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Terça-feira, 22/1/2019
As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon
Jardel Dias Cavalcanti

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Em um tempo não muito remoto, os rios e riachos não eram ainda poluídos por redes de esgoto ou lixo. A roupa era lavada nesses rios de água límpida, pois, em geral, as redes de água não serviam à toda cidade.

O pintor mineiro Elias Layon ainda guarda lembranças desse tempo, pois segundo sua memória, sua mãe lavava as roupas de casa num desses riachos. Duas telas recentes do artista, final de 2018, visitam essa prática comum daqueles tempos. “As lavadeiras” refaz o trabalho dessas mulheres que desciam para o rio com seus baldes e com suas trouxas de roupas, que eram carregadas sobre a cabeça até o local do trabalho.



Mariana, a primeira cidade de Minas Gerais e cidade do artista, é o cenário dessas telas. Além da paisagem do rio e árvores, observa-se ao fundo igrejas e casarios coloniais típicos da região. Não é objetivo do artista fazer papel de historiador, tratando o tema das lavadeiras como documento. A arte não é documento, é uma invenção, fruto da fantasia e das lembranças do artista, que refaz uma dada situação em termos de trabalho artístico, buscando tingir a realidade, ou ultrapassá-la no que ela tem de prosaico, para transformá-la numa supra-realidade ou fato estético.

O tema das lavadeiras não é uma novidade no campo da representação artística, e para ficar em apenas dois exemplos, veja-se os desenhos e telas de Honoré Daumier sobre as lavadeiras do rio Sena, em Paris, ou as “Lavadeiras nas margens do rio Touques” (1890), de Boudin. Cumpre dizer que a aproximação temática aqui se diferencia, no caso de Layon e Daumier, sendo que no primeiro caso, há uma perspectiva de se fazer da pintura uma experiência estética pura (apesar da memorialística que o tema lhe traz), enquanto em Daumier há uma preocupação social de denúncia do trabalho pesado a que as lavadeiras profissionais são submetidas.



Já em Boudin, pode-se inferir uma aproximação com Layon que é de natureza mais poética e próxima ao impressionismo, no sentido de uma pintura de empastes, cores e luminosidade.



Há também na lírica de Victor Hugo uma menção às lavadeiras, talvez uma ode a essas trabalhadoras:

Ô laveuse à la taille mince, Ó lavadeira com cintura fina,
Qui vous aime est dans un palais. Quem te ama está em um palácio.
Si vous vouliez, je serais prince; Se você quisesse, eu seria o príncipe;
Je serais dieu, si tu voulais. Eu seria deus, se você quisesse.

Layon é um poeta das tintas, das cores, das texturas e luminosidades diáfanas. Faz o mundo mergulhar numa espécie de neblina, que nos transporta, dessa forma, para um universo quase onírico. O tempo da lembrança, talvez, só possa ser assim reavivado, como um espaço da sensibilidade tingido pelas tintas da emoção e que encontram, nessa superfície diáfana das telas de um artista, seu lugar privilegiado para existir.

O espaço da tela “As Lavadeiras” é submetido a uma veladura delicada e fina que diminui a presença da luz que esbate-se sobre as figuras impedindo que sejam vistas nitidamente em seus contornos. Assim também opera nossa memória, nossas lembranças e emoções passadas.

O que vemos nas duas telas é o cenário de um riacho, onde mulheres lavam a roupa, algumas dentro do riacho, outras fora, algumas esfregando a roupa e outras carregando a trouxa, enquanto crianças no entorno brincam livremente soltando pipa ou jogando bola, hábitos também comuns naquele tempo quando suas mães traziam as crianças para o espaço do trabalho. Nos varais, algumas peças de roupas secam, ao lado de uma mata que emoldura acima a aparição da cidade com suas casas e igrejas.

Layon, como excelente colorista que é, pincela brilhos aqui e ali sob o impacto de variações cromáticas que se harmonizam como numa bela composição musical. Seus pincéis dão substancial trato a cada pequeno espaço dentro das telas: o chão, as árvores, o casario, as montanhas, o céu, recebem uma gama variada de cores que torna a composição como um todo uma experiência visual encantadora.



A veladura discreta que dilui a paisagem e os personagens numa indefinição delicada nos faz pensar nas descrições impressionistas do escritor Marcel Proust ou na música de Debussy. Um mundo acariciado pela cortina de neblinas como a memória resgatada sob a impressão de um sentimento nostálgico.

O mundo reencontrado nessas telas, onde não há nenhum sinal de urbanização desenfreada, faz da convivência entre natureza, personagens e trabalho uma comunhão ímpar. Os delicados tons de rosas ou azuis que perpassam as telas nos convidam a olhar delicadamente este mundo: um lugar especial do tempo perdido e aqui reencontrado, que o artista recria para que possamos voltar na história, não como quem analisa um documento, mas como alguém que mergulha profundamente nas texturas, cores, cheiros e movimentos internos da natureza que estariam perdidos para sempre se não fosse o trabalho do artista.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/1/2019


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