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Terça-feira, 20/1/2015
'Noé' e 'Êxodo': Bíblia, Especismo e Terrorismo
Duanne Ribeiro

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Ambas lançadas ao longo de 2014, Noé, de Darren Aronofsky (o mesmo de Cisne Negro), e Êxodo: Deuses e Reis, de Ridley Scott, são as mais recentes adaptações da Bíblia feitas por Hollywood. Com liberdades tomadas em relação ao cânone, conseguem frescor novo para histórias batidas, mas são, no fim das contas, produções apenas medianas. No entanto, é interessante explorar os significados que se escondem na maneira como o texto bíblico foi interpretado ou exposto, quais marcas deixaram os debates políticos de nossa época nas entrelinhas. Já foi dito que não se faz nunca um filme propriamente histórico (no caso, pseudo-histórico) - sempre se trata de retomar fatos mais ou menos antigos na medida em que revestem apreensões contemporâneas. É esse tipo de processo que criou um Noé não-especista e um Moisés guerrilheiro.

Dilúvio Sustentável
A história de Noé é reformada por Aronofsky em um cenário pós-apocalíptico, no qual a enorme civilização industrial construída pela linhagem do primeiro assassino, Caim, degradou a Terra ao extremo - os recursos do planeta foram exauridos (o que é indicado pela fala dos três homens no começo do filme "Sabe há quanto tempo não comemos carne? Há quanto tempo não vemos um animal?" e pela passagem do protagonista por uma fábrica abandonada) e a moral, do modo como vista pelos heróis da narrativa, se deteriorou. Frente a tal situação, Deus decide pelo genocídio e encarrega Noé de salvar uma parcela da Criação. Para a tarefa, ele acaba recebendo a ajuda de um grupo de anjos caídos, os Guardiões, gigantes de pedra e lodo com um gosto de Tolkien (inspirados por um apócrifo, o Livro de Enoch). Seu antagonista é Tubal-cain, descendente de Caim e ao que tudo indica rei da humanidade, que consegue entrar na arca e é responsável pelas tensões finais do roteiro.

Retomemos aquela descrição inicial. Indústria e degradação planetária são um comentário óbvio aos dilemas ecológicos pelos quais passamos. O autor do Genesis diz apenas: "E viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra. Então disse Deus a Noé: O fim de toda a carne é vindo perante a minha face; porque a terra está cheia de violência". O deslocamento que se faz, portanto, quer nos colocar diante da destruição possível; é uma formulação do argumento ambientalista em que Deus e Noé são só ad hoc.

Este último, com efeito, é defensor, de certa "sustentabilidade" (ele diz ao filho "só coletamos o que precisamos") e é vegetariano (a ideia de que "a Bíblia preconiza o vegetarianismo" não é injustificada, mas, em prejuízo à ideologia de Noé, é justo após o Dilúvio que a divindade permite ao homem que coma carne: "Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento; tudo vos tenho dado como a erva verde. "). Tubal-cain, vilão que é, diz: "Este é seu mundo. Desfrute-o" e "nós estamos sós, filhos órfãos, amaldiçoados, em luta por sobrevivência. Maldito seja se não fizer tudo pela sobrevivência. Maldito seja se não tomar o que quero".

Assim, o conteúdo político - problema exibido e resposta proposta - é claro. O crescimento desenfreado, fundado em um egoísmo convicto, convoca o apocalipse. Contra ele, o sustentável e o holístico. Deixo ao leitor o debate sobre quem tem razão nesses dois lados e sobre os meios tons que desfaçam esse maniqueísmo. Ressalto somente que esta visão de mundo alinha o filme a outros como Interestelar (2014), de Christopher Nolan, em que também se mostra uma Terra destruída pelo progresso ("nós cometemos muitos erros", afirma um personagem, "seis bilhões de pessoas. Apenas imagine isto. Cada uma delas querendo ter tudo"), e que a coincidência de dois diretores de destaque terem estado no mesmo ano a serviço da mesma crítica nos sugere especular o valor dela em Hollywood. Como escreveu João Moreira Salles, "a grande sabedoria da indústria do entretenimento é intuir o que pode ou não ser dito em determinado momento".

Deus de Guerrilha
A versão de Scott sobre o Êxodo... coloca Ramsés II, herdeiro do trono egípcio, e Moisés, adotado pela família do faraó, como companheiros de armas, líderes do exército. Moisés, encontrado às margens do rio Nilo, desconhece sua origem hebraica. Em serviço, entre em contato com o povo escravo que o serve e termina por descobrir sua pertença a eles, o que causa sua condenação ao exílio. Longe do império, é contatado por Deus, que havia decidido por um genocídio, e lhe ordena comandar a rebelião dos hebreus. As modificações em relação ao original (no qual ele sabe sua identidade e não se detalha a proximidade com a estirpe real) encorpam a narrativa: por um lado, se humaniza a tensão entre o rebelde e o imperador, por outro, produz uma jornada de autoconhecimento que o protagonista deve cumprir.

Com essa missão, Moisés se infiltra no Egito e passa a coordenar um grupo de dissidentes. Treina soldados, organiza a produção de armas e planeja ataques. (De todo inexistente no fonte bíblica, em que a maldição divina é única arma de Moisés.) Sua intenção é a guerra de guerrilha, lenta e marcada por ações de terrorismo - ataques ao povo egípcio com o objetivo de impactar seus governantes. Essa caracterização da resistência hebraica possui intertextos inescapáveis. A atividade de grupos paramilitares sionistas no período anterior à fundação de Israel (1949), com a região sob controle do Império Britânico, é um deles. Outro, a de grupos contemporâneos que atuam pela criação de um estado palestino. Por fim, o terrorismo de uma forma geral.

Sucessor dos grupos Hashomer e Bar-Giora, em 1920 é criado o Haganah, agrupamento amador, de defesa de assentamentos, que se torna um exército de fato (desenvolvimento semelhante ao do filme); ele é a base do atual exército israelense. Dele, formam-se duas cisões, que aderem a práticas terroristas: o Irgun, cuja crença determinava: "Só a retaliação ativa deterá os árabes, só a força armada judia garantirá o estado judeu" (e que explodiu o King David Hotel; no filme, ocorre uma ação do tipo) - ele é raiz do partido de direita Likud, presente ou à frente de vários governos do país; e o Lehi, responsável, junto ao anterior, pelo massacre de Deir Yassin - seu nome batiza uma condecoração militar criada em 1980, que homenageia a "participação na luta pelo estabelecimento de Israel". A analogia parece cabível: por liberdade e autonomia, violência; retorno dos hebreus à Canaã (o qual, na Bíblia, também implica em ataque aos residentes da região); retorno dos judeus à Palestina.

Uma analogia em outro sentido é plausível quanto aos grupos Hamas e Fatah, entre outros, que realizam ataques de guerrilha. O caráter provocativo surge de que é Moisés, fundador da religião judaica, a defender os métodos de quem confronta o estado israelense, e que o faz por motivos de que Israel conheceu, por sua própria experiência, como mandatórios, justos. Se aceitamos a ideia de que esses métodos aparecem em Êxodo... sob uma luz mais benigna, se as fronteiras da legalidade constituída se borram na medida em que consideramos o processo histórico que lhe deu forma, surge um problema relacionado: como encarar a barbárie de uma Al Qaeda, de um Estado Islâmico (tema tão mais pungente pelo recente atentado contra o Charlie Hebdo)?

Christian Bale, que interpretou Moisés, disse que "o terrorista de um é o guerreiro pela liberdade de outro", o que condensa um pouco do que vimos falando, mas tanto quanto o filme não deixa ir muito adiante nesse debate. Deus intensifica a destruição do território do faraó com as pragas, protótipos imemoriais das guerras biológicas, lances a-históricos que desencadeiam a libertação dos hebreus e o massacre das hostes egípcias no Mar Vermelho. Como na questão anterior, eu confio ao leitor a continuação daquelas provocações. Esboço apenas um critério: a partir de um dizer de Hannah Arendt, talvez se possa dividir aqueles que lutam, mesmo que através do terrorismo, pela sua salvaguarda identitária e aqueles que visam o extermínio de um outro, e que assim são focos de extinção do mundo, isto é, dos pontos de vista e expressão sobre a vida.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 20/1/2015


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