É o Fim Do Caminho. | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
28343 visitas/dia
851 mil/mês
Mais Recentes
>>> Livro narra a trajetória do empresário que transformou a história urbana de São Paulo
>>> TV Brasil destaca polêmica das fake news no Mídia em Foco desta segunda (22/10)
>>> Ruy Castro e Frei Betto em novembro, no IEL
>>> Operação Condor, Direitos Indígenas, Cine Nuevo e Economia serão temas do 36º EPAL/PROLAM
>>> Sidney Rocha lança seu novo livro, A Lenda da Seca
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Voto de Meu Pai
>>> A barata na cozinha
>>> Inferno em digestão
>>> Hilda Hilst delirante, de Ana Lucia Vasconcelos
>>> As pedras de Estevão Azevedo
>>> O artífice do sertão
>>> De volta à antiga roda rosa
>>> O papel aceita tudo
>>> O tigre de papel que ruge
>>> Alice in Chains, Rainier Fog (2018)
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> A moral da dúvida em Oakeshott e Ortega Y Gasset
>>> Por um triz
>>> Sete chaves a sete cores
>>> Feira livre
>>> Que galho vai dar
>>> Relâmpagofágico
>>> Caminhada
>>> Chama
>>> Ossos perduram
>>> Pensamentos à política
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Para tudo existe uma palavra
>>> Cind Canuto
>>> Araquém Alcântara #EuMaior
>>> Henry Ford
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Apresentação
>>> Apresentação
>>> Um defeito de cor, um acerto de contas
>>> Cuidado: Texto de Humor
>>> O Oratório de Natal, de J. S. Bach
Mais Recentes
>>> O Livro das Sombras de Scott Cunningham pela Madras (2017)
>>> O Livro Secreto da Magia Celta de Montse Osuna pela Universo dos Livros (2009)
>>> Contabilidade de custos de Eliseu martins pela Atlas (2018)
>>> Responsabilidade social e competencia inter-pessoal de Paul serter pela Ibpex (2018)
>>> A estrategia e o cenario dos negocios de Pankaj guemawat pela Bookman (2018)
>>> Faça voce mesmo propaganda de Fred e. hahn pela Ibpi (2018)
>>> Recursos humanos de Idalberto chiavenato pela Atlas (2018)
>>> Organizaçao & metodos de Antonio cury pela Atlas (2018)
>>> Manual de maitre d hotel de Aristides de oliveira pacheco pela Senac (2018)
>>> O criador no mundo empresaral de Sofia mountian pela Conex (2018)
>>> De mulher para mulher de Eugene price pela Mundo cristao (2018)
>>> O egito secreto de Paul brunton pela Pensamento (2018)
>>> Contacto interdimensional-el contacto continua de Sixto paz wells pela Sixto paz (2018)
>>> Doenças profissionais ou do trabalho de Irineu antonio pedrotti pela Leud (2018)
>>> Direito Empresarial de Mônica Gusmão pela Impetus (2004)
>>> Metodo rapido de corte-modelagens e tecnicas de costura de Carminha de feitas pela Sigbol (2018)
>>> Executivo-a carreira em transiçao. de Ricardo de almeida prado xavier e claudir franciatto pela Sts (2018)
>>> Curso avançado de excel de Fabricio augusto de ferrari pela Digerati (2018)
>>> Historia e doutrina da franco-maçonaria de Marius lepage pela Pensamento (2018)
>>> Crimes Contra a Dignidade Sexual - para Concursos de Francisco Dirceu Barros pela Elsevier (2010)
>>> Nostradamus-historiador e profeta de Jean-charles de fontbrune pela Circulo do livro (2018)
>>> Nossos filhos sao espiritos de Herminio c. miranda pela Lachatre (2018)
>>> Meus engmas favoritos de J.j. benitez pela Circulo do livro (2018)
>>> A cidade e as serras de Eça de queiroz pela Nucleo (2018)
>>> Minerais do Brasil 3 volumes de Rui Ribeiro Franco et Alii pela Edgard Blucher (1972)
>>> Entre Moisés e Macunaíma. Os judeus que descobriram o Brasil de Moacyr Scliar & Márcio Souza pela Garamond (2000)
>>> A aventura realista e o teatro musicado de Flávio Aguiar. Organizador pela Senac SP (1998)
>>> O Império do Belo Monte. Vida e Morte de Canudos de Walnice Nogueira Galvão pela Fundação Perseu Abramo (2001)
>>> Teoria da História do Brasil. Introdução Metodológica de José Honório Rodrigues pela Nacional (1978)
>>> O Polichinello de Ana Martia de Almeida Camargo. Organização pela Imprensa Oficial do Estado SP (1981)
>>> Enquadro. Capitulo I: Domingas de Eddie Louis Jacob pela Casa da Lapa (2009)
>>> Revista de Comunicação, Cultura e Política - V.14 Jan/Jun - 2014 de Vários Colaboradores pela PUC/Vozes (2014)
>>> Direito Processual do Trabalho (Reforma e Efetividade) de Luciano Athaíde Chaves (Org) pela LTr / Anamatra (2007)
>>> Lições de Direito Penal - Parte Geral de Heleno Cláudio Fragoso pela Forense (2003)
>>> Curso de Direito Penal - Parte geral - Volume 1 de Fernando Capez pela Saraiva (2007)
>>> On Love: A novel de Alain de Botton pela Grove Press (1994)
>>> Tarô dos Vampiros O Oráculo da Noite Eterna de David Corsi pela Madras (2010)
>>> Aptidao fisica-um convite a saude de Valdir j. barbanti pela Manole dois (2018)
>>> Science for all children de National academic press pela National academic press (2018)
>>> Restauraçao da mata atlantica em areas de sua primitiva ocorencia natural de Antonio paulo mendes galvao e antonio carlos de souza galvao pela Mapa (2018)
>>> O caminho para o amor de Deepak chopra pela Rocco (2018)
>>> O livro do juizo final de Roselis von sass pela Ordem do graal na terra. (2018)
>>> Meu anjo de Fausto de olveira pela Seame (2018)
>>> Perversas Famílias (um castelo no pampa 1) de Luiz Antonio de Assis Brasil pela L&PM (2010)
>>> Evoluçao consciente de Sergio motta pela Ediouro (2018)
>>> Carrie, a estranha de Stephen King pela Suma de Letras (2013)
>>> Pesquisa e planejamento de marketing e propaganda de Marcia valeria paixao pela Ibpex (2018)
>>> Pedra do Céu de Isaac Asimov pela Aleph (2016)
>>> A guerra se torna mundial--4. de Folha de sao paulo pela Folha de sao paulo (2018)
>>> A guerra se torna mundial--4. de Folha de sao paulo pela Folha de sao paulo (2018)
COLUNAS

Quarta-feira, 15/1/2014
É o Fim Do Caminho.
Marilia Mota Silva

+ de 3000 Acessos

Sozinho, em algum ponto de oceano Índico, um homem (Robert Redford) acorda com seu barco inundado. A água atinge sua cama e continua subindo velozmente. Um container à deriva colidiu com a embarcação, abrindo um rombo no casco. O homem não perde a calma. Com uma força que não condiz com sua idade (77), desprende o container, remenda o casco, bombeia a água, enxuga e reorganiza tudo, sem desperdício de gestos ou palavras. Perfeito controle das emoções, competência, vigor, autonomia, um ar entre blasé e taciturno: o ideal masculino plenamente realizado.

O barco também é uma bela obra de desenho inteligente. Não sobra nem falta nada. Seus incontáveis nichos guardam recursos capazes de atender a qualquer emergência. Mas, com o rádio e os equipamentos de navegação destruídos logo na primeira cena, o homem navega, sem saber, rumo a uma violenta tempestade.

Tudo Perdido (All is lost) é o segundo filme que J.C. Chandor escreveu e dirigiu. O primeiro foi o ótimo Margin Call, sobre a crise financeira de 2008. São filmes muito diferentes mas que, de certa forma, se completam. Margin Call é repleto de diálogos e personagens, trata de um assunto específico e atual, e se passa, quase inteiro, nos escritórios de Wall Street. Tudo Perdido tem um só personagem e pouquíssimas palavras; passa-se em alto-mar e, segundo seu criador, conta uma história mais universal: "É sobre uma pessoa frente a frente com sua mortalidade, questionando sua vida, seu lugar no mundo".

Mas o tema não se restringe a essa metáfora tradicional em histórias que se passam no mar. O filme fala desse momento, do estágio atual do capitalismo e seus efeitos na vida e na mente das pessoas, especialmente as que habitam o topo, os 1%. Se em Margin Call, eles saíram impunes (e bem pagos) da crise para a qual contribuíram imensamente, em Tudo Perdido somos lembrados de que, não importa o quanto capaz e bem sucedido alguém seja, não há lugar a salvo no planeta. Estamos no mesmo barco e viveremos as consequências do mundo que criamos.

Chandor diz que não pensou nisso quando escreveu o filme mas que, de fato, Redford representa a geração que viu crescer a disparidade econômica nos Estados Unidos: "Todas as coisas que aconteceram nos últimos cinco a dez anos, surgiram nos últimos trinta anos. Ë parte do legado dessa geração, para o melhor ou pior".

Quando, no começo do filme, Redford (seu personagem é identificado apenas como "Nosso Homem" nos créditos finais) desengancha seu iate do container que o tinha abalroado, dezenas de pares de tênis e bugigangas variadas flutuam enquanto o container afunda. Nada mais emblemático. Globalização, exportação de empregos para países com mão de obra barata, desemprego nos Estados Unidos e suas consequências, aumento dramático da distância entre ricos e pobres, encolhimento e empobrecimento da classe média, radicalização da direita, por aí. "Nosso homem" é um consumidor privilegiado, basta ver seu iate super-equipado. E sua sorte é decidida por um container vindo da Ásia.

Em outro momento, "Nosso Homem" procurando alguma forma de se localizar, encontra um sextante antigo, que nunca tinha sido usado. Com ele e mapas náuticos, consegue chegar na rota de navios comerciais, com a esperança de ser resgatado. Quando surge um navio carregado de containers, ele se anima, dispara os sinalizadores, grita, agita os braços. E vê passar junto dele como um totem de ferro, o cargueiro imenso, sinistro e cego. A solidão e o desamparo do homem, vendo o navio seguir indiferente, sempre na mesma velocidade, e em linha reta, nos lembra como nos sentimos, muitas vezes, como clientes, consumidores e cidadãos.

Outro momento interessante é quando o "Nosso Homem", já reduzido ao barco salva-vidas, no limite do desespero, vira a cabeça para trás, olhando o céu e exclama: Fuck! Ele não invoca poderes sobrenaturais, nem como interjeição; nenhuma crença vem em seu socorro, o que é honesto e coerente com o personagem.

Nessa altura o filme volta à cena de abertura, quando ouvimos a voz de Redford compondo uma carta de despedida e desculpas. Presume-se que escreva para a família e que deixou assuntos mal resolvidos, palavras a serem ditas: Vocês hão de concordar que tentei tudo. Vou sentir falta de vocês, me desculpem.

A velha geração (o lado vencedor, o homem americano branco, velejando sozinho em seu iate perfeito) direta ou indiretamente responsável pelas conquistas e estragos feitos no planeta nas últimas décadas, está de saída e lamenta, pede desculpas. É toda uma era que termina. E agora, o quê?

Por coincidência, outro filme que saiu nesse final de 2013, Nebraska, também tem como protagonista um ator de 77 anos e também fala deste momento na vida do americano, só que, neste caso, ele faz parte dos 99%, e a história se passa no meio-oeste.

Woody Grant (Bruce Dern) é um pobre-diabo, um fracassado: alcoólatra, pai relapso, ex-mecânico de carros que não pode mais dirigir. Sua mulher e seu filho mais velho querem colocá-lo em uma casa de repouso porque o homem escapa de casa sempre que tem chance. Ele acredita que ganhou um milhão de dólares e quer buscar o dinheiro em Lincoln, Nebraska, nem que precise percorrer a pé mais de setecentas milhas. O segundo filho, David (Will Forte) com um emprego fuleiro, recém-deixado pela namorada, cansada de sua pasmaceira, resolve levá-lo, por pena e pela oportunidade de ter um contato maior com o pai.

No caminho, eles visitam a cidade onde Woody viveu na juventude, e a família que ele não vê há décadas.

O filme, em preto e branco, é uma comédia, disse o diretor Alexander Payne, e a gente ri mesmo, mas é um riso dolorido.

Uma cena hilária e deprimente, por exemplo: a família está toda reunida para encontrar Woody. O irmão e os parentes mais velhos, todos homens, estão sentados assistindo ao futebol. A filmagem é feita do ponto-de-vista da televisão, o que nos dá a visão de todo o grupo. Eles não têm nenhuma expressão no rosto e permanecem em silêncio. Seja o que for que estejam sentindo, as perguntas que talvez queiram fazer, eles escondem. A certa altura, o irmão de Woody, finalmente, encontra algo para dizer. Eles trocam algumas palavras sobre os carros que tiveram, sem olhar um para o outro e voltam a fixar na televisão a mesma expressão vazia.

Comentei a cena com amigos americanos; uma boa oportunidade para compreender melhor esse aspecto da cultura deles, bizarro para nós, brasileiros, mais informais e espontâneos. Falei do retrato cáustico que o filme pintava, especialmente dos homens, como se eles fossem incapazes de se comunicar mesmo entre si, em família.

"Mas não houve exagero nenhum", disseram. "A situação é exatamente da maneira que o filme mostra. A televisão, os jogos de futebol e a conversa sobre carros é o jeito de evitar qualquer conversa que possa resultar em emoção compartilhada, ou que possa provocar uma opinião sobre algum assunto mais pessoal ou sensível do que a escolha de carros. Estoicismo é uma virtude altamente valorizada na cultura americana e a cena mostra o quanto repressiva ela pode ser. Especialmente entre homens mais velhos".

Mas a geração mais jovem também é maltratada: quem a representa são dois primos, nos seus vinte, trinta anos, muito obesos e imaturos; só falam de carro, de velocidade, e se acham superiores porque correm mais ou tem carro mais potente. Os dois só se mexem quando tentam roubar a suposta fortuna do tio.

Quase só há velhos na fictícia Hawthorne onde se passa o filme. Não há crianças. A casa onde Woody passou a infância, uma bela casa de fazenda, grande e confortável , está abandonada, caindo aos pedaços. Woody é a imagem do arrependimento, do fracasso. Ele responde a todas as perguntas sobre sua vida com um "Não sei, ou não importa, não faz diferença". O passado se desfaz e não há futuro.

Ainda assim, quando o filme acaba, a sensação que fica não é a de que está tudo perdido. Um lumezinho brilha na desolação do cenário cinza: o amor do filho, sua genuína humanidade, o sonho simples, a felicidade que não depende de fortuna. O milhão de dólares, afinal, não fez falta nenhuma.


Marilia Mota Silva
Pensacola, Fl, 15/1/2014


Quem leu este, também leu esse(s):
01. O que está por baixo do medo de usar saia? de Adriana Baggio
02. Canção de som e fúria de Carina Destempero
03. Os ventos finais do inverno de Elisa Andrade Buzzo
04. O jornalismo na fervura de Marta Barcellos
05. Ivan Angelo e a experiência da reescrita de Guilherme Tauil


Mais Marilia Mota Silva
Mais Acessadas de Marilia Mota Silva em 2014
01. Proposta Decente? - 20/8/2014
02. Defensores da Amazônia - 19/2/2014
03. O Ouro do Brasil - 17/9/2014
04. O Subjuntivo Subiu no Telhado - 21/5/2014
05. O Mito da Eleição - 16/4/2014


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




QUÍMICA BÁSICA - QUÍMICA ORGÂNICA - VOLUME 3
CARMO GALO NETTO
SCIPIONE
(1991)
R$ 13,00



COISAS FRAGÉIS 1
NEIL GAIMAN
CONRAD
(2010)
R$ 30,00



OS MENINOS DO BRASIL - 3ª EDIÇÃO
IRA LEVIN
FRANCISCO ALVES
(1976)
R$ 9,00



FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA - VOLUME ÚNICO
GILBERTO COTRIM E MIRNA FERNANDES
SARAIVA
(2013)
R$ 59,00
+ frete grátis



EGITO MANIA - FASCÍCULO 33
EDITORA PLANETA
PLANETA
R$ 5,00



GO GIRL! O CLUBE SECRETO
CHRISSIE PERRY
FUNDAMENTO
(2007)
R$ 18,00
+ frete grátis



MISSÃO DO ESPIRITISMO - 5ª EDIÇÃO
HERCÍLIO MAES DITADO POR RAMATÍS
FREITAS BASTOS
(1988)
R$ 18,00



O MISTÉRIO DO LEÃO RAMPANTE
RODRIGO LACERDA (APRESENTAÇÃO DE JOÃO UBALDO RIBEIRO)
ATELIÊ EDITORIAL
(2017)
R$ 8,90



HISTÓRIA DA LITERATURA CRISTÃ ANTIGA GREGA E LATINA - VOL. II: DO CONCÍLIO DE NICEIA AO INÍCIO DA IDADE MÉDIA - TOMO 2
CLAUDIO MORESCHINI, ENRICO NORELLI
LOYOLA
(2000)
R$ 42,00



POR TRÁS DA ENTREVISTA
CARLA MUHLHAUS
RECORD
(2007)
R$ 29,99





busca | avançada
28343 visitas/dia
851 mil/mês