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Quinta-feira, 29/5/2014
Escola (e escolinha)
Julio Daio Borges

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Catarina e eu na biblioteca da escola (by João Márcio)

* Como sabe quem me lê, eu não gostei da faculdade. Mas eu gostei da escola. A faculdade foi uma desilusão. Se a meritocracia havia funcionado até a escola ― ou parecia ―, na faculdade você poderia jogá-la fora. Toda a organização que se havia criado na escola para o estudo ― ou supostamente para tal ― seria desbaratada pela faculdade. Na escola, eu entendia como as coisas funcionavam: estudava, fazia as provas, ia bem, passava. Até no vestibular, entendi como as coisas funcionavam: estudei, fui bem, entrei onde quis. Na faculdade, eu nunca entendi como funcionava: não adiantava "só" estudar, tinha de "dar um jeito" de passar, e, sobretudo, de sair. Logo. No tempo da escola, no ano em que prestava vestibular, me ocorria que eu poderia continuar estudando, adquirindo conhecimentos gerais, achava prazeroso. Da faculdade, eu já queria sair no primeiro ano, não me interessava pela maior parte do que era "ensinado", tirava nota "pra passar", era torturante. Algo me diz que é porque estudei em escolas particulares e, depois, numa universidade pública. A faculdade era o Brasil. Era a "realidade", digamos assim. Já a escola não era o Brasil; não era a realidade. Já me chamaram de idealista, pejorativamente. Mesmo assim, me agrada a ideia de um ambiente suficientemente protegido, estrategicamente isolado, onde o objetivo seja formar pessoas, educando seres humanos. Podem me chamar de idealista, mas não tem como fazer isso no meio do caos. No meio do Brasil? Entendo que para lidar com o Brasil, é preciso encarar a realidade. Mas para melhorar o Brasil, temos de perseguir algum ideal de país. A faculdade me mostrou o Brasil. Na escola, plantamos o sonho de um país melhor, através de pessoas melhores "em formação". É o que os políticos querem dizer quando repetem que se deve "priorizar a educação". Pelo menos, é o meu entendimento.


A Catarina quando entrou na escola (2012)

* Tudo isso porque a Catarina entrou na escola. Em março, fez dois anos. No começo, resisti à ideia. Que pais não têm ciúmes dos filhos? Houve um tempo em que a Catarina era só nossa. E da Mamãe. E da Vovó Chris. Também da Maria, é verdade. Era da família, digamos assim. Mas um belo dia, a Carol, que sempre foi menos condescendente do que eu, me convenceu, meio a contragosto, que a Catarina devia tomar contato com o mundo exterior. Leia-se: escola. Até então a gente se revezava para cuidar dela: eu, a Carol, as avós... Nunca tivemos babá, só a Maria (que é uma espécie de curinga). Era um malabarismo. Dois dias na semana com a Mamãe. Um ou dois com a Vovó Chris. Manhãs com a Maria. Tardes com a gente. Ou o contrário. Continuávamos trabalhando quando a Catarina dormia, porque, acordada, ela não nos deixava. Voltávamos mais cedo pra casa. Saíamos mais tarde. Éramos equilibristas. Ainda somos. Todos os pais, hoje, são um pouco. Acabou-se o mundo estanque de antes. Toda a existência, agora, é fragmentada. Mas esse é outro assunto... O que eu queria dizer é que a Catarina era "nossa". Lembro da esposa do Meligeni, o tenista, que frequentava a mesma pediatra nossa, falando do filho deles: "Em doze meses, toda vez em que ele precisou de alguém, ou estava eu ou estava o meu marido". A Catarina era assim: sempre alguém da família por perto. Logo, quando a Carol veio com a ideia de mandá-la para a escola... quase entrei em parafuso. Como? A minha filhinha? Quem vai encostar nela? Quem vai vesti-la? Quem vai controlar o que ela comeu? Como vão fazer se ela tiver sono? E se ela sentir saudades de nós?


Carolina, Diego e eu, na frente da nossa escola (1982)

* Eu gostei da escola, mas a escola foi a minha primeira experiência consciente de solidão. Lembro com carinho da primeira vez em que a Mamãe nos levou na escola e disse: "É aqui que vocês vão estudar". Acho que até já contei antes... Entrei tarde para os padrões de hoje. Tinha cinco anos. O Diego tinha três, levava um travesseirinho, para dormir no final da aula. Era o maternal, com a Tia Rosana. Entrei no Jardim II. Antes do Pré, com a Tia Lúcia. Mas acho que sentia saudades da Mamãe todos os dias, porque chorava. Principalmente quando tentava abrir o tupperware de suco, que a Mamãe havia preparado para o lanche. Tinha medo de abrir, porque tinha medo de me molhar. "Se eu me molhar, eu vou chorar", pensava. E invariavelmente me molhava, e chorava. Mas não era por causa do suco; era por causa da Mamãe. Por estar lá, naquele lugar estranho, com pessoas estranhas. Mas me disseram que eu deveria estar lá; então, tinha de estar, não é? Todo mundo na minha idade, e no meu círculo social, estava, não estava? Não era mais o tempo de acordar, tomar banho, vestir roupa, sentar no sol até o cabelo secar e, quando secasse, perguntar: "Mamãe, posso ir brincar?" Ou não era mais o tempo de sair de bicicleta com o Diego, pelo bairro do Itaim, sob a supervisão da Mamãe, com a Carolina no carrinho atrás. Não era mais... No fim do expediente, o Papai me perguntava os nomes dos meus colegas. E eu associava os nomes aos objetos da casa, talvez para memorizar. O Mário era o Armário; o Ubaldo era o Balde. Meu primeiro amigo foi o "Jóquinha" (Joaquim). Não lembro de seu sobrenome. Passávamos a maior parte do tempo pintando a lápis. Guardo meu caderno do Jardim II até hoje. "Companheiro", dizia na capa. Enchíamos folhas e folhas com números e letras do alfabeto. Nas últimas páginas ― no fim do ano letivo ―, aprendi a escrever "Julio".


Catarina, Carol e a primeira aproximação com a professora (2012)

* A adaptação da Catarina, para mim, foi uma tortura. Antes, devo admitir que não gostava de nenhuma "escolinha" que íamos visitar. Achava a maioria suja. Mal cuidada. Éramos recebidos, invariavelmente, por uma professora descabelada, que por acaso era a dona, fazia mil coisas ao mesmo tempo, falava, falava e não dizia nada. Eu não entendia esse conceito de "escola", onde a maioria do staff se compunha de babás, que eram chamadas de "educadoras", mas não eram professoras, nem tinham formação. É; eu sou chato, vocês sabem. Não aceitava que a minha filha fosse para um lugar que fosse "menos" do que a nossa casa. A estrutura tinha de ser melhor que a nossa. No mínimo, igual. Demorou, mas achamos. E, quando achamos, eu não queria ver mais nenhuma escola. Mesmo assim, sofri horrores na adaptação. Sofri como uma mãe. Era engraçado. Havia poucos pais na adaptação. Mas eu quis ir nos primeiros dias. E como você acha que eu me senti quando a primeira pessoa que a Catarina chamou, na escola, fui eu? "Ela pediu para ver o Papai", disse a professora, trazendo a Catarina até nós. A professora, aliás, era uma mulher muito bonita ― e, hoje, muito querida ― mas eu ficava muito nervoso com ela (coitada). E não era por ela; era por mim. Acho que me lembrava da minha primeira experiência de solidão... Mesmo tendo aprovado a escola, questionei o processo de adaptação. Lembro, particularmente, de uma tarde em que a Catarina nos chamava, de dentro de uma sala, e tínhamos de ficar sentados, lá fora, ouvindo ela chamar, sem poder fazer nada. Até ela "se adaptar". Em outras palavras: aprender a ficar sem eu e a Carol. Adoro a escola da Catarina, mas achei a adaptação uma coisa meio violenta. Como você classifica o processo de tirar a criança dos braços dos pais?


"Bate palma, Papai" (Catarina, no final do primeiro mês de escola, adaptada, 2012)

* A adaptação foi só o começo. A gente volta pra escola com as crianças. É um clichê, mas é verdade. Ir todos os dias, levar e/ou buscar, torna a escola parte da vida. E muitas vezes convivemos mais com os pais da escola do que com os nossos amigos. E eles se tornam nossos amigos... Foi um choque, por exemplo, quando encontrei uma colega ― minha ― de escola no primeiro evento da escolinha da Catarina. No final do primeiro mês, chego para a "integração" do pais e, na porta da classe, vejo uma menina loirinha se agitando e a mãe tentando levá-la para dentro. Quando olhei pra cara da mãe, não acreditei e fui cumprimentar. Era a Marisa, que foi minha contemporânea no Compa. E era a Maria Luisa, que foi colega da Catarina até há pouco (pois mudou para a manhã neste ano). Interpretei a coincidência como um sinal de que havíamos escolhido a escola certa, porque eram umas dez, doze crianças, no máximo, na sala. Eu e a Marisa estivemos na mesma escola, na época do ginásio, no final da década de 80. Tivemos as nossas crianças praticamente ao mesmo tempo e, agora, a Catarina e a Malú repetiam a história... Desde 2012, os fins de semana meus, da Carol e da Catarina são tomados por eventos da escolinha. É raro um sábado ou domingo em que não haja uma festa infantil. Como gostamos da turma ― e dos pais da turma ―, torna-se divertido. Tanto que, neste ano, marcamos eventos "a mais" ― por iniciativa dos pais ―, como churrascos ou tardes nas casas de uns e outros... Nunca imaginei que a integração com os pais iria tão longe. Não lembro de meus pais tão próximos dos pais da escola. Os pais, na minha época de escola, se conheciam, mas não me lembro de muitas "combinações" extraoficiais.


A turma da escola da Catarina (2013)

* E sofremos pelos colegas da Catarina que mudam de sala, ainda que ela não se dê conta do significado... Estudei na mesma escola do Jardim II até a antiga 8ª série, todo o "antigo" primário e o ginásio (na mesma escola). Só mudei na época do "colegial", porque ia prestar vestibular (mais pra frente) e meus pais queriam que eu estivesse numa escola "maior". Assim, tenho colegas que foram comigo desde a infância até a adolescência. E tenho um, pelo menos, que é meu amigo até hoje. O Claudião. 35 anos de amizade. Que loucura... Mas voltando à Catarina, hoje os coleguinhas vêm e vão, quase no ritmo da internet. Entram no meio do semestre, saem no meio do semestre. Vêm de outra cidade. Mudam de país. Falam outra língua. Existe quase uma "bolsa de valores" de vagas nas escolas mais conhecidas de São Paulo. E, quando surge uma vaga, os pais mudam as crianças, às vezes mudam só um irmão, e ficam com uma criança em cada escola, até que surge uma vaga para o outro irmão... Sem falar do trânsito, que faz as pessoas perderem horas atravessando a cidade. Nem todo mundo tem a sorte de morar perto da escola, como a Catarina... Neste ano, especialmente, começou o "período integral" na escolinha da Catarina e a primeira melhor amiga dela, a Madú, mudou-se para o integral. Como a Madú passa o dia inteiro na escola e a Catarina passa a tarde, elas ainda se encontram nos intervalos, apesar de não estarem mais na mesma classe. Nunca vou esquecer da felicidade da Madú quando a Catarina chegava no ano passado. Ia encontrá-la na porta, abria os olhinhos, chegava perto e ficava sorrindo em expectativa. Às vezes, ajudava a Catarina a carregar a mochila; às vezes, puxava-a para uma brincadeira que havia interrompido; às vezes, só olhava pra cara dela e falava "Catarina" ou, melhor, "Cacá" ― pois mal havia aprendido a falar (e já balbuciava o nome da amiga)...


Catarina e Madú (2013)

* E eu não me lembro de ler tantos livros, na minha época de escola, quanto os que a gente lê para a Catarina hoje... Lembro, claro, da minha cartilha. A primeira lição era a do cavalo: cá, cé, ci... (vocês entenderam). Lembro dos livros infantis dos meus irmãos. Lembro do Lúcia-Já-Vou-Indo, que fazia a família inteira rir. Lembro do Marcelo, marmelo, martelo. E lembro, com mais clareza, dos livros do ginásio. Os do Marcos Rey, por exemplo. A coleção Vaga-Lume... No colegial, me marcou Senhora, do José de Alencar. Também Policarpo Quaresma, do Lima Barreto. Machado de Assis, eu li, mas perdíamos mais tempo com o glossário do que com a literatura propriamente dita. Drummond, eu li, mas não entendi. João Cabral, menos ainda. Guimarães Rosa, então... Ao contrário do que possa parecer, eu não era um leitor inveterado na época da escola. Achava importante ler os livros ― tinha essa noção ―, e lia; mas as indicações de leitura nunca me apaixonavam muito. Talvez porque tenhamos crescido em meio à tecnologia; o século XIX era de uma distância quase abissal... Começava a era da computação pessoal... e nos indicavam uma literatura cujo principal meio de transporte era o "tilburi" (!). A ficção científica, naturalmente, me falava mais ao coração; e Stephen King ― que era a paixão do meu melhor amigo de adolescência, o Cris. Desenvolvi sensibilidade literária só mais tarde, na juventude, quando tinha um diário. Não estava mais na escola e, sim, na faculdade. Nunca vou esquecer das primeiras leituras de Rubem Fonseca ― talvez o primeiro escritor de quem me senti contemporâneo. Igualmente do Nélson Rodrigues. E ― vocês sabem ― do Paulo Francis. Mas aí não era mais literatura, era jornalismo.


Catarina lendo imagens comigo (2011)

* A Catarina lê um livro por mês, em classe. No final do ano, são dez volumes. Formam o que chamam de "biblioteca pessoal". Mas nós sempre lemos pra ela em casa... Mesmo quando ela não sabia falar. Alguns livros, inclusive, ensinaram, através de figuras, as primeiras palavras (vídeo acima). Tínhamos uma paciência enorme, eu e a Carol (hoje percebo). Brinquei com a Catarina e com todos os brinquedos dela. Ou, pelo menos, tentei. De alguns, ela gostava mais. De outros, a gente gostava mais... Hoje, a Catarina chega com dois ou três livros "para ler" à noite. Tem uma coleção da Disney. Estamos comprando, para ela, aquela coleção da Folha. Mas não entendo muito bem quando mudam o final de uma história clássica... Na da cigarra e da formiga, por exemplo, quando chega o inverno, a cigarra é humilhada pela formiga, por não ter trabalhado no verão, mas seus amigos, que se divertiram com ela durante a estação quente, dão um jeito de abastecê-la com alimentos e bebidas, deixando a formiga avarenta "sozinha" no frio... Na minha infância, eu ficava muito impressionado quando o nariz do Pinóquio crescia, suas orelhas se convertiam em orelhas de burro e ele começava a zurrar. Achava pavoroso. Morria de medo de que acontecesse comigo... Lemos tanto para a Catarina ― a pedido dela ― que, num ritmo de dois ou três livros por noite, ela já esgotou sua biblioteca algumas vezes, e acabou decorando as palavras e as frases associadas às ilustrações. De alguns livros, sabe até os autores (!)... Claro que não resistiu ao apelo da Galinha Pintadinha, mas logo sua personagem preferida passou a ser a Branca de Neve ― que lemos dezenas de vezes pra ela (a ponto de eu poder reproduzir sem ler) ―, e, mais recentemente, a Chapeuzinho Vermelho, cujas variações incluem, até, uma do "lobo bonzinho" e outra, violenta, em que o lobo é morto ― pela Chapeuzinho.


Catarina cantora (2012)

* Mas a aula preferida da Catarina é a de música. Ficamos roucos de cantar pra ela, quando era bebê. Cantávamos, no carro, para distrair, quando havia trânsito ou quando estava, simplesmente, demorando a chegar. "Alecrim dourado" foi uma das primeiras canções que ela pedia para repetir. "Sapo cururu", também. "Borboletinha" foi uma das primeiras que ela aprendeu a cantar sozinha. Com a Mamãe, cantava "Los pollitos" e "Arroz con leche". A Galinha Pintadinha ensinou outras tantas pra ela, é verdade. Todo o resto, ela aprendeu na escola. Já o teatro, os musicais, proporcionaram um outro nível de experiência. Ela ficou chocada, depois, hipnotizada, quando viu Tic Tic Tati, na primeira e na segunda vez (respectivamente). Quis cumprimentar a cantora Fortuna. E memorizou algumas das letras de Os Saltimbancos, ainda que a montagem não fosse das melhores. Ela gosta do Chico Buarque. Sabe partes da letra de "A Banda". E outro dia conseguiu detectar o sotaque: "É carioca, Papai". A escola, no ano passado, fez muitas atividades ligadas a Vinicius de Moraes. Leram A Arca de Noé (que eu, por exemplo, nunca havia lido). E um dos brinquedos preferidos da Catarina, por um tempo, foi o violão, que ela pegava para imitar a professora. (Me pedia para tocar o meu, mas estou enferrujado...) Eu nunca tive música na escola, ainda que adorasse. Fui estudar guitarra e, depois, violão, mas já era adolescente, "jovem adulto". Lembro do Ed Motta questionando por que deveríamos estudar literatura e, não, música. Por causa da nossa língua. Por causa da nossa linguagem. Por causa da nossa História. Por uma questão de "comunicação e expressão"... Mas entendo ele, claro. E concordo até certo ponto. Se alguém tem mais sensibilidade para a música ou para as artes plásticas, por que precisa passar pela literatura, pelo "discurso"? Nietzsche, que idolatrava a música, teria concordado. Já Platão, que colocava o discurso (logos) acima de todas as coisas, não.


A Catarina, nós e suas primeiras professoras (2012)

* O mais impressionante, para mim, é que a Catarina está aprendendo a ler. Sozinha. Tem apenas três anos. Está na iminência de fazer quatro. Sozinha, em termos, claro. Não era nosso interesse que ela "queimasse" etapas. Mas começou pedindo para escrever o próprio nome. Aprendeu as letras de "Catarina". Depois, as letras dos nomes da família, e dos amiguinhos. Quando nos demos conta, ela já conhecia quase todo o alfabeto. Daí, começou a brincar com as sílabas. E, mais recentemente, monta (e desmonta) palavras... Eu comecei a ler com o dobro da idade. E lembro que a Mamãe sentava do meu lado, todos os dias, para fazer a lição. É mais fácil para a Catarina hoje? Foi mais difícil para mim antes? Não sei... Eu e a Carol já ficamos saudosos de pensar que ― um dia (mais pra frente) ― ela não vai mais nos pedir para ler as historinhas. Vai ler sozinha... Além da Tia Lúcia, lembro da Tia Neuza (hoje no meu Facebook), da Tia Cristina, da Dona Eudecir, da Tia Márcia, da Tia Eliete e da Tia Zizi, minhas professoras no primário. Do ginásio, lembro mais da Nilda, de Desenho, matéria em que eu ia bem. E do professor Sérgio, o melhor de Português. Do colegial, lembro do professor Francisco, que ficou meu amigo, de Biologia. Lembro do Keller, porque ia bem em Física (passava no terceiro bimestre). Do Cursinho, lembro da Giselda, de Redação, que me deu o meu primeiro "dez". Lembro do Renan, que saiu mas ficou marcado, de História. Lembro, também, do Edu, e do Maurício, de Matemática, de quem a gente gostava. Da faculdade, lembro do Guidorizzi, que amava "Cálculo" como ninguém. Lembro do Edson Fregni e da Edith Ranzini, dando "Circuitos Digitais". Lembro de assistir ao Nicolau, dando "História das Ideias" (quando eu fugia da Poli). Lembro do Hansen, dando "Literatura Brasileira IV". Lembro do Roberto Bolzani Filho, num curso sobre a Metafísica, de Aristóteles. E lembro do Renato Janine Ribeiro, sobre Maquiavel... A Catarina terá lembranças como essas da sua escola e dos seus professores? Só sei que nós, eu e a Carol, já temos várias: da Dona Adriane, da Dona Valéria, da Dona Marcela, da Dona Adriana... as primeiras professoras dela ;-)


Julio Daio Borges
São Paulo, 29/5/2014


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