Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem | Duanne Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
54003 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 2/10/2012
Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem
Duanne Ribeiro

+ de 10100 Acessos

Erguemos as barricadas: é preciso isolá-lo. Uma placa de madeira serve de bloqueio para a saída da cozinha à sala. Um tijolo tampa o buraco no canto direito inferior da porta fechada do banheiro. Onde ele pode estar? No fogão. No balcão da pia. Debaixo da geladeira. Levo uma luminária arrastando a extensão até lá. Ilumino cada canto como o holofote das prisões de filme americano, mas a mancha de luz não o denuncia. Não está em lugar nenhum. Você tem certeza de que viu? O rato põe o cotidiano entre parenteses, e nem precisa existir pra isso.

De repente a casa está povoada de sinestesia e perigo. Não pode andar descalço, sob risco de morte. Não pode comer nada que caiu no chão - nem se pegar assim muito rápido! Sou atento ao mínimo som como nunca. Tec. É o rato!? Orelha levantada como um cão de caça. Quais são os barulhos comuns e quais os barulhos incomuns de uma residência? Até ontem só possuíamos esse silêncio chapado indistinto. Pracs. Termina que um roedor é um objeto estético semelhante a 4'33'', de John Cage. Schwiss: algo à minha esquerda. Paraliso. Viro o rosto. A cortina se mexeu. A cortina se mexeu? A cortina se mexeu! Levanto ninjamente. A cadeira do computador ignora meu esforço e range. Me convenço de que ele não percebeu. Subo no sofá, que também range, escandaloso. Olho o pano branco até o piso. Esse volume - será? Sacudo o pano. Não está lá.

Mas a situação é crítica. Atrás do sofá também estão minhas caixas de revista. Eu ameaço o rato em voz alta (sim, você leu: eu ameaço o rato em voz alta): se roer revista minha, mato ele no dente. Como pode ter passado da barreira? Só pode estar ali embaixo. Vassoura na mão, me preparo para passar o cabo no vão do móvel. Tenho no rosto o olhar abnegado do homem que cumpre seu destino. Primeira investida. Nada. Segunda investida - ele dispara feito um foguete, só se vê o rastro cinza rasgar o espaço numa linha diagonal e sem hesitar saltar nossa placa de madeira (ah! então foi assim que passou da barreira...). O rato, desta vez como fato; é preciso fazer alguma coisa.

E sabemos o que fazer. Não é o primeiro. Aliás: o anterior se foi e de saída trouxe o diabo.

O Senhor das Moscas
O penúltimo rato invadiu a casa vindo do telhado, pela janela ao lado da pia do banheiro, já tarde da noite. Derrubou pente desodorante pasta de dente conforme entrou. Pequeno, preto, tivemos um momento de confronto, nossos rostos contrapostos como em um videogame de luta, pensei em assustá-lo para fora, porém minha avó não abriu a porta e se precipitou para matá-lo na pancada mesmo, como um Nelson Rodrigues prenhe. Fugiu e se encastelou atrás do armário em frente à privada, ou no espaço atrás do bidê que ninguém usa mais - como saber? Trancamos o rato lá, com o tijolo na frente do buraco da porta e tudo.

Diariamente, colocávamos as luvas de plástico, pegávamos aquela sacola detrás da máquina de lavar com a caixa de veneno, preparávamos uma porção de cristais azuis mortíferos com um tantinho de queijo ralado por cima e deixávamos entre privada e bidê. Em três ou cinco dias parou de ter bosta de rato e ele parou de comer. No entanto sem corpo da vítima. Esses ratos não se dão o luxo de darem certezas. Não obstante uma mosca varejeira pesadona veio passear por aqui; ela sente o que não sinto, no seu mundo minha casa era um chamariz feito de cheiro, do calor pressentido dos vermes atuando. Não sei para onde foi, o que encontrou. Alguns dias depois, sucedeu sua carapaça azul brilhante a visita do próprio Belzebu.

Primeiro foram as moscas molengas no chão do banheiro, suas asas junto ao corpinho; logo a revoada. Trinta, quarenta, sei lá quantas, praticamente uma praga do Egito particular, e no instante seguinte contra-ataco feito Al Pacino na cena final de Scarface - you wanna fuck with me? you wanna play rough? - disparando inceticida como se não houvesse amanhã. Tombam aos montes. É você, Satanás? Baal-Zebute, Senhor das Moscas, o simbolismo que suponho na hora, por livre associação, me assusta um tanto. O mais provável: o rato morreu entocado no oco do bidê, e a varejeira prenha botou sua centena de ovos ali. Quanta vida se intrometendo e roendo a rotina por dentro, apenas por uma janela deixada aberta.

Com Carinho, o Assassino
Julinho (eventualmente demos um nome a esse rato do começo da história) foi mais difícil. Não comeu um único cristal azul (pelo que parece, antes de morrer os ratos urinam, e assim deixam, na urina, um aviso para os outros de qual substância os matou; a partir daí, eles não ingerem aquele veneno específico). Compramos uma ratoeira de alumínio, mas era pequena demais ou inútil demais. Julinho a arrastou por debaixo da pia, tirou o pedaço de queijo e se refastelou no onde quer que ele se enfiava, largando para trás a armadilha humilhada. Fiz o que se faz em momentos de tensão e desespero: entrei no Google. Com regojizo maligno, a nova arma foi descoberta, a receita fatal: Nescau com Cimento.

Não tendo cimento e não encontrando Nescau na hora, procurei por alternativas. Gesso com farinha de trigo - não tinha gesso, mas podia ser cal virgem em vez de. Cal virgem, então. Luva de plástico, um pouco de água no prato, enrolo bolinhos me preocupando no que pode ser grande demais para Julinho, como é que ele vai pegar na mão, etc. São quatro no fim, eu distribuo em locais variados da cozinha. A ideia é que ele coma aquilo, lhe dê sede, procure por água, beba, a água reaja com a cal e o mate por dentro. Deixo por conta disso um cantil apropriado, para seu conforto. Penso: engraçado que o procedimento para um assassinato se pareça em algum sentido estrutural com os cuidados do carinho. Me sinto o Dexter. Porém não adianta. Noutro dia vemos que o rato deu somente uma mordiscada, e só em um deles.

Repito o método com chocolate em pó (que encontrei enfiado nas profundezas do armário, já vencido) e a cal. Dessa vez, nem mordiscada. Chega de caseirice. Compro novo veneno, suficientemente ameaçador: três pacotes de sementes negras. Mantenho a dedicação e vario a mistura: uma vez ponho junto queijo, outra pedaços de pão. Julinho se delicia. Come o primeiro pacote todo. O segundo também. Estou na terceira dose do último dos pacotes, nove dias (?) após o início da ofensiva. Aparentemente um só bastaria para exterminar mais de um roedor - mas estavámos lidando com algo especial. Estou fazendo esse último ataque, pondo uma folha dessas revistas de supermercado no chão, em cima as sementes do mal, espalhados os pedaços de pão. Mais uma vez, vinte minutos depois todos os grãos estão descascados, não há nem farelo sobre o papel.

E então, quando pensamos que a batalha se estenderia indefinidamente, ele desaparece. Se morreu ou se fugiu, não sabemos. Não me deixou nem ao menos o alento de um bom final para esta crônica, que começou a ser escrita antes dele atacar a fruteira e emular Machado de Assis ("ao roedor, as batatas") e continuou ao longo e depois dos dias que tentei ficar no escuro quieto como um gato (tudo indica que os gatos ficam mais quietos) para vê-lo com o próprio olho. Julinho veio e viu. Então, se foi, absolutamente nada literário.


Duanne Ribeiro
São Paulo, 2/10/2012


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração de Celso A. Uequed Pitol
02. O Próximo Minuto, por Robson Pinheiro de Ricardo de Mattos
03. A pata da gazela transviada de Marcelo Spalding
04. A teoria do caos de Gian Danton
05. Moça Com Brinco de Pérola, de Tracy Chevalier de Ricardo de Mattos


Mais Duanne Ribeiro
Mais Acessadas de Duanne Ribeiro em 2012
01. Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem - 2/10/2012
02. Corpo é matéria, corpo é sociedade, corpo é ideia - 4/9/2012
03. Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge - 14/8/2012
04. Èpa Bàbá Oxalá! na Nota de Real - 3/4/2012
05. Cinco Sugestões a Autores de Ficção Científica - 7/2/2012


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A TRAGÉDIA SEXUAL DE LEÃO TOLSTOI
JOSÉ KALLINIKOW
LIVRARIA FIGUEIRINHAS - PORTO
R$ 15,00



FATOR K - CONSCIENTIZAÇÃO & COMPROMETIMENTO
DÉBORA DIAS GOMES
PIONEIRA
(1994)
R$ 12,00



BERNARDO E O BRONTO
ROGERIO BORGES
ATICA
(1996)
R$ 10,00



HISTÓRIA VIVA 17 - OS PRIMEIROS CRISTÃOS
VARIOS AUTORES
DUETTO
R$ 7,00



ENTRE DUAS REPÚBLICAS: ÀS ORIGENS DA DEMOCRACIA ITALIANA
NORBERTO BOBBIO
UNB
(2001)
R$ 15,00



O SISTEMA POLÍTICO DO IMPÉRIO
BRASIL GERSON
PROGRESSO
(1970)
R$ 29,90
+ frete grátis



MEU FILHO CHE
ERNESTO GUEVARA
BRASILIENSE
(1986)
R$ 15,00



A VIDA PRODIGIOSA DE BALZAC
RENÉ BENJAMIN
EDIÇÕES CULTURA BRASILEIRA
R$ 19,70



CONEXOES COM A HISTÓRIA 2 DA COLONIZAÇÃO DA AMERICA AO SECULO XIX MA
ALEXANDRE ALVES LETICIA FAGUNDES DE OLIVEIRA
MODERNA
(2013)
R$ 17,00



BATMAN A QUEDA DO MORCEGO Nº 10
ABRIL
ABRIL
(1995)
R$ 6,00





busca | avançada
54003 visitas/dia
1,1 milhão/mês