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Segunda-feira, 26/9/2016
Afinidade, maestria e demanda
Fabio Gomes
+ de 3100 Acessos

No último dia 17, tirei do ar aquele que foi meu primeiro site, o Brasileirinho. Voltado para a veiculação de notícias e comentários sobre música popular brasileira, em especial samba e choro, o Brasileirinho completaria dali a um mês a incrível marca de 14 anos no ar (sua estreia foi no já distante 17 de outubro de 2002).

14 anos na internet é uma eternidade, ainda mais no Brasil, onde projetos semelhantes - independentes, opinativos, buscando um olhar diferenciado sobre a produção cultural - dificilmente duram tanto. Parece haver uma bifurcação quase inevitável nesses casos: poucos desses espaços independentes conseguem se viabiilizar financeiramente, ao passo que os mais bem-sucedidos economicamente quase sempre não são os que privilegiam a liberdade de expressão. O sonho de você poder escrever o que quiser, quando quiser, no tamanho que preferir e obter simultaneamente um bom índice de leitura e de anúncios cada vez me soa mais roteiro de Hollywood.

Um dos mantras da sociedade ocidental hoje em dia é que "você tem que fazer o que gosta". Eu acho isso ótimo - não só eu, aliás, até o filósofo Mario Sergio Cortella declarou em entrevista à revista Época em 2014 que "só um imbecil gostaria de fazer o que não curte". E até se viralizou uma frase atribuída ao chinês Confúcio - há diversas versões, todas uma variação de “Escolha um trabalho que você ama e você nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida”. Propositalmente se ignora que a chance de Confúcio realmente ter dito isso é bem escassa. O filósofo viveu de 551 a 479 a.C., período em que o que menos uma pessoa poderia fazer na vida era justamente... escolher em que trabalhar (lembrando que o modelo atual de trabalho assalariado só vai surgir após a Revolução Industrial, no século 18 - apenas 2.400 após Confúcio...) Para não ir tão longe no tempo e no espaço, fiquemos na China, pensando na construção da Grande Muralha no século 3 a.C. Estima-se que mais de um milhão de operários - soldados, camponeses e prisioneiros - constituíram a mão-de-obra desta imensa construção; desses, cerca de 800 mil morreram em meio ao trabalho devido à péssima alimentação e à falta de proteção contra o frio. Será que alguém em sã consciência iria escolher isto?

Voltando pros dias atuais, penso que a dicotomia que apresentei entre projetos que conseguem se viabilizar e outros que não conseguem passa pela tríade que preside qualquer trabalho que nos proponhamos a fazer. afinidade, maestria e demanda.

Por afinidade, designo a inclinação que tenhamos para uma atividade específica. Pode ser entendido como o atual conceito de amar o que se faz (no caso do meu site, seria escrever sobre aspectos da história da MPB - isso é evidentemente algo que eu sempre gostei de fazer! :). E também fecha com o conceito que se pensava até a virada do século (ou ao menos, que eu pensava na época), o de fazer sentido.
Um exemplo de fazer sentido: em 1996, ingressei, via concurso, no serviço público, como funcionário municipal de Porto Alegre, nível médio. O cargo, denominado 'assistente administrativo', possuía funções variáveis de acordo com o local onde o servidor fosse designado. Iniciei atendendo reclamações da população pelo telefone, e mais adiante fui ser secretário de um diretor, cabendo-me basicamente rotina burocrática (carimbar processos, numerar folhas, encaminhar documentos etc). Evidentemente que eu não amava nenhuma destas funções, mas devo dizer que ao menos na primeira (atender a população) eu via sentido no que estava fazendo - a população pagava meu salário, através de impostos como IPTU e ISSQN, e eu retribuía recebendo e encaminhando as solicitações que ela apresentava. Talvez seja desnecessário dizer, mas esse conceito do que fazia sentido ou não era algo bem particular meu, não via mais ninguém falando nisso. De todo modo, levei esse meu pensar também para o Jornalismo. Mesmo com minha natural inclinação para escrever sobre Cultura, durante algum tempo eu não me opunha a, caso viesse a ingressar numa redação depois de formado, atuar em  outras editorias, como fazia quando comecei a trabalhar em jornal em 1991. Mas os sucessivos escândalos políticos e econômicos que nosso país viveu desde o afastamento do presidente Collor de Mello, em 1992, me levaram a não considerar outras opções além das pautas culturais - eu não veria sentido em, cobrindo crises de corrupção, apenas me limitar a reproduzir declarações de políticos que dali a poucos meses ou estariam condenados pelo que tinham feito, ou pior - fariam um conchavo para escapar impunes, como tantas vezes já aconteceu neste país.

Já com o termo maestria eu denomino a forma como executaremos o que nos propomos. Digamos que eu, por amar o som do violão, resolvesse me tornar um concertista, para tocar peças eruditas de Segovia, Villa-Lobos e companhia. Só amor ao instrumento e à música poderiam não ser suficientes, pra fechar a equação seria preciso muito tempo de estudo, talento etc. etc. Assim como não basta amar o que se faz para ter sucesso, com toda a certeza (apenas) querer não é poder! (Sim, tirei o dia para desconstruir essas frases-feitas)

Por fim, temos a questão da demanda, que acaba sendo a mais decisiva. Ok, amo escrever sobre história da MPB e fazer resenhas de shows, e até acredito que faça isso bem. Mas qual o mercado disto? Nunca na minha vida um artista me chamou para resenhar um show dele - já aconteceu, sim, de me encomendarem releases, contratarem assessoria de imprensa, até chamarem pra produzir o trabalho e/ou roteirizar shows; óbvio que ninguém me chamaria pra fazer isso se não estivesse lendo e curtindo o que escrevi. Mas isso é indireto, não é? Nunca rolou de "cara, você resenhou tão bem aquele show do Hermeto Pascoal, tou te contratando pra você escrever sobre o meu" (risos). Ou mesmo o que, lá no começo do Brasileirinho, eu achava possível de acontecer - um jornal ou revista gostar dos meus textos e me contratar (sim, em 2002 eu acreditava que isso pudesse acontecer!).
(Já com fotografia as chances aumentam muito - o artista X vê você fotografando o show da cantora Y, ou vê as fotos que você fez publicadas por aí, gosta e lhe chama pra registrar a apresentação dele, artista X, mas também não é a toda hora. Na imagem que ilustra o post, de autoria de Chico Terra, apareço de verde, fotografando um show da cantora Patrícia Bastos em Macapá, em agosto de 2014.)
Resumindo a ópera: por mais que eu tenha afinidade com o jornalismo cultural, e acredite ter maestria em sua execução, a demanda que ele gera é muito pequena, tornando impossível que eu possa me manter apenas com ele.

Enfim, quis falar disso porque vejo hoje muita gente pregando o fazer-o-que-se-gosta como a verdade universal. Se você consegue fazer bem (maestria) o que gosta (afinidade) e isso tem uma boa procura (demanda), que ótimo! Mas e se não tiver? Há que buscar alguma outra coisa em que você tenha maestria (ou se não tem hoje, possa vir a ter, fazendo um curso, por exemplo) e com a qual você encontre afinidade - ou, no mínimo, que faça sentido.

Para encerrar, compartilho com vocês uma frase da jornalista Mary Camata: Amar a profissão não significa gostar de trabalhar de graça.


Fabio Gomes
Macapá, 26/9/2016

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Entrevista com a tradutora Denise Bottmann de Jardel Dias Cavalcanti


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