Maria Erótica e o clamor do sexo | Gian Danton | Digestivo Cultural

busca | avançada
73422 visitas/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Minute Media anuncia lançamento da plataforma The Players’ Tribune no Brasil
>>> Leonardo Brant ministra curso gratuito de documentários
>>> ESG como parâmetro do investimento responsável será debatido em evento da Amec em parceria com a CFA
>>> Jornalista e escritor Pedro Doria participa do Dilemas Éticos da CIP
>>> Em espetáculo de Fernando Lyra Jr. cadeira de rodas não é limite para a imaginação na hora do recrei
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
>>> PoloAC retoma temporada de Os Doidivanas
>>> Em um tempo, sem tempo
>>> Eu, tu e eles
>>> Mãos que colhem
>>> Cia. ODU conclui apresentações de Geração#
>>> Geração#: reapresentação será neste sábado, 24
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
Blogueiros
Mais Recentes
>>> 2009: intolerância e arte
>>> A Marafa Carioca, de Marques Rebelo
>>> Maiores audiências da internet
>>> Amando quem não existe
>>> 18 de Outubro #digestivo10anos
>>> A alma boa de Setsuan e a bondade
>>> Geração abandonada
>>> O dia em que a Terra parou
>>> A Geração Paissandu
>>> Srta Peregrine e suas crianças peculiares
Mais Recentes
>>> Boneco de Pano de Daniel Cole pela Arqueiro (2017)
>>> Hereges de Leonardo Padura Fuentes pela Boitempo (2015)
>>> Nix de Nathan Hill pela Intrinseca (2018)
>>> Os Anagramas de Varsóvia de Richard Zimler pela Record (2010)
>>> Os Anagramas de Varsóvia de Richard Zimler pela Record (2010)
>>> Código da Vida de Saulo Ramos pela Planeta (2007)
>>> Caras Animalescas de Renato Moriconi; Ilan Brenman pela Cia das Letrinhas (2013)
>>> Jujubalândia de Mariana Caltabiano pela Brinque Book (1997)
>>> O Pequeno Dragão - 2ª Nova Ortografia de Pedro Bandeira; Carlos Edgard Herrero pela Moderna (2009)
>>> O Coiso Estranho de Blandina Franco pela Companhia das Letras (2014)
>>> Rupi! o Menino das Cavernas de Timothy Bush; Gilda de Aquino pela Brinque-book (1997)
>>> Casa-grande Senzala - Dois Volumes de Gilberto Freyre pela Jose Olympio (1950)
>>> Condessa de Barral: a Paixão do Imprerador de Mary del Priore pela Objetiva (2008)
>>> Isso Me Traz Alegria de Marie Kondo pela Sextante (2016)
>>> As Aventuras de Benjamim: o Muiraquitã de Camila Franco; Marcela Catunda; e Outros pela Companhia das Letrinhas (2004)
>>> Vitrines e Coleções de Christine Ferreira Azzi pela Memória Visual (2010)
>>> El Nacimiento de Europa de Robert S. López pela Editorial Labor (1963)
>>> O Que é Isso, Companheiro? de Fernando Gabeira pela Companhia das Letras (1997)
>>> Mística e Espiritualidade de Leonardo Boff; Frei Betto pela Vozes (2010)
>>> As Aventuras de Pinóquio de Carlo Collodi pela Companhia das Letrinhas (2002)
>>> Livro das Perguntas de Ferreira Gullar; Pablo Neruda; Isidro Ferrer pela Cosac & Naify (2008)
>>> Entrevista Com o Vampiro de Anne Rice pela Rocco (1991)
>>> Pais Brilhantes - Professores Fascinantes de Augusto Cury pela Sextante (2003)
>>> Ciranda de Pedra de Lygia Fagundes Telles pela Rocco (1998)
>>> Uma Janela Em Copacabana de Luiz Alfredo Garcia-Roza pela Companhia das Letras (2001)
COLUNAS

Segunda-feira, 25/10/2010
Maria Erótica e o clamor do sexo
Gian Danton

+ de 8400 Acessos
+ 3 Comentário(s)

No ano de 2003, o jornalista baiano Gonçalo Júnior chamou a atenção com um livro essencial para qualquer um que queira entender o mercado editorial brasileiro. A Guerra dos Gibis mostrava como alguns dos principais impérios editoriais haviam sido erguidos a partir das vendas astronômicas dos gibis, em especial nos anos 1940 e 1950. Focado na vida de Adolfo Aizen, o livro contava também a perseguição aos gibis, feita por padres, professores e políticos. Mas, como a narrativa terminava na década de 1960, faltava uma segunda parte. É exatamente a segunda parte dessa epopéia que a editora Peixe Grande está lançando agora, com o livro Maria Erótica e o clamor do sexo (Peixe Grande, 2010, 496 págs).

Se o primeiro livro tinha como personagem principal o editor Adolfo Aizen (dono da Ebal), este segundo é focado em dois outros personagens: Minami Keizi e Cláudio Seto. Ambos viveram a fase mais difícil dos quadrinhos nacionais, quando a perseguição aos gibis nacionais era institucionalizada e fazia parte do programa da ditadura militar. E ambos revolucionaram a linguagem dos quadrinhos ao introduzir os mangás em nosso país.

Minami chegou a São Paulo com pouquíssimo dinheiro no bolso, foi rejeitado pela maioria dos editores da época (que estranharam seu traço com fortíssima influência oriental), mas acabou criando uma das melhores editoras de quadrinhos da década de 1970, a Edrel.

Vindo da mesma cidade que Minami, Lins, no interior paulista, Cláudio Seto foi um dos principais e mais revolucionários artistas da Edrel e, posteriormente, comandou o setor de quadrinhos da Grafipar, a maior trincheira dos quadrinhos nacionais no final da década de 1970 e início da década de 1980. Maria Erótica e o clamor do sexo acompanha ora um, ora outro, oscilando entre as histórias desse personagens tão interessantes quanto as histórias que criaram.

A forma como Minami consegue sair da miséria para se tornar dono de uma editora é digna de nota. Após ter seu trabalho rejeitado, ele investiu seu pouco dinheiro num sistema de venda de livros por reembolso postal (os anúncios do serviço eram conseguidos em publicações em troca de tiras de quadrinhos produzidas por ele) que deu tão certo a ponto de Sebastião Bentivegna, dono da editora Pan-Juvenil, convidá-lo para ser supervisor editorial. Com o tempo, afundado em dívidas com agiotas, Sebastião chamou Minami e o dono da gráfica que fazia fotolitos para a editora, e ofereceu a Pan-Juvenil, de graça, desde que eles assumissem as dívidas.

Minami investiu em quadrinhos ousados tanto pelo erotismo quanto pelas inovações estéticas, que aproximavam os gibis dos mangás e teve tanto sucesso que a editora, agora chamada Edrel, não só conseguiu quitar seus débitos, como ainda cresceu e chegou a ameaçar as grandes.

Foi nesse momento que começou a calvário de Minami com a ditadura. Felizmente, o editor guardou todo o histórico de correspondências com a censura, o que permitiu a Gonçalo Júnior fazer um raio-x da repressão ditatorial, nos brindando com alguns dos momentos mais interessantes do livro.

O argumento da ditadura é que, por trás da liberdade sexual, que se mostrava através das publicações da Edrel, escondia-se o comunismo internacional, que pretendia desestabilizar a família brasileira. Curiosamente, o mesmo fenômeno era também combatido na União Soviética como um vício capitalista.

Gonçalo amplia a investigação sobre a censura na época, abarcando de revistas como Garotas de Piadas da Edrel aos gibis do Pato Donald e Luluzinha, além de revistas de reportagens, como a Realidade.

Mas a perseguição ao Pato Donald nem se comparava à repressão ao erotismo. Sem querer perder o negócio, Minami procurava se informar sobre como continuar publicando sem ter suas revistas apreendidas. Logo descobriu que não havia parâmetros. Tudo dependia muito da cabeça do censor.

O risco maior não era só a apreensão de revistas: as sedes das editoras poderiam ser invadidas a qualquer momento, e seus funcionários poderiam ser presos.

O esquema da censura era cruel especialmente para os pequenos editores, com poucas ligações com o poder. Na fase mais cruel da ditadura, as bonecas das revistas tinham de enviadas para Brasília, onde muitas vezes demoravam meses para serem analisadas. Se houvesse algum corte ou pedido de mudança, uma nova boneca deveria ser feita e enviada para Brasília para uma análise igualmente demorada.

Se a revista focasse em assuntos do momento, esse esquema era morte certa. No final, a repressão levou ao fechamento tanto da Edrel quanto da editora seguinte de Minami, a M&C.

Para fugir da repressão, Cláudio Seto, escondeu-se no único lugar onde não se esperava encontrar um subversivo: no partido do regime, o Arena, pelo qual foi eleito vereador em Lins. Quando se casou, resolveu pegar a estrada e fazer uma viagem pelo sul do país. Ao chegar em Curitiba, encontrou a cidade envolta pela neve e, encantado, resolveu morar lá.

Sua ida para Curitiba parece ter sido arquitetada pelo destino, pois na mesma época um editor local pretendia entrar no mercado erótico, aproveitando a abertura da censura e o interesse da população pelo tema. Era o início da Grafipar. Deu tão certo que virou uma verdadeira trincheira do quadrinho nacional, a ponto de alguns dos mais importantes artistas da época se mudarem para a capital do Paraná.

Mas erros editoriais, perseguição política e a crise econômica selaram o fim da editora, o que não a impediu de deixar uma marca poderosa nos quadrinhos brasileiros.

Maria Erótica e o clamor do sexo se torna ainda mais importante pelo fato de tanto Minami quanto Seto terem morrido recentemente, quase no esquecimento, em especial Minami. Numa época em que os mangás dominam as bancas, poucos se lembram desses grandes artistas e editores que introduziram a linguagem oriental nos quadrinhos nacionais.

Nas palavras de Toninho Mendes, que escreve a orelha da publicação: "Gonçalo Júnior faz ressurgir do limbo um segmento da imprensa nacional quase desconhecido: o dos pequenos editores de revistas e livros de sexo que desafiaram a polícia e os censores com formas criativas de enganar a repressão e fazer o brasileiro participar mais ativamente - em vários sentidos - da revolução sexual, que a ditadura tanto se empenhou por não deixar entrar no país".

Para ir além






Gian Danton
Goiânia, 25/10/2010


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Wagner, Tristão e Isolda, Nietzsche de Jardel Dias Cavalcanti
02. Sombras Persas (VII) de Arcano9


Mais Gian Danton
Mais Acessadas de Gian Danton em 2010
01. Os dilemas da globalização - 8/11/2010
02. Glauco: culpado ou inocente? - 29/3/2010
03. 2009: intolerância e arte - 4/1/2010
04. Maria Erótica e o clamor do sexo - 25/10/2010
05. As fronteiras da ficção científica - 3/5/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
26/10/2010
10h43min
Não dá para deixar de fora a obra do Carlos Zéfiro começada antes da ditadura, cujo tempo atavessou incólume, terminando apenas com a morte seu criador. Sempre "underground", os "catecismos", como eram conhecidas as revistinhas, circulavam de mão em mão, escondidas dentro de publicações comuns. A produção e distribuição das histórias do Carlos Zéfiro nunca foram interrompidas. Vendidas "secretamente" dentro de discretos envelopes opacos, em bancas de jornais, os quase folhetos, um tanto rudimentares, nunca encalharam. Carlos Zéfiro até que merecia um livro sobre seu pioneirismo, audácia, coragem, e criatividade do seu extenso trabalho.
[Leia outros Comentários de Raul Almeida]
4/11/2010
19h42min
Oi, Raul. Existem, pelo que sei, dois livros sobre o Zéfiro. Um é do Ota, ex-editor da MAD. O outro é de vários autores, inclusive com um artigo do antropólogo Roberto DaMatta. Infelizmente, os dois são raros.
[Leia outros Comentários de Gian Danton ]
5/11/2010
09h28min
Os livros de Gonçalo dão merecidos contornos épicos e heroicos a certas figuras da área editorial que já partiram, como Minami e Claudio Seto, e a outras que continuam entre nós, como Shimamoto, Alvaro de Moya e Franco de Rosa. Parabéns, Gian, pelo artigo.
[Leia outros Comentários de rene ferri]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Vacinas Orientações Práticas
Lourdes Bernadete
Martinari
(2011)



Case, Amori, Universi
Fosco Maraini
Oscar Mondadori
(1999)



Maturidade Revista
Rosana Hermann
Gente
(2003)



Nosso Lar. Bastidores do Filme
Wagner de Assis
Feb
(2010)



Contabilidade Introdutória + Livro de exercícios
Equipe de Professores da FEA da USP
Atlas
(1985)



Sabrina: Cúmplices e Amantes
Bervely Brandt
Nova Cultural



Sexo e Negócios
Shere Hite
Bertrand Brasil
(2011)



O Cinema Documentário e Suas Linhas de Fuga
Eco Ufrj Publicação da Pós Graduação (nº5)
Ufrj
(1997)



Rurouni Kenshin - Crônicas da era Meiji - Volume 22
Nobuhiro Watsuki
Jbc
(2015)



O Pequeno Filósofo
Gabriel Chalita; Thais Linhares
Globo Antigo
(2011)





busca | avançada
73422 visitas/dia
2,5 milhões/mês