As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
77164 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Yassir Chediak no Sesc Carmo
>>> O CIEE lança a página Minha história com o CIEE
>>> Abertura da 9ª Semana Senac de Leitura reúne rapper Rashid e escritora Esmeralda Ortiz
>>> FILME 'CAMÉLIAS' NO SARAU NA QUEBRADA EM SANTO ANDRÉ
>>> Inscrições | 3ª edição do Festival Vórtice
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
Colunistas
Últimos Posts
>>> Glenn Greenwald sobre a censura no Brasil de hoje
>>> Fernando Schüler sobre o crime de opinião
>>> Folha:'Censura promovida por Moraes tem de acabar'
>>> Pondé sobre o crime de opinião no Brasil de hoje
>>> Uma nova forma de Macarthismo?
>>> Metallica homenageando Elton John
>>> Fernando Schüler sobre a liberdade de expressão
>>> Confissões de uma jovem leitora
>>> Ray Kurzweil sobre a singularidade (2024)
>>> O robô da Figure e da OpenAI
Últimos Posts
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
>>> Guerra. Estupidez e desvario.
>>> Calourada
>>> Apagão
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
>>> Ícaro e Satã
>>> Ser ou parecer
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A Barsa versus o Google
>>> Sobre a mulher que se faz de vítima
>>> Coleção Por que ler, da Editora Globo
>>> Realismo histérico
>>> Olga e a história que não deve ser esquecida
>>> 6 de Novembro #digestivo10anos
>>> Relendo clássicos
>>> O Presépio e o Artesanato Figureiro de Taubaté
>>> Era Meu Esse Rosto
>>> Do Comércio Com Os Livros
Mais Recentes
>>> Livro Na Vida Dez, Na Escola Zero de Terezinha. Carraher pela Cortez (1994)
>>> Livro Voce Verdadeiramente Nasceu De Novo Da Agua E Do Espirito? de Paul C. Jong pela Hephzibá (2002)
>>> Livro Luz no lar de Francisco Cândido Xavier por Diverso Espíritos pela Feb (1968)
>>> Livro As Perspectivas Construtivista e Histórico-cultural na Educação Escola de Tania Stoltz pela Ibpex (2008)
>>> Livro El Desarrollo Del Capitalismo En America Latina. Ensayo De Interpretacion Historica (spanish Edition) de Agustin Cueva pela Siglo Xxi (2002)
>>> O Fantástico Homem do Metrô 8 edição. - coleção veredas de Stella Carr pela Moderna (1993)
>>> Missão Ninok: se tem medo do futuro não abra o livro de Bernardino Monteiro pela Artenova (1980)
>>> Os Bichos Que eu Faço - coleção girassol 1ª edição. de Telma Guimarães Andrade pela Moderna (1991)
>>> Enfermagem Médico-Cirúrgica em Unidade de Terapia Intensiva de Eliza Kaori Uenishi pela Senac (2008)
>>> Primeiras Linhas de Direito Processual Civil - Volume 1 de Moacyr Amaral Santos pela Saraiva (2002)
>>> O Cortiço de Aluísio Azevedo pela Estadão
>>> Um Certo Suicídio de Patricia Highsmith pela Best Seller
>>> Domine Seu Sistema Nervoso Pelo Treinamento Autógeno de Karl Robert Rosa pela Ediouro
>>> Introdução à Literatura no Brasil de Afrânio Coutinho pela Distribuidora de Livros Escolares (1975)
>>> Pedro Vira Porco-Espinho de Janaina Tokitaka pela Jujuba (2017)
>>> O Grande Livro dos Contrários. Das Formas e das Cores de Frederic Kessler pela Cortez (2018)
>>> A Perigosa Idéia de Darwin de Daniel C. Dennett pela Rocco (1998)
>>> Dicionário de Saúde de Carlos Roberto Lyra da Silva pela Difusão (2006)
>>> A Cidade e as Serras de Eça de Queiroz pela Folha de S.Paulo (1997)
>>> Fodor's Arizona 2001: Completely Updated Every Year de Fodor's pela Fodor's (2000)
>>> Herobrine - A Lenda (livro 1) de Mikhael Línnyker F Rodrigues pela Geracao Editorial (2020)
>>> Um Ano Inesquecivel de Paula Pimenta; Babi Dewet pela Gutemberg (2015)
>>> Aspectos Polêmicos da Atividade do Entretenimento de Vários Autores pela Apm (2004)
>>> Delta de Vênus de Naïs Nin pela Círculo do Livro (1989)
>>> O Processo de Franz Kafka pela Folha de S.Paulo (2003)
COLUNAS

Terça-feira, 22/1/2019
As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 7000 Acessos

Em um tempo não muito remoto, os rios e riachos não eram ainda poluídos por redes de esgoto ou lixo. A roupa era lavada nesses rios de água límpida, pois, em geral, as redes de água não serviam à toda cidade.

O pintor mineiro Elias Layon ainda guarda lembranças desse tempo, pois segundo sua memória, sua mãe lavava as roupas de casa num desses riachos. Duas telas recentes do artista, final de 2018, visitam essa prática comum daqueles tempos. “As lavadeiras” refaz o trabalho dessas mulheres que desciam para o rio com seus baldes e com suas trouxas de roupas, que eram carregadas sobre a cabeça até o local do trabalho.



Mariana, a primeira cidade de Minas Gerais e cidade do artista, é o cenário dessas telas. Além da paisagem do rio e árvores, observa-se ao fundo igrejas e casarios coloniais típicos da região. Não é objetivo do artista fazer papel de historiador, tratando o tema das lavadeiras como documento. A arte não é documento, é uma invenção, fruto da fantasia e das lembranças do artista, que refaz uma dada situação em termos de trabalho artístico, buscando tingir a realidade, ou ultrapassá-la no que ela tem de prosaico, para transformá-la numa supra-realidade ou fato estético.

O tema das lavadeiras não é uma novidade no campo da representação artística, e para ficar em apenas dois exemplos, veja-se os desenhos e telas de Honoré Daumier sobre as lavadeiras do rio Sena, em Paris, ou as “Lavadeiras nas margens do rio Touques” (1890), de Boudin. Cumpre dizer que a aproximação temática aqui se diferencia, no caso de Layon e Daumier, sendo que no primeiro caso, há uma perspectiva de se fazer da pintura uma experiência estética pura (apesar da memorialística que o tema lhe traz), enquanto em Daumier há uma preocupação social de denúncia do trabalho pesado a que as lavadeiras profissionais são submetidas.



Já em Boudin, pode-se inferir uma aproximação com Layon que é de natureza mais poética e próxima ao impressionismo, no sentido de uma pintura de empastes, cores e luminosidade.



Há também na lírica de Victor Hugo uma menção às lavadeiras, talvez uma ode a essas trabalhadoras:

Ô laveuse à la taille mince, Ó lavadeira com cintura fina,
Qui vous aime est dans un palais. Quem te ama está em um palácio.
Si vous vouliez, je serais prince; Se você quisesse, eu seria o príncipe;
Je serais dieu, si tu voulais. Eu seria deus, se você quisesse.

Layon é um poeta das tintas, das cores, das texturas e luminosidades diáfanas. Faz o mundo mergulhar numa espécie de neblina, que nos transporta, dessa forma, para um universo quase onírico. O tempo da lembrança, talvez, só possa ser assim reavivado, como um espaço da sensibilidade tingido pelas tintas da emoção e que encontram, nessa superfície diáfana das telas de um artista, seu lugar privilegiado para existir.

O espaço da tela “As Lavadeiras” é submetido a uma veladura delicada e fina que diminui a presença da luz que esbate-se sobre as figuras impedindo que sejam vistas nitidamente em seus contornos. Assim também opera nossa memória, nossas lembranças e emoções passadas.

O que vemos nas duas telas é o cenário de um riacho, onde mulheres lavam a roupa, algumas dentro do riacho, outras fora, algumas esfregando a roupa e outras carregando a trouxa, enquanto crianças no entorno brincam livremente soltando pipa ou jogando bola, hábitos também comuns naquele tempo quando suas mães traziam as crianças para o espaço do trabalho. Nos varais, algumas peças de roupas secam, ao lado de uma mata que emoldura acima a aparição da cidade com suas casas e igrejas.

Layon, como excelente colorista que é, pincela brilhos aqui e ali sob o impacto de variações cromáticas que se harmonizam como numa bela composição musical. Seus pincéis dão substancial trato a cada pequeno espaço dentro das telas: o chão, as árvores, o casario, as montanhas, o céu, recebem uma gama variada de cores que torna a composição como um todo uma experiência visual encantadora.



A veladura discreta que dilui a paisagem e os personagens numa indefinição delicada nos faz pensar nas descrições impressionistas do escritor Marcel Proust ou na música de Debussy. Um mundo acariciado pela cortina de neblinas como a memória resgatada sob a impressão de um sentimento nostálgico.

O mundo reencontrado nessas telas, onde não há nenhum sinal de urbanização desenfreada, faz da convivência entre natureza, personagens e trabalho uma comunhão ímpar. Os delicados tons de rosas ou azuis que perpassam as telas nos convidam a olhar delicadamente este mundo: um lugar especial do tempo perdido e aqui reencontrado, que o artista recria para que possamos voltar na história, não como quem analisa um documento, mas como alguém que mergulha profundamente nas texturas, cores, cheiros e movimentos internos da natureza que estariam perdidos para sempre se não fosse o trabalho do artista.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 22/1/2019

Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2019
01. O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour - 17/9/2019
02. Dor e Glória, de Pedro Almodóvar - 16/7/2019
03. Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito - 8/10/2019
04. As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon - 22/1/2019
05. O espelho quebrado da aurora, poemas de Tito Leite - 11/6/2019


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Física. Contexto & Aplicações - Volume 1
Varios Autores
Scipione
(2011)



O Presente do Meu Grande Amor - Doze Histórias de Natal
Stephanie Perkins
Intrínseca
(2014)



A Reforma Trabalhista na Visão da Ajd Análise Crítica
Laura Rodrigues Benda
Casa do Direito
(2018)



A Grande Pirâmide
Tom Valentine
Nova Fronteira
(1976)



Livro Infanto Juvenis Sai pra Lá!
Ana Terra
Larousse do Brasil
(2008)



Mireille - Capa Dura - Raro
Frédéric Mistral / G. Nick Ilustrador
Librairie Delagrave
(1932)



Irmãos Unidos
Francisco Cândido Xavier / Vários Espíritos
Geem
(1988)



À Noite
Helga Bansch
Fisicalbook
(2017)



Private - Suspeito nº 1
James Patterson
Arqueiro
(2013)



Livro Literatura Brasileira Em Câmara Lenta
Renato Tapajós
Carambaia
(2022)





busca | avançada
77164 visitas/dia
2,0 milhão/mês