Trevisan além da humanidade pervertida e violenta | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
58257 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Sessão Única com Jogo de Escape Game e debate do filme 'Os Bravos Nunca se Calam' em SP
>>> OBRAS INSPIRADAS DURANTE A PANDEMIA GANHAM DESTAQUE NO INSTITUTO CERVANTES, EM SÃO PAULO
>>> Sempre Um Papo com Silvio Almeida
>>> FESTIVAL DE ORQUESTRAS JUVENIS
>>> XIII Festival de Cinema da Fronteira divulga Programação
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
>>> Sem chance
>>> Imcomparável
>>> Saudade indomável
>>> Às avessas
>>> Amigo do tempo
>>> Desapega, só um pouquinho.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> iPad
>>> iPad
>>> iPad
>>> Sátiro e ninfa, óleo s/ tela em 7 fotos e 4 movies
>>> poeta del vacío existencial
>>> Croft & Kidman
>>> Histórias de gatos
>>> Whitesnake, 1987
>>> Por que Dilma tem de sair agora
>>> A árvore da vida
Mais Recentes
>>> Livro - A Ararajuba - Série natureza brasileira 2 de Rubens Matuck pela Biruta (2003)
>>> Arsène Lupin e Victor, da Brigada Anticrime (como novo) de Maurice Leblanc pela Principis (2021)
>>> Livro - Os Pássaros - Coleção Infanto Juvenil de Germano Zullo Albertine pela 34 (2013)
>>> Livro - Betina de Nilma Lino Gomes pela Maza (2009)
>>> Agente em campo (como novo) de John le Carré pela Record (2021)
>>> Fantasma sai de cena (muito bom) de Philip Roth pela Cia das letras (2008)
>>> Gota d’água - Coleção Teatro Hoje de Chico Buarque (Autor), Paulo Pontes (Autor) pela Civilização Brasileira (1977)
>>> Privação Cultural e Educação Pré-Primária de Maria Helena Souza Patto pela Livraria José Olympio (1977)
>>> Lisbela e o Prisioneiro de Osman Lins pela Planeta (2015)
>>> A Franco Maçonaria. Origem Historia e Influencia (raro exemplar) de Robert Ambelain pela Gnose (1990)
>>> O Desmonte de Amarildo Felix pela Patuá (2021)
>>> Diário de um Ladrão de Jean Genet pela Nova Fronteira (2005)
>>> Comédias para se ler na escola de Luis Fernando Verissimo pela Objetiva (2001)
>>> Auto da Barca do Inferno Farsa de Inês Pereira Auto da Índia de Gil Vicente pela Atica (2005)
>>> Eu não disse? (muito bom) de Mauro Chaves pela Perspectiva (2004)
>>> Os Sofrimentos Do Jovem Werther de Johann Wolfgang Von Goethe pela Martins Fontes (1998)
>>> O Quarto Reich (capa dura- ótimo estado) de M. A. Costa pela Livros de guerra (2018)
>>> A Inocência do Padre Brown (raro exemplar) de G. K. Chesterton pela Record
>>> Ventos de Quaresma (muito bom) de Leonardo Padura Fuentes pela Cia das letras (2008)
>>> Perseguido (muito bom) de Luiz Alfredo Garcia-Roza pela Cia das letras (2003)
>>> O Rei De Girgenti (muito bom) de Andrea Camilleri pela Record (2004)
>>> D. Pedro I (Perfis Brasileiros) de Isabel Lustosa pela Companhia das Letras (2006)
>>> Quatro Estações de Stephen King pela Objetiva (2001)
>>> Wicca Gardneriana de Mario Martinez pela Gaia (2005)
>>> O Feitiço do Cinema Ensaios de Griffe Sobre a Sétima Arte de Juan Guillermo D. Droguett e Flavio F. A. Andrade pela Saraiva (2009)
COLUNAS

Terça-feira, 24/4/2007
Trevisan além da humanidade pervertida e violenta
Marcelo Spalding

+ de 10100 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Cenas de uma humanidade perversa e pervertida, violenta e tarada. Assim resumi, certa vez, a obra Ah, é?, de Dalton Trevisan, e assim poderia se resumir, grosso modo, toda a contística trevisânica, cuja literatura já foi apontada como paradigma de "literatura marginal". Mas não se faz literatura só de temática, e o que encanta e sempre encantou em Trevisan foi a forma de narrar essa humanidade abominável, estes monstros morais, forma enxuta, concisa, límpida, direta. Precisa.

Em Macho Não Ganha Flor (Record, 2006, 128 págs.) voltam os acertos e exageros do já tido como mestre Trevisan, que aos 81 esforça-se (esforça-se?) para não se repetir e acrescentar novos contos a uma futura compilação de seus melhores. Talvez não precisasse - o autor de "Uma vela para Dario" e "A sopa" já consta nos livros de História da Literatura Brasileira, nas prateleiras de todas as livrarias e nas leituras de todo contista contemporâneo que ainda acha importante ler (e não só escrever) -, mas o fato é que segue adiante, e no mais recente livro acrescenta aos 22 contos uma orelha escrita sobre si mesmo, mas em terceira pessoa.

Tido como o texto mais interessante e original do livro, a orelha assusta o leitor desavisado por desmerecer o próprio autor, e evidentemente não diz em lugar nenhum que foi o próprio Trevisan quem a escreveu. Assim, nos surpreendemos com frases como "Perdido entre a tautologia e a platitude, se pendura sobre o oco do próprio coração" e "Não nos convence. Ao contrário, o autor perdeu a batalha, nem sequer travada. Acabou a carreira".

Nos contos desfilam o que a orelha chama de "uma nova galeria de monstros morais: fornicários, sodomitas, pedófilos, sadistas, maníacos". Narrativas curtas e precisas, mas pesadas como chumbo, um chumbo que se amarra nas pernas do leitor e o leva água abaixo, não o permitindo ver saída num mundo de perversão onde a tônica é a violência e o gozo, um mundo marcadamente masculino de prazer e sadismo, de pontas de facas obrigando virgens a transar com velhos imundos.

Muito já se acusou Trevisan, em resenhas e comentários menos pretensiosos, de estar simplesmente se repetindo, exagerando, expondo de forma tão crua as perversões sexuais que já não causam qualquer efeito senão repulsa e afastamento da narrativa. Verdade que há muitos traços de seu primeiro Novelas nada exemplares neste Macho Não Ganha Flor, a repressão da mulher, a violência do homem, a desestrutura das famílias, mas aqui parece que os acertos e os erros se acentuam e o que temos é uma mistura de três livros diferentes, três propostas diferentes que assim jogadas na mesma obra criam um simples borrão do que é a sociedade representada por Trevisan.

A primeira face social que se apresenta é a da tal humanidade perversa e pervertida, violenta e tarada onde os estupradores são os protagonistas e as belas e jovens meninas, as vítimas. Exatamente por ser o mais hediondo dos crimes e o que mais apavora o imaginário social contemporâneo, o autor o trata com proposital e apavorante crueza, nauseando o leitor, assustando a leitora, tirando do mundo qualquer possibilidade de sentido. É deste rol o conto que dá título e abre o volume, "Macho Não Ganha Flor". E também o conto que o fecha, "Você é Virgem?", em que uma menina de 15 anos fica sozinha em uma loja e atende homem que a estupra, mesmo sendo virgem. Este, aliás, é um dos raros contos em terceira pessoa (forma narrativa preferida de Trevisan nos primeiros livros).

Uma segunda face social e mesmo estética é a da humanidade erótica, não necessariamente perversa, talvez apenas tarada, mas fundamentalmente excitada, desesperada pelo gozo carnal e subversivo. Desta linha são os belos (e excitantes) contos "O Vestido Vermelho" e "Prova de Redação". Aqui a violência sexual do estupro dá lugar ao sadismo e masoquismo das relações selvagens, a fêmea clama por prazer, incita o parceiro a comê-la de todas as formas, a devolver o gozo perdido:

"Nunca mais, seu puto, me fará gozar? Ordene, que eu obedeço. Ficar de pé no armário, portas e pernas abertas? Ou rendida me ajeitar de quatro? Me ofereço sem reserva às tuas massagens erógenas do eunuco na odalisca preferida do Sultão - e você, indiferente, nem pisca? Quero sentir os teus beijos pelo corpo me ungindo com o mais afrodisíaco dos óleos. Quero mordida doída na bundinha em flor. Do macho a gente espera fatal! o beijinho molhado e o tabefe ardido de mão aberta."

Se lidos no contexto do volume, estes contos menos excitam do que assustam, pois somam-se aos contos de estupro e violência extremas, mas quando um dia se coletarem apenas os contos eróticos de Trevisan, contos de um erotismo sem culpa, de certo estes de Macho Não Ganha Flor figurarão nas primeiras páginas e serão dos mais apreciados.

Um terceiro viés, digamos assim, é o da representação de uma humanidade marginalizada. São pobres coitados, assassinos por ocasião de uma briga na favela, prostitutas exploradas, mães humilhadas por roubar ovo de Páscoa para os filhos. Contos que mais parecem depoimentos, todos em primeira pessoa, e que lembram muito o premiado volume Contos Negreiros, de Marcelino Freire. Expostos assim, em meio aos contos de violência física e sexual, parecem justificar aquela selvageria do mundo, parecem mesmo julgar e condenar a marginalidade por todos os crimes, mas se pinçarmos estes contos um a um veremos uma face de Trevisan que não é das mais exploradas, a de um crítico social disposto a denunciar desigualdades, injustiças, desmandos.

Em "Três Ovos de Páscoa" uma mulher explica para algum "doutor" que roubou três ovinhos de Páscoa porque os filhos pequenos pediram, e conta como foi presa e humilhada pelos guardas, que a levaram para a delegacia e ainda disseram: "Ah, sua cadela, cê vai chegá lá. E vai ficá pelada pra apanhar. Cê vai vê o delega que tá lá hoje!". Na hora temos a impressão que o conto virará o fio e narrará os abusos do delegado com a mulher. Mas não, aqui o efeito pretendido é outro, não o do pavor, mas o da revolta, não o do fracasso da humanidade, mas o do fracasso das relações sociais.

O saldo, enfim, parece positivo. Sabidamente um grande contista não se faz de grandes obras, e sim de grandes contos. Desta forma, foi ótimo que Trevisan não tenha parado e nos brinde neste Macho Não Ganha Flor com pelo menos uma dúzia de belas histórias. Histórias sobretudo humanas que já vão além da perversão, além da violência física, começam a ver além dos monstros, aquém dos mestres.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 24/4/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Reflexões de um desempregado de Elisa Andrade Buzzo
02. Rock'n'roll school com Dee Dee e os Ramones de Adriana Baggio


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2007
01. O dinossauro de Augusto Monterroso - 10/4/2007
02. Sexo, drogas e rock’n’roll - 27/3/2007
03. Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum - 31/7/2007
04. Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas - 30/1/2007
05. Pequena poética do miniconto - 20/2/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
24/4/2007
20h01min
Mais uma vez você fez uma análise precisa de um livro e de um autor como Dalton Trevisan. Se por um lado ele parece querer nos chocar com os estupros e abusos sexuais, por outro, ele nos premia com o encanto de seus textos. Esse autor é fantástico. Sua obra densa, forte, instigante. Acho que o título é bem sugestivo, embora algumas feministas devam estar se contorcendo pela ira, pelo machismo subjacente presente na obra. Você fez referência à obra de Dalton Trevisan como paradigma da literatura marginal e cita-o também como mestre, que deve estar em todas as prateleiras. Mas ainda acho que não é devidamente reconhecido, que continua um pouco marginalizado. Parabéns pelo seu texto. Precioso e preciso. Abraço. Adriana
[Leia outros Comentários de Adriana]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Procura- Se Hugo / 8ª Ed
Diléa Frate
Ediouro
(2002)



II Simposio Estadual do Café
Cetcaf
Cetcaf
(1996)



Cenas Brasileiras
Rachel de Queiroz
ática
(2002)



Alice no País das Maravilhas
Lewis Carroll; Adaptado por Débora J. Durães
Abril
(2011)



Não Faça Tempestade Em Copo DÁgua no Trabalho
Richard Carlson
Rocco
(1999)



Meditação dos Guias Interiores
Edwin C. Steinbrecher
siciliano
(1990)



Os Mestres Secretos do Tempo
Jacques Bergier
hemus
(1974)



Guia Prático para a Ascensão
Tony Stubbs
pensamento
(2004)



Antologia Poética
Manuel Bandeira
Global
(2013)



Inocência
Visconde Te Taunay
Escala
(1992)





busca | avançada
58257 visitas/dia
1,6 milhão/mês