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Terça-feira, 5/3/2019
A menos-valia na poesia de André Luiz Pinto
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 2700 Acessos



O poeta André Luiz Pinto acaba de publicar seu nono livro de poesias, Migalha, pela editora 7Letras. O livro mistura poesia e pequenas peças que poderíamos chamar de prosa.

É um livro em que os poemas são atravessados por uma mistura de melancolia, descontentamento, raiva, descrença e alguma ira - desde a escolha do título, e o poema que dá corpo ao título, Migalha, até poemas que parecem incorporar uma “autobiografia social”, como “Prazer, esse sou eu...” – o livro é uma bota de chumbo que pesa em descontentamento e perde, de certa forma, em lirismo.

São poemas fortes, cujo tom é facilmente verificável numa leitura em voz alta. Há vestígios claros de cobrança ou autocobrança social, como no poema “Ironia, sem dúvida”. Como há também afetos desarranjados movendo versos aqui e ali, fruto de relações amorosas ou familiares, que marcam o poeta em sua memória ou no tempo presente de suas relações. Há uma descrença no presente e no futuro - e não deixa de ser clara, direta, sem preocupação estilística sua prosa: “Resta a escuridão, hora em que a gente acorda e não tem mais nada. É mais ou menos assim que me sinto. Não preciso mais de metáforas. Poderia inventar até algumas agora, mas chega”.

Pode um contexto sócio-político (e, também, existencial) distorcer o desenvolvimento de uma literatura? É o que nos perguntamos ao longo do livro. Sentimos que o poeta está preso a um contexto social tão determinante, e que sua poesia não teme insinuá-lo ao leitor ao longo do livro, mesmo que não o deixe absolutamente exposto, que sentimos um certo prejuízo estético nessa equação. Esse contexto funciona como um chão esburacado que não o deixa andar em linha reta. Isso torna esse livro diferente dos outros (onde o lírico supera o social), com exceção, talvez, de Mas Valia, que se aproxima desse e onde o chão começou a ficar pedregoso e o nervo começou a ficar exposto.

No posfácio do livro, Tarso de Melo, vê positividade em tudo isso: “uma sabotagem, um prazer em decepcionar, uma forma abrupta de expulsar o leitor do poema”. Essa “indisposição”, que Tarso vê como marca da poesia de André, pode estar relacionada a uma descrença do escritor na função antisocial do poeta e da própria poesia enquanto arte maior. Essa descrença é uma espécie de inversão, pois ao acreditar que a POESIA não redime e por isso deve se degenerar em sua integridade (integrando-se aos discursos da verdade, do social), o poeta se esquece que a não redenção é o seu valor máximo. A arte só sobrevive quando verdadeiramente se nega ao mundo, quando não se adequa aos discursos de salvação, ajustamento, enquadramento. Ela deve ser, sim, o objeto perigoso que não se presta à utopia da República (de onde Platão a expulsou). Por isso, a marginalidade da poesia é muito superior à marginalidade das outras artes.

O diálogo com o mundo na poesia e na prosa de Migalha não deveria curvar-se ao não sentido dado pelo mundo, revelando-o tão diretamente. É forte a presença de afirmações como a seguinte: “tudo isso que é o mundo... segue sem dar motivos às nossas vidas”. Um destempero que na poesia seria resolvido na afirmação da própria poesia, que se satisfaz em ser poesia, pouco importa a qualidade do mundo.

A poesia deve transcender duplamente o individual: pelo mergulho nele, descobrindo o subjacente, o ainda não captado nem realizado no social; e pela expressão, encontrando através da forma uma participação universal. Nesse sentido, reconciliar-se com a linguagem, é o que dará uma nova clave para André Luiz, um retorno ao que há de melhor em sua poesia inicial.

O caráter autônomo da poesia, sua constituição por leis internas próprias (que não tem nada a ver com formalismo purista), é o oposto da coisificação da linguagem. Como afirmava Adorno, a relação do “eu” com a sociedade é tanto mais perfeita, quanto menos tematizada no poema; o não social do poema acaba sendo o seu social: isso porque a linguagem lírica é uma contraposição à linguagem comunicativa. O mais importante do poema é aquilo que ele se nega a continuar dizendo.

Há versos de Migalha em que André Luiz alcança os momentos luminosos da grande poesia, sem precisar nomear o desastre: “Estou no mar/ O céu é de um turquesa inesquecível/ Sem brisa/ Sem chance alguma.” Eles pipocam aqui e ali, mas são, por vezes, cortados em seu lirismo pela navalha da realidade imediata que os outros versos indicam.

Outro poema em que podemos exemplificar esse poeta maior (da linhagem de um Georg Trakl, Paul Celan ou Stefan George), é Picada, que reproduzo à seguir:



PICADA

Foi numa noite

estranha...

Eu não conseguia parar

A coberta, por cima do corpo, fazia

do meu corpo uma montanha

E o braço, caído para fora,

da cama, fazia do velho braço um rio...

Mesmo assim sai à noite

Havia tantos ao redor. Gritei, sem ser ouvido.



UM RUÍDO AQUI

O poeta Charles Baudelaire teve que se ater com a literatura de cunho social quando escreveu um ensaio sobre Victor Hugo, pensando principalmente no lugar que uma obra como Os Miseráveis ocuparia na literatura de sua época. Para Baudelaire, enquanto existir danação social, ignorância e miséria, “livros da natureza deste aqui poderão não ser inúteis”. É o momento, segundo o autor de As Flores do Mal, em que “o poeta apodera-se da atenção pública e a curva para os abismos prodigiosos da miséria social”.

No entanto, esse tipo de literatura despertava nele a seguinte interrogação: “saber se a obra de arte deve ter outro objetivo além da arte, se a arte não deve exprimir adoração senão para si mesma, ou se um objetivo, mais nobre ou menos nobre, inferior ou superior, pode lhe ser imposto”.

O debate sobre a função social da arte não é nova, como sabemos, e aparece também em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, na seguinte formulação: “A política é uma pedra amarrada ao pescoço da literatura e que em menos de seis meses a submerge. A política no meio dos interesses da imaginação é como um tiro no meio de um concerto. É um ruído que é cruel sem ser enérgico. Não harmoniza com o som de nenhum instrumento. Essa política irá ofender mortalmente metade dos leitores, e aborrecer a outra, que a viu de uma forma muito mais interessante e enérgica nos jornais da manhã”.

Dentro dessa problemática, Baudelaire defende Victor Hugo: “Não é útil, acaso, que, de tempos em tempos, o poeta pegue um pouco a Felicidade egoísta pelos cabelos e lhe diga, esfregando-lhe o focinho no sangue e na imundície: ´vê tua obra e bebe tua obra`?

Parafraseando Théophile Gautier, vamos traduzir a frase acima dessa maneira: “de nossa boca de poetas comumente saem diamantes, rubis e pérolas; gostaríamos, no entanto, de vez em quando, de vomitar um sapo, uma cobra e um camundongo, mesmo que fosse só para variar”.

No século XX o debate arte/sociedade correu páginas entre Walter Benjamim, Adorno e Luckács. Para Adorno, o social aparece de modo tão mais manifesto nas obras, quanto menos representada nela estiver. Benjamin, no Ensaio sobre Brecht, vai na mesma direção: “a obra só pode ser politicamente certa, se ela o for literariamente”. O debate é longo, e o espaço aqui não é suficiente para problematizar em profundidade tais ideias. Conclui-se que, dentro dessas questões que infernizaram essa geração, discutindo os prós e os contras do social na arte, ficou o seguinte, num resumo de Benjamin: “Se o escritor revolucionário existe, ele deve ser revolucionário por ser escritor, mostrando ter compreendido, enquanto tal, as razões revolucionárias de se ser literato”.

Sartre, em seu livro O que é literatura, também se ocupou da questão, temendo a “sociologização da arte”: “Se o poeta narra, explica ou ensina, a poesia se torna prosaica; ele perdeu a partida”.



CONCLUÍNDO: MIGALHA INDESPEJÁVEL

Essa “não pretensão à poesia” do livro, como apontou Tarso de Melo, acreditando que mesmo assim sejam poemas “elétricos” – eu diria, irados - leva o poeta a cometer um prosaísmo proposital que busca situá-lo no contexto de uma classe social (essa amplamente anotada por Tarso, a partir de uma longa nota do texto de Alberto Pucheu, que avalia essa geração de poetas como de pessoas que vêm do subúrbio e passam pela universidade – geração Lula), como indica O subúrbio lembra você.

É evidente que as “anotações sociais” na poesia de André Luiz não são diretas, embora, como comenta Ricardo Vieira na orelha do livro, “melhor retrate os dias atuais”, como no poema “Moço tá nervoso” onde uma tensão implícita no ar revela o drama que todos estamos vivendo na expectativa dos tempos obscuros que se aproximam.

O que preocupa o crítico é a prevalência de uma poética voltada para a interpretação social (ou interprenetração do social na poesia). Embora contida (ou represada) ainda por um desejo de poesia que André Luiz não abandona, e que faz de Migalha um livro “indespejável” (Tarso), esse enamoramento com o social aflora aqui e ali podendo tornar-se a poética do escritor. O risco é fazer-se datado, preso a circunstância histórica específica, como aconteceu com a arte engajada do período da ditadura no Brasil, que fez dessas obras mais um panfletário político (digno de respeito, mas faltando-lhes a substância vital da arte), que só é retomada (como documento da história, ufaaa!) a partir das mesmas circunstâncias que as criaram. Claro que o caso de André Luiz está longe do planfletário, pois a tensão entre arte e sociedade se mantém de alguma forma viva na sua poesia.

Não que a poesia não possa desvendar o drama social, revelar o eterno fracasso de uma sociedade ideal, mas deve fazê-lo a partir do extremo. Ou será apenas uma virtualidade desse extremo. Para um poeta, uma vez seguro do fracasso final, da migalha que lhe resta, o que lhe redime é, unicamente, a boa poesia.



Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 5/3/2019


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