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Segunda-feira, 25/4/2011
Cisne Negro: por uma inversão na ditadura do gozar
Lucas Carvalho Peto

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Ah, renunciai às virtudes, Eugénie! Haverá algum sacrifício feito a essas falsas divindades que valha um só minuto dos prazeres que sentimos ultrajando-as? SADE, Marquês de.

Slavoj Zizek, filósofo esloveno, afirma que estamos sob a ditadura do gozar. O que antes era interdito se tranformou em uma espécie de imperativo categórico. O problema é que a ideologia do gozar furta ao processo de ascender ao gozo seu príncipio fundamental: transgredir. O libertar-se das imposições castradoras para, a partir disso, poder gozar, não é mais uma barreira. Para Zizek, o problema é libertar-se da falta de plus-de-jouir.

O gozar livremente enquanto ideologia dominante; o gozo como objetivo padronizado, deixa de lado o excesso. Isso porque o próprio gozar passa a ser a norma. Consequentemente, o gozo, isento de poder revolucionário, domado e regulado pela normatividade, com o seu pendor invertido, sem o seu negar submeter-se às leis, o gozo como expressão da destruição da autoridade, deixa de existir. O abjeto se trasformou em sublime. A interdição agora é outra. Não é uma interdição ao gozar, mas aos excessos perigosos: gozar de forma institucionalizada. A ditadura do gozar transforma o gozar em um não-gozar.

Quanto maior a beleza, maior a ignomínia. BATAILLE, Georges.

Nina Sayers, personagem vivida por Natalie Portman no filme Black Swan dirigido por Darren Aronofsky, pode ser considerada um protótipo dessa imposição do gozar livremente. Ela deve gozar em sua carreira, realizar-se enquanto bailarina, buscar seus objetivos a todo custo, mas todo o resto lhe é proibido. Dedicada à dança e, concomitantemente, à beleza, Nina é um retrato da Justine sadiana. Aquela que esta condenada à vida virtuosa, direcionada a um gozar no sublime. Ela, nos moldes dos flagelantes do medievalismo, doutrina-se para alcançar um gozo na transcendência. Se lá, nos místicos, o corpo era torturado em prol de uma vida ascética que valeria um gozar eterno no reino dos céus. Aqui, em Nina, o corpo mutilado pela beleza, pelas imposições dos padrões da arte, lhe vale um gozo que transcende a escravização da matéria: o eternamente belo. A normatividade jaz aqui. Mulher e bailarina, Nina tem o dever do gozar, mas na beleza, no correto, nos padrões e em sua busca pela perfeição. Não no excesso, em nenhum excesso. Qualquer mais-gozar lhe é proibido. O conjunto panóptico esta montado para mantê-la nesse gozo disciplinado. Sua mãe é a torre central do complexo vigilante. A privacidade lhe é negada, arrancada à força. Em sua arte, os olhares que reprovam um quilo a mais, um passo em falso, ou qualquer erro. O gozo que lhe é imposto, na arte, é classicista. Esta na forma, é um gozar haydiano. Por isso sua obssessão pela perfeição nos movimentos. Se é verdade que o homem, sem vigilância, esta entregue aos excedentes das paixões naturais; Nina não usufrui desse direito. Aqui, segundo Nietzsche, a linguagem normativa penetrou e retirou das paixões seu caractere primaz: a violência natural.

Imaginemos uma sociedade sem linguagem. Eis que um homem nela copula com uma mulher, a tergo, misturando à sua ação um pouco de pasta de trigo. Nesse nível, não hã nenhuma perversão. BARTHES, Roland.

Na contramão dessa configuração normativa estão Lily e Thomas. Lily é a que goza no excesso. Aquela que despreza, em certo grau, a precisão nas composições de sua arte. Thomas é o retrato do artista romântico: aquele que busca a perfeição no gozo natural. Lily e Thomas são Saint-Ange e Dolmancé, Nina é Eugênie.

Na obra central do Marquês de Sade, A filosofia na Alcova, Eugênie é uma menina que se entrega à educação desses dois libertinos. Eles a iniciam na libertinagem ao mesmo tempo em que lhe doutrinam na filosofia do gozar no excesso. Em um de seus discursos, Dolmancé diz: "Ora, a virtude não passa de uma quimera cujo culto consiste em imolações perpétuas, em inúmeras revoltas contra as inspirações do temperamento".

No filme, Thomas e Lily são os encarregados de libertar as paixões de Nina. Tirá-la do marasmo normativo. São eles que mostram para a inocente e frágil dançarina que nem todo o gozar se resume à forma, na arte, nem à disciplina, na vida. Na arte, eles caracterizam a irrupção sensual do romantismo frente à gélida precisão classicista. O gozar, em Lily e Thomas, é wagneriano. Aqui, segundo Roland Barthes, a linguagem normativa esta ausente. O mais-gozar e a violência se apresentam como circustâncias naturais. No filme, Lily e Thomas incitam o despertar da violência do excesso. Este a convida a masturbar-se, excedendo a vigilância panóptica que a mãe lhe impõe, vigilância que infantiliza e impedi um gozo natural do corpo. Aquela lhe inicia nos prazeres ilícitos, convidando Nina a se entregar a um gozo hedonista.

Em uma das cenas cruciais do filme, Nina, atormentada pela sensação de estar sendo substituida por Lily; o que caracterizaria não uma inversão, mas apenas uma troca do status quo, a esfaqueia. Na verdade, no filme, Nina se esfaqueia.

Essa imagem nos remete a uma entrada de extrema violência que caracteriza o gozo real. Uma entrada visceral. Para se libertar do não gozar, imposto pela ditadura do gozar, Nina mutila o símbolo maior da padronização: seu corpo. Para sentir, para se fundir ao natural, para poder gozar do excesso, ela mortifica a normatividade.

Seu corpo, talhado pelas regras, agora, lhe servirá para sentir; exceder, experimentar o supra-sumo do gozar: a dor, o abjeto, a queda. Irrompendo contra a ditadura, a personagem de Portman, em uma perfomance apaixonada, se entrega ao ignóbil, e inverte a ideologia ao dizer que seu ato de trangressão "foi perfeito".

Muito além de qualquer interpretação psicanalítica que vislumbra uma pintura do embate entre Eu e Isso, Cisne Negro levanta a questão da impossibilidade do gozo na ideologia do gozar. Seja ele qual for. E por que, atualmente, tudo é proibido. Mascarada sob toda a imposição emancipadora e libertária a proibição é, talvez, até mais forte do que era. O sistema se retroalimenta: a impossibilidade de satisfação nos leva a buscar outro meio para gozar que, também regulado, nos guiará a outra insatisfação.

A máquina do não-gozar é lucrativa. Não gozará se for gordo, não gozará se for fraco, não gozará se não tiver sucesso profissional. Goze com o seu café, mas só até o ponto de ser considerado um apreciador: o excesso é prejudicial. Goze modelando seu corpo na academia, goze privando-se de comer gordura, goze de sua carreira, independente de qualquer privação, goze de suas relações, até que elas não lhe sejam mais necessárias. Goze, goze e goze, mas sem gozar. Transgrida dentro da norma. Exceda sem exceder. Viva sem viver.


Lucas Carvalho Peto
Ribeirão Preto, 25/4/2011


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
25/4/2011
19h31min
Gozei, no sentido mais bruto da palavra, ao ler esse texto. No sentido de gozar com excessos e transgressões do pensar. Muito bom, pra começar cita dois nomes que amo: Nieztche e Marques de Sade. Depois vem a delícia do gosto de um texto libertário, daquele tipo que eu gosto. Em seguida vem a releitura mas autêntica, clara e verdadeira de Cisne Negro. Vou dizer o quê? Gozei.
[Leia outros Comentários de Yasmin Salgado]
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