O Ouro do Brasil | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

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Quarta-feira, 17/9/2014
O Ouro do Brasil
Marilia Mota Silva

+ de 4900 Acessos

Há muitos e muitos anos, cinquenta, pra ser exata, num país bem parecido com o que temos agora, aconteceu uma história que se examinarmos hoje, parece um conto de fadas. Mas muita gente acredita que foi conto do vigário.

Os Diários Associados, que eram a Globo da época, fizeram uma campanha, pedindo ao povo que desse qualquer pecinha de ouro, que por acaso tivessem, pra ajudar o Brasil que estava em crise, quebrado.

E o povo acorreu em massa!

Esse é o conto de fadas: um povo confiante, tomado de amor cívico, pronto a ajudar seu país.

Em 1964, quando os militares assumiram o poder, com o apoio dos principais estados e de boa parte da população, encontraram os cofres vazios, o dólar disparando e a inflação sem controle, o que tornava miserável a vida dos que viviam de salário, ou seja, quase todo mundo. Isso explica, provavelmente, o apoio ao golpe. E a adesão espontânea à campanha.

Postos de coleta surgiram em todo canto, na minha rua, inclusive, no interior de Minas. Os arrecadadores, voluntários ali da cidade, traziam uma sacola, provavelmente cedida pela igreja, porque eram iguais às usadas para recolher contribuições durante a missa. E o povo ia chegando, vinha gente de longe, era uma festa cívica.

Obturação de dente extraído, havia muitas; alianças, relógios, medalhas, crucifixos, o que fosse dourado servia, que ali não havia especialista para comprovar a pureza ou autenticidade do metal, nem era o caso, que a cavalo dado não se olham os dentes. Algumas pessoas deram cheque, dinheiro. Tudo pro saco! Sem recibo, sem qualquer comprovante ou registro.

Em troca da doação, a pessoa recebia um anel de metal com a inscrição: Dei ouro para o bem do Brasil. Por muito tempo, não havia quem não ostentasse com orgulho esse anelzinho.

Não sei se aquele Brasil existe ainda. Somos mais informados, mais céticos, mais sofisticados? É discutível.

O amor pelo país, esse persiste. A vontade que dê certo, a disposição para fazer o que for possível, desde que se saiba o que, continua. Vejo aqui na comunidade brasileira (Washington, Virginia, Maryland), esse amor que não tem nada de ufanismo, de nacionalismo fóbico. É, sim, um amor imenso, de família.

Mas aqui entra o resto da história, ou não entra porque faltam dados e sobram perguntas.

O Cruzeiro, a revista mais importante, também dos Diários Associados, menciona a entrega de 400 quilos de ouro; arrecadado nos primeiros dias, só no Estado de São Paulo.
E o resto? Onde o ouro foi parar? Serviu para alguma coisa?

A iniciativa da campanha partiu apenas de Assis Chateaubriand, dono do império de comunicação, na época, ou teria havido um entendimento entre o governo e ele. Quem do governo?

Castelo Branco, o general-presidente, nunca fez referência ao assunto, nunca agradeceu ao povo o gesto de confiança e generosidade.

Como ninguém foi informado, acredita-se que a campanha foi mais um conto do vigário. Mas há quem diga que o ouro está nos cofres do Banco Central; que não foi possível (ou não valeria a pena) transformá-lo em lingotes, devido à diversidade de origens e densidade.

Não consegui confirmar a informação mas, se é verdade, seria o caso de exibir essas peças no museu? Seria um tributo à generosidade, à fé do povo brasileiro, um bálsamo para nossa auto-estima - e bem que merecemos.

Conto do vigário, ou não, o que me fascina nesse episódio é o povo que somos. Não sei quantas mil vezes fomos enganados, quantos blefes, quantos planos fracassados, quantos congelamentos eleitoreiros, quantas entressafras, desabastecimento, caça de boi no pasto, confiscos, impostos, simples incompetência, quanta mentira, quanto descaso! Mas continuamos acreditando. Lutando, contribuindo sempre que podemos. Lembram-se dos fiscais do Sarney? O empenho, a paixão com que as pessoas vigiavam, tentando segurar a maldita inflação no grito, no braço?

Hoje virou moda acusar o povo pela corrupção endêmica e todos os problemas do país. Todo o espectro ideológico encontra nesse ponto seu lugar comum.

Responsabilizar o povo que detém apenas o escasso poder do voto é acusar a vítima. É escarnecer da vítima. É manobra diversionista, é covardia.

Precisamos atribuir e cobrar responsabilidade de quem tem o poder, de quem tem meios e obrigação de fazer acontecer; seria o primeiro passo para construir o país que queremos.


Marilia Mota Silva
Arlington, VA, 17/9/2014


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