A semente da impunidade | Diogo Salles | Digestivo Cultural

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COLUNAS

Terça-feira, 10/6/2008
A semente da impunidade
Diogo Salles

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+ 1 Comentário(s)

Se existe uma questão tratada como prioritária pela sociedade, mas que é sempre negligenciada nas urnas, esta questão é a impunidade. Se a corrupção não é exclusividade nossa, a impunidade que a sucede nos permite autografá-la como "brasileira" e distingui-la das rapinagens que acontecem além da fronteira. É reproduzindo a tinta dessa peculiar caligrafia que Daniel Rodrigues Aurélio, ex-colunista do Digestivo, lança A trágica impunidade política no Brasil (Brasport, 2008, 132 págs.).

Formado em Sociologia e Política e pós-graduado em Globalização, é seu segundo livro na área de Ciências Sociais. Segundo ele próprio define, o livro aborda a corrupção e os vícios da política à brasileira, enfocando a dificuldade de distinção entre "público" e "privado", patrimonialismo, clientelismo e outras mazelas. O estilo do texto é ágil, solto, quase descompromissado, e Daniel vai desmontando nossos clichês mais viciosos com sucessivas metáforas.

Ao visitar os intestinos de nosso sistema político, o autor reconduz o leitor a lembranças pouco agradáveis, mas necessárias. O impeachment de Collor, o escândalo dos anões do orçamento e as piruetas fisiológicas e reeleitoreiras de FHC já seriam matéria suficiente para retratar os escaninhos jurídicos de nossa política. Mas naquela época ainda existia o PT, a alternativa ética. Em 2002 o Brasil resolveu "pagar pra ver"... E aqui estamos. Assim, o escândalo Waldomiro Diniz é o pontapé inicial para a ruína ética do PT e, posteriormente, a banalização da corrupção, com o mensalão.

Com citações a Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr., o livro traz interpretações históricas e sociológicas que nos levam de volta à Colônia, ao Império e à República Velha. A Constituição Federal de 1988 também serve de suporte para entendermos como as leis são constantemente subvertidas em favor de conveniências e leniências. Encontramos também pequenos quadros explicativos em forma de infográficos, contendo as listas negras de nomes e fatos que tanto nos envergonham. Tudo isso traz um tom professoral ao livro, mas de uma maneira menos esquemática que o usual no meio acadêmico. Dessa forma, os delitos de hoje são explicados pelo ontem, onde houve uma acomodação em relação à corrupção, que se tornou cotidiana. "A persistência da impunidade, a 'trágica normalidade', são assegurados por uma certa costura política do Estado com elites patrimonialistas", ratifica o autor.

Fruto de nossa trajetória de formação sociopolítica, a impunidade incrustou-se na política nacional através de dispositivos que impedem qualquer tentativa de moralidade. A cultura da malandragem, a "Lei de Gérson" e nossa carapaça de povo "alegre, matreiro e cordial" explicam tanta elasticidade ética. A imunidade parlamentar e o foro privilegiado provam essa permissividade e explicam como não houve ruptura, mas, sim, uma adaptação até que se chegasse ao modelo atual, de barganha e cooptação.

Somado a isso, temos as novas tecnologias que permitiram à sociedade uma maior participação no debate político através de blogs, e-mails, vídeos e fóruns em sites de relacionamento. O anfiteatro do mensalão transmitiu seus horrores ao vivo, via internet, e proporcionou essa nova gama de debates em rede. Porém, não evitou que velhos maniqueísmos e ranços ideológicos ressurgissem, devolvendo a questão primordial ― a impunidade ― ao obscurantismo. Bom para os políticos e partidos, que perceberam a aridez de novas idéias e passaram a usar a Web para atrair novas militâncias, empobrecendo debates e emburrecendo leitores. E eleitores, bem entendido.

É visando recuperar neurônios para este debate que Daniel se pautou. O tragicômico enredo possui furos, óbvio, e fica impossível seguir uma linha contínua. Dadas as inúmeras e tortuosas vertentes de nossa política, só é possível encontrar o ponto culminante quando os corruptos contam o dinheiro na lavanderia ao mesmo tempo em que a pizza esquenta no forno.

É visível que o autor mistura acidez e sublevação à linguagem. E esse dedo em riste poderia arruinar suas pretensões iniciais e transformar o livro numa passeata literária. Mas ele reverte a caminhada a seu favor, pois seu texto possui uma qualidade cada vez mais escassa nos dias de hoje: o apartidarismo. Num mundo onde as ideologias se pulverizaram, é "moderno" se dizer apartidário, mas poucos o são, de fato. A verdade é que, ainda hoje, sobra pouca gente que passa pelo velho mata-burro da Guerra Fria, mostrando como nosso debate político ainda não chegou ao século XXI. Não se consegue esconder visões enviesadas, tanto à esquerda, quanto à direita, onde sempre haverá dois pesos e duas medidas para tudo.

Sem cair na guerra ideológica de petistas e tucanos, Daniel escapou das bravatas e politicagens rasteiras do "quem faz mais" e do "quem rouba menos", em voga na nossa blogosfera política. Ao contrário, ele mostra como dois partidos de origens tão parecidas disputam fatias de poder, trocam acusações e se entopem em prevaricações, tudo em detrimento do país. Assim o Brasil caminha numa socialdemocracia torpe, enquanto a sociedade vacila entre a subserviência e o golpismo.

Escândalos estão servidos à fartura no buffet da corrupção. O caso Renan Calheiros, que paralisou o congresso em 2007, ganha destaque, assim como a máfia dos sanguessugas. O valerioduto também recebe menção "honrosa", desde sua origem com o PSDB em Minas Gerais até chegar ao PT, e tomar proporções nacionais (até rimou).

O único "escorregão", se assim podemos definir, é ter sido algo complacente com uma certa Ângela Guadagnin (aquela). Porém, esta é apenas uma passagem do livro, não alterando o produto final. A deputada é mera coadjuvante entre tantos canastrões premiados com o Oscar de maquiagem. E todos os royalties da patusca bailarina não deixaram de ser devidamente creditados.

O último tema debatido é a farra dos cartões corporativos. Um tema que poderia até ter sido evitado, já que o livro foi escrito antes que o cadáver estivesse devidamente exposto. Mas, como estamos no Brasil, dossiês podem ser rebatizados de "banco de dados" e muitas verdades nunca verão a luz do dia. E quem quiser saber como acabou o escambo de dossiês e tapiocas, não precisa ir muito longe. Basta dar uma rápida olhada na capa do livro. Ali, no formo à lenha das pizzas em série, jaz mais uma CPI...

Ao final da obra, encontramos uma espécie de sumário político-policialesco, com lições (ou mandamentos) sobre crises, um curioso minidicionário contendo os principais jargões de nosso cotidiano tragicômico, seguido de uma bibliografia básica que pode ajudar a entender tanta agonia. Para fechar, uma breve lista de blogs e sites sobre política que cobrem o ciberespaço de forma bastante plural, enfocando todos os ângulos (nunca pensei que Diogo Mainardi e Mino Carta pudessem dividir o mesmo espaço, mas aí está).

Mesmo não conseguindo explicar o porquê das não-punições (há explicação?) nem fechar todas as lacunas, o livro é muito bem recomendado aos mais indignados com o nosso modus operandi político. Não, não me refiro àqueles que ficam "revoltados" ao ver o Jornal Nacional enquanto esperam pela novela, mas, sim, a quem realmente se importa com aquilo em que nos transformamos... A estes, o livro pode servir como um manual básico para quem não sabe por onde (e nem como) começar a reivindicar justiça no deserto da ética.

Se, ao final da leitura, você desconfiar da máxima que diz "se criticar o PT, é porque é tucano; e, se criticar o PSDB, é porque é petista", diga adeus às polarizações anacrônicas e seja bem-vindo a um novo patamar do debate político.

Por ora, ainda é doloroso reconhecer, mas só mesmo num país como o nosso é que A trágica impunidade política no Brasil consegue ser classificado como livro de "não-ficção"...

Para ir além
Conheça o blog do autor.






Diogo Salles
São Paulo, 10/6/2008


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10/6/2008
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