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COLUNAS

Terça-feira, 9/9/2014
Entrevista com Dante Ramon Ledesma
Celso A. Uequed Pitol
+ de 5600 Acessos

"Cantando me he de morir / Cantando me han de enterrar, / Y cantando he de llegar / Al pie del eterno padre: / Dende el vientre de mi madre / Vine a este mundo a cantar."Este trecho do "Martin Fierro", que tão bem define a visão de mundo e o destino do homem do pampa, bem poderia servir como uma carta de intenções para Dante Ramón Ledesma, 61 anos, um dos maiores músicos latinoamericanos vivos e morador de Canoas há 35 anos. Em primeiro lugar, porque Dante - como é conhecido pelos fãs e amigos - é um autêntico homem do pampa: nascido na pequena Rio Cuarto, nas proximidades da fronteira entre as províncias de Córdoba e La Pampa. Em segundo lugar, porque,como poucos, fez realmente de seu canto maneira de viver e cantar a vida, não só a sua mas a de todos nós, gaúchos, argentinos, brasileiros, latinoamericanos, que cresceram ao som de "Orelhano", "Negro da Gaita", "O Grito dos Livres", "A vitória do trigo" e tantas canções que ultrapassam os sotaques, os idiomas, os ritmos e as fronteiras. Afinal, como o próprio Dante diz nesta entrevista, a arte não tem fronteiras e - como o diz uma de suas canções - "não se pede passaporte pelos caminhos do pampa".

* * * * *

O senhor é natural de Rio Cuarto, que é uma pequena cidade bem característica do universo histórico e cultural do pampa, não?

Sim, exatamente. Inclusive é uma região que tem costumes muito semelhantes aos do Rio Grande do Sul. Acho que o centro-sul da Argentina tem muitas semelhanças com o Estado. Essa parte missioneira parece mais com a Bolívia e o Paraguai e o Rio Grande do Sul parece mais a planície da Patagônia e do Uruguai.

A cultura tradicional do pampa sempre esteve presente na sua vida?

Minha vida é muito simples. Eu estudei em colégios privados de linha franciscana e no seminário São Boaventura. Ali estudei arte e idiomas: latim, hebraico, francês, inglês e algo de italiano, isso no currículo até os 12, 14 anos. Aos cinco e seis anos já cantava. Todos os familiares da mãe cantavam e tocavam. Minha criação foi sempre com pessoas dedicadas a arte. Com 8 anos, eu andava em festivais e com 15 anos já escrevi uma musica vencedora do festival de Cosquin, de Córdoba, onde surgiram Violeta parra, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, Leon Gieco, enfim, todas as revelações artísticas argentinas passaram pelo palco de Cosquin.

Como aprendeu a tocar?

O Bombo Leguero aprendi sozinho. Fui estudar então numa escola de arte, onde aprendi a tocar violão. No colégio, os padres me ensinaram música sacra, canto gregoriano. Minhas técnicas vocais são gregorianas. Sigo católico ainda hoje. Fiz parte do grupo Carismáticos, e por isso a junta militar argentina, dirigida por Jorge Rafael Videla, perseguiu os movimentos religiosos, porque não estavam dentro do programa, consideravam-nos subversivos porque ajudávamos os carentes. Era um grupo de ação social, mas com muita participação religiosa. Participávamos muito das comunidades. Sigo religioso até hoje. Só vivemos tranqüilos quando nos preocupamos com nossa vida interior e não com a alheia. Ao mesmo tempo, há que se ter a preocupação com a sociedade e com o próximo. Assumo tudo o que me rodeia. Não me deixo guiar. Deus é sempre maior que todos nós e um dia a ele prestaremos conta. Quando canto expresso exatamente o que sou.

Quando veio para o Brasil?

No dia 11 de abril de 1978

Já conhecia o país?

Já conhecia havia tempo. Sempre passeei muito por aqui como estudante. Era pegar a mochila, o violão e ir para a estrada.

Veio por perseguição política?

Não tanto. É que, quando você tem dezenas de amigos desaparecidos, pode dizer que vive com muita insegurança (risos). E eu trabalhava na Câmara Criminal de Investigações militares, e ali havia muita coisa que eu sabia que acontecia e que ia acontecer. Um dia que vi que começaram a me perseguir, resolvi vir ao Brasil a passear e disse a minha esposa que não voltaria mais. E não voltei. Vim para Niterói, em Canoas, onde morava a avó de minha esposa, meus sogros, e por 5 anos vendi livros. Foram anos maravilhosos. Eu levava meus livros, fazia uma palestra de sociologia, encontrávamos pais e mestres, e quando estourou "Orelhano" foram esses que prestigiaram o meu trabalho e me deram força para seguir acreditando que o canto era possível e é possível.

Em determinado momento o senhor fala de "orelhano, brasileiro ou argentino"..

Sabemos que devemos como ser humano nascer numa geografia, mas você escolhe a liberdade de seus sonhos pacificamente, onde será a sua pátria. A minha pátria é onde eu amanheço. Onde há vida a ser defendida ou inocente a ser defendido, se meu canto ou minha luta serve, esta é minha pátria. Não me interessam bandeiras ou raças. Me interessam a dignidade humana que deve ser respeitada. Dizem que sou de esquerda, outros dizem que sou de direita, e eu não sou nenhum deles, e sim a favor da verdade e da dignidade humana. Onde um negro seja discriminado não me serve o governo. Onde um pobre seja esquecido ou omitido não me serve a administração. Onde há um político que não cumpre, ele para mim é um desvirtuado. Sou a favor de algo: não prometa, mas faça o necessário para podermos todos viver bem. Não sou dono da verdade, mas posso garantir que há muito para aprender. Mas nessa sociedade rápida e nesse mundo tão imediato que temos hoje, se a gente não é aprendiz permanente, se torna velho em seguida, com poucos anos. Quando você se acha dono da verdade quando é jovem, na verdade é um velho, e não se torna nunca um adulto. Adulto é aquele que ganha anos e diz "que maravilhoso meu neto me ensinou tal coisa que eu não sabia". Aí nos damos que à vida viemos para aprender. Aquele com 25, 30 anos que se acha dono da verdade será um fracassado ou autoritário. Por isso meu canto retrata exatamente o que eu sou. Meu avô morreu com mais de 100 anos e ele dizia uma frase maravilhosa: "não me canso de escutar para poder falar a palavra certa".

Chegando ao Brasil em 1978, já conhecia o panorama musical brasileiro?

Sim, um pouco. Tinha muita admiração pelo samba. Gostava de Benito de Paula, Carmem silva, mas quando vim comecei a conhecer outro Brasil, um Brasil de gaita, violão, bota e bombacha. Na Argentina conhecíamos samba, Roberto Carlos, Tom Jobim, Elis Regina, Vinicius de Moraes, Toquinho, mas a música gaucha não.Lembro de uma ocasião em que vínhamos caminhando, eu e minha esposa, e numa esquina vimos um bailão com um conjunto chamado "Os Araganos", e ali conversei com um deles, o Ari - de quem fiquei amigo depois - e ele perguntou "tu sabe cantar alguma musica?". Então cantei um chamamé com eles, eles em cima do palco e eu na janela. Foi impactante.

A música brasileira tem muito espaço na Argentina, mas o Brasil nem sempre é um grande consumidor da música argentina.

Porque no Brasil tem muito regionalismo, música pantaneira, sertaneja, a música da Bahia. Falando esses dias com o Almir Sater , o filho dele disse que existem mais de 20 estilos de musica pantaneira. Acho que o Brasil não tem tempo para a música de outros países (risos). Por isso acho ruim o excesso de divulgação americana nas rádios. Eu ouço certos programas televisivos e eu tenho vontade de perguntar a eles: , porque as bandas brasileiras têm de cantar em inglês? É como se fosse preciso cantar em inglês para dizer que tem qualidade.

Qual música sua, em sua opinião, é a mais relevante?

Acho que é "Orelhano". Lembro que quando eu cheguei em 2008, na Espanha, eram seis da manhã e fomos fazer show lá, no aeroporto. Estavam tocando "Orelhano". Esse é o momento onde tu paras e pensas: "meu Deus, até onde chegou a música". Eu não a levei. A musica foi por si, porque a arte é assim, ultrapassa fronteiras, a arte não fala, mas acontece. Por exemplo, chilenos e argentinos se dão muito pouco, mas a musica dos dois ultrapassa fronteiras. As adversidades desaparecerem na arte. Ela apaga mágoas e diferenças.

Já lhe pediram para cantar em inglês?

Sim, já . Não cantei, porque não é meu idioma. Admiro vários cantores e bandas de rock, como Freddy Mercury, the Who, led Zeppelin, Jimmy Hendrix, Carlos Santana. Mas em inglês, não canto.

Já tocou nos EUA?

Não, já me convidaram para ir, mas não é do meu agrado. Nada que se fale em inglês, nem de Grã-Bretanha e nem EUA. Já me convidaram e não quis. Meus próximos projetos são ir a Cuba, Porto Rico e Venezuela no ano que vem, com Ernesto Fagundes. E vou a Salta, com convite da prefeitura de Salta, para ir lá tocar em todas as cidades ao redor de Salta. Vamos lá fazer um trabalho bem grande.

Como a experiência de ter vivido num regime de forte repressão, como a Argentina do general Videla, influenciou o seu trabalho?

De várias maneiras. Na Argentina, muitos intelectuais e artistas saíram do país. Lembro, contudo, de um momento especial. Atahualpa Yupanqui, no Cosquin de 1977, foi chamado ao palco. E ele subiu. Ele entrou sem violão, parou no microfone, cumprimentou a todos e disse: "enquanto tenha irmão desaparecidos sob esta bandeira - a bandeira argentina - e estes responsáveis por estes inocências fardados e recebendo ordens da CIA prefiro morrer neste palco". Exatamente 24 horas depois estava Yupanqui na frança. Só não o mataram porque não tiveram coragem de matar uma figura como ele. Aí tu vês o homem.

A sua presença no Brasil é um produto indireto dessa repressão. Claro que é sempre ruim deixar a sua terra natal, mas nós, em compensação, ganhamos o senhor.

Eu vim com muita alegria ao Brasil e sou agradecido a tudo que acontece comigo no Brasil, o que acontece e poderá acontecer. Tenho filho aqui, amigos extraordinários, e a liberdade de cantar ou escrever em paz. Nunca fui censurado.

Interessante o senhor ressaltar isso de não ser censurado, como um valor importante. A sua geração não teve isso. Para ela, não ser censurado tem um valor especial (risos)

Sim, pois vivi numa época em que isso não exista. Falei com Eduardo Galeano ano passado e ele me disse uma coisa enquanto tomávamos vinho: "Dante, há duas coisas que os braisleiros não se deram conta que tem. Além de terem um imenso continente como pátria, o Brasil tem um povo que apóia a intelectualidade". Porque? Porque o brasileiro é ameno, ele te ouve e ao mesmo tempo te ensina. E tu podes equilibrar a vida. A Argentina tem o radicalismo do porteño, a contradição com a vida provinciana, no norte são folclóricos, no sul são fechados, os povos bascos e andaluzes que formam parte da Patagônia são impenetráveis, ele tem seu jeito de viver e não te ouvem, aqui no Brasil onde tu vai tu é ouvido. Isso se deve a idiosincrasia do povo, porque o Brasil tem uma etnia extraordinariamente multiplicável e essa etnia tem frutos, italiano com índio, alemão com polonês, argentino com brasileiro, isso não é mescla e sim um conteúdo social, e isso em alguns outros países não existe. No Brasil há uma raça, o brasileiro, com todas as diferenças regionais, mas uma raça só.

Assim lhe pareceu quando veio para cá pela primeira vez?

Sim, fiquei impressionado com isso. No carnaval da Bahia, por exemplo tem gaucho e paulista. Num rodeio em São Paulo tem ginete de todas as partes do Brasil. No RS já vi cariocas pilchados e paulistas pilchados, miscigenando a sobrevivência. Isso dá harmonia antropológica. Isso para mim só o Brasil tem isso. Em Buenos Aires, por exemplo, existe a tendência de ver o interiorano como inferior.Aqui não existe fanatismo de raças, diferenças marcantes, letais. Isso me impressiona todos os dias no Brasil. Eu vejo o trato do brasileiro, vejo como ele se fraterniza e se harmoniza. De um jeito ou de outro o brasileiro se harmoniza

O senhor sentiu-se harmonizado?

Sempre. Por isso agradeço tanto ao Brasil.



Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 9/9/2014

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