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Terça-feira, 30/1/2007
Nouvelle Vague: os jovens turcos
Marília Almeida

+ de 12600 Acessos

O termo Nouvelle Vague, "a nova onda", foi criado na década de 50 pela jornalista francesa Françoise Girot para caracterizar o comportamento dos jovens franceses da época. Apenas em 1958 a expressão é utilizada por uma revista de cinema para designar o movimento cinematográfico que enobreceu o cinema tanto como a literatura, recheando-o de referências intelectuais cerca de cinqüenta anos depois da criação do termo "sétima arte". Para se ter idéia da sua influência, sua linguagem de ruptura influenciou cineastas como o norte-americano Martin Scorsese, o franco-polonês Roman Polanski, o alemão Rainer Fassbinder, o italiano Pier Paolo Pasolini e até o cinema novo brasileiro.

Com o objetivo de apresentar um dos mais influentes cinemas da história, a Casa do Saber Jardins, localizada em São Paulo, realizou entre os dias 05 e 19 de dezembro de 2006 o curso A Nouvelle Vague, ministrado pelo jornalista Alcino Leite Neto, editor de moda da Folha de S. Paulo e da revista eletrônica de cultura Trópico. Nas cinco aulas, Alcino introduziu a Nouvelle Vague tanto em termos históricos como cinematográficos, enfatizando sua base teórica, expondo suas principais influências e influenciados e desvendando de modo apaixonado seus principais autores ajudado por trechos de seus filmes.

Jovens da nova onda
Em 1957, os jovens da Nouvelle Vague, também chamados de "jovens turcos" em referência ao movimento na Turquia que quis derrubar a monarquia, associam-se à revista francesa Cahiers du Cinema, considerada por Alcino a ponta de lança do movimento, aparecendo primeiro como críticos polêmicos prenunciando a Nouvelle antes mesmo de iniciarem suas produções. Finalmente, em 1959, acontecem suas primeiras estréias: Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais; Os Incompreendidos, de François Truffaut; e Acossado, de Jean-Luc Godard, três filmes considerados por Alcino as pilastras do movimento.

No resumo feito pelo jornalista, a Nouvelle Vague concilia o neo-realismo italiano, a teoria baziniana e o cinema norte-americano; cria um sistema de estrelas modestas, valoriza o acaso filmando nas ruas por razões tanto estéticas e econômicas, produz o arquétipo da personagem errante sempre em movimento, dá muito valor ao diálogo e narração fazendo referência a literatura constantemente, valoriza o ponto de vista do autor, preocupa-se em retratar a nova sociedade francesa e a imagem do corpo com naturalidade. A base deste cinema, por fim, pode ser resumida na idéia da liberdade.

Contexto histórico
Após a Segunda Guerra Mundial, o enfraquecimento do nazismo e o crescimento do embate entre capitalismo e comunismo, Alcino nos explica que ocorre um processo de liberação da cultura francesa. A figura norteadora deste momento é o filósofo francês Jean-Paul Sartre, cujo existencialismo permeará todas as áreas da produção francesa, influenciando a adolescência dos cineastas da Nouvelle Vague. A partir daí, a juventude começa a se firmar no mundo como uma categoria social com vozes e representações que embasa o espírito dos filmes da Nouvelle. Estes jovens compram sete vezes mais LPs, são parte da revoltada geração rock'n'roll liderada por Elvis e querem romper com os mitos envelhecidos da vida francesa.

Além disso, durante a Guerra Fria, um acordo entre EUA e França com o objetivo de perdoar a dívida externa garante a abertura do cinema francês ao americano, uma grande arma de americanização e indústria altamente rentável. Mas o feitiço vira-se contra o feiticeiro e o acordo acaba por aumentar a popularidade do cinema francês e, como conseqüência, impulsiona as produções do país. Ajudado pela formação de cineclubes e cinematecas de esquerda e revistas de cinema, entre elas a Cahiers, o cinema torna-se a principal forma de comunicação e entretenimento da época.

Grandes influências
Há dois movimentos cinematográficos e um tipo de cinema que influenciaram a Nouvelle Vague: o cinema neo-realista italiano e os filmes B norte-americanos e o cinema noir.

No final da Segunda Guerra Mundial é inaugurado o movimento neo-realista do cinema italiano, considerado a fundação do cinema moderno, com a produção Roma, cidade aberta de Roberto Rosselini (1945). A novidade desta estética está na busca de um sentido de urgência histórica onde os cineastas preferiam a filmagem nas ruas ou locações à filmagem em estúdios que garantiam falsa perfeição técnica. Outro princípio era a preferência pela suspensão da ação para fazer a imagem levar à reflexão, criando um cinema com atividade cerebral mais intensa e não apenas perceptiva.

Por outro lado, no final dos anos 40, ao mesmo tempo em que a arte cinematográfica está no apogeu, a indústria hollywoodiana entra em crise, pois os produtores independentes quebram os oligopólios em 1948 e a TV começa a se difundir. Em resposta a essa crise, começa a exibição dos filmes B, de menor orçamento e duração, durante a mesma sessão dos filmes A. Estes filmes mostram que é possível fazer bom cinema com uma técnica precária, com liberdade. É com esta criatividade que deve agir o cinema da modernidade para os cineastas da Nouvelle Vague.

Além da importância para a Nouvelle de Orson Welles, o cineasta marginalizado norte-americano criador de Cidadão Kane (1941), há ainda Alfred Hitchcock, considerado por Alcino o "Deus" da Nouvelle Vague junto com Fritz Lang, demonstrando o gosto do movimento pelos filmes noir.

Teoria baziniana
André Bazin, crítico de cinema, co-fundador da Cahiers e militante dos cineclubes, será o guia dos jovens da Nouvelle Vague. Em seu artigo nomeado "O que é cinema?", o crítico analisa as mudanças da modernidade no cinema e questiona a possibilidade desta forma de expressão se constituir uma arte. De acordo com ele, até meados dos anos 50 o cinema era visto como uma matéria técnica e os cineastas como operadores. Portanto, ele se incumbe da tarefa de o legitimar intelectualmente chamando a atenção para sua linguagem própria e modo de escrita novo. Na sua tese, os cineastas passam a serem artistas, merecendo uma leitura séria como outros artistas. A Nouvelle Vague combina o paradoxo do realismo de Bazin e a montagem clássica hollywoodiana.

Bazin defende um cinema realista como a dinamização da essência fotográfica, mas que, além de captar a imagem, capta também a duração dos eventos. Para isso, enfatiza que, quanto menos montagem em uma obra cinematográfica, melhor, pois a manipulação de imagem diminui o impacto da obra. Assim, o cinema deve explorar a imagem em si e permitir ao espectador liberdade em relação ao que está vendo, produzindo a riqueza da ambigüidade. O crítico defende o plano seqüência e poucos enquadramentos, almejando a menor intervenção artística possível. A mise-en-scène, conceito militante do movimento, é a capacidade de dispor todos os recursos e elementos que o cinema oferece para transmitir a mensagem sem focar em seu discurso, mas na riqueza da apreensão natural da realidade.

Truffaut e Godard: os revolucionários
François Truffaut, na visão de Alcino, divide águas na história do cinema ao publicar um artigo na edição de janeiro de 1954 da Cahiers, intitulado "Uma certa tendência do cinema francês". Neste artigo, o cineasta faz uma distinção entre os filmes de qualidade e a política de autores definida pela Nouvelle Vague. Os primeiros são parte de um grupo restrito de roteiristas que, diferentemente do realismo, não davam liberdade à imagem e não deixavam o espectador julgá-la por meio de um diálogo exibicionista.

Jean-Luc Godard, por sua vez, produz uma revolução dentro do próprio movimento. Há até, de acordo com Alcino, uma "Nouvelle godardiana", caracterizada pela desconstrução de todos os tipos de cinema, seja ele musical, intelectual, de ensaio, comédia, político ou de amor, todos ao mesmo tempo em apenas um filme. Nesta ruptura a música, forma e linguagem são essenciais e buscam, por meio de um discurso cinéfilo e colagens, exibir o antiilusionismo do cinema.

O filho da Nouvelle
Em 1961, uma segunda leva de filmes da Nouvelle são produzidos, mas a maioria é um fracasso. Apesar da decadência do movimento, Alcino explica que há um sopro de liberdade no mundo todo decorrente do impacto de seus primeiros filmes que traça novas possibilidades para jovens que almejavam a arte do cinema.

Um exemplo concreto desta tese é o cinema novo brasileiro, liderado por Glauber Rocha, que influenciou enormemente os críticos do Cahiers du Cinema. Glauber, com seu cinema social e político, fez com que jovens críticos tivessem uma nova percepção da autoria e da mise-en-scène de tal modo que a revista foi se tornando cada vez mais política até se converter ao maoísmo. Mas Glauber tem, como a Nouvelle Vague, elementos do cinema neo-realista italiano e o cinema clássico americano, mas não é rosseliniano como os jovens franceses e, sim, eisensteiniano, uma vez que realiza filmes de mise-en-scène com grande ênfase no conteúdo.


Marília Almeida
São Paulo, 30/1/2007


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