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Quarta-feira, 13/8/2014
Tectônicas por Georgia Kyriakakis
Humberto Pereira da Silva
+ de 16100 Acessos


Tectônicas, 2014, metal, mármore, pigmentos (detalhe)

A artista baiana de Ilhéus radicada em São Paulo Geórgia Kyriakakis faz jus a atenção cuidadosa da crítica, de estudiosos, de apreciadores em geral da cena artística no Brasil nas duas últimas décadas. Com uma trajetória que se inicia na segunda metade dos anos de 1980, é responsável por intensa atividade: presença constante em diversas mostras individuais ou coletivas no Brasil e no exterior. Destaco aqui as exposições "Coordenadas", no Espaço ECCO (2011), e "Meridianas" (2013), na Funarte, "Beelden uit Brazilie", no Sterdelijk, Holanda (1996). Ativa, antenada nos movimentos e debates recentes, criadora de proficuidade destacada, o reconhecimento de sua intensa atividade nos anos recentes se refletiu no Prêmio Funarte de Arte Contemporânea em 2012.

Quem quiser conferir o estágio atual dos trabalhos de Geórgia, recomendo visitar a Galeria Raquel Arnaud, que exibe a exposição Tectônicas entre 4 e 29 de agosto. A obra que dá título à exposição é uma instalação que alinha, inclinadas e recostadas numa parede, placas de ferro em forma de paralelogramo de dimensões variáveis e quinas sem padrão definido. A disposição dos paralelogramos no espaço proporciona interseções casuais entre seus lados, cujas bases se apoiam em irregulares blocos de mármore no chão. Em três placas, espaços vazados formam letras que dão origem às palavras "estreito", "deserto" e "pacífico"; estas mesmas palavras estão grafadas no chão, respectivamente ao lado das placas que as contém.

Além desta obra, que se destaca à primeira vista, o visitante da exposição verá ainda Vento, Equador, Vidros da Patagônia, uma série de fotografias de lagos da Patagônia - cada qual, a partir da base, com um fragmento da imagem coberta por um pó plúmbeo - e, separando em duas partes o espaço expositivo, uma linha oblíqua de irregulares blocos de mármore da mesma dimensão dos que servem de apoio às placas de ferro. A unidade das obras é dada pela persistência de linhas que se cruzam ao acaso, pela sobreposição de planos e por arranjos que se equilibram numa horizontalidade que desconcerta em razão da falsa percepção de deslocamento do centro de gravidade.

De fato, todas as obras na exposição sugerem - o que do ponto de vista da física é equívoco - uma reorganização sensitiva do eixo de gravidade da Terra. A persistência no entrecruzamento de linhas, de sobreposição de planos e percepção difusa do senso de horizontalidade é uma constante nos trabalhos da artista. De suas obras anteriores que exibem essas constantes destaco, da exposição "Coordenadas", Deixa rolar (2010), Horizontes elásticos (2010), Por motivo de força maior (2010) e Genius Loci - "Espírito do lugar" (2011).

Em Deixa rolar, com relação ao plano do chão, uma mesa é inclinada num ângulo de aproximadamente 45º; sobre a mesa está fixada uma cadeira. Outra cadeira, devidamente apoiada no chão, encontra a tábua da mesa em seu banco. Em volta desta mesma cadeira, cobrindo suas pernas traseiras, um monte de pó carbonizado. O arranjo da obra sugere, equivocadamente, que o monte de pó teria escorrido da mesa. Ora, em planos distintos, o pó na mesa e o no chão estariam sujeitos a ações igualmente distintas da gravidade.

Nesse mesmo sentido, as imagens nas fotografias da série Genius Loci deixam a sensação de perda de centro de gravidade. Geórgia foi fotografada em pé numa rua acentuadamente inclinada, mas firma o corpo numa posição perpendicular à rua. O enquadramento da fotografia, no horizonte da rua, gera a sensação de estranheza com respeito à fachada de casas ao fundo. As linhas destas, obviamente em desacordo com a da rua, são vistas com acentuada inclinação. Novamente, em planos distintos, Geórgia e as casas estão sujeitas a ações distintas da gravidade.

O que se tem com isso - em Tectônicas, Deixa rolar ou Genius Loci - é um jogo que força o olhar o focar inclinações que perturbam o conceito físico de centro de gravidade. Claro, Geórgia não creio esteja explicitamente interessada em discutir leis da física, mas, assim suponho, com o quanto estas carregam de metáfora, quando entendidas em nossa percepção do mundo. Vale dizer: o quanto de enganoso é traduzido por sensações de equilíbrio de desequilíbrio; ou mesmo, o quanto nós nos habituamos a tomar por absoluto o que, com um deslocamento de eixo, perturba a maneira como convencionamos ver o mundo.

Merece realce por isso em Tectônicas as palavras "estreito", "deserto" e "pacífico". Ora, estas - se tomadas como adjetivos - implicam numa semântica para a qual, num primeiro momento, causa estranheza buscar aproximação: estreito é uma pequena abertura que limita a passagem; deserto é um espaço desabitado, vazio; já pacífico é aquele que conduz a paz. Mas, cabe ponderar, se entendidas como substantivos são acidentes geográficos: Estreito é um canal de água que corta uma massa de terra e liga dois espaços aquosos; Deserto é uma região que recebe pouca precipitação pluviométrica; Pacífico é um oceano, a maior massa de água da terra. Ou seja, para o olhar do espectador, a mudança semântica e a alteração de sentido para as palavras; de maneira similar, a mudança de enquadramento nas fotografias de Genius Loci gera perda de referência do centro de gravidade.


Jannis Kounellis, Die Eiserne Runde, Hamburger Kunsthalle, 1995 - metal, carvão, estopas

Os trabalhos de Geórgia são comumente identificados à Arte Povera, mais especificamente a Jannis Kounellis. De fato, há aproximações inegáveis entre eles; basta contrapor a instalação Die Eiserne Runde (1995), de Kounellis, a Tectônicas para se notar o quanto sua arte deve a este artista. Mas, mais do que o superficial confronto de obras, em ambos a referência ao filósofo grego Parménides. Para este, "a unidade é a imobilidade do Ser"; em outras palavras, o mundo sensível é ilusório; qualquer que seja a mudança, o movimento, não há alteração naquilo que o Ser efetivamente é.

A filiação à Arte Povera e a Kounellis, no entanto, é um dado que limita as realizações artísticas de Geórgia. Assim como em relação à Kounellis, bem pode se procurar em suas obras aproximações com artistas como Mary Miss, Stake Fence (1970), Richard Long, Walking a line in Peru (1972), ou Alice Aycock, A Simple Network of Underground Wells and Tunnels (2011). Do mesmo modo que para Geórgia, uma fotografia de Long é uma obra em sim mesma, ou é lá, em algum lugar, na Patagônia, por exemplo, que está a obra real, da qual nós, na galeria, vemos tão somente a evidência documental?

Este um enigma cuja solução não se fia na primazia da presença do objeto de arte. Ao dialogar com referências como as oferecidas por Mary Miss, Richard Long ou Alice Aycock, assim entendo, Geórgia situa suas realizações numa posição impar; de sorte que a exposição "Tectônicas" - devidamente articulada à sua trajetória de quase três décadas, tanto quanto em sintonia com movimentos e artistas recentes da cena artística - merece, pois, toda a atenção de todos que decidam olhar os fenômenos do mundo de um ponto de vista artístico.


Richard Long, Walking a line in Peru, 1972, fotografia


Humberto Pereira da Silva
São Paulo, 13/8/2014

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