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Segunda-feira, 12/7/2010
A sociedade em rede
Gian Danton

+ de 5000 Acessos


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

O desenvolvimento das mídias interativas modificou completamente a forma como as pessoas trabalham, compram e se divertem. Essa nova realidade foi batizada de "sociedade em rede" por Manuel Castells, em livro homônimo (Paz e Terra, 2007, 698 págs.).

Castells diz que trata-se de um conceito diretamente relacionado à globalização e à sociedade da informação, tendo como características a segmentação dos usuários por interesses, a convergência de mídias e padrões cognitivos, o fim das separações, a cultura da virtualidade real e a estratificação dos usuários.

Durante milênios, o tecido social era construído através da proximidade física. Os amigos eram parentes e vizinhos. A identidade das pessoas também era construída geograficamente: a nacionalidade, o local de nascimento. Era uma identidade imposta, já que ninguém escolhe onde vai nascer. A era da informação permitiu e estimulou a união de pessoas por interesses em comum, independentemente de estarem próximas. Os sites de relacionamento, como Orkut e Twitter, são exemplos dessa nova realidade: pessoas que nunca se viram podem se tornar amigos e compartilhar sua intimidade.

Num mundo cada vez mais dominado pelos computadores, os amigos virtuais se tornaram tão importantes quanto os amigos presenciais. E o status das páginas sociais dos jornais foi substituído pela busca de mais e mais amigos nas redes de relacionamento, a ponto de surgir um paradoxo, como o de indivíduos que usam todos os mecanismos para conseguir seguidores no Twitter, mas não têm nada a dizer.

Se as novas tecnologias permitem uma ampliação das relações, por outro lado, ela privilegia laços fracos, um equivalente cibernético daquilo que Desmond Morris, no livro O macaco nu, chamava de catar piolho: um comportamento social caracterizado pelo não aprofundamento das relações. A mesma facilidade para criar amizades existe para terminá-las. Basta um clique em "bloquear" e os melhores amigos do último ano se tornam meros desconhecidos.

O fim das separações e a convergência de mídias podem ser vistos como características semelhantes: na sociedade em rede, a diferença entre as coisas tende a se diluir. A casa, por exemplo, sempre foi vista como local de descanso. A rua era o local de diversão, a praça o local de encontro com os amigos, a empresa o local de trabalho, a mercearia o local de compras. Hoje essas separações se desvaneceram. Com cada vez mais pessoas trabalhando em casa, ela se tornou local de diversão, compras (vide o aumento das vendas pela internet) e até de encontro, que nem sempre acontece com os moradores da casa. Numa sociedade em que os relacionamentos são cada vez mais virtuais, até mesmo uma pessoa que mora sozinha pode encontrar seus amigos apenas abrindo o computador e entrando na internet.

Esse processo de dissipação das separações entre as coisas vai se estender até à questão cognitiva. Para as novas gerações, não existe mais distinção entre a educação e diversão, informação e humor. Dois programas atuais mostram bem essa situação: O CQC (Band) e Furo MTV. A ideia antiga, de que um jornalista deveria ser sério para fazer denúncias cai por terra com a popularidade de Rafinha Bastos, apresentando o quadro "Proteste Já" vestido de árvore ou presidiário. No Furo MTV, Dani Calabresa e Bento Ribeiro apresentam as principais notícias do dia ao mesmo tempo em que fazem comentários sarcásticos e infernizam a vida um do outro. O programa, que seria uma aberração na década de 1950, tem alcançado cada vez mais público, especialmente entre os jovens.

Da mesma forma que não distingue o divertido do sério, a nova geração usa as novas mídias de maneira cada vez mais integrada. Está se tornando cada vez mais comum ver jovens assistindo televisão com o notebook no colo, comentando os programas no Twitter ou pesquisando informações no Google. Muitos já nem usam a TV: assistem a tudo no computador, seja no YouTube, seja baixando seus programas prediletos em sites especializados. A indústria, claro, tem se esforçado para aproveitar essa convergência de mídias. Já existem notebooks que pegam TV, celulares nos quais é possível jogar, mandar e-mails, entrar no Twitter, ler e-books... O lançamento do iPad da Apple, se insere exatamente nesse contexto, assim como o Google TV, um mecanismo de busca para ser usado na TV digital.

Outra característica importante da sociedade em rede é a cultura da virtualidade real. As novas gerações, acostumadas ao mundo cibernético, já não fazem diferença entre a realidade presencial e sua representação simbólica. Castells cita um exemplo anterior até à popularização da internet. Em 1992 a protagonista do seriado Murphy Brown resolveu ter um filho, mesmo sendo solteira. O conservador vice-presidente Dan Quayle achou que isso era uma má influência para as mulheres norte-americanas e fez questão de criticar publicamente a série. Os roteiristas não perderam tempo e colocaram, no episódio seguinte, Murphy Brown, personagem que dá nome à série, assistindo pela TV à entrevista do vice-presidente e criticando-o por estar se intrometendo na liberdade das mulheres. Isso gerou uma antipatia tão grande aos republicanos que foi um dos fatores pelos quais o presidente Bush (pai) não conseguiu se reeleger. Castells comenta que, no episódio, Quayle se transformou em um personagem de Brown. Da mesma forma, temos visto a quantidade de celebridades que fazem questão de aparecer nos Simpsons. É como se elas se tornassem reais ao aparecer no desenho.

Nessa sociedade em rede, até mesmo os protestos virtuais têm o mesmo valor dos presenciais. No texto "A nova queda da Bastilha" eu comento a hashtag #forasarney e como ela se tornou mais importante que os protestos geográficos contra o presidente do Senado.

Finalmente, a última característica da sociedade de rede é a estratificação dos usuários entre receptores e interagentes. Os receptores usam as novas mídias de forma passiva e massificada. Entram sempre nas mesmas páginas e não são capazes de usar a internet para descobrir novas versões sobre os fatos. Já os interagentes são críticos e usam bem as possibilidades dos novos meios, inclusive em termos políticos. Infelizmente, existem mais receptores do que interagentes.

A sociedade em rede, de Manuel Castells, é um livro básico para todos os que pretendem entender melhor o mundo em que estamos e o mundo que virá a partir do desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação.

Para ir além






Gian Danton
Goiânia, 12/7/2010


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