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Segunda-feira, 11/11/2013
Por um corpo doente, porém, livre
Lívia Corbellari

+ de 7100 Acessos

Planos de saúde, remédios, exames constantes, medidas preventivas. Há tempos que os seres humanos querem se livrar a qualquer custo das moléstias do corpo. A escritora alemã Juli Zeh imaginou como seria viver em uma sociedade asséptica e saudável, que erradicou totalmente todas as doenças. O seu livro Corpus Delicti (Record / 2013) é ambientado em um futuro próximo regido pelo Método, um sistema apoiada no racionalismo e na ciência.

Durante a história, explica-se que o Método foi criado logo após as guerras do século XX, em um momento em que conceitos como nação, religião e família se dissolviam, os sistemas de garantias sociais entrava em colapso e o caos e insegurança se instauravam. O Método foi o sistema que solucionou esses problemas.

Entretanto, o que aparenta ser um sistema perfeito que livra o cidadão do sofrimento vai se mostrando pouco a pouco um regime autoritário, que priva o ser humano da sua liberdade. A saúde se torna um princípio de legitimação estatal e o controle total dos corpos os tornou dóceis e cativos.

Na obra, a manutenção da saúde é um direito e um dever do cidadão. O medo da doença e da morte se tornou um terreno fértil para o nascimento de uma ditadura e um estado de vigilância constante. Nessa sociedade um ser humano saudável é visto como norma, só assim ele está apto a alcançar os melhores resultados e a felicidade.

Para manter esse bem-estar comum, a ordem é manter a casa e o corpo sempre asseados, consumir apenas alimentos saudáveis, praticar exercícios físicos diariamente. O Método controla tudo isso, inclusive os esgotos para verificar os dejetos e o uso de sustâncias tóxicas. Há também chips implantados na pele dos indivíduos para facilitar o controle e o reconhecimento de cada um e qualquer cidadão que se expor ao risco de contaminação é punido por colocar em risco o bem-estar comum.

A protagonista do livro é Mia Holl, uma bióloga que recentemente perdeu o irmão. O irmão de Mia Holl, o idealista Moritz, suicida-se depois de ser acusado de assassinar e estuprar uma jovem. Mesmo depois do exame de DNA, que comprovou a suspeita, ele alegou-se inocente. Mia, que sempre acreditou no Método, começa colocar sua crença em dúvida, mas ela só descobre a verdade em seu julgamento.

Apesar do sofrimento, Mia não tem direito de se sentir deprimida e se abster de sua rotina. A bióloga então começa a ser investigada porque seus relatórios de sono, de alimentação, de exercícios e seus exames de pressão e de urina não foram entregues ou estão abaixo do normal. Essa situação é encaminhada a um tribunal e ela é tratada como uma criminosa.

A princípio, isso parece um exagero ficcional, mas a lógica é simples e reconhecida: o estado lhe deve assistência em caso de necessidade, mas é dever do cidadão evitar esse esforço do estado.

Outro personagem instigante é o famoso jornalista Henrich Kramer, que se coloca sem qualquer dúvida em favor do Método. Ele defende que por meio do Método a sociedade finalmente chegou ao seu objetivo. Ao contrário das outras sociedades, o Método não se vale de uma religião, da economia ou de uma ideologia, ele se baseia apenas na razão.

Enquanto o julgamento de Mia se desenvolve, ela lembra cada vez do irmão. A história é interrompida com flashbacks de quando Moritz ainda estava vivo, que provam que ele era uma alma livre e até um pouco ingênuo às vezes, nessas passagens fica difícil acreditar que ele seria capaz de cometer um assassinato.

Outro ponto interessante da escrita de Juli Zeh é a forma como ela desenvolve os relacionamentos. Apesar de Mia e Kramer terem interesses totalmente opostos, os dois acabam ficando extremamente próximos e atraídos pela determinação um do outro.

No romance também aparece um grupo terrorista chamado D.A.D, ou melhor Direito a Doença, que apoia Mia. O D.A.D prega a liberdade, o direito de fumar, nadar em um rio natural, comer uma fruta direto da árvore, andar pelas áreas não controladas, não entregar os exames médicos de rotina, namorar com quem desejar - e não apenas com aqueles que possuem um sistema imunológico compatível -, entre outras afrontas a rigidez do Método.

Conforme o MÉTODO, o amor ilícito é um crime capital. Se eu consumo meu amor, isso está no mesmo nível da difusão voluntária de epidemias. (p. 110).

De forma sutil, Corpus Delicti critica a sociedade atual que já vive essa tirania da saúde. Mas até que ponto o homem se adequaria a essa realidade? E o governo tem mesmo o direito de intervir na vida dos cidadãos em prol do bem comum? E ser saudável é não estar doente? O que é ser saudável?

O ser humano precisa experimentar a sua existência. (p. 91)

O livro não tem a pretensão de responder a nenhuma dessas questões e sim de criá-las e gerar muitos outros questionamentos. Entretanto, apesar dos focos de resistência, no final da história, o Método revela que continua forte e a sua manutenção não deixa espaço para heróis e mártires.

A autora

Juli Zeh nasceu em Bonn, em 1974. Advogada especializada em direito internacional, viveu nos Estados Unidos, na Polônia, na Croácia e na Bósnia. Estreou na literatura em 2001, com o romance Adler und Engel, vencedor do prêmio Livro Alemão do Ano. De sua autoria, a Editora Record já publicou A Menina Sem Qualidades. Juli Zeh é uma das intelectuais mais influentes da Alemanha.

Nota do Editor:
Texto gentilmente cedido pela autora. Originalmente publicado no blog Livros por Lívia.


Lívia Corbellari
Vitória, 11/11/2013


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Um curso para editores de Ana Elisa Ribeiro
02. Anéis na Telona de Juliano Maesano


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