa por muitas moedas diferentes e nem se lembra mais do nome da moeda da adolescência. Passa por nomes, escândalos e confiscos. No tempo da memorável Zélia Cardoso, a grana suada do meu pai foi confiscada. Quando devolveram, o dinheiro de um apartamento deu pra comprar uma geladeira, que está lá em casa até hoje. Muito boa, por sinal.

A campanha das eleições 2006 pelo voto é, de fato, muito interessante. "O Brasil é tão bom quanto o seu voto". É isso mesmo. Algumas pessoas ainda insistem em votar sob critérios os mais estranhos. Porque o cara é "boa praça", é educado, é inteligente ou é ignorante. Não sei se é a característica pessoal do cara o que realmente interessa. Fico pensando com meus botões: o que esse cara vai fazer? Aumentar o preço da gasolina? Trocar o nome da moeda? Confiscar minha poupança? Privatizar a universidade pública? Implodir o que sobra das escolas públicas de ensino básico?

O SUS, por exemplo, é uma boa sacada. Embora a mídia faça uma força para dizer que ele não funciona, é interessante procurar saber dos atendimentos, das cirurgias de ponta e dos tratamentos feitos em hospitais públicos brasileiros.

As coisas poderiam funcionar muito bem neste país. Há vida inteligente por aqui. Há também quem tenha alguma noção de que, mesmo falando mal de tudo, é ou deveria ser peça ativa deste quebra-cabeça.

O que me preocupa, de modo geral? Que eu pago um imposto indecente e ainda tenho que pagar tudo em dobro. Pagar em dobro? Sim, porque os impostos que eu pago, e não apenas o Imposto de Renda, deveriam me deixar tranqüila para algumas coisas básicas: 1. Ter a certeza de um bom tratamento gratuito de saúde, quando eu precisar; 2. ter meu filho numa boa escola pública; 3. ter segurança para ir e vir, direito que me é assegurado pela Carta Magna. O que vejo não é isso. Minha planilha de Excel aponta que pago, além dos impostos, plano privado de saúde, seguro de carro contra roubo e furto, escolas particulares que juram que farão do meu garoto um cara melhor.

Eu só vou acreditar que a vida dos brasileiros é boa quando alguém der a nós o que nos é de direito e o que nós pagamos anualmente para ter. Pagamos diariamente para desfrutar. Só assim.

É por isso que eu voto. Algumas vezes anulei. Outras vezes, meti lá um número e apertei o botão verde. Este ano, vou levar meu filho para, aos 2 anos, votar comigo. Ele gosta mesmo é da musiquinha que a urna toca quando o voto é confirmado, mas vai aprender rápido quanta esperança tenho depositado no futuro dele quando pressiono aquela tecla. Dependendo da nossa atitude, quem sabe ele ainda vá pagar os impostos com boa vontade?


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 4/10/2006


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Layon pinta o silêncio da cidade em quarentena de Jardel Dias Cavalcanti
02. O caso Luis Suárez de Humberto Pereira da Silva
03. As ruas não estão pintadas. E daí? de Duanne Ribeiro
04. A Copa mais triste de todos os tempos de Elisa Andrade Buzzo
05. Millôr desde a escola, e pela vida afora de Fernando Lago


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2006
01. Digite seu nome no Google - 8/3/2006
02. Eu não uso brincos - 27/9/2006
03. Não quero encontrar você no Orkut - 8/2/2006
04. Poesia para os ouvidos e futebol de perebas - 7/6/2006
05. Ex-míope ou ficção científica? - 20/12/2006


Mais Especial Eleições 2006
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
7/10/2006
00h27min
Ana, mais uma vez adorei! Mesmo sendo de outra geração, identifico-me muito com você. E acho muito legal isso. Acho que são princípios. Coisa de família, de berço parecido... só pode ser. Abração.
[Leia outros Comentários de Áurea]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Mudanças e Permanências
Revista Fepal - Setembro de 2002
Fed Psicanalítica da a Latina
(2002)



Roberto Civita. o Dono da Banca
Carlos Maranhão
Companhia das Letras
(2016)



A Viagem de Pedraluarez Cabral, Contada por Castanheda
Geraldo de Oliveira Santos Neves
Prefeitura Recife (pe)
(2000)



Chocolate -traição
Isabel Tarcha
Celebris
(2004)



Coleção Primeiros Passos o Que é Educação
Carlos Rodrigues Brandão
Brasiliense
(1991)



Recursos Atípicos (capa Dura)
Hortêncio Catunda de Medeiros
Forense (rj)
(1980)



How to Defeat Saddam Hussein
Col. Trevor N. Dupuy
Warner
(1991)



A Conquista da Liberdade
Jose Luis Martinez
Santuario
(2003)



Livro Gigante Ler e Colorir Capitão América
Editora Culturama
Culturama
(2017)



Como uma Pipa no Ar
Ricardo Viveiros
Clemente e Gramani
(2008)





busca | avançada
82631 visitas/dia
2,6 milhões/mês