A difícil arte de saber mais um pouco | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

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Sexta-feira, 31/10/2014
A difícil arte de saber mais um pouco
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4100 Acessos

Fico particularmente feliz quando alguém me pede a indicação de um livro. Só não fico mais satisfeita porque talvez eu tenha de emprestar meu exemplar, algo que me dói bastante. Em um ou outro caso, tenho dois volumes, justamente para dividir meu sofrimento e reduzir as chances de ficar sem minha querida edição, comprada com carinho e carimbada com meus dados. Sou do tipo que manda fazer ex-libris e que grava umas páginas com carimbo seco. Chiqueza ciumenta, amor pelas palavras.

Mas um dia, uma pessoa próxima espiou minha estante de livros e topou lá com A história da riqueza do homem, de Leo Huberman. Era um volume amarelado e empoeirado, lido durante o ensino médio, quando fazíamos História com um professor que não nos subestimava. O livro estava ali, misturado a outros adquiridos na mesma época. O amigo pediu emprestado, disse que leria logo, prometeu devolver - o que cumpriu - e levou meu volume.

Leu. Foi até rápido, deu pouca notícia, mas comentou, vez ou outra, que gostara de saber umas coisas, que fazia certas conexões com o mundo de hoje, com sua profissão, com as questões da terra na atualidade, etc. Considerou a leitura de bom proveito e me agradeceu pela oportunidade de ler o título. Fiquei feliz com esta chance. Gosto mesmo de ir semeando, numa metáfora do plantar/colher bastante fértil.

Mas daí que a leitura findou, as páginas chegaram ao fim e o amigo sentiu-se apto a ler mais um. Uma lindeza essa história de gostar de algo e querer mais. Viciante mesmo. Fiquei especialmente feliz com o desejo de continuar. Vamos lá, passeie pela estante novamente, quem sabe há algo mais?

O amigo espiou os volumes vizinhos do livro de Huberman. Pensou que talvez o critério ali fosse o tipo, a categoria, o tema. Estava errado. Era só a época em que li as edições, mas estava tudo bem. E depois de sentir-se perdido, numa espécie de labirinto de oportunidades, o amigo me pediu sugestão.

É difícil dar sugestão. Ler é coisa particular. Mas também é coletiva. Quando ler depende de gosto pessoal, fica tudo muito melindroso. Mas eu poderia tentar. Conhecia o amigo razoavelmente e vinha cá com a experiência recente de ele ter gostado de um livro de história. Da riqueza. E dos homens. Então ousei. Bom, na mesma época da escola, li Galeano. Lemos As veias abertas da América Latina, obra da qual não pude sair a mesma. E lasquei a sugestão no amigo.

Ele levou o livro - prometendo devolver, o que também cumpriu. Só que, desta vez, foi muito mais rápido. Devolveu-me um livro quase a atirá-lo em minha cara. Disse ali uns xingamentos, como que a me censurar por ter indicado algo como aquilo. Fui apurar e descobri o que havia acontecido: o amigo não tolerou. Mal conseguiu passar ali das primeiras páginas, achou o autor um maluco, avaliou o texto como "de esquerda", olhou, olhou e não se enxergou ali. Mas, por outro lado, não quis olhar o que não fosse sua própria cara. Xingou. Devolveu como se tivesse vírus. Tirou de circulação, antes que os filhos vissem. Disse que era um absurdo ler aquilo. E não quis mais ler nada da minha estante.

Bem, eu não me ofendi. Na minha estante tem isto e aquilo, tem de tudo, tem pra lá e pra cá. Minha estante balança. Minha estante é um mundo - inteiro, e não de um lado só das coisas. Minha estante tem pra gregos & troianos. E eu fiquei mesmo foi com pena das pessoas que não conseguem sequer conhecer um pouquinho das sabedorias dos outros. Quem são eles? O que eles pensam? Por que não pensam como eu? Por que são diferentes? Por que sou diferente deles? Qual é a lógica deles? Nem isso. Imagina se alguém assim pode aprender?

Aprender é um movimento pendular. Aprender depende de sair um pouco de si e espiar lá, onde nunca estive, para, quem sabe, voltar. Ou não voltar. Aprender é um movimento, antes de tudo. Aprender é um balanço entre uma coisa que eu sabia e outra, que eu não sabia. Às vezes, ainda, uma outra coisa que eu achava que sabia, mas não. Ou uma coisa que eu nem sabia que sabia. Aprender pede tino, tato, um pouco de calma, esforço. Não é sempre lúdico, como querem alguns. Aprender às vezes mexe com coisas enferrujadas, demove, arranha ou arrasta. Aprender pode ser desconfortável, incômodo. Imagina dar-se conta de que não se sabia nada direito? É um horror, para um adulto maduro e formado. Mas se você não pode nem sequer ler...

Eu fiz um esforço mínimo - porque conhecia um pouco a teimosia e a dureza do amigo - para convencê-lo a continuar com o Galeano. Disse a ele que, talvez, fosse interessante ler aquele livro até o fim, conhecer algo daquela história ali, sob aquele ponto de vista. Livro famoso, dezenas de edições, milhares de citações. Vamos ver então? O que será que ele guarda? Mas o amigo não quis. Não quis nem saber - não é essa a expressão?

Alguns dos meus parentes diziam que "saber mais não ocupa espaço". Há uma ou duas frases parecidas com essa. Saber mais é lucro. Mas o que eu fico pensando é que saber mais talvez nos leve a escolher com um pouco mais de informação. Pra que serve tanta informação, tanto relatório, tanto número, tanto texto? Pra tomar decisões. É pra isso que serve saber isto e aquilo. E, mesmo assim, não há garantias sobre perfeição, acerto e precisão.

Eu lamento os amigos que não querem nem saber. Eu lamento crianças que já convivam com isso. Ler - em que dispositivo for - é uma chance de saber mais sobre algo. Ler Galeano ou ler Huberman, ler um teco de Hobsbawm ou um tico de Arendt pode ajudar a balancear melhor as ideias, seja para ir, seja para voltar. Mas, para voltar, é preciso ter ido, para escolher, é preciso ter enxergado, ao menos, dois lados, senão mais.

Fábrica de Chocolates

Livros, de Van Gogh


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 31/10/2014


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