Política e Cidadania no Sertão do Brasil (parte 2) | Diogo Salles | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 11/4/2014
Política e Cidadania no Sertão do Brasil (parte 2)
Diogo Salles

+ de 2200 Acessos

A palestra de "Política e Cidadania" no Encontro em Lençóis tinha cumprido seu papel. Numa cultura tão enraizada de submissão aos poderosos e de descaso com a coisa pública como a nossa, consegui criar uma ruptura de pensamento. Pelo menos dentro daquele universo, senti que consegui puxar o público para o debate e a participação direta no processo político. Se nem todas as cidades ali apresentavam os problemas expostos, isso não quer dizer que não devessem ficar alerta para evitá-los no futuro. As ideias continuavam borbulhando e as mensagens no meu Facebook não paravam de pipocar. Semente plantada, hora de regá-la.

Com a inclusão da palestra nos seminários do IBS no biênio 2014-16, eu precisava pensar em ideias concretas para interferir no processo político de uma forma positiva. Assim, extraí dez tópicos da palestra em Lençóis e desenvolvi cada tema em forma de diretriz, mas para ser usado como sugestão. Nessa primeira etapa de seminários, passamos por São Raimundo Nonato (PI), Balsas (MA) e Cabaceiras (PB). Se cada delegação em Lençóis possuía cerca de oito pessoas, nos seminários desse novo biênio eu iria falar com cada cidade separadamente. Além de ir ao território deles, eu trataria com um público bem mais amplo, com prefeitos, secretários e professores de toda a rede municipal. Portanto era preciso se informar e entender o contexto político de cada cidade.

A espinha dorsal do seminário é (sempre será) o conceito de separar o bem público do bem privado. Mas agora a mensagem vinha com um aviso: justificativas como "todo mundo faz" ou "eu não sabia" não serão mais aceitas. Acabou. Agora minha preocupação central era criar uma consciência na cabeça das pessoas de que o debate público é um processo longo, de construção. As manifestações de rua são importantes para reivindicar, as audiências públicas são importantes para negociar, mas é nas urnas que se muda o processo político de uma forma mais rápida e efetiva.

Quem negligencia o voto e despreza a política, acaba indiretamente dando um cheque em branco nas mãos do político ― e muitas vezes, a política volta para nos acertar com uma marretada na cabeça. Não é um conceito fácil de passar, por sua complexidade. Mas se a ideia era mostrar as consequências (ainda que involuntárias) da alienação política, eu tinha de escolher o caso mais grave de nosso bestiário político. Entra em cena Adail Pinheiro, prefeito de Coari (AM), pego numa série de denúncias escabrosas no início deste ano. A história ainda estava nos noticiários, o momento era perfeito para explorá-la e dar o devido relevo ao assunto. Eu só precisava encadear os fatos para colocar em perspectiva a relação causa/efeito de um voto irrefletido.

O caso é o seguinte. Adail Pinheiro foi preso, acusado de chefiar uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes em Coari. Uma série de reportagens no Fantástico mostrava o prefeito mobilizando servidores de seu gabinete e toda a máquina da prefeitura para trabalhar no aliciamento de meninas de 9 a 15 anos e na organização das "festas". Nas conversas gravadas entre o prefeito e seus assessores, ouvia-se o seguinte diálogo: "Meu irmão, mas é um bebezinho. Que sorriso lindo, branquinho, branquinho", "Traga logo aqui pra mim ver [sic]", "É teu número, tô levando aí".

Segundo dados do Tribunal de Justiça do Amazonas, dos mais de 70 processos contra Adail Pinheiro, 56 ainda tramitam. O cardápio é variado: improbidade administrativa, crimes contra a administração pública, pedofilia e exploração sexual de adolescentes. A maioria dos processos ocorreu quando Adail governou a cidade por dois mandatos, de 2001 a 2008. Ou seja, todas as denúncias e fatos eram amplamente conhecidos antes das eleições municipais de 2012. Mesmo assim, nem a Lei Ficha Limpa impediu Adail de se candidatar e muito menos a população de Coari se sentiu impedida de elegê-lo para um terceiro mandato. Vale ressaltar que Coari é o segundo maior PIB do Amazonas, por conta de uma petroleira instalada lá, que levou mais recursos para a região. Nada disso, porém, foi capaz de mudar a vida de boa parte da população, que ainda vive na penúria e aceita ser explorada dessa forma.

E assim eu chegava à relação causa/efeito. Se a população de Coari tivesse levado em conta o histórico desse individuo e refletido melhor sobre o seu voto, 1) ele não se elegeria; 2) ele não usaria a máquina pública em beneficio próprio; 3) a rede de pedofilia não contaria com toda essa estrutura e 4) muitas dessas meninas não teriam sido estupradas. Mas não parei aí. A um público composto majoritariamente por mães, questionei: "E se alguns eleitores desse prefeito forem pais de alguma das meninas estupradas? E se fossem suas filhas?" Pesado demais? Sim, esse é o peso do voto.

Convém lembrar que esse tipo de alienação política não faz vitimas só no Norte e Nordeste. Todos os Estados brasileiros possuem suas manchas. Eleitores de São Paulo ainda elegem Paulo Maluf. Eleitores do Rio de Janeiro ainda votam em Anthony Garotinho. Brasilienses ainda confiam em Joaquim Roriz. Paranaenses ainda simpatizam com Roberto Requião. Alagoanos ainda consideram Fernando Collor um injustiçado. Amapaenses ainda emprestam seu território para José Sarney ampliar sua rede de influência. Paraenses ainda acreditam em Jader Barbalho. Embora esses exemplos não tratem de pedofilia, tratam de uma variada lista de crimes contra o patrimônio público.

O clima de "vale tudo" se impregnou na sociedade brasileira num nível que chegou às raias da psicopatia. Não estou falando apenas de valores torpes como o "rouba, mas faz". É a "Banalidade do Mal", teorizada por Hannah Arendt, em que ninguém se sente responsável por nada. Como nos protestos dos parentes contra a prisão dos cinco servidores ligados ao esquema de Adail Pinheiro. "Não fizeram nada errado. Estavam apenas cumprindo ordens". Essa é a desculpa preferida dos psychos. Torturadores da ditadura militar a usam até hoje para justificar seus crimes. Em campanhas eleitorais, a lógica se repete. Na eleição de 2012, um jornalista se disfarçou de candidato e mostrou que a podridão do sistema começa exatamente pelos eleitores, que consideram normal trocar votos por calçados e até por cerveja. Não, a culpa não é dos políticos, como muitos gostam de dizer. Os políticos são apenas reflexo do que somos como sociedade.

E assim eu chegava a um conceito ainda mais complexo sobre o voto, porque para mudar a nossa maneira de enxergá-lo, é preciso mudar primeiro a nossa mentalidade clientelista. Era por aí que eu chegava à maioria das dez diretrizes que tracei: "Não enxergar o político como amigo, pai ou salvador", "nunca aceitar favores de políticos nem de seus assessores", "sempre questionar os candidatos perguntando detalhes de como ele fará o que propõe". E, claro, o ponto nevrálgico: mobilização coletiva para combater o "assalto de dados" ao final de cada mandato, criando um projeto de lei que institua a transição entre prefeitos com uma cerimônia aberta ao público.

Mudar o nosso conceito sobre o voto não implica apenas em devassar a vida dos candidatos, mas também escapar dos truques do marketing político. Segundo a teoria, todo ser humano possui necessidades básicas e desejos (que devem vir depois). O marketing entra para bagunçar essa ordem de prioridades na cabeça do ser humano (rebatizado de "consumidor"). Pois é exatamente isso que o marketing político faz com a cabeça do eleitor. Trata-o como consumidor e coloca a satisfação de desejos pontuais à frente dos verdadeiros deveres e prioridades do serviço público. É dessa forma que a festa da cidade se torna mais importante do que o transporte escolar ou o funcionamento do posto de saúde. Para melhor ilustrar o quadro, usei este vídeo abaixo. Assista.



Desnecessário dizer que todo mundo um dia já foi enganado pelo truques do candidato do vídeo. Campanhas políticas trabalham a emoção do eleitor, usando metáforas simples, criando simbologias e fixando imagens no inconsciente coletivo. Ali o candidato tem o palco perfeito para o plantio e o cultivo de novas e velhas mentiras. Sabe que não será cobrado no futuro, quando as pragas tiverem destruído tudo. Parafraseando Nelson Rodrigues, se os fatos estiverem contra o candidato, pior para os fatos. Não é por eles que o eleitor brasileiro faz suas escolhas. Na campanha, o que importa são os sonhos. E quanto mais personalista for a abordagem, maior o sucesso. Quem resiste a uma visita à modesta casa de uma beneficiada pelo programa assistencialista? Basta uma única família que se disponha a retribuir com lágrimas em frente às câmeras. O "confirma" nas urnas estará garantido.

Candidatos não "debatem ideias", como eles gostam de dizer. Muito menos possuem "programa de governo". O que eles mostram é apenas o resultado de uma série de pesquisas qualitativas que captam qual será o sentimento que guiará o eleitorado naquele pleito. O suposto programa de governo que o candidato vende é, na verdade, um conjunto de ideias formuladas pela equipe de marketing da campanha. Portanto, quando você vota, você escolhe quase que um zumbi lobotomizado pelo marqueteiro, e indiretamente está votando numa pessoa que não faz a menor ideia de quem seja. As campanhas são e continuarão sendo assim. Qualquer que seja a embalagem do candidato/produto, a mudança deve vir do lado de cá, de quem vota. Nosso dever é deixar de enxergar o processo eleitoral do ponto de vista do "consumidor de marketing político". Devemos ser apenas eleitores. Eleitores com senso crítico, que desconfiam e questionam seus candidatos. Estou falando de gente que jamais votaria em Adail Pinheiro. E nem em Sarney, nem em Maluf, nem Collor, nem Renan Calheiros, nem Jader Barbalho, nem Garotinho...

Terminei minha exposição usando uma metáfora: os conceitos que eu acabara de passar ali eram a base, a fundação de tudo. Caberia a cada um deles, em cima desses conceitos, ajudar a construir a casa. Cada um deve escolher a melhor forma de erguê-la, qual material usar, quais engenheiros e pedreiros devem tocar a obra. Em momento algum falei que as pessoas deveriam ou não se filiar a um partido, tampouco falei que deveriam acreditar nesse ou naquele partido (ou corrente ideológica). Meu ponto é que, da mesma forma que não se pode construir uma casa começando pelo telhado, não se pode fazer qualquer formulação política ou ideológica sem antes conhecer noções básicas de cidadania, respeito ao espaço público e convívio em sociedade.

Leia também
Política e Cidadania no Sertão do Brasil (parte 1)


Diogo Salles
São Paulo, 11/4/2014


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